{"id":3498,"date":"2013-01-20T13:14:32","date_gmt":"2013-01-20T16:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3498"},"modified":"2013-02-18T21:11:53","modified_gmt":"2013-02-19T00:11:53","slug":"dedos-de-prosa-i-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-10\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Nat\u00e9rcia Pontes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3500\" aria-describedby=\"caption-attachment-3500\" style=\"width: 377px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA-21.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3500\" title=\"Luiza Maciel Nogueira\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA-21.jpg\" alt=\"\" width=\"377\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA-21.jpg 377w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA-21-226x300.jpg 226w\" sizes=\"auto, (max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3500\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Luiza Maciel Nogueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sombra<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dep\u00f3sito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcion\u00e1rio atinou com sua exist\u00eancia. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia \u2014 os homens cospem no ch\u00e3o \u2014 e, \u00e0 noite, quando os port\u00f5es s\u00e3o cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conte\u00fado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sombra n\u00e3o fala a l\u00edngua dos homens, mas tem dimens\u00f5es dos homens e um andar elegante de cavalheiro. \u00c9 tampouco fantasma. \u00c9 sombra de ningu\u00e9m. Este ningu\u00e9m tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma l\u00e1grima de poeira sem saber por qu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sombra \u00e9 s\u00f3 e deita a cabe\u00e7a no pacote duro. As treli\u00e7as do dep\u00f3sito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra solu\u00e7a. Ela chora pouco at\u00e9 adormecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos j\u00e1 est\u00e3o piando em profus\u00e3o, a sombra se dissolve em n\u00f3doa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os port\u00f5es do dep\u00f3sito do sr. B.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<h2><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Alento<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Expedito, est\u00e1 adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida \u00e9 assim. A vida \u00e9 assim. A vida \u00e9 assim. Olha l\u00e1 para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O pr\u00e9dio ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. Invadimos os escombros como ratos. \u00c0s oito da manh\u00e3 come\u00e7a o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avan\u00e7ar\u00e3o nossa sala, com suas lan\u00e7as entesadas, faiscando. Nos daremos as m\u00e3os, nos curvaremos em rever\u00eancia diante do engulho \u2014 cora\u00e7\u00e3ozinho tremelicando de medo. A vida \u00e9 assim. Senta, aceita minha m\u00e3o no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para tr\u00e1s. Para de respirar. Volta e escuta a chuva l\u00e1 fora. Fecha o olho. Isso.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<h2><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Agende sua visita com Medeiros<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Medeiros est\u00e1 a seu dispor. Carca\u00e7as dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros est\u00e1 bem, com sa\u00fade, s\u00e3o. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do p\u00e9. O chato \u00e9 que ningu\u00e9m entra ali. Uma mo\u00e7a passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esfor\u00e7o um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do pr\u00e9dio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminh\u00e3o do g\u00e1s. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a l\u00edngua no c\u00e9u da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de m\u00e3e de santo voou. Medeiros desenha o n\u00famero oito. L\u00e1 longe um orelh\u00e3o grita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agende sua visita com Medeiros. Ele est\u00e1 a seu dispor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Rogo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O irm\u00e3o dele acampou l\u00e1 por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhoc\u00e3o, e os janel\u00f5es da sala exibiam o vidro trincado \u2014 tentou remediar com fita crepe. A cozinha em peda\u00e7os: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no \u00fanico quarto onde se via um colch\u00e3o, sem len\u00e7ol e pu\u00eddo, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<a href=\"http:\/\/www.natercia.org\"><strong>Nat\u00e9rcia Pontes<\/strong><\/a> tem 32 anos, \u00e9 cearense e mora em S\u00e3o Paulo.\u00a0\u00c9 autora de\u00a0Az Mulerez\u00a0(edi\u00e7\u00e3o do autor),\u00a0Copacabana dreams\u00a0(Cosac Naify) e organizadora de\u00a0Semana\u00a0(Hedra))<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para dentro dos dias, um olhar singular e agudo nos contos de Nat\u00e9rcia Pontes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3499,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[830,2534,16],"tags":[850,81,851,41,849],"class_list":["post-3498","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-75a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-az-mulerez","tag-conto","tag-copacabana-dreams","tag-dedos-de-prosa","tag-natercia-pontes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3498"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3498\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3906,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3498\/revisions\/3906"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3499"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}