{"id":5360,"date":"2013-08-27T10:46:17","date_gmt":"2013-08-27T13:46:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5360"},"modified":"2013-08-28T10:30:50","modified_gmt":"2013-08-28T13:30:50","slug":"dedos-de-prosa-iii-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-15\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5361\" aria-describedby=\"caption-attachment-5361\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5361\" title=\"Milena Palladino\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA3-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5361\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Milena Palladino<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Depois do baile verde<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Quando<span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span> bateu a porta atr\u00e1s de<br \/>\nsi,<span style=\"color: #ffffff;\">. &#8230;..<\/span>rolaram<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;.<\/span>pela <span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;<\/span>escada<br \/>\nalgumas<span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span><span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span> lantejoulas verdes na<br \/>\nmesma<span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span>dire\u00e7\u00e3o,<span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span> <span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;<\/span>como<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;<\/span><span style=\"color: #ffffff;\"> .<\/span>se<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span>quisessem<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span> alcan\u00e7\u00e1-la.<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Lygia Fagundes Telles<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a c\u00f4moda, numa lenta observa\u00e7\u00e3o. A larga camisa era feita desse tecido sint\u00e9tico, imitando a leveza de uma seda, por\u00e9m mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as v\u00e1rias cores, t\u00e3o diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirma\u00e7\u00e3o daquele brilho t\u00e3o conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza n\u00e3o chegaria aos p\u00e9s do brilho de uma lantejoula. Aquelas fa\u00edscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista emba\u00e7ada. Uma catarata se formava em seu olho. \u00c9 preciso esperar, disse o m\u00e9dico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para s\u00f3 ent\u00e3o descerr\u00e1-la. Descer ao fundo do po\u00e7o, ela chegou a dizer. O m\u00e9dico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele \u00e9 t\u00e3o jovem, disse Tatisa \u00e0 sua filha. Mam\u00e3e! Ela agarrou seu bra\u00e7o numa reprimenda discreta. Ele \u00e9 o melhor nessa \u00e1rea, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos m\u00e9dicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum rem\u00e9dio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu j\u00e1 estou madura demais, doutor, caindo do p\u00e9, ela quis dizer tamb\u00e9m, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele t\u00e3o fresca. Calou-se na obedi\u00eancia que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do ver\u00e3o. Chegou \u00e0 casa exausta. Tantos m\u00e9dicos nos \u00faltimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invis\u00edvel. Desabou no sof\u00e1 e as palavras transbordaram. N\u00e3o viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mam\u00e3e, a senhora ainda vai enterrar todos n\u00f3s. Vai ver quando os exames chegarem, a sa\u00fade de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contr\u00e1rio. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O neto lhe tirou das m\u00e3os o tecido verde. J\u00e1 era um rapag\u00e3o o menino. Rodou pela sala com o peda\u00e7o de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a m\u00e3o por entre as roupas que j\u00e1 estavam l\u00e1, o gesto vigoroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Abad\u00e1, V\u00f3. O nome disso \u00e9 abad\u00e1. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele respondia a uma pergunta lan\u00e7ada \u00e0 neta. Cad\u00ea a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era an\u00eamica de vontade, uma s\u00edlfide p\u00e1lida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais j\u00e1 acostumados com aquela inapet\u00eancia pela vida. A Av\u00f3 n\u00e3o se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela s\u00f3 levantava levemente o ombro direito e estendia os l\u00e1bios uns poucos mil\u00edmetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos ca\u00edam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execu\u00e7\u00e3o do gesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filha de Tatisa tamb\u00e9m estava \u00e0s voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma \u00faltima reuni\u00e3o antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegar\u00e1 a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuni\u00f5es. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, m\u00e3e, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido n\u00e3o teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, at\u00e9 ceder vencido. A neta sequer se manifestou. S\u00f3 o neto ficou animado, queria ir atr\u00e1s do Trio El\u00e9trico, como naquela m\u00fasica: <em>atr\u00e1s do Trio El\u00e9trico s\u00f3 n\u00e3o vai quem j\u00e1 morreu <\/em>&#8230;, cantarolou Tatisa, lembrando da invas\u00e3o dos baianos na televis\u00e3o, As roupas exuberantes, a m\u00fasica t\u00e3o nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camale\u00e3o \u2014 o lagarto da camisa, ou do abad\u00e1, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. N\u00e3o tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exalta\u00e7\u00e3o da festa, os n\u00fameros de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milh\u00e3o, talvez dois. Muita confus\u00e3o. N\u00e3o, os baianos que Tatisa conhecia n\u00e3o cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. S\u00f3 os nov\u00edssimos. Todos os anos, surgiam outros mais nov\u00edssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente \u00e9 que veio o convite da filha. Tatisa sabia que n\u00e3o era uma viagem para velhos. S\u00f3 iria atrapalhar. Que \u00e9 isso, mam\u00e3e, a senhora nunca atrapalha, a filha lan\u00e7ou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro tamb\u00e9m insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe at\u00e9 sincero! Ela n\u00e3o soube como reagir. Ele chegava de uma reuni\u00e3o e de repente a companhia da sogra ganhou tanta import\u00e2ncia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Deve ser nome africano, o neto continuava sua explica\u00e7\u00e3o sobre o tal abad\u00e1. S\u00f3 n\u00e3o sei o que significa. \u00c9 feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatisa alisou sobre a c\u00f4moda o paninho de croch\u00ea, feito com min\u00fasculos pontos, ponto baix\u00edssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembran\u00e7as de um outro carnaval. Aquela roupa verde, t\u00e3o brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalh\u00e1-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. T\u00e3o mais dif\u00edcil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria tem\u00e1tico. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas m\u00fasicas alegres e inocentes, t\u00e3o perto. Por que, ent\u00e3o, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na mem\u00f3ria o Pierr\u00f4 verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela j\u00e1 tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela j\u00e1 tinha a certeza. Ela via a filha e sua for\u00e7a e lembrava daquele Pierr\u00f4. T\u00e3o firme no convite. Vamos ao baile verde, est\u00e1 decidido. Ela quis falar do pai doente, mas n\u00e3o teve coragem. Nem quando rodopiava no sal\u00e3o p\u00f4de dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabe\u00e7a: ele n\u00e3o passa dessa noite. As previs\u00f5es da Lu. Ela j\u00e1 errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doen\u00e7a do pai, sempre prevendo sua morte. Mas j\u00e1 errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai n\u00e3o morreria no dia do baile. T\u00e3o importante o baile, ele sabia. N\u00e3o foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabe\u00e7a enquanto rodopiava nos bra\u00e7os de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da m\u00e3e velha e vi\u00fava. A vida assim resumida. Tatisa n\u00e3o pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado t\u00e3o curto. Ela n\u00e3o sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje n\u00e3o papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatisa \u00e9 acordada mais uma vez de suas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vamos ter de sair antes da hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatisa j\u00e1 ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. N\u00e3o seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reuni\u00e3o n\u00e3o demora tanto assim? E essa aus\u00eancia constante? Tatisa lembrava de seu pr\u00f3prio pai. S\u00f3 adulta percebeu que, quando crian\u00e7a, havia umas aus\u00eancias diferentes. Havia um sil\u00eancio negro no rosto da m\u00e3e. Longos per\u00edodos de sil\u00eancio. O pai oprimido por aquela voz que n\u00e3o era dita. A m\u00e3e engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso sil\u00eancio para os dois. Tatisa tamb\u00e9m teve seus dias de sil\u00eancio com seu Pierr\u00f4 verde. A ela parecia um ritual inevit\u00e1vel. Os homens aprendiam as pequenas aus\u00eancias, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. \u00c0s mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha ent\u00e3o. Tatisa tinha passado por isso. N\u00e3o era poss\u00edvel desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas aus\u00eancias, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. N\u00e3o podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era imposs\u00edvel. Por isso o