{"id":5346,"date":"2013-08-27T10:17:57","date_gmt":"2013-08-27T13:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5346"},"modified":"2013-09-29T12:06:21","modified_gmt":"2013-09-29T15:06:21","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-17\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo \u00e9 algo, no m\u00ednimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considera\u00e7\u00f5es, diante de nossos olhos \u00e9 mais curioso ainda. Caberia, ent\u00e3o, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cen\u00e1rio das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na m\u00fasica <em>Peter Gast<\/em>, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma exist\u00eancia sob o manto da insignific\u00e2ncia, encontrando alento num cora\u00e7\u00e3o de poeta que, mesmo condicionado \u00e0 solid\u00e3o, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, talvez seja mesmo esta a trajet\u00f3ria de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de m\u00faltiplas representa\u00e7\u00f5es do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adentrar os becos e vias difusas das letras de <strong>Rodrigo Melo <\/strong>pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens mar\u00edtimas de Ilh\u00e9us, na Bahia, Rodrigo \u00e9 um daqueles art\u00edfices da palavra que t\u00eam predile\u00e7\u00e3o por dissecar a alma humana. Com um tom l\u00facido e sagaz, seus contos p\u00f5em em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situa\u00e7\u00f5es. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elabora\u00e7\u00f5es mais formais, \u00e9 h\u00e1bil em fazer de sua obra um elo de aproxima\u00e7\u00e3o com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos t\u00e3o vivos e intensos de nosso tempo, embalando revela\u00e7\u00f5es e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de <em>O sangue que corre nas veias<\/em> (Ed. Mondrongo \u2013 2013) e, mais recentemente, integrando a colet\u00e2nea de contos <em>82 \u2013 Uma Copa &#8211; Quinze Hist\u00f3rias<\/em> (Ed. Casar\u00e3o do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar liter\u00e1rio e exp\u00f5e algumas opini\u00f5es sobre o meio. De todo o dito, fica a impress\u00e3o de que estamos pr\u00f3ximos a um algu\u00e9m que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condu\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5348\" aria-describedby=\"caption-attachment-5348\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-1-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5348\" title=\"Rodrigo Melo - Foto Thalita Leite\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-1-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"368\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-1-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg 490w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-1-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5348\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Melo \/ Foto: Thalita Leite<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O livro \u00e9 o &#8220;82 &#8211; Uma Copa &#8211; Quinze Hist\u00f3rias&#8221; e, com o conto &#8220;A culpa foi minha&#8221;, voc\u00ea demarca seus territ\u00f3rios naquela colet\u00e2nea de difusas vozes liter\u00e1rias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebol\u00edstica como o centro das aten\u00e7\u00f5es. Qual a real dimens\u00e3o da aposta nesse, digamos assim, deslocamento tem\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>N\u00e3o sei bem se foi uma aposta. Parece clich\u00ea, mas acho, na verdade, que n\u00e3o tive escolha, porque n\u00e3o recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembran\u00e7a, o que vinha era a inf\u00e2ncia e, consequentemente, a casa de minha av\u00f3. Aqueles tr\u00eas gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha fam\u00edlia, porque era essa a minha refer\u00eancia &#8211; e foi assim: \u00a0\u00a0minha tristeza n\u00e3o existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, ent\u00e3o, que ligar aquela copa de 82 \u00e0 minha fam\u00edlia foi, de todo modo, inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A maneira como voc\u00ea articula o mote da culpa por entre os personagens \u00e9 algo que chama aten\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, m\u00edopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transfer\u00eancias quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrig\u00edvel esp\u00edrito humano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211;<\/strong> Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como voc\u00ea mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. J\u00e1 devem ter dito que entend\u00ea-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e \u00e9 o que tamb\u00e9m me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolu\u00e7\u00e3o. O mais prov\u00e1vel, e comum, \u00e9 que cres\u00e7a, e, embora pare\u00e7a antag\u00f4nico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperan\u00e7a. Mesmo fal\u00edvel e sem saber verdadeiramente qual o combust\u00edvel que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que \u00e9 e qual a finalidade de existir, vivendo numa esp\u00e9cie de superf\u00edcie, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue cont\u00ednua e insistentemente em busca da reden\u00e7\u00e3o. