{"id":5414,"date":"2013-08-27T14:44:11","date_gmt":"2013-08-27T17:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5414"},"modified":"2018-11-05T11:30:23","modified_gmt":"2018-11-05T14:30:23","slug":"jogo-de-cena-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/jogo-de-cena-10\/","title":{"rendered":"Jogo de Cena"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ETERNA ARTE DO EF\u00caMERO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fernando Marques<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5416\" title=\"CAPA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/CAPA.jpg 282w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/CAPA-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Teatro do Egito \u00e0 Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio, era o rito. Os livros que contam a hist\u00f3ria do teatro costumam come\u00e7ar pela admiss\u00e3o de que o fen\u00f4meno c\u00eanico foi, na origem, cerim\u00f4nia m\u00edstica. H\u00e1 quem lembre, tamb\u00e9m, o parentesco essencial entre teatro e jogo. Para os que ressaltam o papel do sentimento religioso na g\u00eanese do espet\u00e1culo, nos primeiros tempos n\u00e3o havia espectadores, mas fi\u00e9is; tampouco existiam atores, e sim sacerdotes. Os eventos apresentaram esses tra\u00e7os no Egito, na \u00cdndia, na Gr\u00e9cia pr\u00e9-socr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autora da monumental, embora n\u00e3o exaustiva, <em>Hist\u00f3ria mundial do teatro<\/em>, a alem\u00e3 Margot Berthold inicia seu livro com afirma\u00e7\u00e3o semelhante. Para haver teatro, diz, o ocupante do palco deve situar-se al\u00e9m das leis cotidianas \u2013 que definem identidade e alteridade, por exemplo \u2013 e tem de contar com p\u00fablico disposto a ouvir \u201ca mensagem desse vislumbre\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se supor, com Berthold, que a divisa entre rito e espet\u00e1culo, ou entre religi\u00e3o e teatro, se encontre no momento em que o fiel perde a inoc\u00eancia, a f\u00e9, quando j\u00e1 n\u00e3o cr\u00ea estar diante do pr\u00f3prio deus, mas percebe que se trata de simples representa\u00e7\u00e3o, ainda que impressiva, da divindade. O crente transforma-se, a essa altura, em espectador \u2013 mudan\u00e7a que, sob certas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, deve ter demandado s\u00e9culos. O teatro, menos rito do que jogo, procede por met\u00e1fora, por fingimento consentido, e o ator, na sua capacidade de criar a ilus\u00e3o da metamorfose, \u00e9 seu elemento b\u00e1sico, sugere a autora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, a ideia de que o teatro nasce do rito e do mito parece aplicar-se melhor ao g\u00eanero tr\u00e1gico, ligado \u00e0 morte e \u00e0 perda inevit\u00e1veis. J\u00e1 a com\u00e9dia, embora se origine em festas de car\u00e1ter f\u00e1lico, igualmente religiosas, relaciona-se menos ao momento ritual de exce\u00e7\u00e3o e mais \u00e0 vida cotidiana (pensamos aqui na tradi\u00e7\u00e3o de origem grega).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naturalmente, o livro de Berthold privilegia a hist\u00f3ria, n\u00e3o a teoria \u2013 n\u00e3o pretende especular em torno do teatro, mas descrever e comentar suas manifesta\u00e7\u00f5es. O longo passeio, fartamente ilustrado, pelas in\u00fameras formas assumidas pela cena nos leva, nos primeiros cap\u00edtulos, ao Egito e \u00e0 Mesopot\u00e2mia, \u00e0s regi\u00f5es isl\u00e2micas, \u00cdndia, China e Jap\u00e3o. Depois, a estudiosa retorna \u00e0 Gr\u00e9cia e retoma o curso ocidental em ordem cronol\u00f3gica, tratando de Roma, Idade M\u00e9dia, Renascimento, at\u00e9 a modernidade \u2013 as datas mais recentes, entre as citadas no volume, giram em torno de 1965. Nota-se, no enorme esfor\u00e7o de s\u00edntese, traduzido em claro e elegante portugu\u00eas, a aus\u00eancia do teatro africano \u2013 j\u00e1 algo documentado, presume-se, quando da reda\u00e7\u00e3o do livro (o Egito de que trata a autora \u00e9 o arcaico). Faltam ainda refer\u00eancias \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Para informa\u00e7\u00f5es sobre atividades c\u00eanicas na \u00c1frica, o leitor curioso pode recorrer