{"id":3719,"date":"2013-02-18T10:03:05","date_gmt":"2013-02-18T13:03:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3719"},"modified":"2018-10-17T16:18:31","modified_gmt":"2018-10-17T19:18:31","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-11\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s dos percursos de uma obra, abrigam-se motiva\u00e7\u00f5es das mais diversas. Definitivamente, entend\u00ea-las n\u00e3o \u00e9 a via mais importante a se seguir. Sentir parece ser o termo mais apropriado. Da\u00ed, a necessidade de converter os mecanismos da percep\u00e7\u00e3o em ferramentas poss\u00edveis a um mergulho para dentro de n\u00f3s mesmos. Afinal, tudo principia nas paisagens que, embora episodicamente relutemos em reconhecer, s\u00e3o cada vez mais redescobertas daquilo que tornamos a visitar, qui\u00e7\u00e1 uma fonte inalien\u00e1vel da exist\u00eancia, alimentada pelas travessias reais ou vividas em sonho. Onde a distin\u00e7\u00e3o entre criador e criatura? Qu\u00e3o t\u00eanue pode ser a linha que perpassa proje\u00e7\u00f5es e concretudes? Mais ainda, como negar a no\u00e7\u00e3o de unidade que assoma nossas trajet\u00f3rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas e outras tantas indaga\u00e7\u00f5es est\u00e3o postas no caminho que compartilhamos com nossos iguais. E ao al\u00e7ar voo por sobre as humanas idades, somos companheiros de sopro vital de um algu\u00e9m como o escritor <a href=\"http:\/\/cecimvozesdeandara.blogspot.com.br\/\"><strong>Vicente Franz Cecim<\/strong><\/a>. Nascido nas paragens amaz\u00f4nicas, mais precisamente em Bel\u00e9m, no Par\u00e1, Vicente tem na m\u00edtica e emblem\u00e1tica Andara a pedra fundamental de seu caminhar com as palavras. Com a habilidade de quem faz do olhar sens\u00edvel sobre o existir um precioso aliado, o autor constr\u00f3i uma obra cujo apelo filos\u00f3fico \u00e9 virtude das mais caras. Do mesmo modo em que o ambiente tido em Andara sugere vias especialmente on\u00edricas, pautadas numa aproxima\u00e7\u00e3o com a literatura fant\u00e1stica, tamb\u00e9m estamos diante da manifesta\u00e7\u00e3o cotidiana, e nada banal, do real entre n\u00f3s, algo profundamente transmutado em poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi com esta habilidade de nos apresentar trajetos movidos por uma perspectiva de amplitude do ser que Vicente ergueu sua obra. Ao pensarmos no conjunto de suas escrituras, deparamo-nos com o que o autor denomina de livros vis\u00edveis e invis\u00edveis. Seu trilhar abarca, dentre outros, feitos como <em>Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel<\/em>, <em>K O escuro da semente <\/em>(Ver o Verso, Portugal, 2005), <em>\u00d3 Serdespanto<\/em> (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006) e <em>o\u00d3: Desnutrir a pedra<\/em> (Tessitura, Minas Gerais, 2008), al\u00e9m dos e-books <em>Desnutrir a pedra<\/em> (Tert\u00falia de eBooks, 2012) e <em>Asa de murm\u00farios<\/em> (Tert\u00falia de eBooks, 2012). Como cineasta, \u00e9 criador dos filmes KinemAndara. No di\u00e1logo que agora segue, Vicente Franz Cecim fala um pouco sobre as perspectivas criadas a partir de Andara e de como a simbologia dessa Floresta Sagrada de Palavras est\u00e1 inserida em n\u00f3s mais do que pensamos. A entrevista, feita por e-mail, possibilitou tamb\u00e9m o explicitar de todo um singular modo de express\u00e3o do escritor no que se refere \u00e0 grafia, algo que potencializa saberes e sabores inerentes a sua jornada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3722\" aria-describedby=\"caption-attachment-3722\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3722\" title=\"Vicente Franz Cecim\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-I.