{"id":5582,"date":"2013-09-28T16:18:08","date_gmt":"2013-09-28T19:18:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5582"},"modified":"2013-10-30T12:49:44","modified_gmt":"2013-10-30T15:49:44","slug":"dedos-de-prosa-i-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-18\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Mayrant Gallo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5584\" aria-describedby=\"caption-attachment-5584\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5584\" title=\"Denise Scaramai\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA1.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA1-300x229.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5584\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Denise Scaramai<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CARAS QUE N\u00c3O COSTUMAM LER LIVROS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dani Dark tinha viajado. Rio de Janeiro. Um congresso em seu ramo de atividade, que n\u00e3o vem ao caso explicitar aqui. O certo \u00e9 que, \u00e0quela hora, ela estava num hotel da Zona Sul, o mar em frente, numa verdadeira metr\u00f3pole, e eu aqui, comendo no Yang Ping do Center Lapa e, nos dias em que n\u00e3o tinha trabalho, saindo cedo para caminhar no Dique. Era tudo. Meu trabalho, voc\u00eas sabem&#8230; Quem leu os contos do Gallo j\u00e1 me conhece. Eu mato. Sou pago para matar. Gente rica, e at\u00e9 gente pobre, me contrata com frequ\u00eancia. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 matei para fazer cumprir a justi\u00e7a. Instinto de nobreza, uma coisa assim do Zorro, que n\u00e3o faz de ningu\u00e9m um sujeito melhor nem pior \u2015 muito menos eu \u2015 e que, sobretudo, n\u00e3o nos salva do injustific\u00e1vel: o fim do t\u00fanel l\u00e1 adiante e o salto, afinal, no abismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma semana antes, como estivesse na cidade um escritor de S\u00e3o Paulo, lan\u00e7ando um livro, compareci ao evento, na LDM do Ita\u00fa Cultural. O cara autografou o livro para mim, e fiquei l\u00e1, zanzando entre os escritores. Dei at\u00e9 a minha opini\u00e3o sobre um poema do Ruy Espinheira Filho, que Milena Brito, Tom Correia e o Gallo \u2015 acima citado \u2015 leram com rever\u00eancia, a um canto da livraria. Falei: \u201cMet\u00e1fora da ditadura militar\u201d. Eles concordaram, e logo sa\u00ed, fui me restabelecer no balc\u00e3o com um <em>cappuccino<\/em> gelado. De l\u00e1, fiquei olhando a plateia. Quero dizer: as pessoas que compareceram para comprar o livro do escritor. Me perguntava quantos de fato o leriam e quantos n\u00e3o estavam ali apenas pela dedicat\u00f3ria ou pelo aut\u00f3grafo, rabiscados na folha de rosto. O autor parecia dos bons, com t\u00edtulos que ressoavam: <em>N\u00e3o h\u00e1 nada l\u00e1<\/em>. Ou: <em>Do fundo do po\u00e7o se v\u00ea a lua<\/em>. Um sugeria desesperan\u00e7a, e o outro, o inverso. Whitman aprovaria. O velho Jo\u00e3o Ant\u00f4nio tamb\u00e9m. E os tr\u00eas livros que abri e folheei, entre os quais o que o autor me autografou, come\u00e7avam bem, produziam interesse. Acabei ent\u00e3o o meu caf\u00e9 e fui para casa, ler. N\u00e3o precisei sair \u00e0 francesa, pois ningu\u00e9m me conhecia mesmo. Eu estava isolado, sou comumente isolado, e esta \u00e9 realmente a maior das d\u00e1divas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De manh\u00e3 cedo, l\u00e1 pela p\u00e1gina 35, o autor \u2015 Joca Reiners Terron (e tive agora de pegar o livro para achar este nome do meio, pois tenho dificuldade em memorizar nomes triplos) \u2015 o autor continuava me seduzindo. \u00c0 tardinha, idem. Tanto que eu estava quase no fim do volume e entrei na internet e adquiri outra obra do cara, <em>A tristeza extraordin\u00e1ria<\/em> de alguma coisa. \u00c9 a vantagem de se trabalhar para si mesmo e exercer uma atividade lucrativa: pode-se ler \u00e0 vontade e quando se quer. E adiar as obriga\u00e7\u00f5es, que jamais ser\u00e3o inadi\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finda