{"id":4848,"date":"2013-06-26T08:50:45","date_gmt":"2013-06-26T11:50:45","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4848"},"modified":"2013-07-28T11:15:07","modified_gmt":"2013-07-28T14:15:07","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-15\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ergue-se um caminho especial quando um autor abra\u00e7a as quest\u00f5es de seu tempo. A impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que sua obra ganha uma dimens\u00e3o algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e pr\u00e1tico de um processo hist\u00f3rico que se constr\u00f3i no dia a dia. Essa capacidade de observa\u00e7\u00e3o da realidade a servi\u00e7o dum exerc\u00edcio liter\u00e1rio adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes n\u00e3o se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demag\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre n\u00f3s, \u00e9 verdadeiro achado descobrir quem o fa\u00e7a com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como <a href=\"http:\/\/barcacas.blogspot.com.br\/ \"><strong>Rita Santana<\/strong><\/a>, temos a convic\u00e7\u00e3o de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente est\u00e9ticas e assinala olhares bem l\u00facidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na constru\u00e7\u00e3o de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu l\u00edrico canto por sobre o novelo delicado da exist\u00eancia, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em n\u00f3s. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panflet\u00e1rio que o valha, a poeta, atriz e tamb\u00e9m professora ambienta seus cen\u00e1rios tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A condi\u00e7\u00e3o de mulher aliada \u00e0 de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilh\u00e9us, devotou aten\u00e7\u00f5es \u00e0s quest\u00f5es que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como \u201cTratado das Veias\u201d (As Letras da Bahia \u2013 2006) e \u201cAlforrias\u201d (Editus \u2013 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo liter\u00e1rio. Sua estreia em livro se deu com os contos de \u201cTramela\u201d (Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Pr\u00eamio Braskem de Cultura e Arte \u2013 Literatura, em 2004. \u00a0Nessa entrevista, Rita d\u00e1 um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a for\u00e7a que sua vis\u00e3o feminina de mundo empresta \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o de suas palavras. \u00c9 ler para crer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_4850\" aria-describedby=\"caption-attachment-4850\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4850\" title=\"Rita Santana\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA-I.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA-I-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4850\" class=\"wp-caption-text\">Rita Santana \/ Foto: Edgard Navarro<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu caminhar po\u00e9tico, tanto em &#8220;Alforrias&#8221; quanto em &#8220;Tratado das Veias&#8221;, assinala um olhar carregado pelas marcas da exist\u00eancia. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e tra\u00e7os sens\u00edveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos ati\u00e7am os sentidos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>A exist\u00eancia atravessa as minhas preocupa\u00e7\u00f5es desde os prim\u00f3rdios. Adolescente, ainda, decorei <em>Essa Negra<\/em> <em>Ful\u00f4<\/em> de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A den\u00fancia e o teor de resist\u00eancia j\u00e1 mexiam com a consci\u00eancia precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por l\u00e1 e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em <em>O Guardador<\/em><em> de Rebanhos<\/em>. No mesmo per\u00edodo, Neruda &#8211; eu tinha 12 anos \u2013 estava comigo. <em>Cem Sonetos de Amor<\/em> foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas l\u00edricas muito profundas. Ainda nesse per\u00edodo, <em>D\u00f4ra Doralina<\/em>, de Rachel de Queiroz, fez uma revolu\u00e7\u00e3o grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representa\u00e7\u00e3o feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subvers\u00f5es. L\u00e1, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, al\u00e9m da demoli\u00e7\u00e3o completa da fam\u00edlia. Tudo muito revolucion\u00e1rio para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia.\u00a0 Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequa\u00e7\u00e3o, medos, ang\u00fastias e preocupa\u00e7\u00f5es, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a mat\u00e9ria-prima da minha literatura. <em>O<\/em> <em>Segundo Sexo<\/em>, de Simone de Beauvoir, j\u00e1 estava em minhas m\u00e3os desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e j\u00e1 manifestava minhas insatisfa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao existir como mulher nesse mundo, posto que j\u00e1 havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo g\u00eanero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista tamb\u00e9m j\u00e1 se debatiam dentro de mim em todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, acad\u00eamicas, amorosas, art\u00edsticas, familiares. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o ser afetada por essas quest\u00f5es. A minha casa foi o primeiro espa\u00e7o de constata\u00e7\u00f5es e de contesta\u00e7\u00f5es. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necess\u00e1rio para que eu assumisse o meu posicionamento pol\u00edtico e po\u00e9tico no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 repress\u00e3o tamb\u00e9m na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa viol\u00eancia. Em <em>Tratado das Veias<\/em>, por conseguinte, por ser um livro que obedece \u2013 principalmente nos primeiros momentos do processo criativo &#8211; ao fluxo de consci\u00eancia, esses questionamentos existenciais s\u00e3o mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que fa\u00e7o tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas p\u00e1ginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo er\u00f3tico e pela mulher pol\u00edtica em que me transformei. Ot\u00e1vio Paz, em <em>Amor e Erotismo<\/em>, diz que \u201c<em>a rela\u00e7\u00e3o entre erotismo e poesia \u00e9 tal que se pode dizer, sem afeta\u00e7\u00e3o, que o primeiro \u00e9 uma po\u00e9tica corporal e a segunda, uma er\u00f3tica verbal<\/em>\u201d. A minha linguagem po\u00e9tica busca exatamente esse di\u00e1logo entre um corpo e uma l\u00edngua completamente libertos, cujos s\u00edmbolos s\u00e3o transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combina\u00e7\u00f5es. O prazer sexual sempre foi uma forma de resist\u00eancia, alvo de persegui\u00e7\u00f5es e ele est\u00e1 atrelado ao grande tema dos meus poemas que \u00e9 o Amor. O Amor \u00e9 imprescind\u00edvel a minha escrita porque tamb\u00e9m sou rom\u00e2ntica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na constru\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia e da liberta\u00e7\u00e3o feminina \u2013 muitas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia \u00e9 o espa\u00e7o da rebeli\u00e3o da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao l\u00f3gico da l\u00edngua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinest\u00e9sicos da exist\u00eancia. Sou aquela que v\u00ea no s\u00edmbolo o exerc\u00edcio de uma experi\u00eancia on\u00edrica, musical. Essa marca herdei tamb\u00e9m de Cruz e Souza: <em>vozes veladas veludosas vozes<\/em>, cuja impress\u00e3o sempre me perseguiu. Sou &#8211; tamb\u00e9m eu &#8211; uma Emparedada. A poesia \u00e9 o espa\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o dos sentidos e as alitera\u00e7\u00f5es, cores, odores e os processos metaf\u00f3ricos me perseguem. Quando atrelo o po\u00e9tico ao er\u00f3tico, a feiti\u00e7aria inunda o espa\u00e7o do poema e da exist\u00eancia. Em <em>O Arco<\/em><em> e a Lira<\/em>, Ot\u00e1vio Paz j\u00e1 tocava na experi\u00eancia da litania. Esse eb\u00f3, essa h\u00f3stia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num \u00fanico c\u00e2ntico. O poema \u00e9 o lugar onde carnes e \u00eaxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser liberta\u00e7\u00e3o e a poesia, alforria. <em>Alforrias<\/em> \u00e9 o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea trabalha a quest\u00e3o do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contesta\u00e7\u00e3o a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama aten\u00e7\u00e3o mesmo \u00e9 o fato de seus versos n\u00e3o reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos t\u00e3o carregados de contradi\u00e7\u00f5es e alguns retrocessos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>O amor \u00e9 uma grande armadilha! A nossa forma\u00e7\u00e3o folhetinesca \u00e9 deformadora. O amor rom\u00e2ntico &#8211; cujas ra\u00edzes est\u00e3o no amor cort\u00eas do s\u00e9culo XII &#8211; ainda hoje ronda o nosso imagin\u00e1rio. H\u00e1 um bombardeio social de f\u00f3rmulas e idealiza\u00e7\u00f5es amorosas dificilmente pratic\u00e1veis na vida real, mas, muitas de n\u00f3s, alimentamos essa ilus\u00e3o, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida \u00e9 muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha \u2013 j\u00e1 que a negocia\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 poss\u00edvel &#8211; o seu pensamento e as suas decis\u00f5es diante do Outro. A primeira imposi\u00e7\u00e3o que se estabelece \u00e9 a da liberdade e ela nem sempre \u00e9 azul. A liberdade \u00e9 