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-I-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3722\" class=\"wp-caption-text\">Vicente Franz Cecim \/ Foto: Bruno Cecim<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>DA &#8211; Andara, ambiente metaf\u00f3rico da vida e que perpassa sua obra, \u00e9 desejo de reinven\u00e7\u00e3o de nossas exist\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Sim. \u00c9 a nossa Exist\u00eancia que atrav\u00e9s de Mim inventa Andara, para ser inventada por Andara. Isso \u00e9 rec\u00edproco. Mas j\u00e1 perdi de vista, agora &#8211; Andara come\u00e7ou a se manifestar em 1979 e estamos em 2013 &#8211; qual das duas Faces \u00e9 a do Espelho e qual a que est\u00e1 diante dEle. Ah, n\u00e3o percebo Andara como uma met\u00e1fora: percebo\/isto \u00e9: recebo Andara como o Real. \u00c9 a nossa exist\u00eancia que entendo como a met\u00e1fora de uma realidade que deseja o Real, ou Mais Real, que Andara busca e busca e busca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E o que dizer das linhas que derivam destes signos andarianos? Ser\u00e3o elas uma ode \u00e0 reden\u00e7\u00e3o do humano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Ah, a Reden\u00e7\u00e3o do Humano. Isso \u00e9 uma pergunta que abala todas as certezas, primeiro, para s\u00f3 depois pretender alguma resposta. A Reden\u00e7\u00e3o do Humano? De alguma forma, sim, Andara busca isso. Mas, \u00e0s vezes, com muitas d\u00favidas que se ampliam em mais d\u00favidas sobre como, e por quais vias? \u00c9 um labirinto de d\u00favidas que eu preciso percorrer, por onde passam, se entretecendo, a literatura e o humano. Antes de mais nada, Andara busca a reden\u00e7\u00e3o de si mesma &#8211; como uma Outra realidade: feita do tecido verbal e do tecido existencial dos seres e coisas que faz emergir atrav\u00e9s das Palavras. Quando parece, aqui e ali, tocar em algo, digamos, como que uma Gra\u00e7a, possivelmente redentor &#8211; ent\u00e3o, d\u00e1 um segundo passo: a partir desse ponto consistente quando achado, tenta avan\u00e7ar para fora das palavras e passar a caminhar j\u00e1 atrav\u00e9s do pr\u00f3prio humano. N\u00e3o sei o que \u00e9 mais dif\u00edcil, se esse passo verbal ou o segundo, que vem depois dele, j\u00e1 em pleno humano. Porque, v\u00ea s\u00f3: assim como Andara \u00e9 verbal e n\u00e3o-verbal, existe e n\u00e3o existe &#8211; pois \u00e9 um livro n\u00e3oescrito de onde brotam os livros escritos de Andara &#8211; tamb\u00e9m o homem e o mundo s\u00e3o existentes e n\u00e3oexistentes. E \u00e9 justamente por isso &#8211; porque Andara e a Vida, a Literatura e o Homem s\u00e3o coisas tecidas de ser e n\u00e3oser &#8211; que, quem sabe, esteja de alguma forma autorizada a buscar reden\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 poss\u00edvel se redimir de um sonho? E eu posso me redimir do pr\u00f3prio Sonho que, humano, sou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong> <strong>Diria que a mem\u00f3ria presente em sua obra corre paralela ao que se vive em nosso mundo supostamente real?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211;<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o se trata de um mundo <em>supostamente real<\/em> &#8211; mas de um mundo <em>real como um sonho<\/em>. Nesse sentido, Andara quis existir para nos lembrar disso, para evocar, permanentemente, essa Mem\u00f3ria, este Saber: Mundo &#8211; t\u00e3o real quanto um sonho, logo t\u00e3o liberto de si mesmo como uma irRealidade da qual n\u00e3o se pode escapar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3831\" aria-describedby=\"caption-attachment-3831\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-II3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3831\" title=\"Vicente Franz Cecim\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-II3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-II3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-II3-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3831\" class=\"wp-caption-text\">Vicente Franz Cecim \/ Foto: Bruno Cecim<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Desde que tudo come\u00e7ou em A asa e a serpente, passando por K O escuro da semente e chegando a o\u00d3: Desnutrir a pedra, a busca pelo entendimento do Uno, t\u00e3o apregoada no fil\u00f3sofo Plotino, atravessa intensamente seus caminhos de criador?