{"id":4363,"date":"2013-04-23T09:31:06","date_gmt":"2013-04-23T12:31:06","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4363"},"modified":"2013-04-23T14:34:23","modified_gmt":"2013-04-23T17:34:23","slug":"dedos-de-prosa-ii-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-12\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Anderson Fonseca<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4365\" aria-describedby=\"caption-attachment-4365\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/INTERNA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4365\" title=\"Rosa De Luca\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/INTERNA6.jpg\" alt=\"\" width=\"530\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/INTERNA6.jpg 530w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/INTERNA6-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 530px) 100vw, 530px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4365\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Rosa De Luca<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O escritor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Antes de se estabelecer o equil\u00edbrio, o mundo real e o mundo ideal n\u00e3o se olhavam face a face<\/em>.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">O Zohar<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e9bil, est\u00fapido, soberbo, demon\u00edaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e \u00e0s leis; palavras sin\u00f4nimas ou de similitude clara que definem com a precis\u00e3o de um cirurgi\u00e3o meu <em>caracter<\/em>. \u00d3, como n\u00e3o ador\u00e1-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja \u00edndole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomea\u00e7\u00e3o adquirida por atos reprov\u00e1veis \u2013 louv\u00e1veis? N\u00e3o sei \u2013, no entanto, sinto-me um s\u00edmio no meio de homens, tentando em v\u00e3o, como eles, manter-se em p\u00e9.\u00a0 E ainda que busque desviar-me do meu <em>caracter<\/em>, a natureza impele-me a segui-lo. Sou ent\u00e3o, por isso, um mau <em>caracter<\/em>; inevitavelmente um <em>mau caracter<\/em>.\u00a0 Parafraseando o ap\u00f3stolo, vejo que vive nos meus membros outra lei.\u00a0 N\u00e3o me arrependo de s\u00ea-lo assim, mas admitindo a corrup\u00e7\u00e3o de meu esp\u00edrito, decidi criar um ser melhor que eu, algu\u00e9m cujas a\u00e7\u00f5es pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres poss\u00edveis imaginados por Deus, e o fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o&#8230; Antes do come\u00e7o, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu n\u00e3o saiba conceituar o bom. Determinei o seu prop\u00f3sito e as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia que permitiriam sua durabilidade como fic\u00e7\u00e3o. Pensei tal como um s\u00e1bio a liberdade desta fic\u00e7\u00e3o e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como tamb\u00e9m o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indiv\u00edduo. Procurei sua alma nos s\u00edmbolos, na geometria dos s\u00edmbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a fic\u00e7\u00e3o era melhor que o real. Era l\u00f3gico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir \u2013 noutras palavras, escapar a minha vil condi\u00e7\u00e3o. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento f\u00edsico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado \u00e0 superf\u00edcie, n\u00e3o saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espa\u00e7o o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equ\u00edvoco de minha parte, jamais uma exist\u00eancia ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Ao menos&#8230;\u00a0 Ap\u00f3s muito pensar, criei a fic\u00e7\u00e3o de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decis\u00e3o, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da a\u00e7\u00e3o, o que eu faria caso se&#8230; de um modo que na realidade n\u00e3o agiria, de\u00a0 forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evit\u00e1-los. Acreditei com muita f\u00e9 que sua exist\u00eancia me curaria. Mas a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem por finalidade curar o real, n\u00e3o pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a f\u00e9 nela n\u00e3o ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei a mergulhar em seu s\u00edmbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia come\u00e7asse, antes que o outro dia come\u00e7asse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a fic\u00e7\u00e3o era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da fic\u00e7\u00e3o eu percebi ser poss\u00edvel evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcan\u00e7ou o status de sublime, tudo porque a fic\u00e7\u00e3o havia me dito como seria se.\u00a0 Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, contudo ela jamais se converteria a mim. Ent\u00e3o, ainda que sua exist\u00eancia me permitisse ser outro de mim mesmo, era imposs\u00edvel ela se tornar eu. Havia um limite intranspon\u00edvel. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas ap\u00f3s t\u00ea-la criado, era inevit\u00e1vel n\u00e3o pensar o quanto em tudo estava a sua ess\u00eancia. Quisera s\u00ea-la, mas tornar-me ela, como j\u00e1 disse, era imposs\u00edvel. Eu procurei convencer a fic\u00e7\u00e3o de se tornar real, eu busquei de todo modo arranc\u00e1-la daquelas folhas e outorgar-lhe a d\u00e1diva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecus\u00e1vel, a qual qualquer outra fic\u00e7\u00e3o aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fic\u00e7\u00e3o rejeitou seu autor \u2013 e, ainda que esta rejei\u00e7\u00e3o fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim.\u00a0 A fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o dependia mais do seu autor. Depois disso, n\u00e3o houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia cham\u00e1-la milagre. Era como estar diante do quadro, <em>Reprodu\u00e7\u00e3o proibida<\/em>, de Magritte, por mais que olhe voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava \u00e0s 6hs: o jornal \u2013 mas, depois de conversarmos, eu era for\u00e7ado a rasg\u00e1-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando \u00e0 noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma n\u00eania, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miser\u00e1vel? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome&#8230; fome da fic\u00e7\u00e3o. Pensei no rosto que n\u00e3o via&#8230; tornou-se necess\u00e1rio for\u00e7\u00e1-la a mostrar a face.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princ\u00edpio. Coloquei uma p\u00e1gina em branco em frente \u00e0 p\u00e1gina onde est\u00e1 o \u00faltimo par\u00e1grafo, e aconteceu o que imaginei: a fic\u00e7\u00e3o olhou-se a si mesma no vazio da outra p\u00e1gina. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novamente a fic\u00e7\u00e3o me pertencia&#8230; me pertence, entretanto, at\u00e9 o momento em que cansado rasgue suas p\u00e1ginas ou at\u00e9 a hora em que ela declare minha morte.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Anderson Fonseca <\/strong><\/em><em>formou-se em Letras e Literaturas de L\u00edngua Portuguesa pela Universidade Est\u00e1cio de S\u00e1 (RJ). \u00c9 escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio. Publicou os livros Alucina\u00e7\u00e3o (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contempor\u00e2neo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil \/ Portugal, edi\u00e7\u00e3o impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor cr\u00edtico e revisor de editoras e ag\u00eancias liter\u00e1rias)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conto de Anderson Fonseca, o embate entre criador e criatura <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4364,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1073,2534],"tags":[1137,251,1025,81,41,860,277,1136,149,1138],"class_list":["post-4363","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-78a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-alucinacao","tag-anderson-fonseca","tag-confraria-do-vento","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-editora-oito-e-meio","tag-notas-de-pensamentos-incomuns","tag-o-escritor","tag-prosa","tag-revista-confraria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4363"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4488,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363\/revisions\/4488"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4364"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}