{"id":5589,"date":"2013-09-28T16:30:07","date_gmt":"2013-09-28T19:30:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5589"},"modified":"2013-10-30T12:49:51","modified_gmt":"2013-10-30T15:49:51","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-18\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um importante eixo filos\u00f3fico movimenta o ambiente da cria\u00e7\u00e3o. Talvez por isso um autor empreenda percursos mais vigorosos ao cerne daquilo que o impele a edificar palavras. N\u00e3o raro, v\u00ea-se imbu\u00eddo em complexidades que remontam muito mais a indaga\u00e7\u00f5es que a respostas de toda ordem. Nesse \u00ednterim, a face misteriosa da exist\u00eancia \u00e9 senhora absoluta das horas, configurando um cen\u00e1rio atrav\u00e9s do qual pouco importa o saber dos significados. Ganha corpo o sabor dos desavisos e de como s\u00e3o indom\u00e1veis o tempo e seus rompantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor com quem conversamos agora traduz em sua obra um pouco desse fluxo incessante em torno do mist\u00e9rio da vida. Trata-se de <a href=\"http:\/\/umalagartadefogo.blogspot.com\/  \"><strong>Edson Bueno de Camargo<\/strong><\/a>, poeta cujos versos instauram um especial sentido de liga\u00e7\u00e3o com a g\u00eanese do mundo. E est\u00e1 a se falar aqui de como a palavra funda territ\u00f3rios e ergue estruturas, todas elas a compor um vasto painel de caracter\u00edsticas que nos ajudam a perceber qu\u00e3o imersos estamos no oceano do insond\u00e1vel.\u00a0 N\u00e3o bastasse essa herc\u00falea trajet\u00f3ria sugerida pelo trato com as letras, em Edson temos tamb\u00e9m a refer\u00eancia ao papel do tempo, seja como componente de transcurso dos homens e suas a\u00e7\u00f5es, seja na constata\u00e7\u00e3o de que os signos da perman\u00eancia nos revelam mais atributos do que supomos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Santo Andr\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo, o poeta traz embutidas em suas travessias diversas premia\u00e7\u00f5es em concursos liter\u00e1rios e participa\u00e7\u00f5es em antologias e revistas impressas e virtuais. Dentre suas publica\u00e7\u00f5es em livro, est\u00e3o: \u201cCortinas\u201d (edi\u00e7\u00e3o artesanal), com poesias suas e de Cec\u00edlia A. Bedeschi &#8211; Mau\u00e1 \u2013 1981; \u201cPoemas do S\u00e9culo Passado &#8211; 1982-2000\u201d (edi\u00e7\u00e3o de autor &#8211; Mau\u00e1 \u2013 2002); \u201dO Mapa do Abismo e Outros Poemas\u201d (Edi\u00e7\u00f5es Tigre Azul\/ FAC Mau\u00e1 \u20132006) e \u201ccabal\u00edsticos\u201d (Cole\u00e7\u00e3o Orpheu \u2013 Editora Multifoco \u2013 Rio de Janeiro \u2013 2010).\u00a0 Seu mais recente rebento po\u00e9tico, \u201cA fome insaci\u00e1vel dos olhos\u201d (Editora Patu\u00e1 &#8211; 2013), refor\u00e7a a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos diante de um autor comprometido com as incurs\u00f5es poss\u00edveis da palavra.\u00a0 Nessa entrevista, Edson Bueno de Camargo compartilha conosco tra\u00e7os importantes de sua obra, bem como impress\u00f5es a respeito desse labir\u00edntico espa\u00e7o chamado literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5595\" aria-describedby=\"caption-attachment-5595\" style=\"width: 344px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5595\" title=\"Edson Bueno de Camargo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-11.jpg\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-11.jpg 344w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-11-258x300.jpg 258w\" sizes=\"auto, (max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5595\" class=\"wp-caption-text\">Edson Bueno de Camargo \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A come\u00e7ar pelo t\u00edtulo, seu mais recente livro traz em si uma profunda carga imag\u00e9tica. As paisagens po\u00e9ticas ali presentes mesclam aus\u00eancias, sil\u00eancios, chamados e revela\u00e7\u00f5es<\/strong>,\u00a0<strong>tudo a compor uma arquitetura delicada para a exist\u00eancia.