{"id":5127,"date":"2013-07-27T18:42:47","date_gmt":"2013-07-27T21:42:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5127"},"modified":"2013-08-28T10:55:51","modified_gmt":"2013-08-28T13:55:51","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-16\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Conferir olhos ao mundo \u00e9 atestar a complexidade da nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. E, certamente, essa conclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novidade alguma para grande parte das pessoas que se enveredam pelas vias da fotografia, ora como criadores, ora como simples apreciadores. Em termos art\u00edsticos, representar o mundo atrav\u00e9s de imagens vem deixando de ser um exerc\u00edcio meramente contemplativo para dar margem a uma s\u00e9rie de possibilidades. Dentre estas, uma das mais importantes \u00e9 a que sugere um profundo direcionamento de aten\u00e7\u00f5es aos tipos humanos e suas no\u00e7\u00f5es de pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentemente, homens e seus lugares s\u00e3o objeto das observa\u00e7\u00f5es emanadas da fotografia documental. No entanto, poucos s\u00e3o os fot\u00f3grafos que sabem captar com valoroso vi\u00e9s diferenciado a caracteriza\u00e7\u00e3o desse nicho. Fala-se aqui duma perspectiva de abordagem de mundo que procede de forma harmoniosa, mantendo intactos os usos e costumes do universo observado. N\u00e3o bastasse esse cuidadoso penetrar de cunho antropol\u00f3gico, um atributo tamb\u00e9m po\u00e9tico ao olhar \u00e9 capaz de fazer dos registros especiais celebra\u00e7\u00f5es de vida. E tudo o que aqui tratamos em mat\u00e9ria de qualidade no of\u00edcio de captar a luz se aplica ao trabalho do baiano <a href=\"http:\/\/nosdoisproducoes2013.blogspot.com.br\/\"><strong>Peterson Azevedo<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agregando sua forma\u00e7\u00e3o de ge\u00f3grafo \u00e0 de fot\u00f3grafo, Peterson vislumbra nas imagens uma representa\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do mundo. Ao revelar, de modo sens\u00edvel, a trajet\u00f3ria dos homens, intenta a descoberta de outros territ\u00f3rios. Em seus registros, podemos abstrair o que vemos imediatamente em mat\u00e9ria de constata\u00e7\u00e3o de um plano f\u00edsico imediato e somos conduzidos a testemunhar outras esferas de conv\u00edvio. Novos signos afloram, sobretudo quando o tema \u00e9 refletir acerca das quest\u00f5es ligadas \u00e0 cultura popular. Para falar um pouco sobre seu caminhar pela fotografia, Peterson nos acolheu para uma conversa, di\u00e1logo que evidencia, de maneira bastante especial, um percurso por outras terras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5129\" aria-describedby=\"caption-attachment-5129\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-I1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5129\" title=\"Peterson Azevedo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-I1.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-I1.jpg 301w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-I1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5129\" class=\"wp-caption-text\">Peterson Azevedo - Autorretrato<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quando observamos suas imagens, percebemos o quanto faz sentido pensar na quest\u00e3o das territorialidades, algo forte em seu trabalho. Para al\u00e9m do que chamamos de real, a no\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia sugere outras fronteiras aos homens e seus lugares. \u00a0Qual o significado disso para o exerc\u00edcio do seu olhar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO \u2013<\/strong> Sim. As quest\u00f5es de identidade sempre me acompanharam. Quando me encontrei com a geografia e suas categorias, logo me apaixonei pelo universo do popular e de seus imagin\u00e1rios. A territorialidade que constru\u00edmos, ao longo de nossa vida, se apresenta sempre em forma de comportamento e atitudes sociais. O que tento fazer \u00e9 eternizar esses movimentos em forma de imagens, como voc\u00ea bem disse, transcendendo para o meu mundo particular, onde as territorialidades das imagens que fa\u00e7o se misturam com a minha identidade. Essas a\u00e7\u00f5es significam muito, no sentido de observar o mundo como ge\u00f3grafo, colocando uma pitada de imagina\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse mergulho no universo popular, que tipo de desafios voc\u00ea destaca como sendo os mais significativos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO &#8211;<\/strong> Realizar um registro etnofotogr\u00e1fico requer uma paci\u00eancia tibetana (risos). Os desafios s\u00e3o muitos. Primeiro, deve-se ter a compreens\u00e3o de que aquele grupo social ou indiv\u00edduo, al\u00e9m