{"id":3707,"date":"2013-02-18T09:20:20","date_gmt":"2013-02-18T12:20:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3707"},"modified":"2013-03-21T18:18:40","modified_gmt":"2013-03-21T21:18:40","slug":"dedos-de-prosa-i-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-11\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Carla Diacov<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_3709\" aria-describedby=\"caption-attachment-3709\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3709\" title=\"Silvio Cris\u00f3stomo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA1.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA1-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3709\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Silvio Cris\u00f3stomo<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>seus corredores<\/strong><\/p>\n<h6>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (para Raul Macedo)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">faz a cama como quem veste a noiva e n\u00e3o dorme sobre. o pouco que se diria sobre este jovem n\u00e3o se daria \u00e0 hist\u00f3ria. \u00e9 como aconselhar algu\u00e9m a n\u00e3o respirar mais o ar, dizer que \u00e9 pura alegoria, luxo demais. estou tocada pelo fogo. h\u00e1 tamb\u00e9m o fato de que n\u00e3o gosto de dizer o rapaz. ele me chama. quando o digo, ele me chama. mas bem, faz a cama como quem veste a noiva e n\u00e3o dorme sobre. veste-se como aos dias, \u00e9 um mancebo cotidiano. hospeda-se onde cessa. sempre. \u00e9 uma pregui\u00e7a feita. \u00e9 tamb\u00e9m essa esp\u00e9cie de hotel de esquina onde raios de sol e partes de luar s\u00f3 entram se convidados. n\u00e3o uma casa, \u00e9 hotel de esquina, pois que pura cintura. n\u00e3o bebe caf\u00e9 nem liga pra conhaque. serve-se de leite morno e n\u00e3o dan\u00e7a bem, n\u00e3o dan\u00e7a bem nem querendo pretender passinhos engra\u00e7ados. n\u00e3o nos ro\u00e7amos. aos seis anos tomou uma surra dum buldogue de ladeira e quase perdeu-se do nariz. ele n\u00e3o diz, mas sei que ama a minha voz, pois que falo a ele. falo a ele para ecoar o menino. e minto. o menino n\u00e3o faz a cama. a cama o faz. sua noiva, sua cama. disse que o pouco que se diria sobre este jovem n\u00e3o se daria \u00e0 hist\u00f3ria. minto. oh, Deus, minto tanto. neste hotel, as esquinas dos espelhos se dobram, os corredores se cruzam e se perdem tanto, todas as janelas se lamentam e ent\u00e3o prosam. este \u00e9 o nome do menino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>seus par\u00e1grafos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">digo que h\u00e1 sempre um leitor. na escurid\u00e3o. na chuva. no ponto de \u00f4nibus, entre tantos que n\u00e3o, por exemplo, na biblioteca poderia n\u00e3o haver. e o leitor \u00e9 instituto flamejando a cabe\u00e7a besta e os \u00f3culos respingados, boneco vodu recheado de nada para que o livro entre ao leitor, fa\u00e7a-se o leitor. \u00e9 besta e \u00e9 servidor e como \u00e9 bonita a cara do leitor. n\u00e3o ter vergonha, n\u00e3o ter destino, consumida cara por este sal de esperan\u00e7as desgra\u00e7adas. na pra\u00e7a, na fila do a\u00e7ougue, onde houver aglomera\u00e7\u00e3o, l\u00e1 estar\u00e1 o leitor, onde houver espa\u00e7o, onde houver encaixe, onde n\u00e3o houver, no avi\u00e3o, onde n\u00e3o h\u00e1, poderia haver.\u00a0deixa-se respirar e existir pelo manto que o cobre, o leitor \u00e9 s\u00fabito. emprestado \u00e0 paisagem, divindade caridosa, silente, o leitor. o leitor do quando algu\u00e9m a pedir informa\u00e7\u00e3o, o leitor gesticulando sem estar ali, o leitor. escondido e infiel, agora estar\u00e1 lendo um suspense, em casa, ao lado do abajur tenro, o leitor e o gato do leitor, o caf\u00e9 esfriando ao lado do leitor e o leitor ao fim do livro, como que num gesto de s\u00faplica e horror, aplacado e um tanto decepcionado, enfim volta a ser gente no clique que apaga a luz, derrubando o caf\u00e9 j\u00e1 frio, espantando o gato do leitor que n\u00e3o mais, o leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>seus queijos<\/strong><\/p>\n<h6>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (Para Gabraz Sanna)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">parte j\u00e1 o trem com jeito de sino. vai j\u00e1 partir.