{"id":4307,"date":"2013-04-22T17:02:33","date_gmt":"2013-04-22T20:02:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4307"},"modified":"2018-10-18T09:10:54","modified_gmt":"2018-10-18T12:10:54","slug":"dedos-de-prosa-iii-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-10\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Vera Helena Rossi<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15202\" aria-describedby=\"caption-attachment-15202\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15202 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/interna-1.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/interna-1.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/interna-1-300x131.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15202\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Rosa De Luca<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REMEDIADO EST\u00c1<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPharmakon, o amor \u00e9 pharmakon.\u201d Assim se apresentou \u00e0 garota e \u00e0 sua lata vazia de cerveja. A garota n\u00e3o era bonita ou feia, gorda ou magra, mas se fechava em uma indefin\u00edvel vontade quando conduzia a lata de cerveja \u00e0 boca, o que de imediato o conquistara. Percebera-a no intervalo breve entre o quarto e quinto gole longo de vodka. Ela bebia-se sozinha no canto mais escuro do bar, meio em p\u00e9, meio apoiada na parede. Os quadris se sustentavam largos demais se comparados ao resto, t\u00e3o estreito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pharmakon, o amor \u00e9 pharmakon. \u2014 continuou, com uma pron\u00fancia desastrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o sabia grego, achou-o inteligente. Ele conhecia apenas aquela palavra, com a qual se bastava, porquanto o encerrava em rem\u00e9dio e veneno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pois \u00e9, \u00e9 pharmakon \u2014 se insistiu, a se ajeitar no tom de voz mais inteligente, acreditava \u2014 \u00c9 veneno, ao mesmo tempo que \u00e9 rem\u00e9dio. \u00c9 rem\u00e9dio, ao mesmo tempo que \u00e9 veneno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, ela emitiu algum som:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que bonito. De quem \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Henrique Almeida. Prazer. E voc\u00ea, qual \u00e9 sua gra\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu, ah, Helena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 De Troia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela riu, com a certeza de que conversava com algu\u00e9m inteligente, ou ao menos, n\u00e3o t\u00e3o est\u00fapido. Procurou se acertar nas palavras do outro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Apenas Helena. Henrique, hum, hum, bonito nome. \u2014 inclinou a cabe\u00e7a e arregalou os olhos e o sorriso \u2014 Mas n\u00e3o concordo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Com o qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que amor \u00e9 isso a\u00ed que voc\u00ea disse. Como \u00e9 que \u00e9 mesmo? Farma&#8230; farma&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pharmakon \u2014 atropelou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Isso. Pharmakon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E o que \u00e9 amor pra voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ah, \u00e9&#8230; Hum&#8230;\u00e9. \u2014 tremeu o l\u00e1bio superior com um suspiro involunt\u00e1rio \u2014 Ora, sei l\u00e1 eu o que \u00e9 amor pra mim. S\u00f3 sei que \u00e9 bom, que \u00e9 puro. Imagina s\u00f3, veneno, t\u00e1 bom, ent\u00e3o. \u2014 balan\u00e7ou os ombros e jogou longe a latinha vazia. Voltou-se a si e ao seu amor puro. \u2014 S\u00f3 sei que falta amor no mundo, isso sim. As pessoas j\u00e1 n\u00e3o amam mais. Acham que amam. Mas o amor \u00e9 puro. \u2014 cruzou os bra\u00e7os. \u2014 e bom. \u2014 se completou, feliz com a defini\u00e7\u00e3o exata do que n\u00e3o se sabia se definir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 As pessoas precisam amar mais, isso sim. Da\u00ed sim, o mundo seria outro. \u2014 completou-se, j\u00e1 boa e pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sinceramente. N\u00e3o entendo essa mania de querer sublimar o amor. O amor \u00e9 bom e ruim. Como o homem, bom e ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o. N\u00e3o concordo. \u2014 riu nervosa. \u2014 O amor \u00e9 bem melhor do que o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como algo sentido pelo homem pode ser melhor que ele? N\u00e3o. N\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 errada. N\u00e3o d\u00e1 pra achar que o que sentimos \u00e9 melhor do que n\u00f3s. Somos bons e ruins, amb\u00edguos na maioria das vezes, exatamente iguais ao que sentimos. \u2014 respirou apressado, vitorioso pelo argumento perspicaz dito assim, t\u00e3o displicente, em um bar ordin\u00e1rio. \u2014 Essa mania de querer sublimar o amor. N\u00e3o entendo. \u2014 se repetiu na frase de efeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois se desentendiam. N\u00e3o sentiam o mesmo amor. Ela se apoiou no quadril largo, enquanto ele retornou ao sexto gole da vodka. Pouco se ouvia do sil\u00eancio de ambos, preenchido por fragmentos de conversas e risadas entrecortadas. Por fim, ela arriscou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas &#8230; e o amor de m\u00e3e? Quer coisa mais sublime do que amor de m\u00e3e?