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcan\u00e7ar a luz, luz essa que nem sempre \u00e9 divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta disso, creio que somos todos corrig\u00edveis, embora tamb\u00e9m acredite que a humanidade ainda recenda a uma multid\u00e3o correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda de emerg\u00eancia, ou a um b\u00eabado, no escuro, tateando pelo interruptor.<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>DA &#8211; Depois de algum tempo de lida com as palavras, \u00a0voc\u00ea lan\u00e7ou seu primeiro livro, &#8220;O sangue que corre nas veias&#8221;. A obra veio no momento certo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felic\u00edssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lan\u00e7ar, me senti honrado, qui\u00e7\u00e1 vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a d\u00favida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, h\u00e1 mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante aten\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, eu vinha de um longo per\u00edodo sem contato com a literatura &#8211; n\u00e3o escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara. \u00a0A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido s\u00f3. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que \u201cO sangue que corre nas veias&#8221; d\u00e1 seu recado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; As paisagens que voc\u00ea visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequ\u00eancia, vivenciam situa\u00e7\u00f5es de limite extremo. Entre hesita\u00e7\u00f5es e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrela\u00e7ados. O que dizer de tais escolhas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Situa\u00e7\u00f5es limite, e creio nisso cada vez mais, n\u00e3o precisam necessariamente estar envolvidas em viol\u00eancia ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconte\u00e7a ou a frustra\u00e7\u00e3o daquilo n\u00e3o ter acontecido: um tiro que ser\u00e1 disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma hist\u00f3ria vai mal, o certo \u00e9 matar algu\u00e9m. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim t\u00eam for\u00e7a, beleza e signific\u00e2ncia, o mote para escrever. E n\u00e3o h\u00e1 nada mais doido e grandioso que existir \u2013 os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos peda\u00e7os, eles sempre em andamento, posto que nada para.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E \u00e9 interessante perceber que a linguagem atrav\u00e9s da qual voc\u00ea engendra suas hist\u00f3rias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que voc\u00ea atribui essa sua aproxima\u00e7\u00e3o com o coloquial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Muito prov\u00e1vel que pelo desejo de ser entendido. Admiro a t\u00e9cnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, n\u00e3o sei bem. A quest\u00e3o \u00e9 que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E \u00e9 essa a busca: ser, dentro do poss\u00edvel, simples, sem ser simpl\u00f3rio. Claro que \u00e9 dif\u00edcil e, quase sempre, o tiro acerta o p\u00e9. A tentativa, no entanto, j\u00e1 conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque s\u00e3o a fluidez e um \u00e1gil ritmo narrativos, tra\u00e7os bem t\u00edpicos do cinema. Some-se a isso, tamb\u00e9m, o vi\u00e9s imag\u00e9tico. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influ\u00eancias da s\u00e9tima arte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes t\u00eam, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse \u201cdinamismo\u201d no que escrevo. Ali\u00e1s, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy j\u00e1 era um her\u00f3i. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de \u201cAgarre-me se Puderes\u201d, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela esp\u00e9cie de encantamento, satisfa\u00e7\u00e3o. A mesma coisa com os filmes dos Trapalh\u00f5es. Depois vieram os outros. Hoje, e n\u00e3o digo por desd\u00e9m, mas porque, imagino, a forma de contar as hist\u00f3rias se ampliou, ou quem sabe por j\u00e1 saber o final, n\u00e3o assistiria novamente \u201cAgarre-me se Puderes\u201d, nem mesmo pelas persegui\u00e7\u00f5es. O mundo mudou e eu, provavelmente, tamb\u00e9m. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como \u201cAs Minas do Rei Salom\u00e3o\u201d. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada viv\u00eancia nos transformando, a opera\u00e7\u00e3o de uma tia ou o \u00faltimo lan\u00e7amento dos Coen,\u00a0 juntos e misturados num recipiente s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho, ent\u00e3o, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa quest\u00e3o da imagem, em grande parte, v\u00eam, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece tamb\u00e9m, por outro lado, que h\u00e1 certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas \u00e0s vezes mandam muito bem, e isso te for\u00e7a a pensar que tamb\u00e9m d\u00e1 pra conseguir. A mais forte influ\u00eancia, acredito, \u00e9 sempre essa.