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Sobre isso s\u00f3 posso falar com as palavras que j\u00e1 disse outras vezes e que em cada Mil e Um Homens todos fingir\u00e3o n\u00e3o entender, refugiados na Noite Espessa em que, no Medo ou Ast\u00facia da esp\u00e9cie, se ocultam, o que no fundo todos j\u00e1 sabem. Sigamos sem muitas esperan\u00e7as, ent\u00e3o, a resposta: &#8211;\u00a0 O homem \u00e9 coisa que vive para dentro e para fora de Si. Para fora, ele \u00e9 o Ente: o Espanto domado pela Civiliza\u00e7\u00e3o. Para dentro, ele \u00c9 o Ser: o Puro Espanto de Ser, intoc\u00e1vel. A Viagem a Andara caminha assim: desperta para essa vida em Ente e combatendo a Civiliza\u00e7\u00e3o como aliena\u00e7\u00e3o de sermos, e se sonhando em miragens de sermos que nos libertem para Sermos plenamente, o que j\u00e1 somos, mas estamos encarcerados, vivendo como os Humilhados &amp; Ofendidos de Dostoievski, mas em escala c\u00f3smica. E quer levar para al\u00e9m desse homem submetido &#8211; que se deixa submeter ou \u00e9 submetido \u00e0 for\u00e7a e por promessas pol\u00edticas ilus\u00f3rias das For\u00e7as Sociais Malignas, malinas como dizem as Crian\u00e7as. Em Andara se d\u00e1 a Alquimia Verbal da transforma\u00e7\u00e3o do Humano em Umanoh, lan\u00e7ando para tr\u00e1s da palavra esse H in\u00fatil, vazio, aspirado para liberar o Um, o Uno: a abertura para o Ser. Mas aqueles que impelidos pelas Ast\u00facias das For\u00e7as Sociais Malinas a viverem somente para fora a vida como Ente continuar\u00e3o avan\u00e7ando na \u00fanica dire\u00e7\u00e3o que conhecem e lhes \u00e9 consentida no Ocidente, onde se l\u00ea da esquerda para a direta: do calcanhar para a ponta dos dedos \u2013 e reencontrar\u00e3o o H no fim da palavra. Que pena. Isso me entristece. Porque caminhar atrav\u00e9s da irRealidade, despertante, de Andara me mostrou que a dire\u00e7\u00e3o oposta nos torna levar ao nosso Centro Real. E esse centro se atinge indo na dire\u00e7\u00e3o inversa: da ponta dos dedos para o calcanhar, em demanda de um Real Total que nos transfigure. Pois o homem \u00e9, essencialmente, coisa que caminha Por Dentro. Se quiserem: Da direita para a esquerda. Liberando o Um de Tudo em si. &#8211; A Descoberta Fulgurante de Andara em sua Via Imaginal \u00e9 a Irrealidade da Vida como\u00a0 manifesta\u00e7\u00e3o da Pura Irrealidade em Si \u2013 ou semSi &#8211; do que os homens intuem, advinham ou criam ou recebem como o que chamam &gt; Deus. Mas isso n\u00e3o \u00e9 coisa para temer:\u00a0 gerou em Mim a Imensa Alegria. Porque significa, se entendido em um Clar\u00e3o: liberta\u00e7\u00e3o, significando: &#8211; Liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A perspectiva de escrever invisivelmente nas p\u00e1ginas do livro da vida, abra\u00e7ada a essa liberta\u00e7\u00e3o a que voc\u00ea se refere, \u00e9 uma total vontade de transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Algo, ou eu mesmo, devo ter me feito essa pergunta no instante Clar\u00e3o em que nasci &#8211; saltei aqui para fora, ou Dentro, como mais um ser de espanto. E a pergunta deve ter vindo me acompanhando at\u00e9 o dia em que, j\u00e1 aos 33 anos, escrevi a primeira p\u00e1gina de A asa e a serpente, o primeiro livro de Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel. At\u00e9 agora, + quase 34 anos depois, nada mudou. A primeira p\u00e1gina com a resposta foi esta:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 Tu escreves um livro com tinta invis\u00edvel.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por que fazes isso?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s somos homens invis\u00edveis<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois de nascidos, vis\u00edveis.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre o in\u00edcio vis\u00edvel e o invis\u00edvel final, n\u00f3s somos os homens <\/em><\/p>\n<p><em>vis\u00edveis.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aproveitemos para ver-nos<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E ent\u00e3o ir escrevendo outros livros,<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 nestes jardins, todas essas asas,<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para que um livro v\u00e1 se fazendo.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas n\u00e3o em si.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dele n\u00e3o se ver\u00e1 nem sombra das palavras no papel.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Viagem a Andara.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O n\u00e3o-livro. N\u00e3o existe, n\u00e3o existe<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Literatura fantasma.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o foi escrito.