{"id":3982,"date":"2013-03-20T16:19:11","date_gmt":"2013-03-20T19:19:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3982"},"modified":"2018-10-17T16:49:18","modified_gmt":"2018-10-17T19:49:18","slug":"dedos-de-prosa-i-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-12\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15198\" aria-describedby=\"caption-attachment-15198\" style=\"width: 451px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15198 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA-2.jpg\" alt=\"\" width=\"451\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA-2.jpg 451w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA-2-246x300.jpg 246w\" sizes=\"auto, (max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15198\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Tha\u00eds Arcangelo<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>evolam-se os barcos<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">hoje eu matei o trabalho, fui ver os barcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o c\u00e9u se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d\u2019\u00e1gua que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto ba\u00e7o de papel de seda que cobre o horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">nesse cen\u00e1rio espesso de giz, os barcos s\u00e3o como pequenos borr\u00f5es coloridos, im\u00f3veis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-r\u00e9is adejam em voos err\u00e1ticos como \u00famidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e intermin\u00e1vel \u00edmpeto de tramar-se e destramar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da cal\u00e7a e engole meus p\u00e9s para a fundura cinza onde penetram as ondas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">gosto de deixar que o \u00e1spero sudoeste me percorra o corpo, a\u00e7oitando a pele por entre as casas dos bot\u00f5es e insuflando as asas de um homem-p\u00e1ssaro negro, eu e milh\u00f5es de gr\u00e3os, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">parto com eles em dire\u00e7\u00e3o ao infinito, perdendo-me no teatro de n\u00e9voa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos i\u00e7am suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia \u00e9 maior que o meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">sempre preferi a solid\u00e3o. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando \u00e9 poss\u00edvel ouvir alto a pr\u00f3pria voz calada. na inf\u00e2ncia, fui uma crian\u00e7a introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. n\u00e3o tinha amigos e nos anivers\u00e1rios ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crian\u00e7as brincarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, s\u00f3 um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os l\u00e1pis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">quando ingressei no gin\u00e1sio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no hor\u00e1rio de recreio, no \u00f4nibus de ida e no \u00f4nibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores come\u00e7aram a me usar como refer\u00eancia e minha introspec\u00e7\u00e3o foi se tornando sinal de intelig\u00eancia e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">verdade era que, na p\u00e1gina seguinte, eu j\u00e1 n\u00e3o me lembrava do que tinha ocorrido no cap\u00edtulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois s\u00e3o chaves para a solid\u00e3o. \u00e0s vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas at\u00e9 me esgotar de sono. era gostoso retomar a hist\u00f3ria no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">tentei a faculdade de matem\u00e1tica, mas os livros n\u00e3o me serviram para os n\u00fameros. os anos foram adoecendo meus pais at\u00e9 os tornarem dois insetos pequenos demais para a mec\u00e2nica da casa. tive de trabalhar para comprar rem\u00e9dios e reparar os m\u00f3veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">meu primeiro emprego foi na f\u00e1brica de cal\u00e7as. tinha a fun\u00e7\u00e3o de verificar a precis\u00e3o dos bot\u00f5es e dos z\u00edperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, for\u00e7ando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almo\u00e7o, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer inten\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo. a \u00fanica que insistia era Irene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos v\u00edamos pouco, fal\u00e1vamos no refeit\u00f3rio e ela me ajudava nas tarefas dom\u00e9sticas pesadas de fim de semana. minha m\u00e3e gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dan\u00e7ariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha m\u00e3e sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o \u00f4nibus at\u00e9 o mais alto pr\u00e9dio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto \u00e0 missa de s\u00e9timo dia para salvar as poucas economias que t\u00ednhamos, amea\u00e7adas pela hipoteca da casa que pendia h\u00e1 seis meses. com o ordenado