a hist\u00f3ria, e n\u00e3o eram vinte horas ainda, pus cal\u00e7\u00e3o, camiseta, t\u00eanis e desci para uma corrida no Dique. Passei pelo porteiro, que cumprimentei como sempre, levantando a m\u00e3o, ao mesmo tempo para que abrisse o port\u00e3o e se sentisse bem, por eu enxerg\u00e1-lo no seu trabalho di\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Dique estava quase vazio. Na segunda volta, vinte minutos depois, eu passava por um <em>jogger<\/em> a cada duzentos ou trezentos metros, sempre homens, nenhuma mulher. Eu ia correndo e pensando no livro, tamb\u00e9m em telefonar para Dani, que estava no pen\u00faltimo dia do tal congresso. E foi ent\u00e3o que cheguei ao fim e me sentei num dos bancos. Um orix\u00e1 pr\u00f3ximo, horroroso. A t\u00edpica arte do t\u00edpico e que n\u00e3o nos diz nada, a n\u00e3o ser para os turistas, que tamb\u00e9m s\u00e3o t\u00edpicos. Eu estava l\u00e1, olhando a lua subir, respirando um ar frio e menos polu\u00eddo, todo suado, alguns mosquitos grudados na testa, reflexos do Terron ainda na cabe\u00e7a e nos olhos, quando dois caras chegaram da escurid\u00e3o e se sentaram, um de cada lado do banco. Ambos negros, desnutridos e in\u00fateis. Mantive a calma e pensei que as pessoas s\u00e3o livres para se sentar onde quiserem. E que o banco n\u00e3o me pertencia e que eu n\u00e3o poderia exigir que eles sa\u00edssem. Ent\u00e3o sa\u00ed eu, mas, mal havia dado dois passos, ouvi:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOnde c\u00ea vai?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu poderia dizer \u201cN\u00e3o \u00e9 da sua conta\u201d e seguir em frente, mas preferi parar e esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9, onde c\u00ea vai?\u201d \u2015 disse o outro, como um eco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me voltei. E s\u00f3 me ocorreu, naquele momento, arrancar de minha testa dois mosquitos que estavam me incomodando \u2015 mortos, afogados, contra o meu suor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tenho uma casa e \u00e9 para l\u00e1 que eu vou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o sem a gente\u201d, o primeiro disse e se levantou, e tinha um rev\u00f3lver na m\u00e3o e o ar de insol\u00eancia dos poderosos da pol\u00edtica, quando n\u00e3o est\u00e3o em p\u00fablico fazendo m\u00e9dia com o eleitor burro, burro o suficiente para acreditar em palavras repetidas \u00e0 exaust\u00e3o, desde o tempo em que, entre animais, o primeiro homem imp\u00f4s a outro a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vestiam bermud\u00f5es, folgados, as cuecas \u00e0 mostra, e camisetas de tecido sint\u00e9tico, com propagandas de cervejarias, restos do \u00faltimo carnaval. Nos p\u00e9s, sand\u00e1lias que antes s\u00f3 os verdureiros e estivadores usavam. E nas cabe\u00e7as, com as palas sobre a nuca, bon\u00e9s de clubes de futebol rivais. Os bra\u00e7os eram finos e tatuados, desenhos que mal se viam sobre a pele fubenta, que estava longe de ser uma tela branca. Exalavam tristeza. Um odor de quarto de hotel barato, das Sete Portas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um segundo livro do Terron me esperando e um terceiro a caminho, nas malhas da internet. E havia aqueles dois caras ali, que n\u00e3o fariam nenhuma falta ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abri os bra\u00e7os, mostrei que estava liso, que n\u00e3o tinha dinheiro algum, nem celular, nem qualquer outro tipo de aparelho comigo, apenas minha identidade, o cart\u00e3o do plano de sa\u00fade e um papelzinho com o telefone de Dani Dark, para o caso de eu ter um treco, cair afogado tamb\u00e9m, em meu suor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eles eram insistentes, queriam que eu fosse com eles em casa, pegasse o cart\u00e3o banc\u00e1rio, f\u00f4ssemos \u00e0 ag\u00eancia mais pr\u00f3xima \u2015 falaram assim, \u201cag\u00eancia mais pr\u00f3xima\u201d, como num comunicado de tev\u00ea ou um impresso de publicidade \u2015 e lhes entregasse uma boa soma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que eu poderia dizer, diante da argumenta\u00e7\u00e3o de um cano frio? Eu, que a meu modo, tamb\u00e9m matava e sabia que n\u00e3o \u00e9 preciso motivo algum para se apertar o gatilho numa noite, mesmo de lua&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assenti:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTudo bem, moro nos Barris. \u00c9 s\u00f3 subirmos a ladeira\u201d. Uma mentira, pois quem j\u00e1 leu o Gallo sabe que moro mais \u00e0 frente, no Politeama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPare de falar!