vermelha, feita com l\u00e1grimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cis\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos pr\u00f3prios desejos s\u00e3o incompat\u00edveis \u2013 em alguns relacionamentos \u2013 com as expectativas masculinas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa sociedade \u00e9 profundamente machista. At\u00e9 num barzinho, observa-se a insist\u00eancia de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocu\u00e7\u00e3o das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornogr\u00e1fico s\u00e3o t\u00e3o frequentes que j\u00e1 fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patol\u00f3gico de agredir \u2013 verbal e fisicamente &#8211; mulheres sem quaisquer cerim\u00f4nias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lan\u00e7ando palavras obscenas, atrapalhando o tr\u00e2nsito e tamb\u00e9m o transitar do respeito e da liberdade. Da\u00ed a import\u00e2ncia real da Educa\u00e7\u00e3o, da introdu\u00e7\u00e3o dos Estudos de G\u00eanero na forma\u00e7\u00e3o das educadoras, da sua valoriza\u00e7\u00e3o salarial que, ainda hoje, \u00e9 pr\u00e1tica discursiva circunstancial e eleitoreira. Pol\u00edticas p\u00fablicas mais efetivas para a liberta\u00e7\u00e3o financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia f\u00edsica e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher que ocupa os espa\u00e7os p\u00fablicos enfrenta, no territ\u00f3rio amoroso, a dif\u00edcil arte do convencimento, da l\u00f3gica, da dial\u00e9tica constante, do ci\u00fame e das negocia\u00e7\u00f5es. No terreno privado, o controle \u00e9 muitas vezes masculino, principalmente quando h\u00e1 dom\u00ednio financeiro. O amor n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. \u00c9 um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais.\u00a0 \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito \u00e1vidas, sequiosas de liberdade, de espa\u00e7o, de reflex\u00e3o e de felicidade. O homem ainda n\u00e3o consegue encarar o discurso da mulher, pois &#8211; segundo Maria Rita Kell \u2013 a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor rom\u00e2ntico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma s\u00e9rie de dificuldades e obst\u00e1culos na conviv\u00eancia, est\u00e3o determinadas a seguirem o projeto rom\u00e2ntico de felicidade. Essas s\u00e3o as consideradas felizes, plenas. S\u00f3 suas consci\u00eancias o saber\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A janela era o espa\u00e7o &#8211; no s\u00e9culo XIX &#8211; do \u00fanico di\u00e1logo entre o mundo privado e o p\u00fablico para a mulher. \u00c0 mulher era destinado o espa\u00e7o privado. J\u00e1 pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invas\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos, devido \u00e0 sua livre penetra\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os proibidos \u00e0s brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de alforria.\u00a0 Novas janelas s\u00e3o abertas hoje, mas desmontar, no nosso imagin\u00e1rio, essas constru\u00e7\u00f5es que j\u00e1 viraram ru\u00ednas \u00e9 muito dif\u00edcil, e n\u00e3o apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. \u00c9 tamb\u00e9m complexo para n\u00f3s \u2013 mulheres &#8211; que observamos com lucidez o fen\u00f4meno amoroso. Raciocinar o amor \u00e9 necessariamente desconstru\u00ed-lo, destitu\u00ed-lo da sua edifica\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica e come\u00e7ar a reinventar uma vida longe dos velhos clich\u00eas. O Amor est\u00e1 ruindo para muitos. Restar\u00e1 o desejo de realiza\u00e7\u00e3o com o Outro, mas n\u00e3o no outro, certamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estrat\u00e9gia de resist\u00eancia da minha escrita \u00e9 provocar reflex\u00f5es e expor que tamb\u00e9m somos absolutamente humanas, sexuais, er\u00f3ticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necess\u00e1rio. \u00c9 preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflex\u00e3o, de an\u00e1lise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convic\u00e7\u00f5es, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. V\u00ea-se em estat\u00edsticas o \u00edndice de div\u00f3rcios entre casais em que as mulheres galgam n\u00edveis acad\u00eamicos mais elevados. O estabelecido \u00e9 que a mulher ocupe o papel passivo daquela que est\u00e1 em casa para apoiar a aus\u00eancia do marido, enquanto ele cresce. Apoi\u00e1-lo na volta ao lar diante da sua trai\u00e7\u00e3o, apoi\u00e1-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto n\u00e3o \u00e9 aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisi\u00e7\u00f5es medievais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experi\u00eancia amorosa \u00e9 muito pessoal e cheia de conflitos, contradi\u00e7\u00f5es, paradoxos de toda ordem. O amor \u00e9 diverso e o dif\u00edcil \u00e9 encontrar algu\u00e9m que queira experiment\u00e1-lo da mesma forma que voc\u00ea, afinal cada um de n\u00f3s \u00e9 t\u00e3o cheio de especificidades, idiossincrasias. \u00c9 preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta \u2013 e isso \u00e0s vezes leva d\u00e9cadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato \u00e9 que nos apaixonamos! E a armadilha tamb\u00e9m pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contr\u00e1rio: \u201c<em>Aos dem\u00f4nios o cacete dos homens demasiadamente homens!