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto texto, tudo o que teremos dele \u00e9 um t\u00edtulo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, Fabr\u00edcio, h\u00e1 uma outra pergunta implicada nessa, e que n\u00e3o me fizeste &#8211; mas como eu a fiz a Mim, ent\u00e3o te passo a p\u00e1gina seguinte da abertura de A asa e a serpente, ap\u00f3s a pergunta sobre por que escrever um livro invis\u00edvel:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E a pergunta seguinte \u00e9:<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E o que s\u00e3o livros, os livros que se escreve<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Livros de Andara.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida s\u00f3 resta a alucina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Situa\u00e7\u00e3o dos livros de Andara: condenados \u00e0 vi\u00acsibilidade para que Viagem a Andara, o livro invis\u00edvel possa existir como pura ilus\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Andara, a viagem ela mesma, nunca ser\u00e1 escrita diretamente.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E ela est\u00e1 come\u00e7ando assim<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Chama aten\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de uma grafia toda pr\u00f3pria quando menciona seus escritos, percursos em Andara. Nesse sentido, vislumbras uma esp\u00e9cie de ressignifica\u00e7\u00e3o consciente da palavra?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Bem, isso \u00e9 mais simples do que parece. Quero dizer: \u00e9 Simples como as coisas simples. Mas passa por est\u00e1gios. O primeiro, essencial, \u00e9: um criador de literatura, de qualquer arte, ou \u00e9 id\u00eantico a sua impress\u00e3o digital, \u00fanico, ou \u00e9 apenas um artes\u00e3o. Esse \u00e9 o est\u00e1gio do Ser. O segundo \u00e9 o est\u00e1gio da Linguagem: a Vida toda \u00e9 uma Linguagem que nos fala e se fala em n\u00f3s pr\u00f3prios \u2013 todo esse Cosmos vis\u00edvel, um Livro \u2013 mas cada coisa, de cada esp\u00e9cie, fala a sua linguagem \u2013 mas aqui se d\u00e1 algo curioso: para falar a partir de si pr\u00f3prio, e falar para todos, \u00e9 preciso que cada um, dentro de sua esp\u00e9cie, fale uma linguagem t\u00e3o sua quanto sua pr\u00f3pria exist\u00eancia n\u00e3o pode ser a de outro. Aquele que fala a linguagem de todos certamente n\u00e3o fala para todos porque n\u00e3o fala solitariamente. Um terceiro est\u00e1gio \u00e9 um exemplo disso: a pr\u00f3pria linguagem de Andara: senti que para falar como s\u00f3 a mim seja dado falar \u2013 e poder falar para todos \u2013 os tempos padronizados do verbo n\u00e3o eram suficientes: passado, presente, futuro \u2013 e precisei de um tempo-sem-tempo, que chamei de Tempo da Hip\u00f3tese \u2013 esse \u00e9 o tempo do Verbo em Andara, o tempo do fosse, seja, estaria \u2013 o tempo do talvez, do quem sabe, que acabou se tornando o tempo do Fosse Uma Vez. E de onde veio essa minha necessidade? Da descoberta, evidente, de que o tempo mais profundamente falso na literatura \u00e9 o tempo do \u00c9 \u2013 na Literatura nada \u00e9 \u2013 por isso mesmo a Literatura pode ser tudo: ela \u00e9 o menos real para ser o mais real. Entre o perceb\u00edvel Real e o conceb\u00edvel Imagin\u00e1rio, a\u00ed se manifesta a Literatura em sua Verdade. Al\u00e9m disso, devo acrescentar que, nesse Tempo da Hip\u00f3tese, Andara foi me revelando a diferen\u00e7a entre palavras que se referem a coisas passageiras e palavras que dizem de coisas Permanentes: s\u00e3o as coisas como Entes, entidades, diferentes das coisas como coisas. Basta dar aqui um exemplo para ser entendido, acho. Quando em Andara escrevo: a noite, falo do fen\u00f4meno que \u00e9 a noite. Quando em Andara escrevo: a Noite \u2013 surge o Ente que \u00e9 a Noite origem e significado de todas as noites. Assim tamb\u00e9m: o homem\/o Homem, uma \u00e1rvore\/aquela \u00c1rvore, a voz\/a Voz \u2013 podendo \u00e0s vezes se dar transmuta\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas, de uma mesma coisa, quando percebo numa cintila\u00e7\u00e3o, nela, sua dimens\u00e3o de entidade, como em: o vento: o Vento. Mas os livros vis\u00edveis de Andara, os que escrevo e v\u00e3o brotando de Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel, que n\u00e3o escrevo, \u00e9 que dizem em si mesmo tudo o que eu apenas esbocei dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3727\" aria-describedby=\"caption-attachment-3727\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-III1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3727 \" title=\"Vicente Franz Cecim\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-III1.