{"id":4949,"date":"2013-06-26T12:11:12","date_gmt":"2013-06-26T15:11:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4949"},"modified":"2013-06-26T18:04:40","modified_gmt":"2013-06-26T21:04:40","slug":"drops-da-setima-arte-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/drops-da-setima-arte-15\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Som ao redor. Brasil. 2012.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cartaz-INT-O-som-ao-redor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4951\" title=\"Cartaz  - O som ao redor\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cartaz-INT-O-som-ao-redor.jpg\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cartaz-INT-O-som-ao-redor.jpg 344w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Cartaz-INT-O-som-ao-redor-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que ponto de nossas exist\u00eancias \u00e9 poss\u00edvel atravessar as situa\u00e7\u00f5es sem que nelas deixemos vest\u00edgios? Como entender a nossa quase incapacidade de ouvirmos genuinamente a n\u00f3s mesmos? Certamente, s\u00e3o indaga\u00e7\u00f5es por demais complexas que atendem tanto a demandas externas quanto as que derivam dum processo consciente. O exerc\u00edcio da individualidade frequentemente encontra obst\u00e1culos, sobretudo quando o horizonte a ser vislumbrado reflete interven\u00e7\u00f5es paralelas e, ao mesmo tempo, alheias \u00e0 nossa vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal sensa\u00e7\u00e3o parece tamb\u00e9m costurar a narrativa de um filme como <em>O Som ao redor<\/em>. Com um olhar sobre a rotina de um bairro de classe m\u00e9dia de Recife, o diretor Kleber Mendon\u00e7a Filho exp\u00f5e muito mais do que uma mera sucess\u00e3o dos dias na vida de seus moradores, fazendo-nos perceber o quanto estamos imersos num fluxo de eventos paralelos com os quais dialogamos impensadamente.\u00a0 Aos poucos, uma infinidade de sons, que normalmente s\u00e3o pano de fundo da realidade acostumada, aparecem propositalmente evidenciados. Barulhos de constru\u00e7\u00e3o, de carros, pessoas a gritar, latidos de cachorro, ru\u00eddos de eletrodom\u00e9sticos, dentre outros tantos, configuram uma sinfonia que mais caminha para a dispers\u00e3o do que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incapacidade humana e urbana de concentra\u00e7\u00e3o, dada a variedade de coisas que nos abra\u00e7am incessantemente, aparece elevada \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia. E isso tanto pode estar no plano meramente sonoro como tamb\u00e9m na forma como interagimos com o outro. Da\u00ed, tamb\u00e9m, pensarmos na quest\u00e3o da alteridade dentro de um mosaico de cen\u00e1rios que permeiam o cotidiano de quem quer que seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o muitos os objetos de interfer\u00eancia que passam despercebidos com frequ\u00eancia, banalizados que est\u00e3o pela for\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o. Com not\u00f3ria habilidade, o filme pin\u00e7a os recortes da rotina sem insinuar vanguardismos est\u00e9ticos. Basta amplificarmos a orquestra\u00e7\u00e3o dos sons que est\u00e3o no mundo para percebermos que, involuntariamente, dialogamos com o externo, o alheio. Ao mesmo tempo, o crescimento desordenado da grande cidade deixa claro que a grande presa do progresso continua sendo o pr\u00f3prio homem, na medida em que amarra, em n\u00f3s bem cegos, a possibilidade de achar-se livre de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo se tratando de um cen\u00e1rio ambientado em Recife, mais precisamente no bairro onde o diretor mora, o filme abarca sentimentos e caracter\u00edsticas bem peculiares a qualquer cidade do pa\u00eds e qui\u00e7\u00e1 do mundo. A valoriza\u00e7\u00e3o de uma cultura local com seus usos e costumes n\u00e3o aponta para um cinema que mira o pr\u00f3prio umbigo. Ao passo que exp\u00f5e os efeitos descontrolados da urbanidade, \u00e9 capaz de redimensionar seu foco para uma gama de assuntos comuns a um pa\u00eds de propor\u00e7\u00f5es continentais como o nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_4952\" aria-describedby=\"caption-attachment-4952\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA8.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4952\" title=\"O som ao redor\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA8.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA8.