<\/strong>\u00a0<strong>&#8220;A Fome insaci\u00e1vel dos olhos&#8221; pode ser tido como um exerc\u00edcio de travessias diante da fragilidade da vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Lembro de, em 2006, assistir a uma palestra da Ad\u00e9lia Prado em Paraty, onde ela falou sobre a fragilidade de nossa exist\u00eancia, de como somos seres prec\u00e1rios, e de como aquilo me marcou profundamente. Creio que o poeta carrega esta viagem das possibilidades, fazemos o tempo todo esta travessia, ao tentar transformar o tempo em palavras, algo como um xam\u00e3 imperfeito, tentando enganar o tempo e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bom amigo e grande poeta, Jos\u00e9 Carlos Mendes Brand\u00e3o, fala que escreve porque sabe que vai morrer. Creio que seja isso, escrevemos nossos breves epit\u00e1fios, o poema \u00e9 uma conversa com a morte e ao mesmo tempo uma celebra\u00e7\u00e3o com a vida. A palavra \u00e9 o fiel da balan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Chama aten\u00e7\u00e3o o car\u00e1ter org\u00e2nico do livro, estabelecendo, nalguns momentos, um elo entre os homens e seus sentimentos qui\u00e7\u00e1 mais primitivos. Em que medida seus versos questionam a g\u00eanese das coisas e do mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Creio que n\u00e3o seja questionar, mas sim ser a pr\u00f3pria g\u00eanese. Em muitas religi\u00f5es tidas como primitivas, \u00e9 a palavra ou o som da palavra o grande gerador das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00f3pria B\u00edblia \u00e9 a palavra que principia tudo. A grande rela\u00e7\u00e3o m\u00e1gica da poesia \u00e9 o conceito de que a palavra cria a coisa ao nome\u00e1-la. A poesia \u00e9 minha rela\u00e7\u00e3o com o sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diria que essa sua liga\u00e7\u00e3o com o sagrado \u00e9 tamb\u00e9m uma resposta \u00e0s\u00a0tradicionais\u00a0amarras ideol\u00f3gicas do pensamento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Sagrado n\u00e3o significa necessariamente religi\u00e3o. \u00c9 um rito de liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre estamos em busca de respostas, n\u00f3s humanos. Sinceramente, n\u00e3o saberia dizer se a liga\u00e7\u00e3o da poesia com o sagrado seria alguma resposta a uma amarra ideol\u00f3gica. Creio que a contemporaneidade n\u00e3o exige mais respostas absolutas e que, principalmente,\u00a0\u00a0n\u00e3o existe mais uma resposta \u00fanica. Sinto por aqueles que acreditam em respostas prontas. Este mundo f\u00e1cil e explic\u00e1vel n\u00e3o existe (e nunca existiu).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos no tr\u00e2nsito entre os mitos, cada um criando seu pr\u00f3prio mitologema di\u00e1rio. Al\u00e9m do que, n\u00e3o seriam tamb\u00e9m as ideologias, uma forma de religi\u00e3o tentando, ao seu modo, dar uma explica\u00e7\u00e3o para o mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou daqueles que chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o existe de fato um sentido nas coisas. A poesia n\u00e3o responde, n\u00e3o explica, n\u00e3o salva, e ao mesmo tempo nos d\u00e1 o indicativo do que de fato \u00e9 importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, acredito que o exerc\u00edcio da arte, e a poesia \u00e9 uma delas, sen\u00e3o o mais importante, \u00e9 o que de fato nos revela. Responde-nos? Explica-nos? N\u00e3o creio que isso seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos essencialmente humanos, o exerc\u00edcio do po\u00e9tico talvez seja a forma mais adequada de nos afirmar isso. Caso contr\u00e1rio, o que nos separa e separaria das m\u00e1quinas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seus versos assinalam uma metamorfose do mundo sem se preocupar com ares de novidade. Diga-se de passagem, tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de que o novo \u00e9 o velho transmutado, perman\u00eancia relativa das coisas, fluxo atrav\u00e9s do qual percorremos ciclicamente as mesmas vias.\u00a0O que pensa a respeito disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Realmente n\u00e3o tenho uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande com a novidade. Para mim o texto tem de ser autoral, ter o seu sinal e a sua marca, mas, ao mesmo tempo, tenho a plena consci\u00eancia de que toda a escrita \u00e9 intertextual. De alguma forma, repetimos os nossos poetas prediletos, e simultaneamente damos nossa contribui\u00e7\u00e3o para este\u00a0<em>continuum espa\u00e7o<\/em>&#8211;<em>tempo<\/em><em>\u00a0<\/em><em>da palavra. Somos o resultado de nossas leituras, leitura de livros, de autores, de mundo, de nossas experi\u00eancias de vida. O formato que usamos para o poema \u00e9 o mais conveniente e poss\u00edvel para cada um. O poeta que se apega a uma forma \u00fanica ou a pr\u00e9-requisitos corre o s\u00e9rio risco de se abortar criativamente.