a <em>Hist\u00f3ria do teatro<\/em>, do baiano N\u00e9lson de Ara\u00fajo, que fala sucintamente do assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os espet\u00e1culos que celebravam a paix\u00e3o de Os\u00edris, em Abidos, no Egito, est\u00e3o entre as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es teatrais de que se tem not\u00edcia. Realizados ao ar livre e destinados a envolver toda a comunidade, aqueles festivais se assemelhavam aos que foram praticados na Mesopot\u00e2mia: \u201cNo reino de Nabucodonosor, o famoso festival do Ano Novo, em homenagem ao deus da cidade da Babil\u00f4nia, Marduk, era celebrado com pompa espetacular\u201d, anota Berthold. O poder de Estado fundava-se na religi\u00e3o, e todo o povo era periodicamente chamado a festej\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15440\" aria-describedby=\"caption-attachment-15440\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-eg\u00edpcia-em-torno-do-mito-de-Os\u00edris-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15440 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-eg\u00edpcia-em-torno-do-mito-de-Os\u00edris-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-eg\u00edpcia-em-torno-do-mito-de-Os\u00edris-interna.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-eg\u00edpcia-em-torno-do-mito-de-Os\u00edris-interna-300x236.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15440\" class=\"wp-caption-text\">Cena eg\u00edpcia em torno do mito de Os\u00edris<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre povos isl\u00e2micos, a proibi\u00e7\u00e3o de se representar a figura divina sob forma humana ter\u00e1 inibido o teatro. Artistas turcos, valendo-se de personagens c\u00f4micas \u2013 os bonecos Karag\u00f6z e Hadjeivat \u2013, contornaram a interdi\u00e7\u00e3o, disfar\u00e7ando os tra\u00e7os humanos de suas criaturas. A lenda sobre a origem da dupla de bonecos lembra a intoler\u00e2ncia que tantas vezes atingiu, em diversas \u00e9pocas e pa\u00edses, os artistas do palco. Karag\u00f6z e Hadjeivat teriam existido realmente: eram oper\u00e1rios-atores que, com anedotas e palha\u00e7adas, distra\u00edam os demais trabalhadores de seus deveres na constru\u00e7\u00e3o de certo templo. O sult\u00e3o da hora, por isso, mandou mat\u00e1-los. Depois, arrependido, o chefe pol\u00edtico procurou compensar o crime permitindo que os humoristas mortos revivessem, simbolicamente, na forma de bonecos. Conf\u00facio, na China, tamb\u00e9m iria punir com a morte a irrever\u00eancia dos atores c\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Motiva\u00e7\u00f5es religiosas estiveram na base do teatro na \u00cdndia, onde a arte do ator recebeu aten\u00e7\u00e3o especial. Ao contr\u00e1rio do que se deu entre povos isl\u00e2micos, \u201ca conceitua\u00e7\u00e3o antropom\u00f3rfica dos deuses proporcionou o primeiro impulso para o drama\u201d. O <em>Natyasastra<\/em>, livro escrito h\u00e1 cerca de 2000 anos pelo s\u00e1bio Bharata, registra os princ\u00edpios da atividade c\u00eanica, no que \u00e9 um manual das artes da dan\u00e7a e do teatro*.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Natyasastra<\/em> requer, \u201ctanto do dan\u00e7arino quanto do ator, concentra\u00e7\u00e3o extrema at\u00e9 as pontas dos dedos, de acordo com uma lista precisamente detalhada\u201d. Aqui n\u00e3o se leva em conta a espontaneidade intuitiva, n\u00e3o se improvisa: as regras assemelham-se \u201ca uma soma de valores matem\u00e1ticos\u201d. As maneiras de andar, por exemplo, s\u00e3o convencionais: \u201cUma cortes\u00e3 caminha com passo ondulante, uma dama da corte com passinhos mi\u00fados; um bobo caminha com os ded\u00f5es dos p\u00e9s apontados para cima, um cortes\u00e3o com passos solenes, e um mendigo, arrastando os p\u00e9s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 5000 anos de hist\u00f3ria chinesa contam que o teatro p\u00f4de ser \u00fatil na resist\u00eancia ao invasor mongol, n\u00e3o em representa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mas em livros que circulavam restritamente. Nesse caso, \u201cos dramaturgos eram eruditos, m\u00e9dicos, literatos, cujos disc\u00edpulos se reuniam em torno do mestre