sil\u00eancio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equil\u00edbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava \u00e0 espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso at\u00e9 que a chave girasse na porta. Ele ent\u00e3o entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filha de Tatisa n\u00e3o parecia entender por completo essa lei. Algo do sil\u00eancio ela aprendera, mas n\u00e3o podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Minha filha, n\u00e3o \u00e9 melhor esperar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e, Mam\u00e3e. Ele sabe os hor\u00e1rios. Saber\u00e1 chegar l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o \u00e9 melhor irem todos juntos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filha olhou s\u00e9ria. N\u00e3o, n\u00e3o. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o voo, pegaria outro. Se n\u00e3o fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar palet\u00f3s todo dia. As reuni\u00f5es, tantas. Aprendesse a administrar as reuni\u00f5es, dizia a filha. Havia uma tens\u00e3o naquela fam\u00edlia, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua m\u00e3o firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, t\u00e3o perigosamente pr\u00f3ximo do gesto agressivo. E essa menina t\u00e3o di\u00e1fana, o que fazer com ela. T\u00e3o ausente, t\u00e3o an\u00eamica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha m\u00e3o firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. N\u00e3o se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus cora\u00e7\u00f5es, apenas seguia em frente, fazendo sua fam\u00edlia caminhar nos trilhos, como um trem, uma esta\u00e7\u00e3o por vez, at\u00e9 vir o final do caminho de ferro, ou at\u00e9 o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lan\u00e7ando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua fam\u00edlia, todos juntos, a fam\u00edlia inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destro\u00e7avam diante daquela for\u00e7a aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O \u00faltimo vag\u00e3o, j\u00e1 velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela j\u00e1 fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vag\u00f5es desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval l\u00e1 fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas ca\u00eddas no ch\u00e3o tentaram acompanh\u00e1-la. Mas para onde, Tatisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspond\u00eancia. Mam\u00e3e?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatisa gesticulou um sei l\u00e1 com os ombros, um leve muxoxo nos l\u00e1bios. A neta teve uma professora, isso era certo. S\u00f3 n\u00e3o aprendera a ter o segredo por tr\u00e1s do gesto evasivo. Seu gesto era s\u00f3 isso, uma evas\u00e3o, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e!? A cl\u00ednica n\u00e3o ficou de mandar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ficou sim. N\u00e3o chegou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Procure, querida, pode estar por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tatisa fez a sugest\u00e3o como uma provoca\u00e7\u00e3o. Conhecia bem a filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu bem, n\u00e3o est\u00e1 em cima da c\u00f4moda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muita coisa estava em cima da c\u00f4moda, sempre t\u00e3o atulhada de objetos. E agora, naquela arruma\u00e7\u00e3o de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Deixe que eu procuro depois, filhinha, v\u00e1 fazer sua viagem, descansar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e, \u00e9 importante, a senhora sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Minha sa\u00fade est\u00e1 \u00f3tima!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os netos apenas observavam aquele impasse entre m\u00e3e e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles n\u00e3o entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibra\u00e7\u00f5es do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaud\u00edveis. Ele represava uma torrente de viol\u00eancia que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria for\u00e7a para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuni\u00f5es voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelga\u00e7ando atrav\u00e9s da adolesc\u00eancia, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava for\u00e7as novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi t\u00e3o chegada ao carnaval. Algumas festas em crian\u00e7a, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma mo\u00e7a. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. N\u00e3o do marido que escapava de seus bra\u00e7os, n\u00e3o dos filhos que escapavam de seu \u00fatero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de for\u00e7a ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as trag\u00e9dias. Mesmo uma cat\u00e1strofe natural ela venceria com os filhos nos bra\u00e7os. Apenas uma for\u00e7a poderia destru\u00ed-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o bra\u00e7o da filha e disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanh\u00e3, depois. A qualquer momento eles chegar\u00e3o. N\u00e3o adianta voc\u00ea se preocupar agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filha p\u00f4s uma express\u00e3o preocupada no rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e, voc\u00ea vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Ali\u00e1s, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? J\u00e1 n\u00e3o havia d\u00favidas demais no ar? O genro n\u00e3o dera not\u00edcias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da m\u00e3e. Eles come\u00e7aram os abra\u00e7os, todo um ritual de separa\u00e7\u00e3o. Recomenda\u00e7\u00f5es de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obedi\u00eancia de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E ent\u00e3o, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vov\u00f3, hoje de manh\u00e3 n\u00e3o chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? N\u00e3o \u00e9 esse o envelope da Cl\u00ednica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rea\u00e7\u00e3o da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela j\u00e1 se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, minha filha, aquele \u00e9 o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manh\u00e3. Voc\u00ea sabe que eu n\u00e3o me conformo. A ci\u00eancia t\u00e3o avan\u00e7ada e eu tendo de esperar isso amadurecer. N\u00e3o me conformo de ficar cega, mesmo que seja s\u00f3 por um tempo. Uma coisa t\u00e3o simples. N\u00e3o entendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e, antes do fim do ano a senhora vai estar \u00f3tima, enxergando tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filha ria tranq\u00fcila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, j\u00e1 estava em pleno voo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou s\u00f3. Foi sentar-se no sof\u00e1. O envelope ardia embaixo do paninho de croch\u00ea. N\u00e3o precisava abri-lo para saber o veredicto. L\u00e1 n\u00e3o estaria a data final, apenas a amea\u00e7a. Por que l\u00ea-lo, ent\u00e3o? Lembrou de como ele chegou pela manh\u00e3, a empregada empilhando todas as cartas na c\u00f4moda. Lembrou de como rondou em volta do m\u00f3vel a manh\u00e3 inteira, como se j\u00e1 beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno ret\u00e2ngulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escond\u00ea-lo. Aproveitou um momento de distra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e foi \u00e0 c\u00f4moda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que n\u00e3o se deve abrir. <em>Quer dar uma espiada, Tatisa?<\/em> Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta n\u00e3o foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, \u00e9 que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sof\u00e1, fechou os olhos emba\u00e7ados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do rel\u00f3gio quebrava o sil\u00eancio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ru\u00eddos de dentro. N\u00e3o pode distinguir nada. Girou suavemente a ma\u00e7aneta antiga. Um ret\u00e2ngulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. L\u00e1 dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas lantejoulas pareciam convid\u00e1-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E ent\u00e3o, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<a href=\"http:\/\/cafemolotov.blogspot.com\/ \"><strong>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/strong><\/a> nasceu em Ilh\u00e9us, na Bahia. Publicou os livros \u201cPequeno invent\u00e1rio das aus\u00eancias\u201d (poesia), Pr\u00eamio Brasken\/Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado \u2013 2001, \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d (contos) \u2013 Editora P55, 2009, \u201cEros Resoluto\u201d (contos) \u2013 Editora P55 e, mais recentemente, \u201cCada dia sobre a terra\u201d (contos) \u2013 EPP Publica\u00e7\u00f5es e Publicidade, 2010. Participou das antologias \u201cConcerto l\u00edrico a quinze vozes: uma colet\u00e2nea de novos poetas da Bahia\u201d (Ed. Aboio Livre, 2004), \u201cOs outros poemas de que falei\u201d (Pr\u00eamio Banco Capital, 2004) e \u201cTanta poesia\u201d (Pr\u00eamio Banco Capital, 2005), dentre outras)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ritual das aus\u00eancias no conto de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5361,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1368,2534],"tags":[81,41,1388,1389,252],"class_list":["post-5360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-82a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-depois-do-baile-verde","tag-lygia-fagundes-telles","tag-marcus-vinicius-rodrigues"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5360"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5363,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5360\/revisions\/5363"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}