{"id":5404,"date":"2013-08-27T14:28:51","date_gmt":"2013-08-27T17:28:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5404"},"modified":"2013-08-28T10:53:48","modified_gmt":"2013-08-28T13:53:48","slug":"dedos-de-prosa-ii-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-15\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Ieda Estergilda <\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5406\" aria-describedby=\"caption-attachment-5406\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5406\" title=\"Milena Palladino\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA7.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA7.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/INTERNA7-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5406\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Milena Palladino<\/figcaption><\/figure>\n<h1><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PELAS RUAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>I<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente da escada que vai dar em uma academia de artes marciais. O sol de quase ver\u00e3o faz brilhar seu rosto escuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente isso que eu queria da mulher. Cruzava com ela quase todo dia, indo e vindo, sentada em batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse como fosse, parei decidida a entrar na sua \u00f3rbita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feita a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabe\u00e7a voltada na dire\u00e7\u00e3o do vento.<\/p>\n<p>&#8211; Esqueci.<\/p>\n<p>A resposta s\u00f3 agu\u00e7ou minha curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Tenta lembrar, seu nome n\u00e3o \u00e9 Luzia? Voc\u00ea tem cara de Luzia, sabia?<\/p>\n<p>&#8211; Luzia sabia n\u00e3o \u00e9 meu nome n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Luzia?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 Luzia tamb\u00e9m n\u00e3o me chamo n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Me diz como voc\u00ea se chama.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me chamo Luzia sabia nem s\u00f3 Luzia.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo bem, esquece.<\/p>\n<p>&#8211; Esqueci, repetiu dando outra cusparada, dessa vez quase me acertando o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea parece uma princesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do olhar, recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era um sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrava a mulher de manh\u00e3 cedo, se espregui\u00e7ando em cima de tiras de papel\u00e3o, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por duas ou tr\u00eas quadras sua busca por comida ou alguns goles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando era s\u00f3 isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabe\u00e7a e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, as pernas abertas, o olhar desfocado, a cabe\u00e7a mal se sustentando no tronco. Ou ent\u00e3o colocava os bra\u00e7os em volta dos joelhos, cabe\u00e7a entre as pernas e assim ficava, muda e tonta. Nada por dizer, nada por fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do dia, ela ainda arrastava o manto roto pelas cal\u00e7adas, os p\u00e9s grossos de tanto ch\u00e3o. Mas n\u00e3o perdia o porte, por mais b\u00eabada que estivesse, mais faminta e suja. Havia uma luz naquela vida. Acho que foi por isso que adotei Luzia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>II<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposi\u00e7\u00e3o de viver brigando com o mundo. Estava dentro do jardim japon\u00eas na manh\u00e3 em que cruzei o viaduto. A saia levantada at\u00e9 \u00e0 cintura, lavava-se \u00e0 beira do pequeno lago. A figura seminua atraiu olhares, depois risos que passaram ao deboche. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavr\u00f5es, mandando todo mundo para aquele lugar e outros semelhantes. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local p\u00fablico, estava num momento de intimidade. N\u00e3o podia usar a \u00e1gua do laguinho? Ent\u00e3o que tal a casa de algu\u00e9m da plateia? Quem oferece? Sua voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos. Terminado o asseio, saiu do jardim como se do banheiro da pr\u00f3pria casa e foi postar-se na cal\u00e7ada. O olhar desafiador era de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse zoar com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos alvos mais frequentes de sua indigna\u00e7\u00e3o s\u00e3o os motoristas que saem dos estacionamentos e garagens sem buzinar. Quando se assusta ao ter de parar bruscamente, n\u00e3o poupa ningu\u00e9m, xinga at\u00e9 ficar rouca, corre atr\u00e1s, bate nos vidros, faz quest\u00e3o de chocar. Vi uma vez ela despejar sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, tocava os bra\u00e7os, o rosto, olhava os manequins impass\u00edveis e fazia compara\u00e7\u00f5es em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente, enquanto eles, se desse um empurr\u00e3ozinho, quebrariam e virariam p\u00f3 ali mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentada num banco da pra\u00e7a, cercada de senhores e senhoras de olhos puxados, a segunda mulher costumava discutir com seus fantasmas. Mexia nas sacolas e dialogava com n\u00e3o sei quem invis\u00edvel. N\u00e3o queria &#8220;ele&#8221; por perto, preferia viver s\u00f3, de louca bastava ela, dizia empurrando o invis\u00edvel com m\u00e3os e p\u00e9s. E ria alto, abra\u00e7ava as pr\u00f3prias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pastor que fazia ponto na entrada do metr\u00f4 resolveu aproveitar a ocasi\u00e3o, ali estava uma que precisava ser salva. E conclamou os que o cercavam a tentar trazer a ovelha irada para o rebanho. O id\u00edlio imagin\u00e1rio durou at\u00e9 a chegada do grupo. Quando se aproximaram, a mulher retomou seu estado de ira e mostrou as garras. Urubus e galinhas depenadas foi o que ouviram de mais suave. A criatura estava na pra\u00e7a curtindo a dela, por que n\u00e3o a deixavam em paz? Pegou o que era seu e saiu praguejando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos ladeira abaixo da naturalmente alterada e de quem nunca quis saber o nome ou origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><strong>III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira mulher tamb\u00e9m perambula por ali. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma mo\u00e7a antiga, dessas recatadas. Vive rodeada de cachorros fam\u00e9licos com quem divide a comida que consegue. Dizem que j\u00e1 foi professora, que perdeu a mem\u00f3ria e n\u00e3o sabe mais o caminho de casa, se tem pai, m\u00e3e, filhos, irm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima vez em que a vi, parara de chover e fui \u00e0 padaria, onde dei com ela na cal\u00e7ada ao lado da porta. Com o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos, um quase nada naquele come\u00e7o de manh\u00e3. A prole tinha aumentado, segurava agora uma galinha, um fogo de penas vermelhas e azuladas debaixo do bra\u00e7o. Os cabelos \u00famidos, distribu\u00eda peda\u00e7os de p\u00e3o entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mergulhei nos seus olhos sem que percebesse, e veio aquele sentimento. N\u00e3o de pena pelo que ela tinha sido e como vivia, nem a considerava um ser miser\u00e1vel. O que me atra\u00eda era sua presen\u00e7a, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Ieda Estergilda de Abreu<\/strong> \u00e9 cearense, vive em S\u00e3o Paulo, j\u00e1 morou em Bras\u00edlia. Escritora, jornalista free lancer (e bacharel em direito), tem livros de poesias publicados: Mais um Livro de Poemas; Gr\u00e3os &#8211; poemas de lembrar a inf\u00e2ncia; A V\u00e9spera do Grito &#8211; um infantil : O Jogo do ABC. Colaborou em jornais, onde tamb\u00e9m publicou cr\u00f4nicas, e escreve para algumas revistas. Tem in\u00e9ditos contos, poesias e hist\u00f3rias para crian\u00e7as e jovens)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A face sublime do anonimato na narrativa de Ieda Estergilda<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1368,2534],"tags":[81,41,1399,1400],"class_list":["post-5404","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-82a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-ieda-estergilda","tag-pelas-ruas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5404"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5408,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5404\/revisions\/5408"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}