{"id":6102,"date":"2013-11-23T17:54:17","date_gmt":"2013-11-23T20:54:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6102"},"modified":"2013-12-31T15:59:25","modified_gmt":"2013-12-31T18:59:25","slug":"dedos-de-prosa-i-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-20\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c1llex Leilla<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_6128\" aria-describedby=\"caption-attachment-6128\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6128  \" title=\"Julia Debasse\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"310\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA1.jpg 310w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/INTERNA1-186x300.jpg 186w\" sizes=\"auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6128\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Julia Debasse<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Senhora minha<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Transforma-se o amador na cousa amada,<br \/>\nPor virtude do muito imaginar;<br \/>\nN\u00e3o tenho logo mais que desejar,<br \/>\nPois em mim tenho a parte desejada.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Se nela est\u00e1 minha alma transformada,<br \/>\nQue mais deseja o corpo de alcan\u00e7ar?<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Lu\u00eds de Cam\u00f5es<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M<\/strong>encionou apenas que o tempo havia fechado em sua casa, depois falaria sobre isso, precisava, antes, resolver. Dias passaram e n\u00e3o houve qualquer retomada do assunto, em vez disso, ela sumiu simplesmente. Tr\u00eas dias sem not\u00edcia. Ele ficou preocupado. Escreveu perguntando se estava tudo bem por l\u00e1. Por aqui, o tempo fechou tamb\u00e9m, quis fazer tro\u00e7a a fim de provocar curiosidade. Mas, em seguida, esclareceu, evitando n\u00e3o assust\u00e1-la: fechou em termos de clima, est\u00e1 chovendo desde domingo. Acrescentou, de puro charme, se bem que \u00e9 normal, todo ano, onde quer que estejamos, veremos chover nos dias 21 e 22 de novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso era verdade; todavia, escrito num <em>e-mail<\/em>, soava sem sentido, um tanto exc\u00eantrico, considerou. N\u00e3o pergunte por que nem pense em coincid\u00eancia, continuou ele, querendo manter algum fio de mist\u00e9rio, a verdade \u00e9 que chove, invariavelmente, no anivers\u00e1rio de Andr\u00e9 Gide e um dia antes, na nossa data. Depois, aproveitou pra dar vaz\u00e3o aos seus conhecimentos astrol\u00f3gicos: n\u00e3o sei se voc\u00ea se lembra, mas Gide abre Sagit\u00e1rio, enquanto eu e voc\u00ea encerramos Escorpi\u00e3o. Ela apreciava tanto os romancistas franceses quanto a astrologia, de modo que ele podia se soltar, sem medo, nas alus\u00f5es. Ademais, raramente era incompreendido por ela, ao contr\u00e1rio, contava com uma interlocutora culta, capaz de lhe responder, segundos depois, com coment\u00e1rios perspicazes e outras tantas refer\u00eancias que o deixavam ainda mais disposto a desenvolver o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esqueceu-se de mencionar outros elementos relativos ao anivers\u00e1rio, h\u00e1bitos e males que tinham em comum: as dores de coluna; o evitar comemora\u00e7\u00f5es; a necessidade de ficar s\u00f3 em casa; a mania de fugir pra aeroportos onde pudessem contemplar os avi\u00f5es. Eram do mesmo signo, melhor: nasceram no mesm\u00edssimo dia e m\u00eas \u2014 ela apenas um ano mais nova que ele. Portadores de uma natureza singular, estavam t\u00e3o acostumados a causar espanto nas pessoas ao redor, que se agarravam \u00e0quelas datas, \u00e0quelas refer\u00eancias, ao gosto em comum, e se confessavam, nas milhares de mensagens que diariamente trocavam, a alma g\u00eamea do outro, a cara-metade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forte empatia do presente havia sido outrora abalada pela tentativa fracassada de viverem juntos. No in\u00edcio, quando se conheceram, cometeram o equ\u00edvoco de dar vaz\u00e3o concreta ao