{"id":6099,"date":"2013-11-23T17:50:43","date_gmt":"2013-11-23T20:50:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6099"},"modified":"2013-12-31T15:59:17","modified_gmt":"2013-12-31T18:59:17","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-20\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &amp; O FOGO ALHEIO DE TODOS N\u00d3S <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Floriano Martins<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Di\u00e1logo entrecortado de melodias ador\u00e1veis. H\u00e1 anos conheci rapidamente a Elaine Guedes (1968). O meu olhar se deteve em sua alegria de viver e o meu ouvido em sua voz entranh\u00e1vel. Logo em seguida o sil\u00eancio se ramificou entre n\u00f3s de todas as formas. Quando nos reencontramos, seu curr\u00edculo j\u00e1 havia dado um salto qualitativo vultoso, com discos gravados e livros publicados. Surpreendeu-me descobrir na cantora um duplo po\u00e9tico, autora de letras e poemas. E foi essa descoberta de uma Elaine Guedes que \u00e9 tudo menos alheia \u00e0 tens\u00e3o entre dois mundos paralelos que se chocam entre si com frequ\u00eancia destrutiva, o dom\u00e9stico e o da cria\u00e7\u00e3o, que me levou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dessa entrevista. Os bastidores guardam sua singularidade saborosa, com recortes tais como: \u201cEu achava que fazer m\u00fasica era coisa de uma esp\u00e9cie de ser humano diferenciado. Mas at\u00e9 o mergulho na m\u00fasica \u00e9 uma quest\u00e3o de trabalho, de estudo, n\u00e3o \u00e9 solit\u00e1ria como a escrita e \u00e9 bom saber do que estamos falando ao dialogar com o m\u00fasico.\u201d Ou essa preciosidade: \u201cSucesso para mim \u00e9 fazer algo que se quer ler ou ouvir repetidas vezes. E propor uma novidade, coisa t\u00e3o dif\u00edcil, que todo mundo diz ser imposs\u00edvel hoje em dia. Eu n\u00e3o acho. Nesses tempos em que as pessoas sobre a <em>tortura light<\/em>, todos est\u00e3o conduzidos sem perceber, espremidos, o consumo \u00e9 um paliativo e se chega na segunda-feira sem perceber. Eu quero viver percebendo, tendo a possibilidade de encontrar um trabalho bom.\u201d Tamanha vitalidade existencial me fascina em meio a uma estrada gasta por onde circula a arte em nosso tempo, engasgada no tempo, retida numa alf\u00e2ndega de valores revolucion\u00e1rios j\u00e1 datados. N\u00e3o h\u00e1 nada mais saud\u00e1vel do que um artista que quer romper com a pasmaceira virulenta em que se converteu seu pr\u00f3prio tempo. Elaine \u00e9 um bom exemplo dessa atitude guerreira. A voz de Elaine Guedes em uma can\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WCA79M718LQ&amp;feature=youtu.be \"><strong>sua<\/strong><\/a>. A voz de Elaine Guedes em um poema <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Aao5ju2p5H0\"><strong>meu<\/strong><\/a>. A voz de Elaine Guedes no di\u00e1logo que tivemos e que agora compartilhamos com os leitores de <em>Diversos Afins<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_6120\" aria-describedby=\"caption-attachment-6120\" style=\"width: 299px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Elaine-Guedes-por-Julio-Cerino-INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6120 \" title=\"Elaine Guedes\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Elaine-Guedes-por-Julio-Cerino-INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"299\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Elaine-Guedes-por-Julio-Cerino-INTERNA-I.jpg 299w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Elaine-Guedes-por-Julio-Cerino-INTERNA-I-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6120\" class=\"wp-caption-text\">Elaine Guedes \/ Foto: Julio Cerino<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FLORIANO MARTINS &#8211;<\/strong><strong> Como a m\u00fasica entra em tua vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211; <\/strong>Meu nome foi escolhido porque meu pai ouviu anunciar uma cantora na r\u00e1dio, e n\u00e3o devia ser brasileira. Na minha casa m\u00fasica n\u00e3o existia, e o clima Pol\u00edcia Federal era bem pesado, pai e m\u00e3e. No entanto eu pedi aos nove anos um som de presente, o primeiro compacto que comprei foi Crosby, Stills, Nash and Young (<em>I can see clearly now<\/em>) e Billy Paul \u2014 <em>Me and Mrs. Jones<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos dez anos eu cantava na Igreja Cat\u00f3lica, mas uma madre insistia que minha alegria era <em>over<\/em>. E eu abandonei os dois. Sinto que me tornei uma pessoa com grande dificuldade de me expressar, por isso procurei a m\u00fasica, ela \u00e9 um canal n\u00e3o t\u00e3o racional, pra dentro de mim mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rapidamente me vi em Fortaleza fazendo <em>backings<\/em> para o Tazo Costa no Teatro da Encetur. Depois comecei minha carreira-solo e fui estudar com Paulo Fortes, cinco anos de canto l\u00edrico. Cantei com o Tim Maia, Cassiano e Jorge Ben Jor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong><strong> Desde quando come\u00e7aste a escrever sempre esteve presente essa aten\u00e7\u00e3o a um \u201cestado de entrega\u201d? Suponho que isto queira dizer que tens uma disposi\u00e7\u00e3o para o mergulho em grandes \u00e1guas, o que nos leva inclusive \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 falaremos da m\u00fasica, mas comecemos pelas fontes liter\u00e1rias: tuas leituras.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Estado de entrega \u00e9 uma necessidade, \u00e9 vital porque \u00e9 algo que fica ruminando, ent\u00e3o eu tenho que ir l\u00e1 ver o que \u00e9, e vejo escrevendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que sempre precisei escrever. E ler. Aos treze anos eu ganhei uma leitura que, n\u00e3o sabia por que, me marcou para sempre: os contos de Voltaire, em especial <em>Candide<\/em>. Lembro de uma vez, aos dezoito anos, ter causado certa f\u00faria em minha m\u00e3e por ter chegado com 20 livros de uma s\u00f3 vez em casa, dentre eles muitos da cole\u00e7\u00e3o Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Li muito sobre temas sociais e os fil\u00f3sofos \u2014 cursei primeiro Servi\u00e7o Social, depois Ci\u00eancias Sociais na UFRJ, n\u00e3o terminei. Ent\u00e3o aos dezoito j\u00e1 havia lido Descartes, Morus, Plat\u00e3o\u2026 Ao mesmo tempo, ou um pouco antes, eu lia todos os bolsilivros de Lou Carrigan com sua agente Brigitte Monfort. Li <em>Os 7 Minutos<\/em>, Irving Wallace, e comprei todos os autores citados. Leitura \u00e9 uma curiosidade, e estou sempre contrabalan\u00e7ando a literatura. Sou apaixonada por romance hist\u00f3rico. Agora estou na fase Guerra de Fogo e Gelo, leitura adolescente, que me faz dormir e sair da minha realidade. Que n\u00e3o chega nem perto de meu livro quase predileto, <em>Terra Nostra<\/em>, de Carlos Fuentes. Em mat\u00e9ria de fantasia\u2026 \u00e9 sem compara\u00e7\u00e3o. Como v\u00ea, me interessa estar com a cabe\u00e7a em grandes ondas imagin\u00e1rias. Preciso disso porque estou gravando, durante o dia, o \u00e1udio do livro do Roberto Campos, <em>Lanterna na Popa<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong> <strong>Convers\u00e1vamos em outro momento sobre tua ideia de introduzir uma linguagem do <em>jazz<\/em> em algumas can\u00e7\u00f5es. Considerando a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre <em>jazz<\/em> e surrealismo, eu sempre observo a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica no Brasil um pouco ref\u00e9m de uma racionalidade excessiva que contrasta com outro excesso, o de sua potencialidade m\u00e1gica. \u00c9 como um tipo com dotes esp\u00edritas nascido em uma opressora fam\u00edlia