{"id":5636,"date":"2013-09-28T17:51:18","date_gmt":"2013-09-28T20:51:18","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5636"},"modified":"2018-11-06T09:12:43","modified_gmt":"2018-11-06T12:12:43","slug":"dedos-de-prosa-iii-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-16\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Pedro de Carvalho<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5640\" aria-describedby=\"caption-attachment-5640\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5640\" title=\"Denise Scaramai\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA4.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA4.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/INTERNA4-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5640\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Denise Scaramai<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ela<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma porta se fecha quase que solenemente atr\u00e1s da mulher, que se despede do c\u00f4modo como quem abandona um passado. \u00c0quela altura, o quarto atr\u00e1s do seu calcanhar escapara definitivamente de alcance. Do lado de fora, na rua, ca\u00eda uma chuva, ind\u00f4mita, gris, que frutificava as propriedades sinistras do lusco-fusco. Num rompante, atravessou de uma cal\u00e7ada a outra se desviando dos carros congestionados e caminhou precipitada sob as marquises.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caf\u00e9, atabalhoado de gente, parecia n\u00e3o se incomodar com a imagem da mulher revirando sua bolsa, arrancando l\u00e1 de dentro um ma\u00e7o de cigarros amassado e molhado. Tr\u00eamula &#8211; de frio ou por consequ\u00eancia da decis\u00e3o tomada h\u00e1 poucos instantes \u2013, com a carranca p\u00e1lida, manchada de maquiagem, mal sustentava o cigarro. A boca, mi\u00fada e fina \u2013 um tra\u00e7o, borrada da cor que deveria ser dona, tragava e lan\u00e7ava lufadas morti\u00e7as. Pediu e serviu-se de caf\u00e9 com u\u00edsque. A luz, d\u00e9bil, que pendia sobre sua cabe\u00e7a, estampava no cenho, mais acentuada, as express\u00f5es dolentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite rompeu imperiosa em sombras e n\u00e9ons. A cal\u00e7ada, molhada e suja, refletindo os far\u00f3is, era ferida com o pisar do salto tr\u00f4pego, escarlate, envernizado. Os pedestres se esbarravam inevitavelmente. A mulher passava alheia a isso, heterog\u00eanea \u00e0 massa. Sua dor n\u00e3o vestia seu corpo e ela cambaleava rua adiante. Seu trote, pasm\u00f3dico, mole, n\u00e3o escondia &#8211; pelo contr\u00e1rio, alarmava a curva desenhada em seu dorso, arquejado, inflex\u00edvel. Que mulher doente! Pensaria qualquer um se a notassem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma m\u00e3o se estende e prontamente p\u00e1ra o \u00f4nibus. Sobe. Parte saculejante o transporte carregando os conflitos e alegrias dos corpos de seus usu\u00e1rios. Para ela, o \u00f4nibus parece se arrastar. A crian\u00e7a, debru\u00e7ada no banco da frente, exibe um sorriso que n\u00e3o pode ser para mais ningu\u00e9m sen\u00e3o ela. O \u00f4nibus desce vertiginosamente a ladeira. Ela sente um gelo na barriga e chora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ins\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia apenas os sons das coisas n\u00e3o vivas a quebrar o sil\u00eancio da noite \u2013 a reverbera\u00e7\u00e3o de um rugido mort\u00edfero em toda a casa. O banheiro tinha um vazamento que nunca cessava \u2013 tic, tic, tic, tic. O est\u00f4mago da geladeira ronquejava de uma fome insaci\u00e1vel. O chiado de um r\u00e1dio dessintonizado estava presentemente no ar, mesmo quando desligado. A TV, que projetava as realidades e as fantasias de toda a gente de todo o mundo, estalava-se \u2013 tac, tac, tac. O ch\u00e3o de madeira estalava \u2013 tac! O teto berrava como se fosse desabar, embora jamais o fizesse. O microondas apitava, continuadamente, contando as horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um som inusitado sobressaltou-se da perman\u00eancia eterna daquele rugido e chamou a aten\u00e7\u00e3o de Peter Harvey. N\u00e3o era exatamente um miado, mas um ronronar sard\u00f4nico. Harvey esbugalhou as insones \u00f3rbitas de seus olhos ao m\u00e1ximo que p\u00f4de e escrutinou toda a grandeza de seu <em>kitnet<\/em> at\u00e9 que encontrou um gato, com o rabo em riste, a encar\u00e1-lo. <em>Um gato?