da f\u00e1brica, seria imposs\u00edvel nos sustentar dignamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que n\u00e3o requeria muito racioc\u00ednio, o sal\u00e1rio e os benef\u00edcios eram satisfat\u00f3rios e o hor\u00e1rio flex\u00edvel, embora o terno e gravata fosse indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">dividia a sala com dois funcion\u00e1rios estatut\u00e1rios, nos revezando no of\u00edcio de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos m\u00f3veis de patrim\u00f4nio. havia tr\u00eas mesas, uma m\u00e1quina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">verdade \u00e9 que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase n\u00e3o tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrup\u00e7\u00e3o. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as d\u00edvidas e recuperei a casa, compramos m\u00f3veis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de fam\u00edlia, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solid\u00e3o era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o rel\u00f3gio de ponto, no hall de entrada, marcava o in\u00edcio do expediente da reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">uns dois anos depois, esse ref\u00fagio, por\u00e9m, adquiriu uma atmosfera claustrof\u00f3bica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os \u00f3rg\u00e3os teriam de cortar despesas. houve demiss\u00f5es e todos os contratos foram suspensos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">logo, os funcion\u00e1rios do meu setor foram alocados em outras se\u00e7\u00f5es e fiquei sozinho. \u00e9 claro que, a princ\u00edpio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explica\u00e7\u00f5es. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solid\u00e3o, s\u00f3 suscita recompensa quando conquistado e n\u00e3o imposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a paralisa\u00e7\u00e3o deflagrou a neglig\u00eancia que j\u00e1 pairava sobre as reparti\u00e7\u00f5es, estabelecendo a mediocridade e o des\u00e2nimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. n\u00e3o havia mais andamento de despachos, fotoc\u00f3pias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do rel\u00f3gio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a vontade de isolar-me, esse \u00edmpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invis\u00edvel n\u00e3o do modo que sempre pretendi. \u00e0s vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspond\u00eancia e ficar parado na porta, olhando como se n\u00e3o tivesse ningu\u00e9m, at\u00e9 ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando algu\u00e9m precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito \u00e0 m\u00e3o, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de n\u00e3o me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignific\u00e2ncia de um vaso ornamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">j\u00e1 come\u00e7avam as refei\u00e7\u00f5es sem a minha presen\u00e7a, ignorando meus coment\u00e1rios e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo \u00e0 televis\u00e3o, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. h\u00e1 duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irm\u00e3 ainda pequenas com uma estranha aten\u00e7\u00e3o, como se eu fosse suspenso em sua prematura mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obriga\u00e7\u00f5es e pormenores que supriam o sentimento de aus\u00eancia. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrost\u00e1tica da televis\u00e3o. n\u00e3o dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio \u00e0 multid\u00e3o, uma express\u00e3o manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invis\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ele v\u00ea a forma, um borr\u00e3o, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreens\u00edvel, tal a voragem que urde gr\u00e3os de areia e contracorrentes na germina\u00e7\u00e3o de bulbos de l\u00f3tus, fl\u00e2mulas e p\u00e9talas que se abrem apenas para se despeda\u00e7arem na arrebenta\u00e7\u00e3o, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do p\u00e1ssaro negro, o prel\u00fadio do voo entre os v\u00e9us bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depress\u00f5es, coberto de limo, alestrins e matac\u00e3es, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avan\u00e7ando contra os papa-breus entrando por desv\u00e3os e sali\u00eancias que lanham as m\u00e3os confusas, entre o par de sapatos e escorreg\u00f5es, na escalada at\u00e9 o cume, o abismo onde o ar \u00e9 menos salino, e ela est\u00e1 sentada, bra\u00e7os envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma bela vis\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 uma bela queda.<br \/>\nN\u00e3o deixa de ser um ponto de vista.<br \/>\nTalvez um menos glorioso.<br \/>\nA vida, em certos aspectos, tende a n\u00e3o ser gloriosa.<br \/>\nMeu pai costuma dizer algo parecido.<br \/>\nSeu pai \u00e9 um homem s\u00e1bio.<br \/>\n\u00c9, talvez.<br \/>\nPosso me sentar<em>?