{"id":5834,"date":"2013-10-29T12:17:48","date_gmt":"2013-10-29T15:17:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5834"},"modified":"2013-11-26T07:46:52","modified_gmt":"2013-11-26T10:46:52","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-19\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no \u201cOlimpo\u201d da cria\u00e7\u00e3o ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor \u00e9 mesmo um ser supremo, ao qual lhe \u00e9 dada a exclusividade de ver atrav\u00e9s do escuro do mundo? Talvez pass\u00e1ssemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indaga\u00e7\u00f5es, mas o fato \u00e9 que h\u00e1 quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necess\u00e1ria inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajet\u00f3ria de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro <a href=\" http:\/\/rafaelnolli.blogspot.com.br\/\"><strong>L. Rafael Nolli<\/strong><\/a>, criador que invariavelmente tem a exist\u00eancia como uma dissonante orquestra\u00e7\u00e3o de porqu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Natural de Arax\u00e1, Nolli deixa clara em seus versos a puls\u00e3o vigorosa e, nalguns momentos, \u00e1cida desse desvairado ato que \u00e9 viver. N\u00e3o bastasse a marca cr\u00edtica e irreverente de seus escritos, o autor tamb\u00e9m sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o projetados para um ambiente no qual a contempla\u00e7\u00e3o pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse \u00ednterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a mir\u00edade sociol\u00f3gica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem m\u00e1quina, subproduto duma metaf\u00f3rica e agastada miopia, \u00e9 personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concess\u00f5es de qualquer tipo, n\u00e3o lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo de poder dialogar com o autor de <em>Mem\u00f3rias \u00e0 Beira de um Estopim<\/em> (JAR Editora, 2005) e <em>Elefante<\/em> (Coletivo Anfisbena, 2012) \u00e9 algo que h\u00e1 muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que comp\u00f5e o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materializa\u00e7\u00e3o de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incans\u00e1vel poeta contempor\u00e2neo sugere. <em><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5839\" aria-describedby=\"caption-attachment-5839\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5839 \" title=\"Rafael Nolli\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-I.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-I-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5839\" class=\"wp-caption-text\">L. Rafael Nolli \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua manifesta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica possui um car\u00e1ter agu\u00e7ado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e cr\u00edtica. Aceita o atributo de que seus versos s\u00e3o um exerc\u00edcio de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211;<\/strong> \u00c9 muito f\u00e1cil deixar a poesia em segundo plano, esquec\u00ea-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. \u00c9 f\u00e1cil esquec\u00ea-la pelo fato de que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; \u00e9 f\u00e1cil esquec\u00ea-la diante do pouco retorno que ela nos d\u00e1: s\u00e3o poucos os leitores, escassos os espa\u00e7os para publica\u00e7\u00e3o e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever \u00e9 uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o \u00f3bvio, o superficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em muitos casos, nem \u00e9 necess\u00e1rio que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, j\u00e1 basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo \u201cresistir\u201d cai muito bem, pois a poesia \u00e9 a minha boia de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema do Drummond diz tudo: \u201cgastei uma hora pensando em um verso que a pena n\u00e3o quer escrever. [&#8230;] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na constru\u00e7\u00e3o de um discurso que engendra aspectos sociol\u00f3gicos, voc\u00ea consegue afugentar o vi\u00e9s did\u00e1tico e qui\u00e7\u00e1 panflet\u00e1rio atinente a tais reflex\u00f5es. Percebe isso como um\u00a0desafio\u00a0criativo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Tudo relacionado \u00e0 poesia \u00e9 um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panflet\u00e1ria s\u00e3o coisas que quero evitar ao m\u00e1ximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panflet\u00e1ria \u00e9 menor por n\u00e3o sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espa\u00e7o, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panflet\u00e1rio porque o poeta deve criar algo sublime que ir\u00e1 mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que est\u00e3o criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia \u00e9 exigente demais. O desafio \u00e9 enorme, sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua resposta anterior lembra muito a quest\u00e3o da chamada ang\u00fastia da cria\u00e7\u00e3o, na qual alguns poetas se debru\u00e7am num esfor\u00e7o descomunal em torno de um resultado impactante. H\u00e1 mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de perman\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Acho dif\u00edcil uma pessoa criar um projeto de escrita \u201cmonumental\u201d, assim como se cria o projeto de uma casa. \u00a0Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica e z\u00e1s, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia \u00e9 muito exigente, n\u00e3o existem f\u00f3rmulas ou m\u00e9todos para se conseguir um bom poema, n\u00e3o h\u00e1 atalhos. Se um poema permanecer\u00e1, pouco podemos fazer para que isso aconte\u00e7a al\u00e9m de public\u00e1-lo. O resto n\u00e3o cabe a ningu\u00e9m, \u00e9 um processo aleat\u00f3rio que independe do poeta. A\u00ed est\u00e1 uma das belezas da poesia, n\u00e3o se pode transform\u00e1-la em um fen\u00f4meno como se faz com um romance, usando meia d\u00fazia de f\u00f3rmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azar\u00e3o. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrer\u00e1 porque o seu criador o quis assim. A ang\u00fastia em criar algo duradouro me parece um del\u00edrio fara\u00f4nico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um poeta, quando &#8220;desce da montanha&#8221; onde buscava algo supremo, n\u00e3o parece mais coerente com a condi\u00e7\u00e3o essencialmente humana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Com certeza, \u00e9 mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor \u00e0 terra. Subir a montanha pode ser tamb\u00e9m uma defesa, j\u00e1 que o poeta muitas vezes n\u00e3o encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento \u00e9 muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e l\u00e1 sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma l\u00edngua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que n\u00e3o querem di\u00e1logo nenhum e se sentem confort\u00e1veis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ningu\u00e9m. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder n\u00e3o \u00e9 o melhor caminho. Por\u00e9m, n\u00e3o estou muito seguro se, ao descer, o poeta n\u00e3o v\u00e1 conviver com outros sen\u00e3o aqueles que tamb\u00e9m desceram da montanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproxima\u00e7\u00e3o com os leitores? Se sim, como faz\u00ea-lo sem desnaturar o g\u00eanero? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>N\u00e3o tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especula\u00e7\u00f5es. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez n\u00e3o resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, n\u00e3o possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia \u00e9 chata? \u00c9 dif\u00edcil, complexa, incomunic\u00e1vel? Como mudar essa vis\u00e3o? Valorizando autores? Est\u00e1 nas aulas de literatura o problema? A impress\u00e3o que temos \u00e9 que a poesia est\u00e1 escondida, em sua torre de marfim, e ningu\u00e9m se arrisca a salv\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e lev\u00e1-la \u00e0 rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Ap\u00f3s as aulas te\u00f3ricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos sa\u00edam para a aula pr\u00e1tica, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi \u00f3timo. Muitas pessoas paravam \u2013 e creio que ainda param \u2013 diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham d\u00favidas que foram jogadas por terra pela gera\u00e7\u00e3o de 22: \u201cmas isso \u00e9 poesia? N\u00e3o rima, n\u00e3o fala de amor, tem g\u00edrias, palavr\u00f5es&#8230;\u201d etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras dif\u00edceis, praticamente incomunic\u00e1vel, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitific\u00e1-la, aproxim\u00e1-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje \u00e9 produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma \u00fanica janela aberta que d\u00ea um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que &#8220;Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele est\u00e1 nascendo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levar o poema at\u00e9 as pessoas, na rua, em fus\u00e3o, simbiose com outras formas de arte ser\u00e1 o caminho? Isso n\u00e3o levaria a uma descaracteriza\u00e7\u00e3o do poema como o conhecemos? Como disse, s\u00e3o especula\u00e7\u00f5es apenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Elefante&#8221;, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo n\u00e3o apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua op\u00e7\u00e3o editorial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Foi uma op\u00e7\u00e3o que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei <em>Mem\u00f3rias \u00e0 Beira de um Estopim<\/em>. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gr\u00e1fica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espa\u00e7o. Desde ent\u00e3o, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. \u00c9 triste depender de empresas privadas para isso. As editoras n\u00e3o est\u00e3o abertas a poesia, pois essa n\u00e3o vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, s\u00e3o de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia \u00e9 bem simples e apaixonante, os livros s\u00e3o confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papel\u00e3o ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar \u00e9 personalizado, \u00fanico. Existem muitas editoras fazendo isso, todas s\u00e3o pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequen\u00edssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro <em>Elefante<\/em> e uma colet\u00e2nea, chamada <em>F\u00f3rceps<\/em>, com autores de Arax\u00e1. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. \u00c9 um projeto autossuficiente: os lucros, que s\u00e3o m\u00ednimos, s\u00e3o investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_5840\" aria-describedby=\"caption-attachment-5840\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5840\" title=\"Rafael Nolli\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-II.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA-II-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5840\" class=\"wp-caption-text\">L. Rafael Nolli \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No Brasil, como seria poss\u00edvel vislumbrar uma harmoniza\u00e7\u00e3o entre mercado e poesia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Acho cada vez mais que \u201cpoesia e mercado\u201d s\u00e3o inconcili\u00e1veis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. N\u00e3o consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo r\u00e1pido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, \u00e9 sist\u00eamico: vivemos em um mundo onde tudo \u00e9 produto de consumo r\u00e1pido, tudo \u00e9 descart\u00e1vel. A poesia necessita de reflex\u00e3o, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digest\u00e3o: quem leu um poema uma \u00fanica vez n\u00e3o o leu! \u00c9 um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolesc\u00eancia programada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de leitores. N\u00e3o h\u00e1, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, leitores de poesia que n\u00e3o sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastim\u00e1vel? Poetas que sequer s\u00e3o leitores de poesia! Como eu disse, \u00e9 uma quest\u00e3o problem\u00e1tica, muito complexa. Um exemplo pr\u00e1tico: as tiragens de livros de poemas s\u00e3o modestas. Isso ocorre porque n\u00e3o se encontram \u201ccompradores\u201d em grande escala. \u00c9 uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores est\u00e1 muito longe da al\u00e7ada dos poetas. Claro que eles \u2013 os poetas \u2013 contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas s\u00e3o pequenas pe\u00e7as em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espa\u00e7os para leitura, de debates, de possibilidades de divulga\u00e7\u00e3o, a feiras, etc, amplia o problema. N\u00e3o acredito em poesia como um produto rent\u00e1vel, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa \u00e9 n\u00e3o haver espa\u00e7o nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Entre sua por\u00e7\u00e3o de educador e a de escritor, quais pontos de converg\u00eancia considera especiais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>S\u00e3o muitos os pontos de converg\u00eancia. Recentemente, li o livro \u201cConversas com Elizabeth Bishop\u201d, uma colet\u00e2nea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a \u00fanica poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exce\u00e7\u00e3o e nos mostra que a rela\u00e7\u00e3o escritor e sala de aula n\u00e3o \u00e9 uma coisa recente. Conhe\u00e7o muitos poetas que ganham a vida como professores. J\u00e1 que ningu\u00e9m consegue viver de poesia, \u00e9 natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula \u00e9 um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, n\u00e3o s\u00f3 de informa\u00e7\u00f5es, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpret\u00e1-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percep\u00e7\u00e3o apurada, paci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 que se combater certos determinismos em mat\u00e9ria liter\u00e1ria. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso pa\u00eds \u00e9 permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o desse discurso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Infelizmente, somos um pa\u00eds de n\u00e3o-leitores. Os n\u00fameros n\u00e3o mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milh\u00f5es de pessoas), apenas metade da popula\u00e7\u00e3o pode ser considerada leitora. A m\u00e9dia de anos de estudo \u00e9 rid\u00edcula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros n\u00e3o possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro n\u00famero dessa trag\u00e9dia: nossa m\u00e9dia de livros lidos por ano \u00e9 de apenas 4! Isso sem entrar no m\u00e9rito referente \u00e0 qualidade liter\u00e1ria dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que \u00e9 uma enorme bobagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho apenas que o desinteresse, que \u00e9 real, n\u00e3o \u00e9 permanente, imut\u00e1vel. Trata-se de um momento, j\u00e1 extenso e duradouro, que \u00e9 fruto de uma s\u00e9rie de problemas que t\u00eam ra\u00edzes profundas. Por\u00e9m, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse pol\u00edtico, boa vontade da m\u00eddia e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema ser\u00e1 resolvido, pois n\u00e3o conhe\u00e7o nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma gera\u00e7\u00e3o de leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois \u201cum povo que l\u00ea n\u00e3o pode ser enganado\u201d, \u201cum povo que l\u00ea sabe cobrar os seus direitos\u201d, \u201csabe votar\u201d. Sei que isso \u00e9 uma ideia rom\u00e2ntica, idealizada, bobinha. Mas n\u00e3o creio que seja uma ideia totalmente err\u00f4nea. Ler pode mesmo fazer a diferen\u00e7a, mudar o rumos das coisas, ainda que n\u00e3o seja uma a\u00e7\u00e3o voltada para isso. Conhecimento \u00e9 poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informa\u00e7\u00f5es. Parece teoria da conspira\u00e7\u00e3o? Pode ser. Mas n\u00e3o vejo outro motivo plaus\u00edvel para tamanho desprezo, por parte do poder pol\u00edtico e da m\u00eddia, que explique essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma m\u00e1quina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso n\u00e3o basta, \u00e9 preciso lutar contra essa m\u00e1quina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: <em>Posso, sem armas, revoltar-me? <\/em>Espero que sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o interessante. Em duas ocasi\u00f5es, estudei, no sentido mais did\u00e1tico da palavra, a p\u00f3s-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha gradua\u00e7\u00e3o em Geografia. \u00c9 um assunto interessante, muito enriquecedor, por\u00e9m, algo complexo, dif\u00edcil. N\u00e3o endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para utopias, que o s\u00e9culo XX enterrou todas utopias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhe\u00e7o que o s\u00e9culo XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, j\u00e1 que o arcabou\u00e7o ideol\u00f3gico \u00e9 enorme, riqu\u00edssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos a\u00ed assistindo a tentativas e mais tentativas de mant\u00ea-lo de p\u00e9. Por que n\u00e3o com o socialismo? A ideia de que n\u00e3o h\u00e1 mais por que se lutar me assusta muito. Quando algu\u00e9m cita Fukuyama, me d\u00e1 um arrepio horroroso na espinha. \u00c9 uma grande idiotice acreditar que a hist\u00f3ria chegou ao fim. Esse finitismo \u00e9 um veneno para a sociedade \u2013 com reflexos sombrios sobre a arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Abra\u00e7ando a no\u00e7\u00e3o de se travar embates pela palavra, em que n\u00edvel de percep\u00e7\u00e3o est\u00e1 a poesia de L. Rafael Nolli?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. RAFAEL NOLLI &#8211; <\/strong>Essa \u00e9, com certeza, a pergunta mais dif\u00edcil de todas. Eu escrevo, mas isso \u00e9 um processo que n\u00e3o domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabe\u00e7a e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia \u00e9 uma p\u00e9ssima palavra para descrever esse processo, mas n\u00e3o consigo pensar em outra melhor). Ou seja, \u00e9 um trabalho inconsciente que n\u00e3o est\u00e1 sob as minhas ordens. L\u00f3gico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padr\u00e3o, que criam um eixo. Agora, em que n\u00edvel de percep\u00e7\u00e3o eles est\u00e3o? Realmente, n\u00e3o sei. Temo que seja imposs\u00edvel sab\u00ea-lo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><em>*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5622\"><strong>aqui<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma conversa liter\u00e1ria com o poeta mineiro L. 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