\u201d<\/em>. (Alforrias, 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua verve po\u00e9tica est\u00e1 impregnada do que voc\u00ea chama, em <em>Tratado das Veias<\/em>, de &#8220;eu s\u00e1fico&#8221;. \u00c9 imposs\u00edvel dissociar sua voz dessa marcante simbologia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>\u00c9 imposs\u00edvel! Sapho \u00e9 uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na hist\u00f3ria da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em <em>Tratado das Veias<\/em>. No poema Ci\u00fame, eu digo: \u201c<em>O que me resta \u00e9 entrar na roda e tergiversar\/Ou s\u00f3 versar, tocar minha lira\/E virar Safo de m\u00e1rmore na pra\u00e7a de Ilh\u00e9us,\/ Minha Lesbos abandonada.\u201d<\/em>\u00a0 Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: \u201c<em>s\u00e3o anjos cultos, sarc\u00e1sticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas s\u00e3o libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.\u201d <\/em>Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal &#8211; Ilh\u00e9us \u2013 h\u00e1, na pra\u00e7a J.J. Seabra, uma bel\u00edssima est\u00e1tua de Sapho que est\u00e1 l\u00e1 desde 1924, portanto, a sua imagem \u00e9 um \u00edcone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas s\u00e3o s\u00e1ficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos &#8211; inclusive da minha prosa &#8211; nessa busca por uma m\u00fasica invis\u00edvel, insond\u00e1vel que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em cita\u00e7\u00f5es, a sua lira me acompanha. \u00c9 \u00f3bvio que \u00e9 a minha lira! Lira negra, n\u00e3o aristocr\u00e1tica \u2013 mas com tons cl\u00e1ssicos &#8211; que se mescla \u00e0 heran\u00e7a dos meus ancestrais, \u00e0s suas cordas, \u00e0s suas dan\u00e7as, \u00e0s chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a di\u00e1spora, e que est\u00e1 no meu sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 a d\u00e9cima Musa proclamada por Plat\u00e3o. A sua insurg\u00eancia em tempos t\u00e3o remotos sempre me impressionou, apesar de n\u00e3o me sentir &#8211; em muitos aspectos da minha pr\u00e1tica cotidiana &#8211; uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconhe\u00e7o ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistir\u00e1 ao fogo, ao tempo e \u00e0 incinera\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica que a sua poesia sofreu no s\u00e9culo XI. H\u00e1 um lirismo dram\u00e1tico em meus versos que vem da atriz, mas que tamb\u00e9m herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terr\u00edvel, um enfrentamento ag\u00f4nico diante de amores frustrados, imposs\u00edveis que est\u00e3o presentes na minha escrita e na dela. Ela \u00e9 dram\u00e1tica, suave, intensa e o ritmo dos seus versos \u00e9 sedutor. A sua m\u00e9trica admir\u00e1vel est\u00e1 a servi\u00e7o da express\u00e3o e n\u00e3o o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em que medida a sua por\u00e7\u00e3o de escritora converge com a de educadora? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>O conhecimento \u00e9 imprescind\u00edvel! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experi\u00eancia cont\u00ednua. Os livros did\u00e1ticos \u2013 escolhidos pelo corpo docente &#8211; j\u00e1 s\u00e3o mais interessantes, atualmente, com informa\u00e7\u00f5es sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conte\u00fados com os meus alunos, ampliando nossos horizontes.\u00a0 A leitura de mundo \u00e9 marca indel\u00e9vel a minha pr\u00e1tica. Eles &#8211; os livros &#8211; dialogam com o mundo inteiro e trazem informa\u00e7\u00f5es que me seduzem, al\u00e9m de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos &#8211; afinal um novo mundo \u00e9 descortinado. Sou a mediadora desse processo m\u00e1gico, perturbador, revolucion\u00e1rio. \u00c9 prazeroso testemunharmos essa transforma\u00e7\u00e3o \u2013 lenta &#8211; da escola p\u00fablica brasileira. \u00c9 uma verdadeira conquista o direito ao livro. Al\u00e9m disso, a minha cosmovis\u00e3o, minhas leituras, experi\u00eancias como atriz e paix\u00f5es intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa conviv\u00eancia pedag\u00f3gico-passional. Pois, sem