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Minha m\u00e3e me expulsou de casa quando tinha quinze anos, por causa do meu padrasto, que n\u00e3o gostava de mim. Isso por acaso \u00e9 amor sublime?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 T\u00e1 bom. T\u00e1 bom.\u00a0 Voc\u00ea venceu. O amor tamb\u00e9m \u00e9 veneno. \u2014 j\u00e1 n\u00e3o aguentava aquela discuss\u00e3o. Tampouco o suportava. Algo nele a lembrava de que tamb\u00e9m n\u00e3o era pura. Nem boa. \u2014 Vou comprar mais cerveja. \u2014 tentou se esquivar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Permita-me pagar uma pra voc\u00ea. Fa\u00e7o quest\u00e3o. \u2014 persistiu o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andavam os dois lado a lado, olhos apontados para frente ou para o ch\u00e3o. Mais afoito, ele desafiou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea nunca sofreu por amor, acertei?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como? \u2013 ela se assustou<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea. \u00c9 muito inocente, acho que nunca sofreu. \u2014 voltou os olhos para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela quis lhe dizer que se casara aos dezoito anos. Mas se o fizesse, tamb\u00e9m teria que revelar que j\u00e1 era vi\u00fava, aos vinte e tr\u00eas. Preferiu concordar, com o corpo solto, que n\u00e3o, nunca sofrera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sabia! Um dia, Helena, voc\u00ea ainda vai concordar realmente comigo. Ainda vai descobrir que o amor \u00e9 pharmakon. E vai se lembrar de mim. \u2014 encheu as \u00faltimas palavras de ar e de orgulho, um orgulho quase d\u00e9bil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegaram ao balc\u00e3o, mais cansados. Ele virou-se ao amontoado de pessoas em frente ao balc\u00e3o e imiscui-se nos muitos bra\u00e7os estendidos com a comanda na m\u00e3o. Ela se largou no \u00fanico banco vago que encontrara pr\u00f3ximo a eles. Cruzou as pernas, mais contrariada. N\u00e3o queria cerveja ou qualquer outra discuss\u00e3o idiota sobre o amor. O que sabia ele do amor, afinal? Que chato! Mas ela n\u00e3o poderia lhe falar do sofrimento. O chato n\u00e3o estaria pronto. Ningu\u00e9m estaria pronto para ouvir o que ela ocultava sob o movimento largo dos quadris. Se bem que, l\u00e1 no fundo, ela desejava desvendar seu segredo ao chato. Queria ver sua cara quando lhe dissesse tudo. Como queria! Seria divertido v\u00ea-lo prostrado ao saber que ela j\u00e1 sofrera de amor sim senhor. Que j\u00e1 amara o homem mais bonito que algu\u00e9m pode conhecer. Que j\u00e1 largara tudo por causa deste homem. Rangeu os dentes de raiva. Um homem t\u00e3o bonito. Como se permitia ser t\u00e3o bonito? pensou, enquanto aguardava sem vontade a cerveja e o chato servidos pela mesma m\u00e3o. A raiva atingia algum ponto entre o peito e o ventre. Imaginou a cara do chato quando soubesse de tudo e soltou um ru\u00eddo baixo. Continuaria o chato a ser inteligente se soubesse que ela, naquela noite, ferveu a \u00e1gua? Sim, que ela, naquela noite, deixou que a \u00e1gua quase evaporasse de t\u00e3o quente e a jogou no ouvido dele, sem que ele tivesse tempo a pedir perd\u00e3o. N\u00e3o, palavra grega nenhuma definiria aquela noite como ela o definira repetidas vezes a si mesma. O que pensaria o chato se soubesse de tudo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sua cerveja! Est\u00e1 bem? Parece tensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu corpo est\u00e1 um pouco dolorido hoje. Mas vai passar. \u2014 segurou a lata gelada pelo guardanapo que aos poucos se esfarelava e tartamudeou \u2014 Tenho uma coisa pra te perguntar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Todo ouvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 verdade aquela hist\u00f3ria da sua m\u00e3e e do padrasto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele engasgou-se constrangido e segredou, quase mudo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Vera Helena Saad Rossi <\/strong>\u00e9 jornalista, mestre em Literatura e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria pela PUC \u2013 SP e doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica tamb\u00e9m pela PUC \u2013 SP. Venceu o concurso de contos SESC On-line 1997 e foi finalista, com o romance \u201cEstamos todos bem\u201d, do IV Pr\u00eamio da Jovem Literatura Latino-Americana. Recentemente, publicou o livro de contos &#8220;Mind the gap&#8221; (Editora Patu\u00e1))<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A particularidade do amor na prosa de Vera Helena Rossi<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1073,2534],"tags":[81,41,1112,629],"class_list":["post-4307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-78a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-remediado-esta","tag-vera-helena-rossi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4307"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15204,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4307\/revisions\/15204"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}