ao abrigo das salas particulares de recitais\u201d. O aplauso popular, por outro lado, dirigia-se aos malabaristas, acrobatas e mimos. A heran\u00e7a desses artistas conserva-se no repert\u00f3rio da \u00d3pera de Pequim, na qual a habilidade dos acrobatas \u201cpossui seu lugar de honra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A China tamb\u00e9m oferece bons exemplos de literatura dram\u00e1tica. Entre eles, est\u00e3o os textos que aproveitaram a hist\u00f3ria do imperador Ming-Huang e de sua amante Yang Kuei-fei. Lances da trajet\u00f3ria do casal, que viveu no s\u00e9culo VIII, d\u00e3o mote a v\u00e1rias pe\u00e7as, como o drama <em>O pal\u00e1cio da vida eterna<\/em>, do final do s\u00e9culo XVII. Diz Berthold: \u201cAs falas desta pe\u00e7a, imortalizando o juramento trocado entre o imperador e sua bem-amada, s\u00e3o t\u00e3o bem conhecidas na China quanto o s\u00e3o, na Europa, as palavras da Julieta de Shakespeare\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais visceral, talvez, \u00e9 o epis\u00f3dio em que se inspira <em>A beleza embriagada<\/em>, \u201cobra-prima de virtuosismo histri\u00f4nico, que durante muitos anos fez parte do internacionalmente aclamado repert\u00f3rio da \u00d3pera de Pequim\u201d. Yang Kuei-fei espera o namorado, que a convidara para uma ta\u00e7a de vinho no Pavilh\u00e3o das Cem Flores. A espera resulta in\u00fatil, o imperador preferiu cair nos bra\u00e7os de outra mulher. A mo\u00e7a rejeitada, ent\u00e3o, se embriaga, tentando sufocar o ci\u00fame.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berthold afirma a import\u00e2ncia desse \u201cmusical de ato \u00fanico\u201d, observando que, na encena\u00e7\u00e3o, \u00e9 ressaltada a a\u00e7\u00e3o \u00edntima, interior. A autora recorre \u00e0s palavras do historiador Huang-hung, que sentencia: \u201cPara chegar a uma aprecia\u00e7\u00e3o correta do teatro chin\u00eas, o europeu precisa estar consciente de que o maior interesse n\u00e3o \u00e9 tanto sublinhar a a\u00e7\u00e3o enquanto tal, mas deixar o p\u00fablico sentir a hist\u00f3ria. O acento est\u00e1 nas possibilidades espirituais, mais do que nas f\u00edsicas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Jap\u00e3o, por volta de 1720, o dramaturgo Chikamatsu pensa de modo similar: \u201cConsidero que o <em>p\u00e1thos<\/em> seja inteiramente uma quest\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele, acrescentando que, \u201cquando todos os componentes da arte s\u00e3o dominados pela conten\u00e7\u00e3o, o resultado \u00e9 muito comovente\u201d. Entre os estilos mais importantes do teatro japon\u00eas, encontram-se o <em>n\u00f4<\/em>, que remonta ao s\u00e9culo XIV e faz o elogio da \u00e9tica heroica e aristocr\u00e1tica dos samurais, e o <em>kabuki<\/em>, encorajado pelo poder dos mercadores no s\u00e9culo XVII, g\u00eanero que avan\u00e7ava no sentido de compreender \u201ctoda a extens\u00e3o da realidade social\u201d, utilizando dan\u00e7a e m\u00fasica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15441\" aria-describedby=\"caption-attachment-15441\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-de-um-espet\u00e1culo-de-Kabuki-Foto-S\u00e9rgio-Carvalhointerna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15441 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-de-um-espet\u00e1culo-de-Kabuki-Foto-S\u00e9rgio-Carvalhointerna.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-de-um-espet\u00e1culo-de-Kabuki-Foto-S\u00e9rgio-Carvalhointerna.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-de-um-espet\u00e1culo-de-Kabuki-Foto-S\u00e9rgio-Carvalhointerna-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15441\" class=\"wp-caption-text\">Cena de um espet\u00e1culo de Kabuki \/ Foto: S\u00e9rgio Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berthold chega, a essa altura, \u00e0s matrizes gregas do teatro ocidental. Ali, o caminho que leva do rito \u00e0 cena aparenta-se ao que se deu noutras \u00e9pocas e noutras regi\u00f5es, mas em grau diverso: \u201cO teatro \u00e9 uma obra de arte social e comunal; nunca isso foi mais verdadeiro do que na Gr\u00e9cia antiga\u201d, diz a historiadora. Pode-se destacar, naquele acervo, a linha que vai de \u00c9squilo a S\u00f3focles e deste a Eur\u00edpedes, os tr\u00eas grandes autores tr\u00e1gicos do per\u00edodo especialmente f\u00e9rtil iniciado em torno de 500 a.C., quando \u00c9squilo come\u00e7a a participar dos concursos teatrais em Atenas, e terminado em 406 a.C., quando morre Eur\u00edpedes**.