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos ciclos, ao tempo e ao fluxo,\u00a0\u00a0recorro, neste caso, ao Oct\u00e1vio Paz, que em \u201cO arco e a lira\u201d afirma que todo o poeta \u00e9 um novidadeiro e ao mesmo tempo um nost\u00e1lgico incorrig\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta no\u00e7\u00e3o de tempo linear \u00e9 assumida pela sociedade ocidental como a \u00fanica que existe, ou a que \u00e9 \u201ccerta\u201d. No entanto, junto \u00e0s sociedades arcaicas, a no\u00e7\u00e3o de tempo circular \u00e9 muito mais aceita. Ocorre do poeta ser uma esp\u00e9cie de xam\u00e3, mais adepto \u00e0s sociedades arcaicas que da \u201cmodernidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo da poesia \u00e9 circular, \u00e9 o tempo dos deuses, o tempo da contempla\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o tempo do labor industrial. Uma coisa pode ter acontecido e, ao mesmo tempo, estar acontecendo, sem preju\u00edzo a que ela ainda aconte\u00e7a. N\u00e3o raro, poetas antecipam acontecimentos, o acaso objetivo est\u00e1 a\u00ed operando o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A lucidez encerra grandes desafios a um poeta? Seria ela um ant\u00eddoto contra a trai\u00e7\u00e3o dos sentidos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>A lucidez pode ser uma armadilha. Nossos sentidos est\u00e3o conectados a um mundo que muitas vezes pode se tornar fugidio. O nosso c\u00e9rebro acredita que tudo o que ele sente \u00e9 verdade, a ponto de existirem momentos em que podemos trocar mem\u00f3rias. Sei que muitas das mem\u00f3rias que carrego hoje n\u00e3o s\u00e3o minhas, mas ainda assim as sinto, me entriste\u00e7o com acontecimentos que n\u00e3o vivi, choro saudades que n\u00e3o s\u00e3o minhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00f3 os sentidos nos traem, a mem\u00f3ria das sensa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. As pessoas que vivem nas cidades est\u00e3o mergulhadas em um caldo de sensa\u00e7\u00f5es diversas: um cheiro pode detonar uma mem\u00f3ria, o cinema, a televis\u00e3o, a leitura de fic\u00e7\u00e3o podem provocar viagens e tr\u00e2nsito entre os mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema pode ser a tentativa frustrada de recompor o mundo das coisas, mas n\u00e3o creio que possa fazer realmente este papel. Talvez seja por isso que S\u00f3crates expulsa os poetas da Rep\u00fablica, por essa ilus\u00e3o entre o que de fato sentimos e o que de fato esta sendo sentido. N\u00e3o h\u00e1 um ant\u00eddoto para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5596\" aria-describedby=\"caption-attachment-5596\" style=\"width: 393px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-II2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5596\" title=\"Edson Bueno de Camargo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-II2.jpg\" alt=\"\" width=\"393\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-II2.jpg 393w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA-II2-262x300.jpg 262w\" sizes=\"auto, (max-width: 393px) 100vw, 393px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5596\" class=\"wp-caption-text\">Edson Bueno de Camargo \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 um qu\u00ea de mem\u00f3ria afetiva a percorrer algumas vias do seu novo livro. Ali, pessoas e lugares ganham corpo especial diante do poeta que reflete as marcas do tempo.\u00a0 Esse cont\u00ednuo devir pressup\u00f5e um experimentar de mist\u00e9rios?