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-III1.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/INTERNA-III1-210x300.jpg 210w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3727\" class=\"wp-caption-text\">Vicente Franz Cecim \/ Fotoaquarela: Bruno Cecim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0DA &#8211; <\/strong><strong>Em sua trajet\u00f3ria, h\u00e1 tamb\u00e9m a presen\u00e7a de uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o cinema, sobretudo nos filmes produzidos ao longo dos anos. Que reflex\u00e3o voc\u00ea faz desses percursos com a imagem? A vontade de produzir permanece viva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Uma vez conversei com o cineasta Carlos Diegues aqui na Amaz\u00f4nia, conversa longa, de amigos. E apontei uma \u00e1rvore e disse a ele: &#8211; O que eu queria mesmo era trazer aquela \u00e1rvore exatamente como ela \u00e9, viva, para dentro dos meus livros. E ele me respondeu: &#8211; Pois eu queria era poder trazer a \u00e1rvore que tu inventas com palavras para dentro dos meus filmes. A resposta essencial a tua pergunta sobre por que fa\u00e7o, tamb\u00e9m, os filmes KinemAndara, Fabr\u00edcio, est\u00e1 toda nesse di\u00e1logo. Tentemos entender isso que nos dissemos: s\u00e3o duas impot\u00eancias: na Literatura, posso criar a \u00e1rvore que eu quiser \u2013 e em Andara as \u00e1rvores falam, caminham, contam hist\u00f3rias para os homens, sobem at\u00e9 as estrelas \u2013 mas n\u00e3o posso ter a \u00e1rvore viva, no Cinema, posso ter a \u00e1rvore como ela se mostra viva, mas ela, para se manter a \u00e1rvore viva que percebemos, mesmo s\u00f3 como imagem, n\u00e3o contar\u00e1 hist\u00f3rias, caminhar\u00e1, subir\u00e1 at\u00e9 as estrelas. Por muitos motivos, mas esse \u00e9 o principal \u2013 escrevo e filmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Houve um per\u00edodo em que voc\u00ea encontrou ambiente mais favor\u00e1vel para publica\u00e7\u00e3o em Portugal, tanto que alguns de seus livros foram editados por l\u00e1. Naqueles tempos, voc\u00ea enfrentou, de fato, dificuldades para publicar no Brasil? Como est\u00e3o as coisas agora? Um novo livro j\u00e1 estaria em curso aqui?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Melhor, agora, assumir o tom de uma cr\u00f4nica, \u00e1spera e um tanto melanc\u00f3lica, para descrever esses j\u00e1 quase 34 anos de resist\u00eancias, desist\u00eancias e persist\u00eancia de Andara, desde deu seu primeiro passo em 1979. Os principais livros vis\u00edveis de Andara sa\u00edram primeiro no Brasil, pela Iluminuras \u2013 <em>Viagem a Andara<\/em>, em 1988, reunindo os 7 primeiros livros, que recebeu o Grande Pr\u00eamio da Cr\u00edtica da Apca \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, antes dado apenas a Cora Coralina, M\u00e1rio Quintana, Hilda Hilst e, depois de mim, a Manoel de Barros, porque s\u00f3 \u00e9 atribu\u00eddo se houver unanimidade dos cr\u00edticos votantes \u2013 e <em>Silencioso como o Para\u00edso<\/em>, em 1994, reunindo os 4 seguintes, que Leo Gilson Ribeiro considerou \u2018um dos mais perfeitos livros publicados no Brasil nos \u00faltimos dez anos\u2019 e muitos outros elogiaram tanto quanto o primeiro volume. Devo revelar isso para que fique muito claro: o impasse do chamado mercado editorial brasileiro n\u00e3o \u00e9 criado por quest\u00f5es de qualidade liter\u00e1ria \u2013 \u00e9 expressamente comercial. Ent\u00e3o, ap\u00f3s esses dois volumes, foi o ex\u00edlio nacional de Andara. N\u00e3o gosto de procurar editoras com meus originais e desisti de vez ao ouvir do meu pr\u00f3prio editor, um amigo e leitor l\u00facido, Samuel Leon, que \u2018os leitores brasileiros ainda n\u00e3o est\u00e3o preparados para Andara\u2019, quando apresentei \u00e0 editora <em>\u00d3 Serdespanto<\/em>, em 1988, reunindo mais quatro novos livros de <em>Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel<\/em>. S\u00f3 em 2000 o livro saiu em Portugal, pela \u00cdman, e mais de dez cr\u00edticos portugueses, consultados pelo jornal P\u00fablico, o apontaram como o segundo melhor lan\u00e7amento do ano \u2013 o que devo, pelo mesmo motivo acima \u2013 quest\u00f5es de qualidade liter\u00e1ria \u2013 tamb\u00e9m revelar aqui. Mas nem isso foi suficiente para abalar a indiferen\u00e7a do ex\u00edlio editorial