{"id":4673,"date":"2013-05-23T15:48:37","date_gmt":"2013-05-23T18:48:37","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4673"},"modified":"2013-05-23T22:43:17","modified_gmt":"2013-05-24T01:43:17","slug":"dedos-de-prosa-ii-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-13\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Jacques Fux<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_4674\" aria-describedby=\"caption-attachment-4674\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/INTERNA4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4674\" title=\"B\u00e1rbara Damas\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/INTERNA4.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/INTERNA4.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/INTERNA4-300x216.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4674\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: B\u00e1rbara Damas<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A Jewish blind date <\/em><\/strong><strong>: o fracasso<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro encontro \u00e0s escuras (que na verdade foi muito \u00e0s claras!) est\u00e1 bem descrito nas p\u00e1ginas iniciais do livro inaugural. Ad\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu pr\u00f3prio vazio no Para\u00edso. Deus, que tamb\u00e9m vivia eternamente isolado, embora fontes ap\u00f3crifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma fam\u00edlia, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos \u00e9 que Ad\u00e3o conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa hist\u00f3ria rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita fic\u00e7\u00e3o, podemos dizer que esse <em>blind date<\/em> foi um sucesso! Essa perip\u00e9cia art\u00edstica teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde ent\u00e3o, vem (des)unindo incont\u00e1veis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro f\u00e1lico do pacto firmado entre Abra\u00e3o e o Divino <em>Matchmaker<\/em>, n\u00e3o poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros \u00e0s escuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes \u00e9ramos macacos desnudos polig\u00e2micos, segundo a fic\u00e7\u00e3o evolucionista n\u00e3o adotada aqui, e hoje, ap\u00f3s um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monog\u00e2micos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene atrav\u00e9s do folcl\u00f3rico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimila\u00e7\u00e3o: os encontros \u00e0s escuras continuam a todo vapor, por\u00e9m com o aux\u00edlio contempor\u00e2neo da tecnologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A network judaica \u00e9 muito forte. Informa\u00e7\u00f5es circulam constantemente entre m\u00e3es hist\u00e9ricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Ap\u00f3s ter namorado anos com n\u00e3o judias, descobriram que estava dispon\u00edvel um macho alfa judeu. Recebi algumas indica\u00e7\u00f5es, recomenda\u00e7\u00f5es, sugest\u00f5es, declara\u00e7\u00f5es e intima\u00e7\u00f5es de diversas judias prontas para reprodu\u00e7\u00e3o. Entrei em contato com v\u00e1rias, conheci muitas, relacionei-me por fra\u00e7\u00f5es m\u00ednimas e copulat\u00f3rias de tempo com algumas, mas que n\u00e3o foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial b\u00edblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via <em>Facebook<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas hist\u00f3rias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e tamb\u00e9m tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esbo\u00e7ou grande empolga\u00e7\u00e3o em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser t\u00e3o qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um sal\u00e1rio que desmerece qualquer outra ocupa\u00e7\u00e3o (exceto a dos pol\u00edticos, corruptos e repugnantes) al\u00e9m de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar \u00e0 arte, \u00e0 literatura \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Por\u00e9m, conhecendo todas as hist\u00f3rias e poemas de amor, n\u00e3o poderia deixar de tentar conquist\u00e1-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro \u00e0s claras que foi aceito sem muita exalta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avi\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencher\u00edamos o nosso \u00c9den com muitos descendentes <em>melequentos<\/em> judeus? Ela seria minha uma grande <em>merchante<\/em> de filhos e de arte? Marcamos o nosso <em>rendez-vous<\/em> em um barzinho bo\u00eamio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ningu\u00e9m saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos hist\u00f3ricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspira\u00e7\u00e3o para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperan\u00e7as e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdi\u00e7ando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal po\u00e9tico, cultural e l\u00fadico. Contei e cantei hist\u00f3rias, m\u00fasicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros \u00e0s escuras que deram certo e que prosperam por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es at\u00e9 chegar naquela fat\u00eddica mesa de bar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar \u00e0 vida real, contava-me senten\u00e7as e julgamentos realizados. Atrelava-se \u00e0 praticidade e a utilidade de sua profiss\u00e3o. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores n\u00e3o possu\u00edam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escurid\u00e3o e imaginar as <em>redondices<\/em> <em>drummondianas<\/em> de sua divertida e saborosa n\u00e1dega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo ad\u00e2mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuei tentando. A magistrada, ap\u00f3s muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada ju\u00edza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminar\u00e1 na troca de l\u00edquidos, exclamou com muito des\u00e2nimo: \u201cQue legal. Voc\u00ea sabe um tanto de coisa in\u00fatil!\u201d. Refleti bastante. Que declara\u00e7\u00e3o! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a quest\u00e3o art\u00edstica, al\u00e9m de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu cora\u00e7\u00e3o. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: \u201call art is quite useless\u201d e retomei a inutilidade das minhas palavras e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais um dos muitos <em>Jewish blind dates<\/em> se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma hist\u00f3ria ap\u00f3crifa dos casais que n\u00e3o se uniram. Se o primeiro encontro \u00e0s escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino <em>Matchmaker<\/em>, foi um sucesso, o \u00faltimo, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, n\u00e3o teve \u00eaxito algum. Acho que vou recorrer \u00e0 praticidade jur\u00eddica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Jacques Fux <\/strong>\u00e9 Pesquisador Visitante na Universidade de Harvard. Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e <\/em><em>Docteur em Langue, Litt\u00e9rature et Civilisation Fran\u00e7aises<\/em><em> pela Universidade de Lille 3. Autor dos livros Literatura e Matem\u00e1tica: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Tradi\u00e7\u00e3o Planalto, 2011) e Antiterapias (Scriptum, 2012) <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A roda viva dos desencontros na prosa de Jacques Fux<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4674,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1162,2534],"tags":[1218,1221,81,41,1219,1217,756,1220],"class_list":["post-4673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-79a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-jewish-blind-date-o-fracasso","tag-antiterapias","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-desencontros","tag-jacques-fux","tag-judeus","tag-literatura-e-matematica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4673"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4784,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4673\/revisions\/4784"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4674"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}