{"id":3544,"date":"2013-01-20T17:27:03","date_gmt":"2013-01-20T20:27:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3544"},"modified":"2013-01-20T18:42:18","modified_gmt":"2013-01-20T21:42:18","slug":"dedos-de-prosa-iii-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-7\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Eleonora Marino Duarte<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3546\" aria-describedby=\"caption-attachment-3546\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3546\" title=\"Luiza Maciel Nogueira\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA6.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA6.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA6-300x207.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3546\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Luiza Maciel Nogueira<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Guardi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Habitava um \u00f3dio sem limites e um rancor de dar veneno ao ar, n\u00e3o havia quem lhe sensibilizasse al\u00e9m do desprezo, era de fel a saliva que expelia para manchar a cal\u00e7ada, na desova di\u00e1ria de seu cuspe. Ali\u00e1s, tinha um prazer enorme ao imaginar alguma mulher, das que nunca lhe olharia a cara, pisar seu cuspe e levar a senten\u00e7a de sua escarrada para a casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhava bem em frente a um irritante chafariz, uma grande farm\u00e1cia e um lugar de servir caf\u00e9. N\u00e3o gostava de lugar nenhum, gostava mesmo era do ponto de bicho, no beco, onde apostava na sorte de ter alguma sorte para poder se livrar de viver junto aos miser\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecia o ser humano de dentro para fora, de tr\u00e1s para frente, acreditava e assim gostava de dizer quando lhe censuravam os mais chocados pelos seus coment\u00e1rios. N\u00e3o tinha nada que lhe convencesse da possibilidade de existir gente que prestasse. Chegava mais cedo ao trabalho s\u00f3 para poder ver o movimento de pedestres apressados e ir fazendo as hist\u00f3rias daquelas vidas sujas em sua cabe\u00e7a. Os que passavam todos os dias eram v\u00edtimas de crueldades no julgamento, sem nenhum pudor ou tr\u00e9gua, fosse adulto ou uma simples crian\u00e7a choramingando. Todos eram, no fundo, no fundo, gentinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um dia inesperado, depois de j\u00e1 haver visto todo o tipo de gente ruim, apareceu o pior ser humano de que ele j\u00e1 teve not\u00edcias: Francisca Martins! Dona de um andar glorioso em sensualidade inocente, deixava claro o grande desprezo que ela tinha pelos outros, ao levar os quadris de uma lado a outro, como um p\u00eandulo que faz hipnotizar quem para ele olhou por mais de uns segundos\u2026 Vestia-se de roupas humildes para disfar\u00e7ar alguma coisa, com toda a certeza! Dizem que era solteira e que jamais fora envolvida em nenhum tipo de esc\u00e2ndalo ou comportamento mais ousado, quando trabalhou no bairro vizinho. Mas ele, com sua habilidade incompar\u00e1vel para detectar porcaria, percebeu na primeira hora que se tratava de uma farsa! Decidiu que iria dedicar algumas de suas an\u00e1lises mais profundas a ela, a tal Chiquinha&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ia juntando os fatos \u00e0 medida que convivia na mesma atmosfera que a mo\u00e7a. Os porteiros dos outros pr\u00e9dios diziam que se tratava de uma mo\u00e7a bonita vinda do Norte e chegaram a demonstrar certa queda pelo sorriso brejeiro na fala arrastada da mulherzinha. Ele n\u00e3o! Manteve-se digno de seus princ\u00edpios e castigava-a com a l\u00edngua, sempre que havia oportunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhava h\u00e1 25 anos no mesmo edif\u00edcio e jamais havia sido atingido por uma energia t\u00e3o mal\u00e9fica quanto a da mo\u00e7a. Propositalmente, ela adquirira o h\u00e1bito de ser gentil com toda a popula\u00e7\u00e3o do quarteir\u00e3o, as velhas beatas achavam que ela era