de sua hist\u00f3ria pessoal, possui uma rela\u00e7\u00e3o de pertencimento ao lugar que vive e suas rela\u00e7\u00f5es com os \u201ciguais\u201d n\u00e3o podem e nem devem ser vistas como um simples modelo para seu olhar. Antes de levantar a c\u00e2mera, \u00e9 importante que estabele\u00e7a um breve v\u00ednculo identit\u00e1rio e\/ou social com o ambiente, para entender e compreender o que se vai registrar. Acredito que esse seja o grande desafio. Conseguindo estabelecer essa rela\u00e7\u00e3o, vem ent\u00e3o a recompensa. N\u00e3o nego o valor documental da fotografia, mas prefiro pensar que ela \u00e9 muito mais do que um mero registro e sim uma oportunidade de eternizar momentos com poesia e arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O popular e seus encantos n\u00e3o podem ser alvo mercadol\u00f3gico do ato fotogr\u00e1fico, deve ser respeitada a constru\u00e7\u00e3o de seus espa\u00e7os geogr\u00e1ficos e suas territorialidades e \u00e9 por isso que estou evitando ir a festas populares na Bahia. Esse respeito no tempo e no espa\u00e7o est\u00e1, cada ano, sendo invadido, de maneira abrupta e tumultuada, com um \u00fanico objetivo que \u00e9 fazer o registro simples e descontextualizado, atropelando os rituais, descaracterizando-os irresponsavelmente. A foto nunca deve ser mais importante que o ritual simb\u00f3lico popular constru\u00eddo h\u00e1 milhares de anos. Acho que hoje \u00e9 meu principal desafio, esperar essa enxurrada tecnol\u00f3gica acalmar, e\/ou outro foco de interesse na fotografia baiana surgir, para que possa me debru\u00e7ar novamente ao popular, mas com o devido respeito que merece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Acredita que essa inabilidade de alguns fot\u00f3grafos em lidarem com temas t\u00e3o ricos e profundos, emanados da cultura popular, est\u00e1 numa obcecada e, portanto, distorcida busca pela representa\u00e7\u00e3o do real?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO &#8211; <\/strong>Pergunta delicada, mas sim, a busca pelo real, muitas vezes, cria em n\u00f3s uma \u201ccegueira imag\u00e9tica\u201d. A realidade \u00e9, no tempo e espa\u00e7o, constru\u00edda com valores e instantes din\u00e2micos e impercept\u00edveis, carregada de signos, ou seja, \u00e9 humanamente imposs\u00edvel retrat\u00e1-la de maneira veross\u00edmil. Fran\u00e7ois Soulages escreveu que uma foto \u00e9 um vest\u00edgio da realidade, mas qual realidade? Do objeto retratado ou de um fragmento dele mesmo? Um vest\u00edgio de quem fotografa ou de quem \u00e9 fotografado, ou mais de quem v\u00ea a foto? Acredito nisso tamb\u00e9m, acho que os fot\u00f3grafos devem criar sua realidade no tempo e espa\u00e7o, uma realidade permanente pr\u00f3pria e que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ap\u00f3s a perda de um instante, e \u00e9, neste momento, que entra em cena a arte, o fazer art\u00edstico que por si s\u00f3 transcende a no\u00e7\u00e3o do real e passa a fazer parte do mundo filos\u00f3fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Numa entrevista concedida \u00e0 Diversos Afins, o fotojornalista Evandro Teixeira considera que as facilidades da era digital foram respons\u00e1veis por uma banaliza\u00e7\u00e3o do ato de fotografar. Como voc\u00ea avalia essa mudan\u00e7a de paradigma? H\u00e1, de fato, muitas rupturas conceituais em curso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO &#8211; <\/strong>N\u00e3o importa como se v\u00ea, o importante \u00e9 ver! Hoje, vivemos num mundo cada vez mais veloz e repleto de informa\u00e7\u00f5es e \u00e9, nesse sentido, que a imagem vem assumindo uma import\u00e2ncia muito grande, no nosso dia-a-dia. A sociedade moderna \u00e9, por si s\u00f3, uma sociedade orientada pela imagem, onde a TV, a internet, os dispositivos m\u00f3veis como o\u00a0<em>ipod<\/em><em>,<\/em><em>\u00a0<\/em>o<em>\u00a0ipad\u00a0<\/em>e o<em>\u00a0tablet<\/em>,\u00a0<em>outdoors\u00a0<\/em>e a mais antiga de todas as representa\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas do mundo,\u00a0a<strong>\u00a0<\/strong>fotografia<strong>,<\/strong>\u00a0t\u00eam papel decisivo na forma como entendemos a realidade. Entendo a cr\u00edtica que Evandro faz, s\u00f3 n\u00e3o posso concordar com o termo \u201cbanaliza\u00e7\u00e3o\u201d. O que ocorre \u00e9 que o avan\u00e7o na Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o e da Comunica\u00e7\u00e3o possibilitou, sim, uma democratiza\u00e7\u00e3o do olhar. \u00c9 complicado entrarmos na discuss\u00e3o do \u201cbelo\u201d e do \u201cfeio\u201d, que \u00e9 completamente complexa, em temos epistemol\u00f3gicos e est\u00e9ticos. Se lembrarmos, j\u00e1 vivemos essa dial\u00e9tica com o cinema, no qual os cr\u00edticos diziam que iria acabar com o teatro, que a televis\u00e3o acabaria com o cinema e que a fotografia destruiria a pintura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos somos representantes de nossos mundos, respons\u00e1veis pelo que constru\u00edmos e registramos na nossa hist\u00f3ria. A imagem \u00e9 um elemento fundamental para contarmos os nossos tempos<strong>.