<\/em>, ele se questionou intrigado, ainda que seguro da impossibilidade da presen\u00e7a de tal animal em sua casa. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em desaprova\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio pensamento ou como se tentasse ofuscar a imagem do gato ronronante da sua mente. De fato, a imagem desapareceu, mas ainda rondava naquele apartamentozinho de um s\u00f3 vivente o ronrom do felino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bip, bip, bip&#8230; o microondas anunciava as horas ecoando uma onda de som eletr\u00f4nico \u2013 passara-se mais uma hora e agora j\u00e1 eram tr\u00eas horas da antemanh\u00e3. Peter Harvey reacomodou-se no sof\u00e1-cama, endireitou a coluna na tentativa de evitar pensamentos que considerava tolos. Zap, zap, zap! Zapeava, meio que por mania de insone, meio que por ang\u00fastia. Em cada canal havia algum tipo de refer\u00eancia felina, um som, uma imagem, uma cita\u00e7\u00e3o. Sensatamente, Harvey chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que estava cansado e que n\u00e3o mais enganaria o pr\u00f3prio sono. Desenrolou o sof\u00e1 em cama e deitou-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter n\u00e3o conseguia dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indubitavelmente estava intrigado com o gato, mas a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o dormia era a peleja di\u00e1ria para adormecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luzes: desligadas. Sons das coisas n\u00e3o vivas: ligados. Ronrom: ainda l\u00e1. Peter Harvey: acordado. Peter brigava com o sono como se uma tempestade em forma\u00e7\u00e3o estivesse em seu rumo, lutou contra seu cobertor at\u00e9 conseguir cobrir-se e proteger-se. Contorceu-se e rolou tanto em agonia na cama que esta rangeu \u2013 nhenc! Seus bra\u00e7os se abra\u00e7aram ao travesseiro dobrado como se este fosse uma rocha, uma \u00e2ncora onde ele podia se agarrar. Peter estava acordado. Tic, tic, tic, tic \u2013 a torneira pingava ritmadamente. Tac, tac, tac, tac \u2013 o ch\u00e3o rangia. O microondas, insistentemente \u2013 bip! \u2013 anunciava mais uma hora que se passava. Um chilrear a estuprar o sil\u00eancio das coisas n\u00e3o vivas e o c\u00f4modo a se invadir pelos raios do dia que j\u00e1 se anuncia, e tamb\u00e9m pelas milhares de formas de sons das mais vibrantes coisas que vivem. \u00c0quela altura, Peter, exaurido, deixou se vencer pelo cansa\u00e7o e finalmente caiu nos bra\u00e7os de Morfeu. J\u00e1 era um pouco mais das seis horas e ele tinha pela frente pouco mais de tr\u00eas horas de sono antes de banhar-se, tomar um caf\u00e9, fumar um cigarro e sair para o trabalho. Peter estava petrificado e tinha-se para a cama mais como um cad\u00e1ver do que como algu\u00e9m que descansa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim, trim&#8230; tocava o alarme programado para as nove horas e quinze minutos de todos os dias, excetuando-se aos domingos. O alarme tocava \u2013 trim, trim, trim, trim \u2013 mas Peter n\u00e3o se movia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rugido que habita a casa com Peter est\u00e1 agora abafado pelos sons externos da manh\u00e3. Confort\u00e1vel, ele acorda, os matizes amarelo-alaranjados do dia atravessam os vidros da janela e se juntam ao aroma de caf\u00e9 fresco que toma todo o apartamento. Ele se espregui\u00e7a sem abrir os olhos, os bra\u00e7os abertos, amplos em sua envergadura, est\u00e3o prontos para receber um novo dia. Ele boceja e abre os olhos e l\u00e1 est\u00e1 um gato escancarando o focinho e caminhando o pregui\u00e7oso e elegante caminhar dos gatos sobre todo o cobertor em dire\u00e7\u00e3o ao seu colo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um instante, Peter estatela-se em assombramento, o gato, m\u00edmico de seu assombro, imita-o em congelante comportamento. O gelo s\u00f3 \u00e9 quebrado quando o gato espertamente resbuna e come\u00e7a a ro\u00e7ar seu bigode nas