\u201d \u2015 um deles disse. \u201cS\u00f3 v\u00e1 andando, que a gente vai junto, do seu lado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este foi o erro. Quem conhece o caminho do Dique para os Barris sabe que, depois da funer\u00e1ria <em>A Decorativa<\/em>, \u00e0 direita, h\u00e1 uma curva e que os \u00f4nibus, sobretudo \u00e0 noite, dobram ali chapados. Foi o que me bastou. Ia com um de cada lado do corpo e, quando ouvi o ru\u00eddo do \u00f4nibus \u00e0s minhas costas, empurrei o cara da esquerda para a pista \u2015 ouvi o baque \u2015 e, quase simultaneamente, num gesto sim\u00e9trico, dei uma violenta cotovelada no outro, \u00e0 minha direita. Ele caiu, e o rev\u00f3lver, que antes apontara para mim, estava em minhas m\u00e3os. N\u00e3o hesitei. Era ele ou eu, como se diz, embora n\u00e3o fosse verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio a pol\u00edcia, e tive que me explicar: os caras tinham me sequestrado, queriam dinheiro, e todo o resto&#8230; Ao fim, o delegado, que sabia das minhas atividades, s\u00f3 faltou me abra\u00e7ar por livr\u00e1-lo daqueles dois mosquitos afogados em crimes, um dos quais era suspeito de molestar mulheres e crian\u00e7as, no Dique. Caras que n\u00e3o costumam ler livros morrem indistintos. N\u00e3o sei mesmo quem disse isso, mas \u00e9 um belo aforismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00fanico inconveniente foi que cheguei em casa depois das vinte e duas horas. Sacudido. Escangalhado. \u00c0 minha espera, havia um e-mail de Dani, afetuoso, e dois outros, de clientes disfar\u00e7ados de <em>spam<\/em>, requisitando meus trabalhos. Ia ter que dar um tempo na leitura. Do Terron e de qualquer outro escritor. Bem, pelo menos, em troca, eu ia ser remunerado. Matar sem grana, s\u00f3 por justi\u00e7a \u2015 e, neste sentido, eu j\u00e1 havia cumprido a minha cota do m\u00eas \u2015, n\u00e3o leva a nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dani, que preferiria que eu fosse mec\u00e2nico de autom\u00f3veis ou m\u00fasico de quinta categoria, n\u00e3o ia acreditar quando eu lhe dissesse que tinha sa\u00eddo para correr no Dique e, por acaso, matei dois caras. Ela ia dizer, como sempre, lembrando-se do c\u00e9lebre caso do cinema \u2015 em que matei um babaca no banheiro, durante a sess\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSem essa!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Mayrant Gallo<\/strong> \u00e9 autor de Os encantos do sol (Escrituras, 2013), Cidade singular (Kalango, 2013) e O in\u00e9dito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Este conto foi escrito exclusivamente para a Diversos Afins e incorporado ao volume in\u00e9dito O pr\u00f3ximo her\u00f3i)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto in\u00e9dito do escritor Mayrant Gallo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5583,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1419,2534,16],"tags":[1426,81,41,1344,149],"class_list":["post-5582","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-83a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-caras-que-nao-costumam-ler-livros","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-mayrant-gallo","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5582"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6027,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5582\/revisions\/6027"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}