brasileiro. Um novo in\u00e9dito de Andara saiu em Portugal em 2005, pela Ver o Verso: <em>K\u00a0 O escuro da semente<\/em>. Mais de dez anos ap\u00f3s a \u00faltima publica\u00e7\u00e3o de um livro meu no Brasil. Com dois volumes publicados no Brasil e dois em Portugal, comecei a me sentir um escritor t\u00e3o brasileiro quanto Guimar\u00e3es Rosa e t\u00e3o portugu\u00eas quanto Fernando Pessoa. Seria c\u00f4mico, se n\u00e3o fosse doloroso \u2013 mas nem uma coisa nem outra, porque sempre me senti um escritor da Amaz\u00f4nia, da Floresta Sagrada \u2013 meu essencial pa\u00eds. Ent\u00e3o, num espasmo que simulou uma reden\u00e7\u00e3o, enfim <em>\u00d3 Serdespanto<\/em> saiu aqui pela Bertrand Brasil, em 2006. Mas <em>O escuro da semente<\/em> &#8211; e embora a editora tenha assinado comigo nessa \u00e9poca dois contratos de edi\u00e7\u00e3o, dele e de uma reedi\u00e7\u00e3o de <em>Silencioso como o Para\u00edso <\/em>\u2013 jamais foi editado &#8211; nem foi feita a reedi\u00e7\u00e3o &#8211; e ningu\u00e9m conhece <em>O escuro<\/em> no Brasil at\u00e9 hoje. Guardo os contratos n\u00e3o cumpridos como fantasmas num s\u00f3t\u00e3o, assombra\u00e7\u00f5es do Mercado Editorial. Enfim, continuei gerando novos livros de Andara. Para o que? Para nada? <em>\u2013 Ficar jogando pedras no escuro?<\/em> Enfim, o \u00faltimo deles saiu aqui pela Tessituras, de Minas Gerais, em 2008: <em>o\u00d3: Desnutrir a pedra<\/em>. Quanto ao ex\u00edlio de Andara \u2013 continua. E h\u00e1 cinco anos n\u00e3o \u00e9 impresso nenhum dos novos livros vis\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E a alternativa dos e-books, o que acha do livro virtual?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>O livro virtual \u2013 que em breve dever\u00e1 ser tamb\u00e9m devorado pelo sempre faminto Mercado Editorial \u2013 \u00e9 uma radicaliza\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio de Andara, que agora estou assumindo: editei em e-book, com algumas muta\u00e7\u00f5es, <em>Desnutrir a pedra<\/em> e o mais novo vis\u00edvel de Andara: <em>Asa de murm\u00farios<\/em>, pela Tert\u00falia de E-books \u2013 mas aten\u00e7\u00e3o: \u00e9 uma editora de Portugal. Quem sabe, se n\u00e3o h\u00e1 um Lugar f\u00edsico para os livros vis\u00edveis de Andara, n\u00e3o seja mesmo o livro virtual o n\u00e3oLugar de <em>Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211;<\/strong> Essas divis\u00f5es do chamado tempo hist\u00f3rico, ah \u2013 n\u00e3o me interessam \u2013 apenas como curiosos arquivamentos, s\u00e3o um Museu de Miragens dos passos passados da Humanidade que quer nos induzir ao sentimento, coletivo, de que estamos em evolu\u00e7\u00e3o e que tudo vai bem \u2013 sua fun\u00e7\u00e3o, impl\u00edcita e consoladora, \u00e9 prometer que os chamados tempos melhores vir\u00e3o, sempre estar\u00e3o vindo. E que tudo, no fundo, apesar das apar\u00eancias, est\u00e1 bem. Elias Canetti escreveu um livro impressionante, <em>Massa e Poder<\/em>, onde voc\u00ea pode ver como em todos as \u00e9pocas os homens avan\u00e7aram brutalmente e seus passos t\u00eam sido \u00e0 deriva e cru\u00e9is \u2013 como quem avan\u00e7a atrav\u00e9s das Trevas.\u00a0 Eu vivo no Tempo da Natureza. Porque viagem do homem no Cosmos \u00e9 uma s\u00f3, Una, sem divis\u00f5es em pr\u00e9 e p\u00f3s. Atrav\u00e9s da Hist\u00f3ria o homem avan\u00e7a e recua por labirintos de caminhos que em Andara chamo de: o V\u00e1rios. Mas \u00e9 no Um que passa, em n\u00f3s e na Vida, o Caminho &#8211; assim, com mai\u00fascula \u2013 em sua dimens\u00e3o de Entidade, diferente desses caminhos nas n\u00e9voas que tamb\u00e9m os seres neblina de Andara percorrem em Sua busca. Eu reduzi tudo a uma palavra-imagem: oO \u2013 e eu pequeno \u2013 eu \u2013 e o Eu grande \u2013 o semNome. Eu vivo \u00e9 no O Um V\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em que medida o caminhar em Andara transformou o homem Vicente Franz Cecim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICENTE FRANZ CECIM &#8211; <\/strong>Na medida em que eu quase nem sou mais Vicente Franz Cecim. Andara tem uma meta: &#8211; <em>Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim<\/em>. Atravessando Andara, fui aos poucos me tornando Sonhos de Escritura de mim mesmo. E, a cada novo passo na <em>Viagem a Andara oO livro invis\u00edvel<\/em>, vou penetrando mais e mais, no