sentimento, e l\u00e1 foi ela de escova de dentes e sand\u00e1lias de tiras pra a casa dele, donde fugiu, deprimida, meses depois. O rompimento significou um per\u00edodo dif\u00edcil de telefonemas r\u00edspidos e farpas pelo <em>MSN<\/em> \u2014 culpa e tristeza pra ele, raiva e depress\u00e3o pra ela. Foram passando, todavia, foram passando por cima das m\u00e1goas, se reencontrando naquela zona tranquila dos que nasceram, de fato, pra ser amigos, jamais amantes. Sexo complica tudo, decretou ela, certa feita, v\u00e9spera de ano-novo. Mas brindo a voc\u00ea de corpo e alma, devolveu ele, terno. E de tanto mandar mensagens alta madrugada \u2014 s\u00f3 voc\u00ea me entende, ela desabafava, <em>quando penso em algu\u00e9m s\u00f3 penso em voc\u00ea<\/em>, ele citava \u2014 viram renascer a amizade, agora com alicerce palp\u00e1vel, acreditavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminou de escrever o <em>e-mail<\/em>, baixou o visor do <em>laptop<\/em>,<em> <\/em>correu \u00e0 cozinha atr\u00e1s de algo pra beber, a garganta pra l\u00e1 de seca. Achou ch\u00e1 gelado, \u00e1gua mineral e suco de maracuj\u00e1 na geladeira. A esposa continuava a mania de nunca comprar cerveja, apesar de terem combinado uma lista de itens b\u00e1sicos, fosse de quem fosse a vez de ir ao supermercado. Mas resolveu n\u00e3o protestar, estava mesmo a fim de ficar na sua, em paz. At\u00e9 porque se quisesse interrog\u00e1-la naquele instante acerca da exclus\u00e3o de sua cerveja, \u00fanica exig\u00eancia que ele, o pobre e desprezado provedor da casa fazia, onde encontraria a esposa \u00e0quela hora? Na casa da irm\u00e3, a cinco quadras, enchendo bolas de assopro, bordando pain\u00e9is ou discutindo o recheio do bolo de anivers\u00e1rio do \u00fanico sobrinho? Deveria, \u00e9 claro, haver algum bilhete nalgum canto da casa explicando seu destino e prov\u00e1vel hor\u00e1rio de retorno. Um bilhete escrito rapidinho, como ela gostava de dizer o tempo todo. Rapidinho, amor, repetia a esposa antes de qualquer a\u00e7\u00e3o. E eram, realmente, bilhetes que aparentavam uma origem mete\u00f3rica, qui\u00e7\u00e1 descuidada: duas frases, beijos em letras largas, alguma indica\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria do tipo <em>tem pav\u00ea de ameixa na geladeira<\/em> ou <em>esquente o frango no micro-ondas, e n\u00e3o me espere, amor: vou demorar<\/em>. Os bilhetes da mulher. Podia encher um ba\u00fa com aquilo. No fim das contas, eram todos in\u00fateis, pois ela sintetizava neles justamente as informa\u00e7\u00f5es que passava 24h repetindo: quando ia sair, quando ia viajar, a que horas chegaria do <em>shopping<\/em>, a que horas iria \u00e0 casa da irm\u00e3 ajudar nos preparativos do anivers\u00e1rio de seu \u00fanico e amado e idolatrado salve, salve, sobrinho. Era, portanto, dispens\u00e1vel l\u00ea-los, visto que as frases dela colavam-se \u00e0 mente dia e noite, noite e dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada de cerveja. Ele tentou se resignar frente \u00e0 geladeira aberta, abarrotada de potes de pl\u00e1sticos com restos de almo\u00e7o, restos de jantar, bolo de laranja de dois dias, queijos, iogurtes, gelatina e at\u00e9 achocolatado! Ele se chateou: boa essa, n\u00e3o compra sua cerveja, mas compra achocolatado em caixinha. N\u00e3o tinham filhos ainda, pra que diabos a esposa comprava Toddynho? Pro sobrinho? Deu de ombros, escolheu ch\u00e1 gelado. Encheu duas vezes o copo de 300ml, a sede jorra na alma, brincou, por isso, nada a estanca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomou banho. Vestiu o pijama e deitou, verificando, antes, se havia alguma nova not\u00edcia da amada amiga na caixa de entrada. Absolutamente, nada. Cochilou, desejando, num ponto da mente, acordar e dar de cara com uma dr\u00e1stica mudan\u00e7a em sua vida, mas uma mudan\u00e7a t\u00e3o significativa que o transformaria naquelas pessoas elegantes, incapazes de reclama\u00e7\u00f5es pelos cantos, incapazes de insistir nas tristes narrativas de problemas di\u00e1rios, uma pessoa elegante por dentro e por