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Toda a escrita \u00e9 autobiogr\u00e1fica, mas nem sempre o que lembramos ter vivido corresponde necessariamente a um acontecimento real ou a uma viv\u00eancia. Tomamos do mundo o que precisamos. Por que n\u00e3o tamb\u00e9m as mem\u00f3rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou a todo tempo a observar as pessoas, tenho um sentimento voyerista, fico imaginando o que essas pessoas fazem, como se amam,\u00a0como se comportam diante do mundo. E isto acaba por compor o poema, que \u00e9 um catalisador de sensa\u00e7\u00f5es e realidades experimentadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, penso que a mem\u00f3ria afetiva \u00e9 a \u00fanica mem\u00f3ria que realmente temos, nos lembramos das coisas que nos apaixonaram, pelo amor ou pelo terror. O poeta pode carregar a mem\u00f3ria coletiva de sua comunidade. Elias Canetti fala que os poetas s\u00e3o c\u00e3es de seu tempo, vivem a febre prof\u00e9tica dos deuses, mas nunca conseguem fugir daquilo que os circunscreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santa Tereza D\u2019\u00c1vila dizia que at\u00e9 as panelas da cozinha s\u00e3o objetos de sacramento, que s\u00e3o t\u00e3o sagradas quanto os mist\u00e9rios do altar, do c\u00e1lice, do vinho. Acredito piamente nisto. Quando repetimos os rituais cotidianos, penetramos nos mist\u00e9rios do mais profundo sagrado, todos podemos experimentar as sensa\u00e7\u00f5es do sublime. Os poetas est\u00e3o alguns segundos antes das pessoas no tempo.\u00a0\u00a0H\u00e1 momentos em que as pessoas necessitam ser lembradas do que sentem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema, quando cumpre realmente sua fun\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00a0recupera o campo do sagrado onde o mist\u00e9rio \u00e9 nossa viv\u00eancia cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rotina industrial e o tempo linear que s\u00e3o impostos \u00e0s pessoas afastam-nas das coisas que realmente s\u00e3o importantes. O poeta tamb\u00e9m tem a obriga\u00e7\u00e3o de lhes indicar o sentir, o ser, que deve ser nosso objeto primeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em mat\u00e9ria de literatura, carecemos hoje da manifesta\u00e7\u00e3o de vanguardas?<\/strong>\u00a0<strong>At\u00e9 que ponto a exist\u00eancia delas seria algo relevante?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Em primeiro lugar, ter\u00edamos de definir o que \u00e9 uma vanguarda, um termo militar que foi absorvido pelos movimentos art\u00edsticos. No campo de batalha, a vanguarda \u00e9 a infantaria ligeira, os primeiros a romperem as linhas inimigas, mas tamb\u00e9m o grupo que sofre as maiores baixas (o n\u00famero de mortes, suic\u00eddios e insanidade entre poetas \u00e9 bem representativo). Pouco o que fizermos ir\u00e1 superar o que foi feito na virada do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpios do s\u00e9culo XX. Creio que ainda estamos aturdidos pelo que foi feito neste per\u00edodo, n\u00e3o sei como poderemos super\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos num tempo onde, aparentemente, n\u00e3o existem movimentos culturais, onde parece que tudo j\u00e1 aconteceu e que tudo se repete. Mas fico pensando em at\u00e9 que ponto isso \u00e9 realmente verdadeiro. Como poderemos saber se n\u00e3o passamos por um grande processo de transforma\u00e7\u00e3o se estamos inseridos nele? \u00c9 muito mais f\u00e1cil visualizar algo de fora, de longe, com o distanciamento que por vezes s\u00f3 o tempo pode dar. Quem disse que a \u201cSemana de Arte Moderna\u201d foi um movimento importante para a cultura do pa\u00eds, foram os analistas posteriores. O movimento de vanguarda mais interessante que ocorreu, para mim, foi o Surrealismo, que primeiro aconteceu, com seu manifesto e tudo mais, e depois buscou as motiva\u00e7\u00f5es e inspira\u00e7\u00f5es do movimento, nomeando ao bel prazer seus precursores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim o grande movimentador cultural da atualidade \u00e9 o uso da Internet como m\u00eddia liter\u00e1ria, o uso de novas plataformas, a facilidade de pessoas de diversos pontos do mundo poderem usufruir de uma forma quase imediata de contatos pessoais, mesmo que virtualmente. No que pese que uma nova m\u00eddia jamais substitui completamente a velha, e meios de comunica\u00e7\u00e3o de diversas \u00e9pocas e tempos convivam harmoniosamente. Um grande exemplo disso \u00e9 a radiodifus\u00e3o, que logo faz cem anos e n\u00e3o d\u00e1 nenhuma mostra de perder o f\u00f4lego, ao ponto que a Internet, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o substituiu, como absorveu o modelo. Temos muitas r\u00e1dios on line operando por a\u00ed. Ent\u00e3o, o uso da Internet \u00e9 uma grande novidade velha, s\u00f3 que antes o correio postal, o telefone, faziam a fun\u00e7\u00e3o que hoje se tornou mais f\u00e1cil e acess\u00edvel. A grande revolu\u00e7\u00e3o da Internet \u00e9 a democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e do acesso, mesmo com poss\u00edveis cr\u00edticas que lhes devem caber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que o que hoje falta \u00e9 um manifesto, um movimento com um formato f\u00e1cil e reconhec\u00edvel, aquelas lutas pela hegemonia da raz\u00e3o. O que sinto e vejo hoje\u00a0s\u00e3o pessoas muito talentosas, mas n\u00e3o muito afeitas ao contato f\u00edsico e a reuni\u00f5es intelectuais e pol\u00edticas (muito chatas para quem n\u00e3o gosta). Pessoas que n\u00e3o sentem a necessidade de um mote agregador em sua arte, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o se incomodam de trocar experi\u00eancias com outros poetas, mesmo que virtualmente.\u00a0\u00a0Mas existem tamb\u00e9m manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0\u00a0que t\u00eam acontecido pelas bordas. Uma garotada com grande energia, nas periferias dos grandes centros, fora dos grandes eixos e dos circuitos tradicionais, sem uma preocupa\u00e7\u00e3o com o reconhecimento, com seus fanzines, publica\u00e7\u00f5es alternativas, blogues, revistas virtuais. Quem sabe estes escritores venham a consistir alguma vanguarda, ainda que sem ter esta percep\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica a reflex\u00e3o. A poesia marginal dos anos setenta n\u00e3o teve nenhum manifesto, saiu \u00e0s ruas para declamar poesia, enfrentou os anos de chumbo da ditadura militar e hoje, aos poucos, est\u00e1 recebendo o reconhecimento merecido de seus poetas. O Paulo Leminski est\u00e1 ficando at\u00e9 pop\u00a0e frequentando as listas dos mais vendidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Acredito que a p\u00f3s-modernidade j\u00e1 passou, pisamos na praia da contemporaneidade, e pouco sabemos o que isso pode significar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o seria necessariamente o que n\u00e3o endosso, mas me irrita profundamente (risos) \u00e9 uma certa atitude blas\u00e9 que alguns escritores assumem, em geral atualizando textos e agindo de forma a operar um\u00a0revisionismo hist\u00f3rico, descobrindo que para chamar a aten\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de mostrar uma produ\u00e7\u00e3o de qualidade, se especializam\u00a0\u00a0em falar mal de escritores consagrados em algum per\u00edodo:\u00a0\u00a0em especial, as cr\u00edticas mais ferozes s\u00e3o para o Carlos Drummond de Andrade e para o M\u00e1rio Quintana, n\u00e3o sei por que raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, estes senhores e algumas senhoras desfilam uma mir\u00edade de diplomas acad\u00eamicos e especializa\u00e7\u00f5es, l\u00f3gicas incontestes, autoridade presumida, medalhas de honra ao m\u00e9rito, e tudo o que possa ser usado para afirmar que sua raz\u00e3o \u00e9 \u00fanica e qualquer um que venha a confront\u00e1-los corre um s\u00e9rio risco de virar alvo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora isso, somos sempre fruto de nosso tempo, e, muitas vezes, poetas s\u00e3o criaturas meio deslocadas de sua \u00e9poca e lugar. Pego-me chorando sobre os versos de um poeta chin\u00eas da dinastia Tang e, ao mesmo tempo, admirado com a po\u00e9tica de um jovem blogueiro desconhecido at\u00e9 o momento. Nada que \u00e9 poesia me \u00e9 estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vale \u00e9 o que nos toca. A frui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 algo absolutamente pessoal, como uma religi\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como aproximar mais as pessoas das palavras sem a interven\u00e7\u00e3o demasiada dos ditames meramente institucionais ou qui\u00e7\u00e1 demag\u00f3gicos? Somos, de fato, uma na\u00e7\u00e3o que subestima potenciais leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>Talvez nem seja o caso de discutir \u201ca interven\u00e7\u00e3o demasiada dos ditames meramente institucionais\u201d. Pessoalmente, nem enxergo isto como um mal em si, mesmo porque muitas vezes o que vejo \u00e9 uma aus\u00eancia total de pol\u00edticas culturais para a literatura e a leitura.