{"id":5330,"date":"2013-08-27T09:53:04","date_gmt":"2013-08-27T12:53:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5330"},"modified":"2013-09-29T12:06:57","modified_gmt":"2013-09-29T15:06:57","slug":"dedos-de-prosa-i-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-17\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Geraldo Neres<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><\/h2>\n<figure id=\"attachment_5332\" aria-describedby=\"caption-attachment-5332\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-5332 \" title=\"Milena Palladino\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5332\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Milena Palladino<\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: left;\"><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AS PEDRAS S\u00c3O RAMOS DE \u00c1GUA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mergulho na sombra \u00famida. O rosto da vida que busca por onde come\u00e7ar. Sua dist\u00e2ncia \u2015 uma tempestade que nos visita \u2015, seu olhar n\u00e3o se apresenta em forma d&#8217;\u00e1gua. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os retratos tomam as cores de nossa mem\u00f3ria. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O sil\u00eancio \u00e9 a porta da qual n\u00e3o temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. N\u00e3o encontro o seu rosto entre suas ra\u00edzes. Sombras saltam comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rel\u00f3gio est\u00e1 quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto \u2015 ele n\u00e3o se preocupa com as armadilhas \u2015, nos seus dentes um aviso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parede por cair nos estende as m\u00e3os. Ela n\u00e3o acredita na ressurrei\u00e7\u00e3o. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa \u00e0 parte. Avessa \u00e0s festas, n\u00e3o se recorda da m\u00e3e ou do pai. N\u00e3o consegue unir essas duas margens. N\u00e3o se banha na mesma \u00e1gua. Corre no seu sangue uma m\u00fasica desconhecida. As m\u00e3os limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um menino de riso f\u00e1cil junta gravetos para construir um esconderijo. N\u00e3o me aproximo das paredes de olhos l\u00edquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O sil\u00eancio guardado no espelho. Dentro do sil\u00eancio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detr\u00e1s da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros n\u00e3o termina em mim, e os fantasmas fazem fila atr\u00e1s do seu sorriso. Afaste-me desta parede!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: \u00e9 l\u00e1 que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias \u2015 observo a cena \u2015, n\u00e3o existe trap\u00e9zio nos aqu\u00e1rios. Os santos se imaginam peixes voadores. \u00c0 minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia: p\u00e1ssaro embalsamado. O choro de m\u00e3e se faz ter\u00e7o invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos n\u00e3o caminham na chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<strong>***<\/strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A CABE\u00c7A DA SERPENTE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00ed de casa mais cedo. A lua come\u00e7a a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua n\u00e3o tem nome. Orientaram-me n\u00e3o ficar parado, mas o corpo n\u00e3o responde \u2015 tem o ritmo de uma fotografia \u2015 Devagar. Dizem: o passado \u00e9 um colecionador de luzes. Ningu\u00e9m me espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vermelho. Sinto a noite afundar no sil\u00eancio do sem\u00e1foro. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha dire\u00e7\u00e3o, tento decifr\u00e1-la O passado \u00e9 Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede n\u00e3o tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. N\u00e3o sei das p\u00e9talas nem da boca que as carrega. Deve ser minha inf\u00e2ncia, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espere.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mec\u00e2nico. \u2015 Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. N\u00e3o durma. \u2015 N\u00e3o consigo decifrar sombras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as m\u00e3os. Sorri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2015 Constru\u00ed um deus, quer ver? Fiz em sete dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 tudo vermelho. Agora j\u00e1 aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2015 Quer um peda\u00e7o da minha sombra? \u00c9 para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2015 N\u00e3o tem mais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2015 Esqueci de terminar os olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m me espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<a href=\"http:\/\/neres-outrossilencios.blogspot.com\/ \"><strong>Jos\u00e9 Geraldo Neres<\/strong><\/a> \u00e9 poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com forma\u00e7\u00e3o em oficinas e cursos de cria\u00e7\u00e3o textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: P\u00e1ssaros de papel (Dulcin\u00e9ia Catadora, 2007) e Outros sil\u00eancios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos \u201cOlhos de Barro\u201d (Editora Patu\u00e1, 2012) \u00e9 sua mais recente obra. Tem publica\u00e7\u00f5es em suplementos e revistas liter\u00e1rias do Brasil e do exterior. \u00c9 curador do Quinta Po\u00e9tica, projeto que promove encontros po\u00e9ticos no espa\u00e7o Haroldo de Campos, em S\u00e3o Paulo)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mundo imerso em sentidos paralelos se faz intenso nos contos de Jos\u00e9 Geraldo Neres<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1368,2534,16],"tags":[1378,1377,419,41,424,418,420],"class_list":["post-5330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-82a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-a-cabeca-da-serpente","tag-as-pedras-sao-ramos-de-agua","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-editora-patua","tag-jose-geraldo-neres","tag-olhos-de-barro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5330"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5745,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5330\/revisions\/5745"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}