aben\u00e7oada, os homens a queriam proteger, as crian\u00e7as sorriam frouxo ao seu toque. Se continuasse assim, em breve ela acabaria levando para a lama a rua inteira\u2026 Pensava ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde cedo ele decidira n\u00e3o se casar, era uma grande bobagem o casamento, jamais dormiria tranquilo ao lado de algu\u00e9m que poderia queimar-lhe com \u00e1gua fervente ou cortar-lhe o sexo com uma tesoura. Ele sabia do que as mulheres eram capazes, ouvia com aten\u00e7\u00e3o a conversa das empregadinhas, sabia das mandingas e pragas que elas distribu\u00edam quando contrariadas. Entretanto, inexplicavelmente, a cobra maldita, Francisca Martins, lhe perturbava o sono com aquele encantamento do maligno, aquele v\u00e9u de bondade, aquela promessa de prazer, aquilo tudo que faz parte da caixa de truques do maldito, o sibilar da serpente com o qual devemos sempre nos preocupar quando lutamos contra as for\u00e7as do mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em um dia de feriado que ele resolveu dar cabo ao tormento. Acordou um pouco antes do rel\u00f3gio, mas esperou pelo despertador. Detestava quebrar rotina. Barbeou-se e reparou novas marcas pelo rosto. Gostava das rugas. Combinara com um amigo que, se algu\u00e9m perguntasse, para todos os efeitos, estaria com ele durante aquela manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morava Francisca em uma esp\u00e9cie de pens\u00e3o para mo\u00e7as, assim como fazem as prostitutas, obviamente. N\u00e3o era muito dif\u00edcil conseguir entrar pela porta da frente, principalmente para algu\u00e9m com as habilidades de porteiro. Subiu as escadas estreitas e fedorentas do corti\u00e7o, deparou-se com uma senhora sem import\u00e2ncia. N\u00e3o tardou a achar a porta da devassa, havia nela uma foto de padre C\u00edcero, uma clara afronta ao padroeiro. Bateu devagar e a mo\u00e7a abriu. Nos olhos de Francisca um evidente espanto por ver aquele homem ali, parado. Para ele, uma inexplic\u00e1vel in\u00e9rcia diante dos olhos da mo\u00e7a. De repente ela sorriu e foi como se o diabo cavasse um abismo em seu peito. A como\u00e7\u00e3o que o gesto lhe causou transformou o dia em noite, a vida em morte, o sangue em gelo. Saiu correndo imensid\u00e3o afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tornou a ser visto no trabalho, nem em casa, nem no beco do bicho. Dizem que virou uma esp\u00e9cie de profeta mendigo no centro da cidade, que canta salmos em uma l\u00edngua estranha e alerta as pessoas sobre a do\u00e7ura do dem\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">(<strong><em>Eleonora Marino Duarte<\/em><\/strong><em> mora no arquip\u00e9lago dos A\u00e7ores, em Portugal. Nasceu na cidade Serrana de Petr\u00f3polis, Estado do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador e no mesmo ano ingressou como atriz no mais antigo grupo de teatro em atividade da cidade do Rio de Janeiro, o G.A.T.I.G., fazendo parte da companhia por vinte anos. Formou-se em Alta Gastronomia pela UNIRIO. Em 2005, criou o pseud\u00f3nimo Betina Moraes. Publica seu trabalho como escritora na Internet mantendo o Blog <a href=\"http:\/\/betinamoraes.blogspot.com.br\/\"><strong>Versos &amp; Ideias<\/strong><\/a> e mais outros sete de sua autoria. Participa do Blog coletivo Falsidade Ideol\u00f3gica)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um reflexo do masculino na prosa de Eleonora Marino Duarte<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3545,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[830,2534],"tags":[81,41,880,882,881],"class_list":["post-3544","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-75a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-eleonora-marino-duarte","tag-o-guardiao","tag-versos-ideias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3544"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3632,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544\/revisions\/3632"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}