Menos, gosto cada vez mais das p\u00e1ginas em branco, sem nem Sombras de palavras no papel, regi\u00e3o dos Sil\u00eancios. \u00c9 a busca &#8211; do que me busca? oO. Enfim, sou mais um serneblina de Andara: nascido, como todos, um ser de espanto, meu sonho \u00e9 ser o pr\u00f3prio Serdespanto. Quando me vejo de costas num espelho, sinto melancolia. Nostalgia da promessa de Asas n\u00e3o cumprida nas omoplatas humanas. aVe<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Vozes de Andara I \u2013 Muro branco das idades<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/Sv7-kpBWtxk\" width=\"420\" height=\"315\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>K\u00a0 O escuro da semente<\/em> \/ Um fragmento<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>(&#8230;)<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>E seria nessa noite e sob aquele c\u00e9u de asas negras brancas<br \/>\nque ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde ca\u00eddo,<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e ent\u00e3o diria:<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>&#8211; V\u00ea, Orino,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>seus C\u00edrculos brancos negros<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>n\u00e3o existem. Eles s\u00e3o s\u00f3 uma inven\u00e7\u00e3o desse Vicente que nos<br \/>\nescreve,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>s\u00f3 que elas ele escrevendo com asas de palavras,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e n\u00f3s ainda inventando com palavras de carne,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde<br \/>\nele sopra os seus sonhos<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>&#8211; N\u00e3o existem, mas existem. Como te dizer isso?<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Escuta.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>E vem comigo<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>&#8211; \u00c9 que esse Vicente,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>vindo de um vale onde nasceu, \u00e9 l\u00e1 embaixo da vida,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>o que ele quer o que mais quer \u00e9 ascender, alado, e, leve,<br \/>\nabandonar o V\u00e1rios por maior Amizade ao Um.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Pois j\u00e1 n\u00e3o houve um outro, um tal K que<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Diz-se<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>antes dele j\u00e1 ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto<br \/>\nHumano?<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Ou essa \u00e9 s\u00f3 mais uma das suas hist\u00f3rias<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Esses livros que ele escreve<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Ent\u00e3o, todos os seus livros sendo atravessados por asas,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>para ele um lugar n\u00e3o lugar Andara e todos os lugares sendo<br \/>\npara ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Vis\u00edvel ao<br \/>\nInvis\u00edvel,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>ele faz essa viagem, e j\u00e1 bem longa.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Isso de andar sem ir ficando indo fosse<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Pois em Andara, tudo est\u00e1 no Vale, embaixo,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e quer ir para a Montanha, l\u00e1 no alto.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Tudo<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>&#8211; V\u00ea, Orino,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>sendo fantasmas de Andara,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>nessa Neblina<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>n\u00f3s tamb\u00e9m podendo viajar por Andara inteira, indo atrav\u00e9s<br \/>\ndos livros que esse Vicente escreve,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>como estamos indo agora atrav\u00e9s das p\u00e1ginas deste livro que<br \/>\nele escreve,<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e est\u00e3o, vem comigo, fa\u00e7amos isso<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>&#8211; Mas tu, n\u00e3o, dizendo Oniro ao omem de areia. N\u00e3o v\u00e1 se<br \/>\ndesfazer nos gr\u00e3os das palavras desse Vicente o que ainda resta do<br \/>\nteu Gr\u00e3o de Ser<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Vem,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e v\u00ea Orino.