fora, suportando tudo com um sorriso nos l\u00e1bios, botaria, inclusive, o Dalai-Lama no chinelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Despertou minutos depois cara a cara com o incontorn\u00e1vel: mudan\u00e7as s\u00e3o m\u00e9ritos, \u00e9 preciso agir em prol delas. As pessoas elegantes e imposs\u00edveis continuariam, portanto, a povoar a mente, acenando do outro lado da pista, enquanto conforma\u00e7\u00e3o e pregui\u00e7a fossem imp\u00e9rio. O dia todo aquilo \u2014 nenhum <em>e-mail<\/em>, nenhuma not\u00edcia dela, somente a chuva e a dor de coluna ininterruptas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levantou, tomou um Cataflan com mais meio copo de ch\u00e1 gelado. Sede e desejo de algo doce na boca. Comeu um peda\u00e7o de bolo de laranja com chocolate. N\u00e3o demorou meia hora, vomitou tudo. Era s\u00f3 o que faltava, praguejou, abrindo a porta da \u00e1rea de servi\u00e7o a fim de pegar o pano pra limpar o estrago no piso branco da cozinha. Criara intoler\u00e2ncia ao medicamento? Ou foi o bolo? Porcaria! Se n\u00e3o limpasse o ch\u00e3o, no outro dia a esposa decretaria a 3\u00aa Guerra Mundial, com armas qu\u00edmicas e ataques terroristas ao pr\u00e9dio da ONU. Pegou \u00e1gua sanit\u00e1ria e derramou meia garrafa no pano. Limpava, meio enojado, por dentro, somos nojentos de t\u00e3o iguais, pensou, se contendo pra n\u00e3o p\u00f4r o est\u00f4mago pra fora outra vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lavou as m\u00e3os diversas vezes, escovou os dentes, enxaguou a boca com antiss\u00e9ptico. Voltou ao <em>laptop<\/em>, ca\u00e7ou a amiga no <em>Skype<\/em>, no <em>MSN<\/em>. Mandou novo <em>e-mail<\/em>. Pedia resposta urgente. N\u00e3o veio. Sabia-a not\u00edvaga, quase a viver do outro lado da tela. Criou coragem e copiou a mesma mensagem via celular. N\u00e3o quis ser invasivo, justificou, mas voc\u00ea sumiu e estou preocupado. Combinaram, h\u00e1 tempos, de evitar telefonemas, em respeito ao ci\u00fame do atual marido dela, que n\u00e3o conseguia acreditar naquela amizade p\u00f3s-cama dos dois. Naquele momento, no entanto, ignorou o acordo e ligou. Uma, duas, tr\u00eas vezes. Ca\u00eda direto na caixa. A pessoa desapareceu. Deveria estar com algum problema ou, quem sabe, dando um tempo. Cansada da intensidade da correspond\u00eancia entre eles? N\u00e3o podia ser, afinal, juraram jamais abrir m\u00e3o da amizade, prometeram embalar com palavras gentis at\u00e9 mesmo um cisco surgido na rotina, embalar e mandar ao outro, a fim de manter cont\u00ednua a linha do afeto, a imensa ternura que, um dia, quando tentaram viver juntos, quase mataram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dormiu e sonhou uma coisa engra\u00e7ada: ela, com aquela mania de listas, prop\u00f4s que cada qual elencasse tr\u00eas coisas importantes que mais os afastavam, bem como tr\u00eas coisas que mais os aproximavam. No sonho, ele n\u00e3o levava a s\u00e9rio, dava gargalhadas, mas escrevia as listas, considerando, ao final, ser um capricho, como tantos outros por ela inventados. Acordado, de novo, lembrou que dentro do sonho as tr\u00eas coisas que os afastavam eram:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) ela n\u00e3o gosta de sexo;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) \u00e9 excessivamente desconfiada;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) d\u00e1 declara\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis, \u00e0s vezes, sobre assuntos que sequer domina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na lista das coisas que os aproximavam, estavam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) ela d\u00e1 declara\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis, \u00e0s vezes, sobre assuntos que sequer domina;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) n\u00e3o gosta de sexo;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) \u00e9 excessivamente desconfiada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Achou gracioso aquilo: ent\u00e3o, tudo que os afastava tamb\u00e9m os