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5349\" aria-describedby=\"caption-attachment-5349\" style=\"width: 334px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-2-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-5349\" title=\"Rodrigo Melo - Foto Thalita Leite\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-2-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-2-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite.jpg 334w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA-2-Rodrigo-Melo-Foto-Thalita-Leite-208x300.jpg 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5349\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Melo \/ Foto: Thalita Leite<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em mat\u00e9ria veiculada recentemente pelo site Estad\u00e3o, apontou-se um outro panorama no que se refere \u00e0 apari\u00e7\u00e3o dos novos escritores. Muitos deles est\u00e3o preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos liter\u00e1rios, almejando pr\u00eamios e, com isso, suporte para publica\u00e7\u00e3o, em lugar de buscarem diretamente editoras.<\/strong>\u00a0<strong>O que pensa a respeito disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Os pr\u00eamios d\u00e3o visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever \u00e9 por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de tr\u00e2nsito, corretor ou le\u00e3o de ch\u00e1cara antes de ser escritor. Escrever soa at\u00e9 como uma contraven\u00e7\u00e3o. Pode-se tamb\u00e9m conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso ent\u00e3o em alguns caras que lan\u00e7aram excelentes livros, e, afora algum evento, s\u00f3 fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, n\u00e3o vem desses livros. Porque ao sentar-se no sof\u00e1 e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no m\u00e1ximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a miss\u00e3o cumprida. Com um livro, entretanto, ela ter\u00e1 muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma avers\u00e3o \u00e0 leitura. E h\u00e1 outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, ent\u00e3o, esse tipo de subs\u00eddio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por meu lado, s\u00f3 participei de um concurso. Foi em Recife, anos atr\u00e1s, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangal\u00f4 de frente pro mar. O bangal\u00f4 era uma porcaria, o conto tamb\u00e9m, mas eu n\u00e3o sabia &#8211; estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei n\u00e3o me classificando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A necessidade de reconhecimento \u00e9 a maior inimiga de um escritor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Penso que a pressa \u00e9 a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da \u00e1rea em que se atue. Quem n\u00e3o quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na pr\u00e1tica. De alguma forma, todos precisamos de matura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Para alguns, a \u00fanica faceta do conto \u00e9 a de se contar uma hist\u00f3ria. Pensar dessa forma n\u00e3o implicaria numa limita\u00e7\u00e3o dos desdobramentos poss\u00edveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>N\u00e3o acredito que o g\u00eanero defina a qualidade ou import\u00e2ncia da escrita. Ou, como diz, a transcend\u00eancia. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais f\u00e1cil de se construir. Por esse prisma, os poemas tamb\u00e9m seriam. E n\u00e3o s\u00e3o. Tampouco mais profundos ou necess\u00e1rios. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e n\u00e3o os vejo simplesmente contando hist\u00f3rias. H\u00e1 sempre algo entranhado ali. Portanto, n\u00e3o acho que o tamanho ou o g\u00eanero do que se escreve tem a ver com sua for\u00e7a ou precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Vivemos num tempo em que muita gente se atira \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, n\u00e3o precisar\u00edamos mais de leitores do que escritores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Tudo indica que a diferen\u00e7a entre o joio e o trigo esteja na rela\u00e7\u00e3o com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, \u201cMelhor ser um bom leitor a um mau escritor\u201d. Antes de esvaziar o tanque, \u00e9 preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma hist\u00f3ria original, uma hist\u00f3ria que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu \u2013 ele est\u00e1 nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou ent\u00e3o a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assar\u00e9 j\u00e1 tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor. \u00a0\u00a0Claro que n\u00e3o d\u00e1 pra ler tudo, tampouco considero obrigat\u00f3rio o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura \u00e9 necess\u00e1ria. Ela te situa. E \u00e9 com ela, imagino, que se enche o tanque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>A vontade de criar boas hist\u00f3rias. E conseguir tirar algu\u00e9m do seu ramerr\u00e3o di\u00e1rio, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por entre as vias complexas da cria\u00e7\u00e3o, o escritor Rodrigo Melo revela alguns trajetos de sua lida com as palavras <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5347,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1368,16,2539],"tags":[1384,1387,1385,410,63,992,8,1386,991],"class_list":["post-5346","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-82a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-82-uma-copa-quinze-historias","tag-caetano-veloso","tag-editora-casarao-do-verbo","tag-editora-mondrongo","tag-entrevista","tag-o-sangue-que-corre-nas-veias","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-peter-gast","tag-rodrigo-melo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5346"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5741,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5346\/revisions\/5741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}