tes\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar em contato com os adolescentes traz tamb\u00e9m uma atualiza\u00e7\u00e3o permanente do portugu\u00eas falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade lingu\u00edstica da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fen\u00f4menos. \u00c0s vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma refer\u00eancia desconhecida, alguma observa\u00e7\u00e3o de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que h\u00e1 em mim. Elas criam \u2013 juntas &#8211; um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo \u00e9 fruto dessas coexist\u00eancias, desses desdobramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tive professoras de Portugu\u00eas absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gram\u00e1tica sem rela\u00e7\u00e3o alguma com a descoberta da nossa L\u00edngua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava \u2013 e ainda distancia &#8211; o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sens\u00edvel.\u00a0 Sinto, \u00e0 medida que esse elo se estabelece, que temos cidad\u00e3os melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um pa\u00eds com a Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande, afinal, somente ela poder\u00e1 provocar fundamentais mudan\u00e7as na sociedade. Vejo o potencial dessa transforma\u00e7\u00e3o todos os dias. E o que vejo \u00e9 um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o \u00f3bvio, enquanto isso, a viol\u00eancia nos atinge em todos os espa\u00e7os. O professor Raimund\u00e3o no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de n\u00f3s jovens, rebeldes e sequiosos de liberta\u00e7\u00f5es, em Ilh\u00e9us. \u00c9 um professor que tatuou o seu nome \u2013 atrav\u00e9s da poesia \u2013 em nossas almas, por isso \u00e9 eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_4851\" aria-describedby=\"caption-attachment-4851\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Rita-Santana-por-Edgard-Navarro-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4851\" title=\"Rita Santana por Edgard Navarro \" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Rita-Santana-por-Edgard-Navarro-4.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Rita-Santana-por-Edgard-Navarro-4.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Rita-Santana-por-Edgard-Navarro-4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4851\" class=\"wp-caption-text\">Rita Santana \/ Foto: Edgard Navarro<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar mulheres que incorporaram vis\u00f5es machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>Os Estudos Feministas sobre as Rela\u00e7\u00f5es de G\u00eanero s\u00e3o ricos em an\u00e1lises que elucidam as conex\u00f5es de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos hist\u00f3ricos gera a naturaliza\u00e7\u00e3o do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produ\u00e7\u00e3o intelectual das mulheres que sofreram inquisi\u00e7\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos. Estudar a colabora\u00e7\u00e3o perniciosa das ci\u00eancias na difus\u00e3o de mitos sobre a mulher, onde a pr\u00f3pria loucura e a histeria eram atribu\u00eddas insistentemente ao g\u00eanero feminino, faz-se urgente para a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educa\u00e7\u00e3o. Se f\u00f4ssemos formados sabendo de mulheres como N\u00edsia Floresta, que manteve uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e intelectual com Augusto Comte no s\u00e9culo XIX, devido \u00e0 sua extrema compet\u00eancia como pensadora e revolucion\u00e1ria, talvez tiv\u00e9ssemos mais respeito \u00e0s mulheres que atuam nos espa\u00e7os p\u00fablicos, mulheres que produzem conhecimento. A omiss\u00e3o desses fatos nos livros did\u00e1ticos fortalece o equ\u00edvoco de que tais posi\u00e7\u00f5es eram apenas ocupadas por homens. Gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o formadas ignorando a luta e a presen\u00e7a de mulheres na hist\u00f3ria do Pa\u00eds e da sua forma\u00e7\u00e3o. As escolas deveriam divulgar a produ\u00e7\u00e3o feminina do s\u00e9culo XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li L\u00e9sbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do s\u00e9culo XIX nunca abordados pelos autores cl\u00e1ssicos do per\u00edodo. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulga\u00e7\u00e3o importante de muitas dessas personalidades que fizeram a Hist\u00f3ria. Aqui na Bahia, \u00e9 imprescind\u00edvel conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, <em>A Hist\u00f3ria Esquecida de Jacinta Passos<\/em>, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro <em>A Violeta Grapi\u00fana Vida e Obra de Elvira Foeppel<\/em>; B\u00e1rbara de Alencar, no Cear\u00e1. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog <strong><a href=\"http:\/\/barcacas.blogspot.com.br\/ \">Barca\u00e7as<\/a> <\/strong>exatamente para contribuir, minimamente, com essa transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo n\u00e3o s\u00e3o suficientes, \u00e9 preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transforma\u00e7\u00e3o nas mentalidades e no cotidiano das rela\u00e7\u00f5es e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos um pa\u00eds de leitores subestimados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>A leitura n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga hor\u00e1ria est\u00fapida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e come\u00e7ar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando h\u00e1 tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela \u00e9 plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. N\u00e3o sou uma obcecada por n\u00fameros de livros lidos durante o ano \u2013 como se estivesse em uma competi\u00e7\u00e3o invis\u00edvel &#8211; mas estou sempre atenta, iniciando leituras que \u00e0s vezes demoro meses para concluir. Enquanto n\u00e3o leio livros, leio a realidade, ou\u00e7o falas, m\u00fasicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras di\u00e1rias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lan\u00e7amento do livro da professora Ana Rita Santiago <em>Vozes Liter\u00e1rias de Escritoras Negras <\/em>e, al\u00e9m do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. N\u00e3o sai da minha cabe\u00e7a a redondez daquelas montanhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as m\u00fasicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros s\u00e3o possibilidades &#8211; entre tantas \u2013 de leitura. Adoro cinema e tamb\u00e9m gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposi\u00e7\u00f5es e museus e n\u00e3o encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metr\u00f4 chegar at\u00e9 a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler \u00e9 um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilh\u00e9us, e foi um verdadeiro acontecimento! O audit\u00f3rio foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multid\u00e3o que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multid\u00e3o de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematogr\u00e1fica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretiza\u00e7\u00e3o do seu pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando estive na Fran\u00e7a, fiquei deslumbrada com o n\u00famero imenso de pessoas que liam no metr\u00f4, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cultural, uma conquista hist\u00f3rica. Quando \u2013 a cada ano letivo \u2013 trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado \u00e9 sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as f\u00e9rias, os intervalos. A paix\u00e3o \u00e9 acesa e n\u00e3o se apagar\u00e1. Oportunizar a leitura \u00e9 essencial e ser um professor leitor, pesquisador \u00e9 indispens\u00e1vel para a prolifera\u00e7\u00e3o da leitura entre os jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que &#8211; de fato &#8211; precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos s\u00e3o abertos, mas tudo ainda \u00e9 insuficiente porque h\u00e1 urg\u00eancias seculares esperando pol\u00edticas mais s\u00e9rias. Muitas bibliotecas das escolas p\u00fablicas estaduais e municipais na Bahia s\u00e3o tratadas com descaso: profissionais com problemas de sa\u00fade s\u00e3o jogados l\u00e1, como tra\u00e7as, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espa\u00e7o. As nossas bibliotecas s\u00e3o dep\u00f3sitos em todos os sentidos. A biblioteca do col\u00e9gio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso h\u00e1 anos. Os problemas um dia ser\u00e3o resolvidos. Quando? Muitos j\u00e1 deixaram o col\u00e9gio sem terem vivenciado esse momento, <em>essa felicidade que n\u00e3o chega nunca em toda a vida<\/em>.\u00a0 A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, h\u00e1 muitos anos. Agora a reforma est\u00e1 sendo feita &#8211; sem cobertura! Copa do Mundo, Olimp\u00edadas e as atividades esportivas, e os espa\u00e7os de leitura s\u00e3o um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a viol\u00eancia invadem esses espa\u00e7os vazios, essas lacunas e as v\u00edtimas somos todos n\u00f3s. Eu leio muita coisa que me foi ensinada \u2013 tamb\u00e9m \u2013 pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, F\u00e1tima Guedes, Elomar Figueira de Mello, D\u00e9rcio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legi\u00e3o, Tit\u00e3s, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 quem reduza o fazer po\u00e9tico a uma obstinada busca pela matem\u00e1tica dos versos, esp\u00e9cie de sustent\u00e1culo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utiliza\u00e7\u00e3o