cat\u00f3lica. Essa rela\u00e7\u00e3o acaba por criar um trauma. Ent\u00e3o por vezes eu vejo a tradi\u00e7\u00e3o da poesia e da can\u00e7\u00e3o popular no Brasil como devorada por esse trauma que lhe afastou do saud\u00e1vel conv\u00edvio com o surrealismo e o <em>jazz<\/em>. Observe que falo em can\u00e7\u00e3o popular, o que exclui a m\u00fasica instrumental, pois esta \u00e9 dotada de um sentido de liberdade magn\u00edfico que vem l\u00e1 de um Pixinguinha, passa pelos chor\u00f5es, a gafieira, essa figura magistral que foi Radam\u00e9s Gnattali, e mestres como Paulo Moura, Egberto Gismonti e essa impressionante escola natural de multiplica\u00e7\u00f5es incans\u00e1veis de vertentes que \u00e9 Hermeto Pascoal. J\u00e1 a can\u00e7\u00e3o popular atendeu a dois caprichos, o da conveni\u00eancia de mercado e o esvaziamento de discurso por limita\u00e7\u00e3o de linguagem expressiva. Quando me falas em teu projeto de aproxima\u00e7\u00e3o do jazz ele me soa como um canto de liberta\u00e7\u00e3o. Comenta um pouco tua impress\u00e3o sobre o que menciono aqui, e me fala de tuas ideias jazz\u00edsticas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Bem, a m\u00fasica <em>pop<\/em> tem regras, a arte n\u00e3o tem regras. Fez-se muita m\u00fasica para Wall Street, que \u00e9 a teoria do consumo r\u00e1pido, n\u00e3o da surpresa. Bem objetivo. Tudo o que n\u00e3o quero fazer. E acho que esse empobrecimento da linguagem tem a ver com setorizar. Voc\u00ea foi perfeito na sua coloca\u00e7\u00e3o. Eu estou buscando sempre a mim mesma, atrav\u00e9s da escrita e da m\u00fasica. Cantar \u00e9 descobrir meu retrato em muta\u00e7\u00e3o\u2026 Adotei um processo interessante, gravar \u00e0 capela antes de gravar com os m\u00fasicos. Depois ouvir e ter a mim mesma como refer\u00eancia, quando a m\u00fasica \u00e9 conhecida. Isto me impede de ter outra cantora como par\u00e2metro pra a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica pode ser \u201ccinematogr\u00e1fica\u201d. A m\u00fasica tem que ter o cen\u00e1rio. <em>Jazz<\/em> talvez represente apenas essa liberdade. Eu estou at\u00e9 mesmo pensando em simplificar as harmonias, usar bastantes ostinatos, tornar as bases simples para me sentir bem \u00e0 vontade. Eu acho que isso fica mais perto dos ouvidos populares, e fica mais perto de mim, que tenho a informa\u00e7\u00e3o do <em>rock<\/em>, na veia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong> <strong>O Brasil \u00e9 aparentemente um pa\u00eds antissist\u00eamico. H\u00e1 in\u00fameros ensaios sobre o que se chama de carnavaliza\u00e7\u00e3o de nossa cultura. No entanto, essa leitura \u00e9 fruto de uma estrat\u00e9gia de poder, dentro do esp\u00edrito mais prim\u00e1rio do conceito de \u201cp\u00e3o &amp; circo\u201d. Quando John Lennon foi assassinado a m\u00eddia projetou uma overdose m\u00edtica, j\u00e1 de todo desnecess\u00e1ria, por sua import\u00e2ncia inquestion\u00e1vel. O brasileiro Almir Chediak foi estupidamente assassinado por um sequestrador incompetente. A m\u00eddia no Brasil jamais conseguiu entender a grandeza de sua import\u00e2ncia para a m\u00fasica brasileira. Sua s\u00e9rie de <em>songbooks<\/em> tem uma dupla import\u00e2ncia que se pode dizer \u00e9pica: a hist\u00f3rica, a recupera\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio, o ensinamento do amor pelo que \u00e9 nosso, no caso dos compositores, ao lado da li\u00e7\u00e3o que d\u00e1 aos cantores, de que fiquem atentos ao veio riqu\u00edssimo de nosso cancioneiro, inclusive variando repert\u00f3rio e concep\u00e7\u00e3o de arranjo. Sempre buscamos equival\u00eancias em casa para o que h\u00e1 de mais pat\u00e9tico no mundo e nunca nos orgulhamos do que temos de mais relevante. Fala um pouquinho disso tudo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Tenho duas lembran\u00e7as que ilustram isso: uma, um texto de Ant\u00f4nio Bezerra de Menezes, que quando vice-c\u00f4nsul em Nova Orleans, se via obrigado a legalizar faturas consulares de milhares de d\u00f3lares em casacos de peles e autom\u00f3veis usados, como forma de dissipar um precioso saldo pelo abastecimento da m\u00e1quina de guerra americana com nossos minerais, essenciais: ur\u00e2nio, areias monaz\u00edticas, mangan\u00eas etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa no\u00e7\u00e3o de valor a que voc\u00ea se refere parece c\u00f3pia da est\u00e1tua da liberdade na Barra da Tijuca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s nos acostumamos com a humilha\u00e7\u00e3o, por sermos colonos ou sermos escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A postura de n\u00e3o nos valorizar ainda n\u00e3o mudou. Eu me lembro tamb\u00e9m de certa vez em Nova York um amigo me chamar a aten\u00e7\u00e3o porque eu dizia em demasia \u201cI\u2019m sorry\u201d. Ent\u00e3o passei a observar que somos um enorme \u201cI\u2019m sorry\u201d. At\u00e9 bem pouco tempo, e acho que n\u00e3o mudou demais, observa: se uma pessoa pobre, ou negra, enfim, levasse um esbarr\u00e3o de outra pessoa branca, ou rica\u2026 Era o pobre e negro quem pedia, ou pede, desculpas. E se esquecermos esta quest\u00e3o\u2026 \u00e0s vezes ando de bicicleta pela cal\u00e7ada e se algu\u00e9m me percebe atr\u00e1s de si, se afasta e ainda me pede desculpas! \u00c9 uma postura que sempre tivemos, n\u00e3o pensamos como independentes. Inclusive deve ser por isso que n\u00e3o se produzem tantos filmes sobre a nossa hist\u00f3ria, n\u00e3o se diz nas escolas o quanto a m\u00fasica brasileira elevou o Brasil. Tem uma coisa mudando, mas tem uma filosofia perigosa tamb\u00e9m, no meio da atual inclus\u00e3o: a nivela\u00e7\u00e3o por baixo. \u00c9 talvez a ideologia de parte da classe dominante que se lan\u00e7ou na esquerda, e que achava oper\u00e1rio \u201cpobre coitado\u201d. Eu acho que isto diminui a qualidade do homem, do cidad\u00e3o. \u00c9 a filosofia da Rede Globo, atualmente, e de quase todas as emissoras, a de que o pov\u00e3o, agora consumidor, n\u00e3o \u201calcan\u00e7a\u201d a qualidade intelectual. Eu acho que o governo tamb\u00e9m faz isso em muitos programas e procedimentos, visto a escola p\u00fablica que pouco reprova, se reprova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00f3s temos de melhor \u00e9 por outro lado a espontaneidade que brota apesar dos comandos, apesar das ditaduras e das correntes, sempre aconteceu. Com um sorriso de desculpas \u00e0s vezes, com for\u00e7a outras\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O funk tem for\u00e7a, \u00e9 espont\u00e2neo\u2026 Mas \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o perigosa porque ela acorrenta os valores, que s\u00e3o o retrato de um pa\u00eds cuja elite n\u00e3o valoriza a cultura, a elite que trocou nosso ur\u00e2nio por casacos de pele! Cultura do eu, do meu\u2026 Cultura em sua plenitude quer dizer: \u201cum homem educado \u00e9 a suprema obra de arte\u201d. N\u00e3o sei de quem \u00e9 esta frase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_6122\" aria-describedby=\"caption-attachment-6122\" style=\"width: 299px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA-II2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-6122 \" title=\"Elaine Guedes\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA-II2.jpg\" alt=\"\" width=\"299\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA-II2.jpg 299w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA-II2-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6122\" class=\"wp-caption-text\">Elaine Guedes\/ Foto: Julio Cerino<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM-<\/strong> <strong>Vamos conversar sobre os discos gravados at\u00e9 aqui. O que marca a tua voz? O que ela deseja de ti?