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berthold descreve: \u201cOs componentes dram\u00e1ticos da trag\u00e9dia arcaica eram um pr\u00f3logo que explicava a hist\u00f3ria pr\u00e9via, o c\u00e2ntico de entrada do coro, o relato dos mensageiros na tr\u00e1gica virada do destino e o lamento das v\u00edtimas\u201d. De \u00c9squilo a S\u00f3focles, diminuem as interven\u00e7\u00f5es corais \u2013 o que se nota ao se comparar, por exemplo, uma pe\u00e7a como <em>Agamenon<\/em>, pertencente \u00e0 trilogia esquiliana <em>Or\u00e9stia<\/em>, \u00e0 <em>Ant\u00edgona<\/em>, de S\u00f3focles. Este, 30 anos mais jovem que \u00c9squilo, passa a utilizar tr\u00eas atores, em lugar de dois, para o di\u00e1logo com o coro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas considera\u00e7\u00f5es de ordem material pretendem sugerir as transforma\u00e7\u00f5es de conte\u00fado operadas de um a outro dos tr\u00eas autores. O teor m\u00edtico, aos poucos, se dilui ou se ameniza, num caminho que leva dos semideuses de \u00c9squilo aos retratos mais pr\u00f3ximos do humano legados por Eur\u00edpedes. O rival S\u00f3focles diria: \u201cEu represento os homens como devem ser, Eur\u00edpedes os representa como eles s\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentes posturas distinguem a esquiliana Electra da indefesa mas decidida Ant\u00edgona, personagem da pe\u00e7a hom\u00f4nima de S\u00f3focles, e da rancorosa Medeia, da pe\u00e7a de Eur\u00edpedes. Electra conspira contra a m\u00e3e Clitemnestra e concorre para a morte desta por n\u00e3o poder fugir \u00e0s leis da vingan\u00e7a, que condicionam seu comportamento (Clitemnestra matara o marido Agamenon, pai de Electra). Ant\u00edgona, presa a determina\u00e7\u00f5es ancestrais, mas j\u00e1 disposta a agir por conta pr\u00f3pria, enfrenta o tirano Creonte, que proibira o enterro de Polinices, irm\u00e3o de Ant\u00edgona. Por fim, Medeia, embora dotada de poderes sobrenaturais, atende, ao matar os dois filhos, t\u00e3o somente \u00e0 pr\u00f3pria dor de mulher abandonada pelo marido, de quem se vinga com o assassinato dos meninos. O mito cede \u00e0 psicologia, deuses tornam-se homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15442\" aria-describedby=\"caption-attachment-15442\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-da-montagem-de-Ant\u00edgona-pela-Companhia-Senhas-de-Teatro-PR-interna-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15442 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-da-montagem-de-Ant\u00edgona-pela-Companhia-Senhas-de-Teatro-PR-interna-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-da-montagem-de-Ant\u00edgona-pela-Companhia-Senhas-de-Teatro-PR-interna-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Cena-da-montagem-de-Ant\u00edgona-pela-Companhia-Senhas-de-Teatro-PR-interna-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-300x157.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15442\" class=\"wp-caption-text\">Cena da montagem de Ant\u00edgona pela Companhia Senhas de Teatro (PR) \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora resume: \u201cEur\u00edpedes rebaixou a provid\u00eancia divina ao poder cego do acaso\u201d. Foi exatamente esta a queixa de Nietzsche contra o \u201csacr\u00edlego Eur\u00edpedes\u201d: o autor de <em>Medeia<\/em> trata os conceitos morais \u00e0 base de sofismas, oferecendo \u00e0s suas personagens, diz Berthold, \u201co direito de hesitar, de duvidar\u201d. O mundo se amesquinha, reclama o jovem Nietzsche de <em>O nascimento da trag\u00e9dia<\/em>; a cren\u00e7a dionis\u00edaca tende a desaparecer, dando lugar \u00e0 especula\u00e7\u00e3o ou ao puro desencanto (Eur\u00edpedes, contudo, voltaria \u00e0s fontes dionis\u00edacas, pouco antes de morrer, na pe\u00e7a <em>As bacantes<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na \u00e9poca o corrosivo e