\u00a0 numa das janelas sem vidro est\u00e1 o homem bom. Gabriel \u00e9 de viajar sozinho e leva no colo uma sacola com queijos e doces caseiros. fazia tanto, contando em tempo, que Gabriel n\u00e3o via a m\u00e3e e esta o fez levar sete dos queijos e tr\u00eas dos potes de doce que \u00e9 o doce-de-leite,\u00a0 n\u00e3o o argentino,\u00a0 diz a m\u00e3e, o argentino n\u00e3o presta, esse fa\u00e7o eu, gritava, que gostava de gritar. ao lado de Gabriel senta-se uma senhora j\u00e1 tomada pelo conhaque, fumando feito uma senhora muito fumante e que podia muito bem ter se escavado em outro lugar do vag\u00e3o quase completamente vazio. Gabriel \u00e9 este homem bom que n\u00e3o dir\u00e1 coisa alguma, n\u00e3o se levantar\u00e1 rumando outro assento, n\u00e3o Gabriel, Gabriel n\u00e3o. a senhora ro\u00e7a o homem bom, ela n\u00e3o tem jeito mesmo, \u00e9 uma jo\u00e7a duma senhora, enfia o dedo na beirada da sacola, espia os queijos, ri como jo\u00e7a muito\u00a0gargalhosa. e agora estar\u00e3o passando pelas fazendas e Gabriel fingir\u00e1 esse interesse absurdo pelas manchas que fazem o rebanho no pasto, pensa em mapas, s\u00e3o mapas, s\u00e3o estados e cidades as manchas que fazem. a senhora o cutuca na bochecha, examina sua camisa de homem bom. o cigarro dela j\u00e1 quase todo consumido e a cinza quase toda aposentando-se no queijo do cimo. Gabriel cutuca um dos parafusos do banco da frente, s\u00e3o globos, planetas, s\u00e3o planetas, l\u00e1 vivem criaturas que, pensa gritado, que gostava de pensar assim, gritado, criaturas que. a senhora pega a cabe\u00e7a de Gabriel, desmoronada do cigarro que j\u00e1 n\u00e3o mais, que jaz na sacola sobre o \u00faltimo queijo, junto \u00e0s cinzas, pega a cabe\u00e7a do homem bom, toma o rosto dele e por uma eternidade, com a l\u00edngua e os dentes, com o sexo e a tremedeira duma ressaca bem pr\u00f3xima, estuda um estudo mancado do que \u00e9 o rosto e o dorso de um homem t\u00e3o bom. engole e ent\u00e3o o cospe, mastiga e ent\u00e3o o rumina, Gabriel \u00e9 a pele seca da mulher vivida, \u00e9 a vulva e \u00e9 a suja lentid\u00e3o. a senhora o embrulha em pura\u00a0libertinagem\u00a0molenga e malpassada para depois o ejetar. embrulha e o ejeta. e agora o Gabriel n\u00e3o. o homem bom n\u00e3o estar\u00e1 mais ali. Gabriel, o bom, ter\u00e1 sumido com os entrecortes de sombra e de sol, uma ou duas esta\u00e7\u00f5es atr\u00e1s. o Gabriel que fica \u00e9 tomado pela senhora ladrona deprava\u00e7\u00e3o, \u00e9 tomado de lux\u00faria e despreocupa\u00e7\u00e3o. filho do mal, agora \u00e9 um homem vermelho e alto que desce ao Rio de Janeiro sem instinto subsidi\u00e1rio. ele n\u00e3o \u00e9 mais uma filial. a vida se ribomba por ele e tudo \u00e9 calor e umidade. a senhora, os queijos e o doce seguem viagem. n\u00e3o esse Gabriel. esse n\u00e3o.<\/p>\n<p>mas acabar assim o guloso recome\u00e7o de vida de Gabriel, oh, n\u00e3o poderia.<br \/>\nagora ou mato Gabriel ou ele me mata. e assim \u00e9.<br \/>\nsegue a bandidagem, segue a senhora, seguem os queijos e o doce.<br \/>\nsegue o trem com jeito de sino. fica um homem, fica sua pujan\u00e7a, coisa abusada debru\u00e7ada na ribalta da m\u00e1cula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>suas faces<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">cresce o boi, os porcos, cresce a l\u00e3, cresce a mui\u00e9. o c\u00e9u faz cosquinha nos orvido dos b\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o. ah, a vida pequeninha do homem de saia rosada. tem dia que limpa o chiqueiro e tem dia que n\u00e3o, que se limpa n\u00e3o chamava chiqueiro, n\u00e3o. tosa Carla, sua \u00fanica ovelha. pretinha-pretinha \u00e9 a Carla, a ovelhinha do homem de saia que faz caf\u00e9, faz p\u00e3o de milho, fez curso de tric\u00f4 l\u00e1 na comunidade do Amparo, com a mulherada do Amparo pra tricotar e tricotou: fez tr\u00eas lindos cachec\u00f3is pra Carla, friorenta que s\u00f3, tadinha, estranhando a intimidade com a l\u00e3. teve o dia em que o boi, a mui\u00e9 e os porcos do homem de saia fugiram e n\u00e3o voltaram. teve o dia em que Carla quis fugir e n\u00e3o foi, ficou presa no farpado. e \u00e9 assim: Carla e o homem de saia. a cadeira de balan\u00e7o com o homem de saia e Carla. e, claro, o c\u00e9u fazendo cosquinha nos orvido dos b\u00e3o. os bicho e a mui\u00e9 andar\u00e3o bebeno e brigano na estrada, cabadibronco. UMA HORA ES AVORTA, CARLA. UMA HORA ES AVORTA. CAUSEDEQUE AVORTA \u00c9 AVESS DI SA\u00cd. Carla pensa: \u00c9\u00c9\u00c9-\u00c9-\u00c9-\u00c9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(sou <a href=\" http:\/\/carladiacov.blogspot.com\"><strong>carla diacov<\/strong><\/a>. de qualquer forma. n\u00e3o me importa tanto ser. e tamb\u00e9m vou e volto e babo durante. nasci (09\/04\/1975) e moro em S\u00e3o Bernardo do Campo e brinquei na pra\u00e7a-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. ent\u00e3o escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de p\u00e3o de forma com amendocrem. de qualquer forma, que \u00e9 como eu sou, mas volto. Babando)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre hist\u00f3rias e arremessos, Carla Diacov fia o tecido dos dias<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[913,2534,16],"tags":[619,419,41,149,923,924,925,926],"class_list":["post-3707","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-76a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-carla-diacov","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-seus-corredores","tag-seus-paragrafos","tag-seus-queijos","tag-suas-faces"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3707"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4172,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3707\/revisions\/4172"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}