do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. N\u00e3o estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discuss\u00e3o liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>O universo dos escritores \u00e9 cercado realmente de muitas vaidades e competi\u00e7\u00f5es. \u00c9 um mundo excludente e \u00e1spero quando vivido muito intensamente. Os bastidores s\u00e3o cobertos de acusa\u00e7\u00f5es contra aqueles considerados ruins, incompetentes, n\u00e3o escritores. N\u00e3o acredito na solidez desses julgamentos, como n\u00e3o acredito no car\u00e1ter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido \u00e0 sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em pref\u00e1cios dos seus eleitos. Tudo isso \u00e9 uma fraude. \u00c9 uma grande tolice! H\u00e1 espa\u00e7o para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paix\u00e3o, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda \u00e9 preciso dizer: Abaixo os puristas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando me sinto diretamente atingida em suas fal\u00e1cias classificat\u00f3rias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalingu\u00edstico. Transformo em verso suas maledic\u00eancias est\u00e9ticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. H\u00e1 ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada \u00e9 puro e nenhuma verdade \u00e9 \u00fanica, absoluta. O talento ou a compet\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da cr\u00edtica e do c\u00e2none j\u00e1 foram denunciados, revelados e n\u00e3o \u00e9 mist\u00e9rio para ningu\u00e9m a rede de articula\u00e7\u00f5es e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitima\u00e7\u00e3o de um escritor, como tamb\u00e9m a sua invisibilidade. Por isso, \u00e9 primordial para quem escreve n\u00e3o sofrer por ser preterido aqui ou acol\u00e1. \u00c9 uma aprendizagem dif\u00edcil, mas eu n\u00e3o escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever \u00e9 uma necessidade de aproxima\u00e7\u00e3o com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e \u00e9 uma necessidade f\u00edsica de express\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos um momento t\u00e3o rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e h\u00e1 sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a import\u00e2ncia dos r\u00f3tulos? O movimento \u00e9 muito rico e como \u00e9 prazeroso trocar figurinhas com escritores que n\u00e3o ocupam o seu tempo com classifica\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias. O problema que atinge os escritores \u00e9 o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, n\u00e3o suportam dividir o t\u00edtulo de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as pol\u00edticas afirmativas est\u00e3o a\u00ed, os mecanismos de escrita e divulga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tomam espa\u00e7os cada vez maiores e a conviv\u00eancia entre estilos s\u00f3 pode ser festejada. M\u00e9trica? N\u00e3o m\u00e9trica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto po\u00e9tico. Os velhos sapos n\u00e3o conseguir\u00e3o impedir a constru\u00e7\u00e3o social mais igualit\u00e1ria e menos discriminat\u00f3ria da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacr\u00f4nicos parnasianos que fazem do seu julgamento est\u00e9tico \u2013 que \u00e9 pessoal, subjetivo, ideol\u00f3gico &#8211; uma senten\u00e7a inquestion\u00e1vel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras <em>distintas <\/em>conversando, e uma delas disse: <em>tamb\u00e9m&#8230; todo mundo agora \u00e9 escritor<\/em>! Pois \u00e9! Escrever n\u00e3o \u00e9 mais um ato destinado aos deuses e privil\u00e9gio de uma elite intelectual e econ\u00f4mica ou de uma etnia! Essa constata\u00e7\u00e3o perturba muita gente. E \u00e9 justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector n\u00e3o me daria a amarelid\u00e3o da sua fome, as estrat\u00e9gias da sua sobreviv\u00eancia, a poesia negra, l\u00edrica e pol\u00edtica dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como \u00e9 bom perceber o f\u00f4lego religioso e l\u00edrico de L\u00edvia Nat\u00e1lia ou os arroubos dial\u00f3gicos e er\u00f3ticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galr\u00e3o ou ainda as sinestesias tel\u00faricas e l\u00edmpidas de Lita Passos. O leitor est\u00e1 a\u00ed para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos dem\u00f4nios as penas absolutistas tamb\u00e9m!