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>A fotografia deve ser encarada como elemento de escrita e o nosso olhar como a ferramenta desses rabiscos.\u00a0N\u00e3o importa se a foto registra arte ou documento, se a c\u00e2mera \u00e9 digital ou anal\u00f3gica,\u00a0<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/C%C3%A2mera_pinhole \"><strong>pin-hole<\/strong><\/a><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em>ou de celular, cara ou barata, pequena ou grande. O importante \u00e9 como voc\u00ea vai usar essa ferramenta poderosa, possibilitando a constru\u00e7\u00e3o de um olhar mais cr\u00edtico sobre a realidade e, assim, de um mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Numa acep\u00e7\u00e3o mais ampla do termo, considera que o seu olhar sobre o mundo assume um car\u00e1ter politizado?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO<\/strong> &#8211; Sim, somos seres sociais, logo, politizados. Vivemos em um sistema de organiza\u00e7\u00f5es e leis, vivemos em um sistema de rela\u00e7\u00f5es interdependentes, e esse sistema nos condiciona a viver em constante intera\u00e7\u00e3o, fazendo escolhas de acordo com regras e\/ou ideologias. Com a fotografia n\u00e3o \u00e9 diferente. Ela \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, carregada de hist\u00f3rias de vida, forma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e escolhas de mundo. \u00c0s vezes, n\u00e3o temos essa percep\u00e7\u00e3o imediata, mas se voc\u00ea analisar seus registros, vai encontrar algo de questionador, pode ser uma indigna\u00e7\u00e3o, uma constata\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo um grito revolucion\u00e1rio. No meu caso espec\u00edfico, sim, considero meu olhar politizado, e muito influenciado pelo meu lado ge\u00f3grafo, tento sempre retratar meu mundo de maneira cr\u00edtica, mas colocando sempre uma pitada de cor, de esperan\u00e7a, e nunca de maneira catastr\u00f3fica ou apocal\u00edptica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_5130\" aria-describedby=\"caption-attachment-5130\" style=\"width: 341px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-II1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5130\" title=\"Peterson Azevedo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-II1.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-II1.jpg 341w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/INTERNA-II1-227x300.jpg 227w\" sizes=\"auto, (max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5130\" class=\"wp-caption-text\">Peterson Azevedo - Autorretrato<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto sua forma\u00e7\u00e3o de ge\u00f3grafo demarca trajetos em torno da fotografia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO<\/strong> &#8211; Meu encontro com a fotografia se deu na faculdade. Na \u00e9poca, a realidade digital ainda n\u00e3o tinha aportado no Brasil. Um amigo rec\u00e9m chegado do exterior tinha comprado uma c\u00e2mera SLR e n\u00e3o conseguir\u00e1 vender, ela acabou caindo no meu colo, n\u00e3o entendia nada de fotografia, foi quando um professor solicitou a turma que fiz\u00e9ssemos um registro fotogr\u00e1fico e etnogr\u00e1fico de pescadores e marisqueiras de uma cidade no Rec\u00f4ncavo Baiano, foi ent\u00e3o que surgiu o primeiro desafio: aliar geografia e fotografia. Foi um desastre, imagens tremidas, sem foco, mas serviu como est\u00edmulo para minha aprendizagem.\u00a0\u00a0Desde ent\u00e3o n\u00e3o larguei a fotografia, ela passou a me acompanhar em minhas caminhadas como pesquisador e professor. A fotografia que fa\u00e7o esta impregnada de conhecimentos ligados \u00e0 geografia, principalmente aos ensinamentos de dois grandes mestres, o Professor Milton Santos e o Professor Josu\u00e9 de Castro, que me inspiram constantemente. A territorialidade de quem ou o que fotografo, \u00e9 o que busco sempre colocar em meu olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea sustenta que a fotografia documental n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica via a seguir. Esse modo de pensar est\u00e1 ligado a uma impress\u00e3o de que essa modalidade fotogr\u00e1fica est\u00e1 excessivamente relacionada a uma perspectiva antropol\u00f3gica, na qual o outro \u00e9 sempre um objeto estranho e, portanto, pass\u00edvel de pactos, mesmo que silenciosos, de aproxima\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO \u2013 <\/strong>Sim. Entendo que os estudos etnogr\u00e1ficos devem sempre caminhar junto com a fotografia documental. Se pularmos a etapa de contato e conv\u00edvio, a meu ver os momentos ser\u00e3o sim, um universo de escolha, mas apenas isso, perdendo a oportunidade de mergulhar no universo do fotografado e estabelecer o encontro com o universo de quem fotografa.