m\u00e3os de Peter, que seguram o cobertor na tentativa de racionalizar a situa\u00e7\u00e3o que se manifesta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amedrontrado, o homem \u2013 desacreditando no que v\u00ea \u2013 salta da cama num supet\u00e3o. A pequena mesa de forma ovalada est\u00e1 posta para o caf\u00e9 da manh\u00e3: p\u00e3o rec\u00e9m-assado, bolo, <em>muffin<\/em>, biscoitos, ovos e bacon, manteiga, geleias, caf\u00e9 fresco, ch\u00e1 e leite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, est\u00e1 sentado o gato lendo o jornal; do outro, uma cadeira aguarda-o. Peter est\u00e1 emudecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Bonjour, monsieur Harvey. <\/em><em>Le petit d\u00e9jeuner est servi<\/em>, fala o gato num tom bem natural, <em>asseyez vous<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter esbugalha os olhos o m\u00e1ximo que pode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Quel chat stupide que je suis, pourquoi suis-je en train de parler en fran\u00e7ais avec vous<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Excusez-moi!<\/em> <em>Oh, novamente! Me desculpe. O que eu quis dizer foi: o caf\u00e9 da manh\u00e3 est\u00e1 servido, sente-se!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Je&#8230; je&#8230; je vous ai entendu<\/em>, gagueja. <em>Espere,<\/em> <em>je ne parle pas fran\u00e7ais<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Ah, agora voc\u00ea fala! Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o esparto, mon ami<\/em>, o bichano dobra o jornal e se serve de uma x\u00edcara de ch\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Voc\u00ea vai ficar parado a\u00ed a manh\u00e3 inteira? <\/em><em>Le petit d\u00e9jeuner est superbe!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter Harvey, desconfiadamente, aceita o convite, n\u00e3o por curiosidade, mas pela incapacidade de controlar sua atitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>\u201cMa chambre a la forme d&#8217;une cage&#8230;\u201d<\/em> o gato come\u00e7a a cantarolar uma can\u00e7\u00e3o em franc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter paralisa-se na cadeira. Desesperadamente tenta gritar, mas de seu verbo s\u00f3 sai franc\u00eas e ent\u00e3o se cala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tenta se mover, mas seus bra\u00e7os est\u00e3o amarrados \u00e0 cadeira, seus olhos est\u00e3o presos com fita adesiva e seus ouvidos parecem explodir por conta dos sons ensurdecedores do despertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter Harvey arregalou os olhos, mas n\u00e3o conseguiu se mover. Seu corpo desprovia-se da capacidade do movimento. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o podia respirar e ent\u00e3o se engasgou. Quando recuperou o f\u00f4lego, saltou da cama como para terminar algo que n\u00e3o poderia esperar e mergulhou num dia que tinha acabado de ser deflorado pelas possibilidades da noite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0(<a href=\"http:\/\/www.zexcentricidades.blogspot.com.br\/\"><strong>Jos\u00e9 Pedro de Carvalho Neto<\/strong><\/a> nasceu no sert\u00e3o baiano, mas sempre viveu em cidade portu\u00e1ria. \u00c9, com todos os clich\u00eas da express\u00e3o, cidad\u00e3o do mundo. Publicit\u00e1rio, estudou escrita criativa na Austr\u00e1lia, onde teve contos, poemas e trechos de um livro que nunca se acabou publicados, al\u00e9m de freelancer de todas as coisas)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As alamedas existenciais da prosa de Jos\u00e9 Pedro de Carvalho<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15457,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1419,2534],"tags":[81,41,1436,1437,1435],"class_list":["post-5636","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-83a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-ela","tag-insonia","tag-jose-pedro-carvalho-neto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5636"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15459,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions\/15459"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15457"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}