{"id":4015,"date":"2013-03-21T13:58:35","date_gmt":"2013-03-21T16:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4015"},"modified":"2018-10-17T16:28:35","modified_gmt":"2018-10-17T19:28:35","slug":"dedos-de-prosa-iii-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-9\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Pedro Costa Reis<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_4021\" aria-describedby=\"caption-attachment-4021\" style=\"width: 391px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-4021\" title=\"Tha\u00eds Arcangelo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA3.jpg 391w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/INTERNA3-213x300.jpg 213w\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4021\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Tha\u00eds Arcangelo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desejo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ave fugidia, eu a vejo de longe, na extens\u00e3o g\u00e9lida, sobre as montanhas. Minha tribo a chama de Desejo, mas n\u00e3o tentarei explicar por qu\u00ea. Tente voc\u00ea, meu leitor, descobrir com o arrastar dos anos como montar essa palavra com o quebra-cabe\u00e7a de pe\u00e7as que somem ao toque. Ela voava, chegava at\u00e9 a ser pretensiosa. Olhava para mim vez ou outra, podia jurar. Mas aterrissou na neve, bem pr\u00f3xima da minha armadilha. Mas n\u00e3o guardo tantas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ilus\u00f3ria, pode muitas vezes dissuadir-nos de sua presen\u00e7a, mesmo a quem tem olhos fixos nela, como, no momento, eu. Salto do meu cavalo bem longe de onde ela est\u00e1, s\u00f3 para ter uma vis\u00e3o melhor da minha presa. Ajoelho-me lentamente enquanto ela lentamente perambula nas patas \u00e0 procura de alimento. Bem pr\u00f3xima. Quase l\u00e1. Queria saber passar a sensa\u00e7\u00e3o do suor estacionando no meio do caminho do meu rosto, a fim de n\u00e3o atrapalhar o acontecimento. Isso se chama concentra\u00e7\u00e3o. Mas vejam, meus leitores, ela parou, me olhou com vista antiga e zombeteira, depositou um bicho qualquer em cima da minha armadilha, cuja rea\u00e7\u00e3o foi de um estrondoso estalar de ferro e madeira, jogando neve para todos os lados, fazendo subir uma fuma\u00e7a branca e espessa que despistou meu olhar da fuga do Desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se pensam que estou frustrado, \u00e9 por que realmente n\u00e3o conhecem o sentimento pelo qual nomeamos aquele animal. Saberiam a carne magra e escassa que ela tem, quando vista de perto ou tocada, e saberiam que n\u00e3o a ca\u00e7amos por alimento ou sustento. Ela passa por voc\u00ea muito mais sorrateiramente do que para n\u00f3s, posto que sabemos que a incerteza \u00e9 um dos tra\u00e7os mais fortes dessa ave. Mas ela passa por voc\u00ea, tenha certeza, pelo menos disso. Chego at\u00e9 a imaginar que, se me virasse, ela estaria \u00e0 janela me espreitando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem ela, meu amigo, tudo \u00e9 mais sofrido. At\u00e9 essa escrita. Penso agora: e se ela me espreitasse no espelho feito das palavras no papel? E se pousa no v\u00e1cuo entre os verbos? Talvez se tentasse descrever esta ave para voc\u00ea, conseguisse captur\u00e1-la, ao menos por aqui, pelo papel. Mas a ave \u00e9 feita de caos, e as palavras pesam. O papel n\u00e3o a suportaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mosca Diuturna<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esfreguei os olhos e balancei a cabe\u00e7a com rudeza de um lado para o outro, e franzi o cenho por conta da imensa luminosidade. Estava em um amplo areal branco infind\u00e1vel, completamente desorientado, e tirei os sapatos para poder avan\u00e7ar um pouco. Lembrei que estava de rel\u00f3gio em pulso e tamb\u00e9m o retirei. Senti debaixo dos meus p\u00e9s aquela areia fina como pequenas lascas de vidro rasgando meu andar em frente, um andar fluido e quase impercept\u00edvel, o que me fez permanecer na d\u00favida se andava ou estaria somente imaginando o meu andar. Meu del\u00edrio come\u00e7ou quando eu vi tudo se modificar a cada passo, o firmamento mut\u00e1vel me trazendo imagens bel\u00edssimas medonhas felizes suicidas at\u00e9 eu quase cair de um precip\u00edcio: o final do meu terreno, e sem for\u00e7as n\u00e3o conseguia retornar ao ponto de onde comecei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daquele limite de terra branca tive outra vis\u00e3o: era um abismo cujo fim n\u00e3o sabia distinguir se era o fim ou o come\u00e7o do fim, pois tamb\u00e9m era p\u00e1lido como o areal. Mas, proeminente daquele cen\u00e1rio pac\u00edfico, ao longe,\u00a0 elevava-se uma montanha, e seu cume terminava na linha de minha vis\u00e3o paralisada. No topo desse cume, pude ver que havia uma sereia em seu topo, e olhava para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu rosto era brilhante, parecia forjado em sil\u00edcio queimado, e seus cabelos esvoa\u00e7avam para o alto por conta de um vento frequente e forte que vinha da respira\u00e7\u00e3o daquele monte p\u00e1lido e enorme \u2013 teias brancas brincavam em sua cabe\u00e7a, se tecendo por si mesmas, em meio ao canto tremeluzente daquela voz et\u00e9rea. Queriam se tecer para mim, mosca diuturna e oposta da vig\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanta saudade senti quando reconheci-me naquele monstro, e parecia que meus p\u00e9s tinham se dilu\u00eddo no p\u00f3 de nuvem. Poderia at\u00e9 tentar avan\u00e7ar. O fim, ou o come\u00e7o do fim, poderia tamb\u00e9m ser o come\u00e7o, e poderia ousar pisar imaginando-o nele um prolongamento do terreno. Desvencilhei meu p\u00e9 direito e toquei com a ponta do p\u00e9 o que poderia ser um vazio, e uma pequena s\u00e9rie de ondula\u00e7\u00f5es circulares percorreram velozmente o espa\u00e7o entre meu cume e o cume da sereia com rosto de espelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o padr\u00e3o circular tocou o iceberg a minha frente, ele estremeceu e parecia tamb\u00e9m ser feito de areia branca, e a movimenta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas poderia levemente destruir e afogar meu objetivo. N\u00e3o mais tentei ousar percorrer a plan\u00edcie invis\u00edvel, pois destronando aquele ser de seu espa\u00e7o, seu por direito e meta, n\u00e3o poderia mais voltar a me reconhecer.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Pedro Costa Reis<\/strong>, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, \u00e0 capital, iniciou sua produ\u00e7\u00e3o com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lan\u00e7ou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal <a href=\" http:\/\/www.cronopios.com.br\/site\/default.asp\"><strong>Cron\u00f3pios<\/strong><\/a>, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cron\u00f3pios e lan\u00e7ada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fant\u00e1stica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dedos singulares de Pedro Costa Reis em dois contos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15181,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[998,2534],"tags":[41,284,1038,1037],"class_list":["post-4015","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-77a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-dedos-de-prosa","tag-desejo","tag-mosca-diuturna","tag-pedro-costa-reis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4015"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4015\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15182,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4015\/revisions\/15182"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15181"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}