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe, subir aqui me d\u00e1 a medida da minha insignific\u00e2ncia.<br \/>\nPara mim, \u00e9 a possibilidade de desaparecer.<br \/>\nAcredite, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil o bastante.<br \/>\nEst\u00e1 vendo os barcos? Os pequenos borr\u00f5es coloridos atr\u00e1s do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que s\u00e3o necess\u00e1rios para que isso aconte\u00e7a. A n\u00e9voa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilus\u00e3o de \u00f3tica. N\u00e3o acho que seja t\u00e3o simples assim.<br \/>\nEu n\u00e3o consigo me impressionar com ilus\u00f5es.<br \/>\nDeve existir uma boa raz\u00e3o para isso.<br \/>\nMeu pai \u00e9 m\u00e1gico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu n\u00famero mais famoso \u00e9 o do desaparecimento.<br \/>\nE voc\u00ea cresceu sabendo que era uma ilus\u00e3o.<br \/>\n\u00c9. Ele era grande em sua \u00e9poca.<br \/>\nE onde est\u00e1 agora?<br \/>\nAgora ele est\u00e1 preso \u00e0 cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Ir\u00f4nico, n\u00e3o? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora n\u00e3o h\u00e1 nada que se possa fazer para evitar que desapare\u00e7a para sempre.<br \/>\nSinto muito por isso.<br \/>\nAcho que essa \u00e9 a ilus\u00e3o que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.<br \/>\nSei que n\u00e3o \u00e9 reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus n\u00fameros, quantas vidas conseguiu mudar.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 nada reconfortante.<br \/>\nAo menos, ele tem a voc\u00ea.<br \/>\nA mim e ao meu irm\u00e3o Pedro. Nunca o abandonar\u00edamos. Minha m\u00e3e desapareceu quando \u00e9ramos crian\u00e7as. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imagin\u00e1ssemos que poder\u00edamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunh\u00e3o e educados a construir um futuro pr\u00f3prio. Ele nunca deixou que segu\u00edssemos sua estrada.<br \/>\n\u00c9 curioso como viemos aqui por raz\u00f5es parecidas, mas com prop\u00f3sitos diferentes.<br \/>\nE o que voc\u00ea veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?<br \/>\nN\u00e3o sei ao certo. Encontrar algo.<br \/>\nN\u00e3o deveria estar trabalhando?<br \/>\nDeveria, mas ningu\u00e9m se importa. J\u00e1 faz algum tempo que ningu\u00e9m percebe que estou l\u00e1. Faz tempo que ningu\u00e9m me percebe, de forma alguma.<br \/>\nVoc\u00ea \u00e9 casado.<br \/>\n\u00c9, a alian\u00e7a. Tenho duas filhas.<br \/>\nIsso \u00e9 bom?<br \/>\nN\u00e3o sei.<br \/>\nDeve existir uma boa raz\u00e3o para isso.<br \/>\nPassei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que n\u00e3o podia voltar atr\u00e1s.<br \/>\nNo n\u00famero do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua m\u00e3o. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e ca\u00eda sobre um colch\u00e3o. Esse \u00e9 o segredo.<br \/>\nQuer ouvir um segredo? \u00c0 noite, quando sei que todos est\u00e3o dormindo, vou at\u00e9 o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento \u00e0 beira das camas. Fico horas apenas as olhando, \u00e0s vezes at\u00e9 raiar o dia. Eu n\u00e3o sabia o porqu\u00ea. Na verdade, eu fingia que n\u00e3o sabia o porqu\u00ea. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transi\u00e7\u00e3o entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que n\u00e3o posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.<br \/>\nDe alguma forma, \u00e9 isso que meu pai se tornou.<br \/>\n\u00c9 isso que, afinal, nos tornamos.<br \/>\nE n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos fazer.<br \/>\nAinda podemos ver os barcos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>S\u00e9rgio Tavares <\/strong>\u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tamb\u00e9m foi premiado no Concurso Liter\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Escola do Servi\u00e7o P\u00fablico (Fesp\/RJ) e tem textos publicados nas revistas \u201cCult\u201d, \u201cArte e Letra: Est\u00f3rias M\u201d, e no jornal \u201cC\u00e2ndido\u201d, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012<\/em>)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conto de S\u00e9rgio Tavares, um universo que sabe a impulsos da queda<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4018,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[998,2534,16],"tags":[1025,81,41,1024,1026,1023],"class_list":["post-3982","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-77a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-confraria-do-vento","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-evolam-se-os-barcos","tag-queda-da-propria-altura","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3982"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3982\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15199,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3982\/revisions\/15199"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4018"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}