aproximava? Pensou em gravar uma sele\u00e7\u00e3o com suas m\u00fasicas preferidas pra um dia de chuva e dor de coluna. Ela iria aprovar. Mas, olhando pela janela, veio uma pontada. A dor de coluna piorou. Buscou o n\u00famero fixo da amiga na agenda. Ela lhe havia passado quando estava prestes a ser m\u00e3e pela primeira vez. S\u00f3 ligue em casos extremos, pediu, 48 horas sem not\u00edcias minhas, por exemplo, j\u00e1 \u00e9 uma trag\u00e9dia grega, brincou. Respirou fundo, encheu-se de desculpas caso o marido ciumento atendesse, ligou. Ningu\u00e9m. Ligou de novo. Mais uma. Outra. E outra vez, at\u00e9 completar dez tentativas. Em v\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repetiu o rem\u00e9dio, torcendo pra n\u00e3o vomitar. Conferiu pela mil\u00e9sima vez a caixa de entrada: n\u00e3o havia rastro dela. Paranoico, abriu a caixa de <em>spam<\/em>, enganando-se que, subitamente, o provedor poderia peneir\u00e1-la, sem raz\u00e3o, ap\u00f3s tantos anos de mensagens di\u00e1rias. Tinha l\u00f3gica? N\u00e3o, n\u00e3o tinha, mal digitava as primeiras letras do nome da amiga, um recurso do sistema fazia surgir o endere\u00e7o eletr\u00f4nico dela, magicamente a adivinhar suas inten\u00e7\u00f5es. Mundo competente e din\u00e2mico era o virtual, quisera viver dentro dele, jamais precisar do real. Por que ent\u00e3o o sistema falharia, excluindo-a sem mais nem menos? Besteira, bancava o besta, sem d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, subiu e desceu pela caixa de <em>spam<\/em>, observando os <em>subjects<\/em>, surpreso com tanta idiotice que lhe enviavam: assinaturas de revistas, correntes esot\u00e9ricas, produtos pra emagrecer sem comprometer a massa magra, pacotes de viagem aos milhares, guia do orgasmo feminino, mandava uma tal C\u00edntia, ele riu: tentador, minha filha, muito tentador, quem sabe um dia?, ofertas-rel\u00e2mpago de sites de compras coletivas, informes de deputados, convites pra lan\u00e7amentos de autores desconhecidos, pedido de ajuda pra uma crian\u00e7a com c\u00e2ncer, convoca\u00e7\u00e3o urgente pra ir \u00e0 Receita Federal, como assim?, se assustou e ia abrindo a mensagem, mas se lembrou, antes, que a Receita n\u00e3o envia <em>e-mail<\/em> ao contribuinte. Oi rapaz senti sua falta, seguem as fotos, dizia um tal de Gen\u00e9sio, n\u00e3o conhecia Gen\u00e9sio algum, exceto o da letra de Aldir Blanc, <em>quando ele fere, fere firme\/d\u00f3i que nem punhal<\/em>\/<em>quando ele invoca at\u00e9 parece\/um pega na geral<\/em>. Sorriu com a mem\u00f3ria espont\u00e2nea do samba. De fato, um pega na geral n\u00e3o \u00e9 moleza, n\u00e3o; os caras tinham precis\u00e3o, bastava meia d\u00fazia de palavras e se cristalizava um mundo. Houve um tempo em que a m\u00fasica brasileira fazia diferen\u00e7a, tempo morto, decerto, hoje nem r\u00e1dio ouvia, entediado com o desconhecimento, a falta de talento, pior: o ouvido torto dos novos compositores. O mau gosto estava na ordem do dia; portanto, melhor evitar, ouvir tango, se refugiar na m\u00fasica cl\u00e1ssica, mergulhar em acervos antigos \u2014 ultimamente andava de paix\u00e3o com certas cantoras francesas dos anos 60-70, entendia um pouco de franc\u00eas. Melanc\u00f3licas, lindas, elas jamais o decepcionavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meio anestesiado pelo Cataflan, desistiu de bancar o espi\u00e3o da rede e tratou de dormir. Quando a esposa chegou, barulhenta e cheia de sacolas, ele sequer percebeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viajou na manh\u00e3 seguinte, repetindo a si pr\u00f3prio que nada grave haveria de acontecer \u00e0 amada amiga. O cora\u00e7\u00e3o amiudado, querendo e n\u00e3o querendo prever cortes, problemas. Imaginava o marido ciumento descobrindo a senha dela, adentrando no conte\u00fado dos infindos <em>e-mails<\/em>, interpretando com maldade as brincadeiras, estranhando a intimidade entre eles.