{"id":5926,"date":"2013-10-30T10:29:16","date_gmt":"2013-10-30T13:29:16","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=5926"},"modified":"2013-10-30T12:49:00","modified_gmt":"2013-10-30T15:49:00","slug":"janela-poetica-iv-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iv-19\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Gabriela Amorim<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5931\" aria-describedby=\"caption-attachment-5931\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5931\" title=\"Jussara Almstadter\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA6.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"342\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA6.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/INTERNA6-300x205.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5931\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Jussara Almstadter<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A filha da prostituta ou hist\u00f3ria de Natal<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Essa bem que poderia ser uma hist\u00f3ria para ser contada no Natal, porque a prostituta j\u00e1 sente as dores do parto e \u00e9 v\u00e9spera de Natal, logo rebentar\u00e3o os fogos e a bolsa amni\u00f3tica. Tamb\u00e9m porque a prostituta na verdade se chamava Maria, apesar de ser conhecida na rua como Zula. A bem da verdade, isso n\u00e3o chega a ser um nome, \u00e9 apenas um som para chamar uma pessoa, j\u00e1 que Maria parecia um nome muito sagrado e pobre para usar na vida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabia quem era o pai da crian\u00e7a. Tinha l\u00e1 uma desconfian\u00e7a ou, antes, uma prefer\u00eancia pelo marinheiro de olhos verdes. Um filho de olhos verdes. Teve medo de fazer um aborto, era muito medrosa. Havia uma sua colega que j\u00e1 fizera tr\u00eas abortos e, no \u00faltimo, quase morrera. Tinha muito medo de morrer. N\u00e3o que aquela vida fosse boa&#8230; Tinha medo de tudo ali\u00e1s, de ratos, baratas, de macumba, de velhas. No come\u00e7o, tamb\u00e9m dos homens, mas esse medo, o tempo a fez perder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do mais, tinha vontade de ter aquele filho, vontade de carreg\u00e1-lo, brincar com ele. Tinha vontade mesmo era de ter uma boneca, coisa t\u00e3o inexistente na inf\u00e2ncia. Desejou rever suas amiguinhas da rua para mangar da cara delas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quem tem a melhor boneca agora?, diria ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas havia aquelas dores todas ali e ela n\u00e3o sabia o que fazer com aquilo. N\u00e3o havia mais ningu\u00e9m na pens\u00e3o, era Natal e as mo\u00e7as estavam de folga, todas a festejar ao seu modo sabe-se l\u00e1 o qu\u00ea. Ela ficara sozinha com a barriga e a dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mordia um len\u00e7ol para n\u00e3o gritar. O suor empapava a camisola encardida. Ela estava sentada, muito encolhida no canto da cama. Olhando assim, parecia um anjo de altar. N\u00e3o passava de uma crian\u00e7a assustada com uma barriguinha saliente, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Chegara ali depois de passar alguns anos apanhando da vida e das patroas, trabalhando em casa de fam\u00edlia. N\u00e3o que a vida ali fosse mais f\u00e1cil, mas pelo menos apanhava quase nunca. \u00c0s vezes tinha nojo, \u00e9 verdade, mas todas as outras mo\u00e7as a tratavam como um bibel\u00f4 e, quando ficou gr\u00e1vida, elas passaram a sustent\u00e1-la. Tinha muitas m\u00e3es. Ela agora seria m\u00e3e tamb\u00e9m. Nunca tivera uma m\u00e3e, talvez tivesse tido um pai, mas n\u00e3o gostava de se lembrar disso. Fingia que sempre fora s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As dores aumentavam, e ela s\u00f3 pensava na festa que estava perdendo, o vestido novo para a Missa do Galo estava dependurado na porta do arm\u00e1rio. A vida pedia passagem para fazer mais um milagre. De repente, sentiu que ia parir, n\u00e3o saberia explicar o que era aquela sensa\u00e7\u00e3o \u2013 o que a deixou apavorada de desconhecer \u2013, mas sentia que um milagre estava por vir. Alguma estranha for\u00e7a f\u00eamea a guiou no parto, como se o nome Zula, que era quase um balido animal, lhe tivesse convocado essa for\u00e7a n\u00e3o-humana de parir. Ent\u00e3o, ela simplesmente pariu e segurou a crian\u00e7a desajeitamente junto ao corpo. Cortou o cord\u00e3o com uma faquinha quase cega que estava sobre a mesinha de cabeceira. Depois, limpou-a (sim, era uma menina, o que j\u00e1 dificulta um pouco a viabilidade de uma hist\u00f3ria de Natal) com nojo no len\u00e7ol cheio de manchas de noites passadas. Encostou o beb\u00ea no seio e ele parou de chorar. Nasceu franzino, um fiapo de vida, um milagrezinho de Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou m\u00e3e, disse a si sem \u00eanfase nenhuma. E havia alguma dor sublime nisso. Com a menina no colo, pensou que deveria dar-lhe um nome. Pensou que deveria dar-lhe ouro, incenso e mirra. Presentes, comida, alegria, uma vida maravilhosa, o mundo inteiro. Estava exausta e com medo. N\u00e3o poderia dar nada \u00e0 sua filha. Nem amor, que nunca tivera disso na sua vida. Nem leite tinha, os peitos murchos de n\u00e3o comer quase nada. N\u00e3o poderia cri\u00e1-la entre prostitutas. N\u00e3o poderia fazer nada por aquele milagre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um beb\u00ea feio, magro, engelhado, vermelho. N\u00e3o tinha olhos verdes nem cabelos dourados. (Quem era o pai?) Colocou-a na cama e levantou-se. Vestiu o vestido de festa: rosa bem claro, sua cor preferida. Arrumou os cabelos. Como estava cansada. E como do\u00eda-lhe o sexo. Pior do que na primeira vez que se deitara com um homem. Tomou a menina nos bra\u00e7os e saiu. Na rua havia muito barulho, era Natal. N\u00e3o havia brisa, mas a noite era mais fresca l\u00e1 fora do que dentro do quarto noturno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhava lentamente enquanto pensava no que poderia fazer para salvar um milagre. Mas ainda era uma crian\u00e7a. As ruas eram escuras, a noite era escura, ela era escura, s\u00f3 sua filha era rosada. Parou num beco, exausta de caminhar, exausta de pensar, exausta de parir. Encostou-se na parede. Era um beco imundo. P\u00f4s a bebezinha numa lata de lixo e deu-lhe um beijo na testa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Morra logo, minha filhinha, porque essa vida \u00e9 muito ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cuspiu-lhe na cara com nojo e ficou olhando-a um pouco. Talvez quisesse se sentir penalizada, mas n\u00e3o sentia, n\u00e3o sentia nada. Tudo tinha ido embora naquele parto. Se afastou devagar enquanto a menininha chorava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez, no c\u00e9u, uma estrela tenha se apagado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o contem essa hist\u00f3ria no Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Gabriela Amorim<\/strong> \u00e9 escritora e leitora, jornalista, fot\u00f3grafa, cozinheira, aprendiz de costureira e de feiticeira, instrutora de yoga, caminhante. Escreve cr\u00f4nicas \u00e0s ter\u00e7as-feiras no Portal Infonet. Seu primeiro romance, O velho, est\u00e1 no prelo e, em breve, deve vir \u00e0 luz)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto lancinante de Gabriela Amorim<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5931,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1480,2534],"tags":[1532,81,41,1531],"class_list":["post-5926","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-84a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-filha-da-prostituta-ou-historia-de-natal","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-gabriela-amorim"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5926"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5926\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6024,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5926\/revisions\/6024"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5931"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}