conservador Arist\u00f3fanes satirizava Eur\u00edpedes, tomando o partido de \u00c9squilo na com\u00e9dia <em>As r\u00e3s<\/em>: \u201cNesta pe\u00e7a, Dioniso, o deus do teatro, avaliar\u00e1 os m\u00e9ritos concernentes a \u00c9squilo e Eur\u00edpedes, mas ele se revela t\u00e3o indeciso, vacilante e suscet\u00edvel quanto o p\u00fablico e os ju\u00edzes na competi\u00e7\u00e3o\u201d. Dioniso pesa os textos \u201cfeito queijo\u201d, mas concede enfim a vit\u00f3ria ao decano \u00c9squilo. A pe\u00e7a foi representada em 405 a.C. e, no ano seguinte, chegavam ao poder os Trinta Tiranos, inimigos da democracia que, morrendo, levava consigo trag\u00e9dia e com\u00e9dia antigas: \u201cO esp\u00edrito da trag\u00e9dia e a democracia ateniense haviam perecido juntos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda e \u00faltima parte deste artigo, a sair na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o de <em>Diversos Afins<\/em>, viajaremos de Roma ao s\u00e9culo XX, dando sequ\u00eancia ao percurso proposto por Margot Berthold em sua <em>Hist\u00f3ria mundial do teatro<\/em>.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">* \u201cSeria in\u00fatil procurar por detr\u00e1s desse nome, que sugere rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas com algumas divindades, uma individualidade sobre a qual pud\u00e9ssemos ter um conhecimento hist\u00f3rico. Bharata n\u00e3o \u00e9 mais que o s\u00e1bio m\u00edtico a quem os deuses ordenaram que criasse o teatro\u201d, anotam Monique Borie, Martine de Rougemont e Jacques Scherer em Est\u00e9tica teatral \u2013 textos de Plat\u00e3o a Brecht. Lisboa: Gulbenkian, 1996, p. 31.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">** O legado de \u00c9squilo, S\u00f3focles e Eur\u00edpedes, somado ao do comedi\u00f3grafo Arist\u00f3fanes, resulta em 43 pe\u00e7as ao todo. Os textos sobreviventes est\u00e3o assim distribu\u00eddos: sete trag\u00e9dias de \u00c9squilo, inclu\u00edda a trilogia Or\u00e9stia (Agamenon, Co\u00e9foras e Eum\u00eanides); sete de S\u00f3focles, inclusive as da Trilogia tebana (\u00c9dipo Rei, Ant\u00edgona e \u00c9dipo em Colono); 18 de Eur\u00edpedes (17 trag\u00e9dias, a exemplo de Medeia, Hip\u00f3lito e As bacantes, e um drama sat\u00edrico); e as 11 com\u00e9dias de Arist\u00f3fanes (entre elas Lis\u00edstrata ou A greve do sexo e As r\u00e3s).<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Fernando Marques<\/strong> \u00e9 professor do Departamento de Artes C\u00eanicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou\u00a0\u201c<em>Retratos de mulher\u201d <\/em>(poesia; Varanda, 2001),\u00a0\u201c<em>Contos canhotos\u201d<\/em>\u00a0(LGE, 2010),\u00a0\u201c<em>A comicidade da desilus\u00e3o: o humor nas trag\u00e9dias cariocas de Nelson Rodrigues\u201d <\/em>(ensaio; Editora UnB\/Ler Editora, 2012) e as pe\u00e7as\u00a0\u201c<em>Z\u00e9\u201d<\/em>\u00a0(adapta\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Woyzeck<\/em>\u00a0de B\u00fcchner) e\u00a0\u201c<em>\u00daltimos\u201d<\/em><\/em> <em>\u2013 com\u00e9dia musical<\/em><em> (<\/em><em>livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lan\u00e7a neste ano o CD\u00a0\u201c<em>De cor\u201d<\/em>, com 14 can\u00e7\u00f5es do autor. A pe\u00e7a\u00a0\u201c<em>Z\u00e9\u201d<\/em>\u00a0ser\u00e1 republicada em novembro pela \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Marques percorre a hist\u00f3ria do Teatro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5415,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1368,2537],"tags":[1402,914,1401,1404,12,1403],"class_list":["post-5414","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-82a-leva","category-jogo-de-cena","tag-a-eterna-arte-do-efemero","tag-ensaio","tag-fernando-marques","tag-historia-mundial-do-teatro","tag-jogo-de-cena","tag-margot-berthold"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5414"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5414\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15444,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5414\/revisions\/15444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5415"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}