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> O primeiro foi <em>Comer<\/em>, pela Niter\u00f3i Discos, que concorreu ao Pr\u00eamio Sharp, foi mal compreendido e tamb\u00e9m mal trabalhado, porque o CD era feito, mas n\u00e3o se acompanhava todo um caminho posterior. Esse disco tem uma sofistica\u00e7\u00e3o, nunca economizamos nos acordes. Eu ouvia muito <em>hip-hop<\/em> e Anita Baker, sempre a mistura. Ali\u00e1s, comecei a compor porque o selo n\u00e3o queria pagar direitos autorais, Arhur Maia e Altay Vesolo me entregaram m\u00fasicas para eu colocar a letra. Um processo que n\u00e3o fa\u00e7o mais. O segundo foi bacana, <em>Elaine Guedes<\/em>, independente. O terceiro foi ao vivo, gostei muito, tem uma m\u00fasica in\u00e9dita do Lenine.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que fiz foi um processo. Sinto que estou encontrando unidade agora, estou trabalhando mais tamb\u00e9m. Durante um tempo fiquei apegada demais \u00e0 fam\u00edlia, n\u00e3o zelei o tanto que a carreira exigia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong> <strong>Tens um bom sentido est\u00e9tico de dire\u00e7\u00e3o de teus projetos. Escrever as letras para outros parceiros, considerando que ser\u00e1s, em grande parte, a cantora das can\u00e7\u00f5es, pode em algum caso gerar uma frustra\u00e7\u00e3o ante o surgimento de uma melodia que n\u00e3o era exatamente a que esperavas para compor o ambiente da letra. Isto costuma acontecer? Sentes falta do dom\u00ednio de algum instrumento que pudesses tocar para te ajudar na composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> J\u00e1 acontece demais, at\u00e9 que desisti de fazer m\u00fasica esperando cant\u00e1-la. Agora eu canto se achar que tem a ver com o projeto do momento. Cantar minhas m\u00fasicas nesse atual projeto Bluesy vai ser fogo! S\u00e3o can\u00e7\u00f5es de Cartola e Thelonious Monk! O Moacyr Luz fez uma m\u00fasica comigo, claro que eu mandei um monte de can\u00e7\u00f5es pra tentar seduzi-lo, mas o sedutor \u00e9 ele, ele sabe o que a m\u00fasica pede e tem seu jeito pessoal, ficou linda. Mas essa cabe, \u00e9 dif\u00edcil dizer que cabe, porque estamos falando de can\u00e7\u00f5es geniais. O Aleh Ferreira est\u00e1 com outra letra, e depois de ver meu encanto por Nelson Cavaquinho, jurou que procuraria uma inspira\u00e7\u00e3o nele. Assim vamos caminhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falta do dom\u00ednio de um instrumento? O tempo todo, eu me sinto capenga por isto, quase com uma perna s\u00f3! Falta de cultura minha. Quando comecei a cantar tinha muita namorada de m\u00fasico cantando. O Ed Motta falou que o Brasil ainda \u00e9 assim, at\u00e9 me aborreci, mas \u00e9 o resultado de nossa cultura. Isto est\u00e1 mudando. Agora m\u00fasica \u00e9 mat\u00e9ria obrigat\u00f3ria nas escolas, e m\u00fasica \u00e9 mais que cantar sem ter uma no\u00e7\u00e3o imensa do que isto significa. E tocar um instrumento tem que fazer parte de aprender a cantar. Eu s\u00f3 arranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM<\/strong> <strong>&#8211; O mercado da m\u00fasica hoje me parece mais interessado na contraimagem do que na imagem em si. Observo isto porque em nossas conversas dizias que a Adele teria que emagrecer para seguir vendendo discos. Suicidas em potencial como Amy Winehouse ou gordas ador\u00e1veis como a pr\u00f3pria Adele contestam um pouco a tua assertiva. O mercado j\u00e1 converteu a moral em algo repleto de <em>glamour<\/em>. Mas a ess\u00eancia estava no <em>glamour<\/em> e nunca na moral. Agora o esc\u00e2ndalo volta a ter certo charme.