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/INTERNA8-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4952\" class=\"wp-caption-text\">Cena de O Som ao redor \/ Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O patriarca Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha, \u00e9 algo contundente quando assinala uma transi\u00e7\u00e3o de uma sociedade originalmente agr\u00e1ria e que agora demarca seus territ\u00f3rios em pleno panorama desordenado duma metr\u00f3pole em crescimento. O latif\u00fandio aqui \u00e9 o do concreto, principalmente porque, em meio a um mercado imobili\u00e1rio predat\u00f3rio, Francisco det\u00e9m uma quantidade significativa dos im\u00f3veis do bairro em quest\u00e3o. Mesmo assim, as mem\u00f3rias flutuam na trajet\u00f3ria desse personagem, sobretudo quando as lembran\u00e7as apontam para um ambiente rural que n\u00e3o mais existe em sua magnitude hist\u00f3rica. A passagem dos engenhos para a selva de pedra pernambucana tamb\u00e9m n\u00e3o apaga a manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder. Assim, patr\u00f5es e empregados continuam protagonizando uma secular disson\u00e2ncia de expectativas e desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contr\u00e1rio de <em>O som ao redor<\/em> \u00e9 o sil\u00eancio. E este, se pensarmos numa perspectiva de provoca\u00e7\u00e3o, pode gerar mais inc\u00f4modos do que supomos, principalmente se levarmos em conta a aus\u00eancia do alheio e, por conseguinte, a dur\u00edssima condi\u00e7\u00e3o de nos encerrarmos em n\u00f3s mesmos. Nesse sentido, quem resistiria \u00e0 presen\u00e7a teimosa de um sil\u00eancio pleno, cujos embates propostos fossem apenas os da consci\u00eancia? Mesmo n\u00e3o tendo a onisci\u00eancia precisa de tudo o que nos rodeia, \u00e9 poss\u00edvel imaginar que a inexist\u00eancia absoluta dos sons externos produziria, por si s\u00f3, um efeito capaz de dimensionar o quanto somos curiosamente dependentes da tresloucada sinfonia de uma rotina urbana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recife \u00e9 algo recorrente na filmografia de Kleber Mendon\u00e7a Filho, cineasta cujas marcas apontam para um cinema autoral e org\u00e2nico. Ao mesmo tempo em que critica o tecido s\u00f3cio-econ\u00f4mico que atravessa a cidade, o diretor tamb\u00e9m deixa entrever a sua paix\u00e3o por ela. Isso acontece em <em>Recife Frio<\/em>, por exemplo, filme que, ao submeter a capital pernambucana a um inexplic\u00e1vel e incessante inverno, acaba pondo em xeque toda a forma de pensar de uma sociedade, notadamente gerando reflexos do ponto de vista comportamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quem verdadeiramente interessaria um cinema que se volta para o exerc\u00edcio do senso cr\u00edtico e dum olhar mais aprofundado da realidade? Parece uma indaga\u00e7\u00e3o pertinente se considerarmos que, mesmo tendo sido exibido e aclamado em diversos festivais dentro e fora do pa\u00eds, <em>O Som ao redor<\/em> ficou restrito a parcas salas de exibi\u00e7\u00e3o no contexto nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo engendrando discuss\u00f5es complexas, a obra n\u00e3o enaltece posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas inflamadas. Aos poucos, envolvidos que estamos por ru\u00eddos de toda ordem, somos tomados pelo reconhecimento de coisas que, estranhamente e pela via c\u00edclica, s\u00e3o \u00edntimas de todos n\u00f3s. Se, como diz Chico Buarque numa de suas can\u00e7\u00f5es, a dor da gente n\u00e3o sai no jornal, imaginemos s\u00f3 como o turbilh\u00e3o do cotidiano por vezes aniquila toda e qualquer tentativa de dar sobrevida \u00e0 pessoalidade. O tempo dir\u00e1 se soubemos resistir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/wweuSi_krNs\" frameborder=\"0\" width=\"560\" height=\"315\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar para \u201cO Som ao redor\u201d, novo filme de Kleber Mendon\u00e7a Filho<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4950,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1236,2535],"tags":[1296,115,1291,1294,1293,13,394,259,257,1290,1295,1292,247],"class_list":["post-4949","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-80a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-alteridade","tag-cinema","tag-cinema-pernambucano","tag-classe-media","tag-crescimento-urbano-desordenado","tag-drops-da-setima-arte","tag-filme","tag-kleber-mendonca-filho","tag-o-som-ao-redor","tag-recife","tag-recife-frio","tag-ruidos","tag-w-j-solha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4949"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4985,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4949\/revisions\/4985"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4950"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}