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>Na verdade, considero muito esdr\u00faxulo classificarmo-nos de p\u00f3s-modernos diante de um quadro de intoler\u00e2ncia t\u00e3o grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez quest\u00e3o de desqualificar a literatura atual e chamar de boc\u00f3 qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar \u2013 at\u00f4nitos &#8211; o texto de Ferreira Gullar sobre a inexist\u00eancia de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o p\u00f3s-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda \u00e9 ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura \u00e9 aplaudida por jovens universit\u00e1rios e seus professores? \u00c9 bizarro! Posicionamentos \u00e9tnicos e de g\u00eanero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sistema de transporte p\u00fablico coletivo \u2013 mesmo em tempos de Copas \u2013 persiste em sua condi\u00e7\u00e3o de inexist\u00eancia ou de precariedade e sujeira. A esta\u00e7\u00e3o da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, pres\u00eddios, hospitais: tudo permanece. O ponto de \u00f4nibus do Aeroporto Internacional de Salvador \u2013 que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho &#8211; tem o mesmo tratamento imundo que qualquer esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria recebe dos poderes p\u00fablicos na Bahia. \u00c9 duro ser cidad\u00e3o pobre no mundo inteiro, mas na Bahia \u00e9 dur\u00edssimo! S\u00f3 h\u00e1 tratamento estatal, preocupa\u00e7\u00e3o com a higiene e o belo nos locais onde circular\u00e1 a elite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso em Greg\u00f3rio de Matos, que viveu um per\u00edodo de profundas transforma\u00e7\u00f5es e expressou esses paradoxos em sua obra l\u00edrica, sat\u00edrica e religiosa. Tamb\u00e9m vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que j\u00e1 principiava a viver sua globaliza\u00e7\u00e3o desde l\u00e1, entretanto, assistimos ao nosso patrim\u00f4nio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da mem\u00f3ria, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de p\u00f3s-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia &#8211; idealizada por Guido Ara\u00fajo &#8211; que deveria ser tombada como patrim\u00f4nio imaterial da Bahia ou do Brasil \u2013 ou qualquer coisa que o valha &#8211; vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes p\u00fablicos para a sua perman\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como, pois, denominar de p\u00f3s-moderna uma sociedade em que n\u00e3o h\u00e1 ainda saneamento b\u00e1sico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos h\u00e1 anos aguardando os servi\u00e7os de uma verba nacional &#8211; que j\u00e1 foi paga &#8211; destinada aos esgotos da cidade. Ainda h\u00e1 uma dist\u00e2ncia t\u00e3o grande entre o plano te\u00f3rico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Ara\u00fajo e pensei na completa separa\u00e7\u00e3o entre a sofistica\u00e7\u00e3o espetacular da sua arte \u2013 apenas como um exemplo \u2013 e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da popula\u00e7\u00e3o pobre e a completa exclus\u00e3o de acesso aos bens comuns, \u00e0 Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceil\u00e2ndia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Bras\u00edlia. Tantas disparidades. Se h\u00e1 p\u00f3s-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nDA &#8211; O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RITA SANTANA &#8211; <\/strong>Conhe\u00e7o muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapida\u00e7\u00e3o. Sou muito honesta, muito bruta, muito antit\u00e9tica, muito delicada.\u00a0 Estou em permanente busca. Rita Santana \u00e9 apenas um nome p\u00fablico para a atriz e a escritora. A professora \u00e9 geralmente chamada de Rita Ver\u00f4nica. Em casa \u2013 para a minha fam\u00edlia e alguns amigos \u2013 sou Ritinha e, nessa condi\u00e7\u00e3o, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse cont\u00ednuo devir. Estou em processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* Alguns poemas da autora podem ser lidos <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4273\"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma entrevista com a voz l\u00edrica e marcante da escritora Rita Santana<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4849,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1236,16,2539],"tags":[1087,63,1243,1244,701,8,127,1245,1086,1094,1093],"class_list":["post-4848","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-80a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-alforrias","tag-entrevista","tag-eu-safico","tag-feminismo","tag-olhar-feminino","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poeta","tag-questoes-de-genero","tag-rita-santana","tag-tramela","tag-tratado-das-veias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4848"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4848\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5258,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4848\/revisions\/5258"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4849"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}