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Eu adoro toda quebra de conceitos! \u00c9 o mercado que quer que Adele emagre\u00e7a, eu n\u00e3o, acho-a linda! Eu adoro ver o sucesso <em>Antony &amp; the Johnsons<\/em>, Bj\u00f6rk \u00e9 sensacional, eu n\u00e3o estou nem a\u00ed pra est\u00e9tica, mas eu me sinto cobrada com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esc\u00e2ndalo est\u00e1 de volta porque a m\u00eddia n\u00e3o conseguiu produzir nada avassalador ultimamente. E nem mesmo consegue pegar a ideia da quebra de paradigma para produzir revolu\u00e7\u00e3o! A ess\u00eancia est\u00e1 sempre na necessidade, n\u00e3o na ideia de sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; <\/strong><strong>Agora mesmo est\u00e1s em processo de prepara\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio e arranjos de um novo show, o que certamente acabar\u00e1 remetendo \u00e0 grava\u00e7\u00e3o de um disco. O que j\u00e1 podes revelar do que andas planejando?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Apenas que abortei temporariamente a ideia de gravar as can\u00e7\u00f5es que compus com tanta gente pelo mundo afora, pela Internet. Ficou sem unidade. Ent\u00e3o fui cantar na Lapa com m\u00fasicos estrangeiros, e me dediquei a um repert\u00f3rio que nunca tinha esperado cantar. Cl\u00e1ssicos. Mas eu quero s\u00f3 \u00e9 achar o meu jeito de interpret\u00e1-los. D\u00e1 o maior trabalho n\u00e3o me apoiar na interpreta\u00e7\u00e3o dessas divas como Billie Holliday, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu s\u00f3 quero ouvir a minha voz quando pensar numa dessas m\u00fasicas que escolho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong> <strong>Publicaste um livro, <em>O Amor Nu<\/em>, e agora tens um novo t\u00edtulo em fase de edi\u00e7\u00e3o. Como se encontram essas distintas formas de express\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Dentro da minha casa, onde eu produzo, \u00e9 aqui que me encontro, sou essas coisas e pronto. Alguns dos poemas de <em>O Amor Nu<\/em> viraram m\u00fasica, tem <em>links<\/em> na Internet. Algumas eu n\u00e3o gravei. O livro novo \u00e9 mais ousado e escrito a quatro m\u00e3os, <em>Poemas em Cortes Profundos<\/em>, com Jo\u00e3o Ayres. E ganhei um presente imenso da vida: um pref\u00e1cio do Ivan Lins, escrito magistralmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontro-me na emo\u00e7\u00e3o das coisas que fa\u00e7o. Revelo-me nelas, inclusive para mim mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; Esquecemos algo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ELAINE GUEDES &#8211;<\/strong> Essa foi a pergunta mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><strong><em>Floriano Martins<\/em><\/strong><em> (Brasil, 1957) \u00e9 poeta, editor e ensa\u00edsta. Dirige a<\/em> <a href=\"http:\/\/www.jornaldepoesia.jor.br\/agportal.htm \"><strong><em>Agulha Revista de Cultura<\/em><\/strong><\/a><em>.<em> Entre os seus livros mais recentes, se encontram\u00a0<\/em><\/em>\u201c<em>Autobiografia de um truque\u201d (2010) e\u00a0<\/em>\u201c<em>Susana Wald \u2013 La vastedad simb\u00f3lica\u201d (2012))<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor Floriano Martins numa conversa musical e po\u00e9tica com a cantora Elaine Guedes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6118,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1540,16,2539],"tags":[1548,1547,560,133,8,561],"class_list":["post-6099","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-85a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-cantora","tag-elaine-guedes","tag-floriano-martins","tag-musica","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-revista-agulha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6099"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6099\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6549,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6099\/revisions\/6549"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6118"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}