<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quando o assunto \u00e9 o olhar sobre pessoas, parece haver, em alguns momentos, um processo de coisifica\u00e7\u00e3o do homem, reduzindo-o a mero objeto de observa\u00e7\u00e3o. O que pensa a respeito disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO &#8211; <\/strong>Como j\u00e1 conversamos anteriormente, o mais importante para mim \u00e9 o encontro. O encontro de mundos. Quando eu fotografo, procuro realizar esses encontros de maneira tranquila, sem amarras mercadol\u00f3gicas, sem interesses politiqueiros, mesmo sabendo que, como ser social, fazemos pol\u00edtica a todo segundo de nossa exist\u00eancia. Acho que quando se refere a \u201cobjeto\u201d, entendo que essa discuss\u00e3o se d\u00e1 no p\u00f3s-registro, o que ser\u00e1 feito desse instante capturado. O que se deve discutir s\u00e3o os interesses por tr\u00e1s da c\u00e2mera, e muitas vezes \u00e9 a\u00ed que se estabelece a coisifica\u00e7\u00e3o do humano, como elemento de contradi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em mat\u00e9ria de linguagem, a transgress\u00e3o \u00e9 um atributo que lhe soa familiar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO<\/strong> &#8211; \u00c9 complicado e dif\u00edcil realizar uma cr\u00edtica do pr\u00f3prio trabalho. Se transgredir \u00e9 ultrapassar o limite, n\u00e3o se preocupar sempre com regras e t\u00e9cnicas, acho que poderia dizer que sim. Gosto de trabalhar com policrom\u00e1ticos, sem me preocupar com palheta de cores.\u00a0 Costumo pensar que \u00e9 a imagem que escolhe seu \u201cdestino\u201d (risos). Quando estou editando, n\u00e3o penso o que pode e o que n\u00e3o pode ser feito, mas compreendo que esse processo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando seu trabalho \u00e9 livre e liberto das encomendas e amarras publicit\u00e1rias e de mercado (n\u00e3o tenho nada contra a publicidade). Quando estamos em um processo de cria\u00e7\u00e3o, devemos estar abertos a todo o universo criativo, se isso \u00e9 transgredir, que bom que sou um \u201ctransgressor\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quais marcas de nosso tempo merecem a especial aten\u00e7\u00e3o de um fot\u00f3grafo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PETERSON AZEVEDO &#8211; <\/strong>Essa discuss\u00e3o da contemporaneidade \u00e9 bastante complexa. Ser\u00e1 que j\u00e1 sa\u00edmos da modernidade? Pois bem, n\u00f3s somos desafiados a ser criativos a todo momento, seja no nosso dia-a-dia, seja na nossa profiss\u00e3o, e, como seres inquietantes que somos, temos que dar respostas imediatas a essas demandas. A fotografia \u00e9 para mim o subterf\u00fagio destas ang\u00fastias, procuro entender o ato fotogr\u00e1fico como um dialogo comigo mesmo, logo, um di\u00e1logo no meu tempo e espa\u00e7o. Na dita contemporaneidade n\u00e3o ser\u00e1 diferente. Acredito que com a revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica-informacional a fotografia vai junto nessa enxurrada, e ter\u00e1 tamb\u00e9m que dar respostas a esse clamor. Quando esse tempo chegar, vou tentar me afastar um pouco desse turbilh\u00e3o informativo, e olhar mais para o interior do Pa\u00eds, para quest\u00f5es que sempre me interessaram, mas por v\u00e1rios motivos ainda n\u00e3o tive a oportunidade de dialogar com esse universo &#8211; que \u00e9 o Sert\u00e3o. Sinto-me mais maduro e preparado para mergulhar no mundo sertanejo, buscando, em algum lugar, a minha territorialidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Alguns trabalhos de Peterson Azevedo est\u00e3o expostos em nossa <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?cat=1236 \"><strong>80\u00aa Leva<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fot\u00f3grafo Peterson Azevedo exalta a descoberta po\u00e9tica de novos mundos atrav\u00e9s da imagem<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1304,16,2539],"tags":[63,66,1326,8,1246],"class_list":["post-5127","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-81a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fotografia","tag-fotografia-documental","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-peterson-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5127"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5508,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5127\/revisions\/5508"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}