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Como parecem se elevar t\u00e3o altos os seus livros<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>\u00c0 Sombra deles, ah suas sombras assim t\u00e3o longas e \u00edntimas<br \/>\ndas sombras longe l\u00e1 do horizonte<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>as nossas sombrazinhas de Neblina humana<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>A asa e a serpente.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>L\u00eas, o t\u00edtulo?<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Dos livros assim vis\u00edveis de Andara<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>este \u00e9 o primeiro. E v\u00eas o que eu te disse? A serpente: o Vale,<br \/>\na asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e<br \/>\nserpentes sobre a terra,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>sobre os homens<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Vem, v\u00ea. Entremos tamb\u00e9m neste<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>\u00c9 Os animais da terra. Aqui, repara,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>aparentemente tudo se d\u00e1 s\u00f3 no Vale, mas n\u00e3o \u00e9 o que<br \/>\nacontece, porque o sonho da Montanha v\u00eas ele<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>nos v\u00f4os de Camin\u00e1? A mulher alada<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Este outro \u00e9 Os jardins e a noite. O Vale est\u00e1 nos olhos que<br \/>\nantes um homem tinha para n\u00e3o ver nada, nada sob o sol, e a<br \/>\nMontanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>o Curau,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>desce do c\u00e9u e tira os olhos desse homem<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e ele ent\u00e3o come\u00e7a a ver, \u00e9 bem longe, e tamb\u00e9m dentro de si,<br \/>\na vida<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Este \u00e9 Terra da sombra e do n\u00e3o.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Entremos<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Nele, uma crian\u00e7a atravessa o Vale: a vida, levada por dois<br \/>\noutros fantasmas como n\u00f3s, um querendo ser leve, o outro, pesando<br \/>\nsobre a terra,<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>e no final surgem umas borboletas, v\u00eas: elas, l\u00e1? Umas<br \/>\ncintila\u00e7\u00f5es no ar, que voando diante da crian\u00e7a a levam at\u00e9 a<br \/>\nMontanha, que \u00e9 um montinho de nada de terra onde um morto<br \/>\ndorme e n\u00e3o dorme pois n\u00e3o sabemos se ele ainda est\u00e1 l\u00e1 ou j\u00e1 se<br \/>\nergueu de si<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Este \u00e9 Diante de ti s\u00f3 ver\u00e1s o Atl\u00e2ntico.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>Nele, o Vale ser\u00e1 submerso<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>(&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>KinemAndara \u2013 PERMAN\u00caNCIA (1976)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/ufvVUSWrPTk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percursos em Andara: uma entrevista especial com o escritor Vicente Franz Cecim <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15176,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[913,16,2539],"tags":[929,928,939,936,63,930,933,935,937,931,8,385,938,934,932,927],"class_list":["post-3719","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-76a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-amazonia","tag-andara","tag-asa-de-murmurios","tag-bertrand-brasil","tag-entrevista","tag-floresta-sagrada","tag-k-o-escuro-da-semente","tag-o-serdespanto","tag-oo-desnutrir-a-pedra","tag-para","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-portugal","tag-tessitura","tag-ver-o-verso","tag-viagem-a-andara-oo-livro-invisivel","tag-vicente-franz-cecim"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3719"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15177,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719\/revisions\/15177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15176"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}