\u00a0Costumo dizer que preferiria combater uma pol\u00edtica cultural ruim a me deparar com uma pol\u00edtica cultural ausente ou inexistente. J\u00e1 ficaria muito feliz se as autoridades constitu\u00eddas fizessem alguma interven\u00e7\u00e3o, de fato, neste sentido. O pouco que \u00e9 feito sempre vem no sentido de compra de livros,\u00a0\u00a0programas feitos para grandes editoras e um conte\u00fado pasteurizado. Os autores e pequenos editores independentes est\u00e3o fora da jogada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda vez que falamos de leitores, penso em nossos vizinhos platinos, que t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria mais antiga e arraigada, e muito mais h\u00e1bito de leitura que n\u00f3s brasileiros.\u00a0\u00a0O que neles \u00e9 t\u00e3o diferente neste aspecto que n\u00f3s? Temos a mesma forma\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica, cat\u00f3lica, opressora, ca\u00f3tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual ser\u00e1 o mist\u00e9rio que faz com que o brasileiro n\u00e3o seja um leitor habitual? O h\u00e1bito da leitura parece ser algo que n\u00e3o est\u00e1 na alma brasileira, ou est\u00e1 e n\u00e3o vemos. Mais uma vez, acredito que a quest\u00e3o est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o. Enquanto no Brasil a primeira Universidade surge no s\u00e9culo XIX, no mundo de nossos\u00a0<em>hermanos,\u00a0<\/em>as universidades t\u00eam quase o tempo da coloniza\u00e7\u00e3o. No que pese que esta educa\u00e7\u00e3o foi sempre europeizante e excludente da massa das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, \u00e9 um diferencial a ser considerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo, creio que o nosso grande problema seja o analfabetismo funcional. N\u00e3o h\u00e1 leitores entre pessoas que n\u00e3o conseguem ler bem e com desenvoltura. Outra quest\u00e3o a ser considerada \u00e9 que havia um caldo de cultura em popula\u00e7\u00f5es \u00e1grafas, quer nativas, quer por emigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, que foi menosprezado por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo, somos uma na\u00e7\u00e3o que desperdi\u00e7a potenciais em quase tudo. Temos ainda uma alma colonialista que n\u00e3o consegue olhar para dentro de si mesma, onde as elites e, por reflexo, o governo, veem a cultura como um artigo de luxo, n\u00e3o reservado \u00e0s castas inferiores. A leitura n\u00e3o consegue ser popularizada porque n\u00e3o se acredita nela e nem que a mesma deva ser para todos. A universaliza\u00e7\u00e3o do ensino deve deixar de ser um grande engodo,\u00a0\u00a0al\u00e9m de passar a se pensar em diretrizes que funcionem como real educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura \u00e9 uma coisa cumulativa. Quanto mais se l\u00ea, mais se sente necessidade de ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na conjun\u00e7\u00e3o das fei\u00e7\u00f5es de leitor e criador, de tudo o que viveu at\u00e9 aqui com as palavras,<\/strong><strong> <\/strong><strong>Edson Bueno de Camargo aproxima-se mais do espanto ou da revela\u00e7\u00e3o frente \u00e0 exist\u00eancia? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDSON BUENO DE CAMARGO &#8211; <\/strong>A revela\u00e7\u00e3o deve ser feita pelo espanto. Mesmo que em alguns momentos seja tomado por esta melancolia dos tr\u00f3picos, e seja tentado a ser tomado pelo ceticismo\u00a0\u00a0e pelo pragmatismo, abre-se sempre uma janela para me reconhecer como humano e dono de um potencial de cria\u00e7\u00e3o infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens foram criados pelos deuses para a beleza. S\u00f3 precisamos lembrar disso novamente e sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>*Alguns poemas de Edson Bueno de Camargo podem ser lidos <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=4842 \"><strong>aqui<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poeta Edson Bueno de Camargo revela tra\u00e7os especiais do seu of\u00edcio com as palavras <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1419,16,2539],"tags":[1238,424,179,63,1427,8],"class_list":["post-5589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-83a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-a-fome-insaciavel-dos-olhos","tag-editora-patua","tag-edson-bueno-de-camargo","tag-entrevista","tag-genese-do-mundo","tag-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5589"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6028,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5589\/revisions\/6028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}