<em> <\/em>Abriu os primeiros bot\u00f5es da camisa: calor s\u00fabito e inc\u00f4modo impedindo-o de respirar. Aquele imbecil que n\u00e3o tocasse um dedo nela. <em>A mulher da minha vida<\/em>, pensou, constrangido pelo pr\u00f3prio jeito de pensar assim na mulher outrora possu\u00edda, mas perdida no descompasso da rotina a dois que n\u00e3o conseguiram manter. Renascida das cinzas, outra vez transformada romanticamente em alma g\u00eamea, confidente, sacralizada, nada mais poderia tir\u00e1-la dele, nada, entendeu? Esquece isso, criatura, se censurou, voc\u00ea \u00e9 um homem feito ou um menino engatinhando?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No avi\u00e3o, esperou pacientemente a comiss\u00e1ria liberar o uso de aparelhos eletr\u00f4nicos pra, enfim, abrir o arquivo com o mapa astral da amiga t\u00e3o amada. Concentrou-se em cada quadratura, tomou novas notas, enquanto consultava todas as tabelas, verificando os movimentos dos astros desde o dia em que ela cessou de mandar not\u00edcias. Considerou indicativos ruins, outros nem tanto, sentiu a saudade comprimindo o peito em meio \u00e0 ruma de pensamentos agourentos. Uns eram taxativos: aconteceu alguma coisa grave, anta, se toque; outros ponderavam: calma, da outra vez ela sumiu por dois dias, ele se preocupou em excesso, entretanto, era somente uma pend\u00eancia dom\u00e9stica \u2014 o filho ca\u00e7ula pegara sarampo e ela se desdobrava em aten\u00e7\u00f5es noite e dia ao lado dele, conforme toda boa m\u00e3e h\u00e1 de fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolveu parar com o pensamento obsessivo em torno dela, curtir a viagem, mesmo a trabalho. Meteu os fones nos ouvidos, concentrou-se nas divas francesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em terra, foi logo localizado pelos monitores simp\u00e1ticos do congresso. Deram-lhe as boas-vindas, falaram da honra em t\u00ea-lo entre eles, declararam adorar todos os livros dele, mas, sobretudo, o \u00faltimo. Ofereceram-lhe \u00e1gua, balas doces, pediram desculpas por terem de esperar outro congressista cujo voo estava programado pra chegar dali a meia hora. N\u00e3o faz mal, ele disse, dispersando a ang\u00fastia diante de tanto rosto abarrotando o Santos Dumont. Na Van, gostou de saber que a organiza\u00e7\u00e3o do congresso reservou-lhe um hotel tr\u00eas estrelas conhecido, no finalzinho de Copacabana, quase Ipanema. Pronto! O Rio de Janeiro entraria em sua alma, pelos olhos, pelo nariz, e faria com que esquecesse todas as preocupa\u00e7\u00f5es. Aninhou-se \u00e0 janela e foi curtindo a vista da orla carioca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resto do dia foi bastante animado, e a aten\u00e7\u00e3o foi ocupada pela bel\u00edssima abertura do evento, a cargo de um dos nomes mais representativos da terapia hol\u00edstica. Depois, o reencontrar colegas distantes e queridos, o clima festivo das refei\u00e7\u00f5es, a troca de ideias, o passeio pelo cal\u00e7ad\u00e3o no fim de tarde, conversando amenidades com uma mo\u00e7a interessant\u00edssima, que pesquisava a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e signos. \u00c0 noite, revisou os <em>slides<\/em> da palestra preparada dias antes de embarcar, cortou informa\u00e7\u00f5es repetidas, acrescentou dicas extra\u00eddas do \u00faltimo livro zen-budista lido, substituiu imagens, aumentou a lista final de agradecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caixa de entrada continuava a n\u00e3o dizer nada sobre ela, mas ele tratou de n\u00e3o dar vaz\u00e3o a neuroses, imp\u00f4s-se um limite, chega, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 pra tanto, quando ela quiser, aparecer\u00e1. Ligou pra esposa, e depois de falarem sobre o b\u00e1sico da casa, das contas, dos familiares e amigos em comum, ficou um tempo enorme a trocar indec\u00eancias com ela, recuperando o h\u00e1bito de quando namoravam e se autoestimulavam a dist\u00e2ncia. Um tanto maravilhado por se saber ainda excitado com a esposa, por essa partilhar com ele a mesma disposi\u00e7\u00e3o pro sexo, prometeu que quando regressasse trepariam cem vezes sem parar, cento e uma, ela disse, cento e duas, ele consertou, trezentas, murmuraram juntos. Despediram-se, e ele pensou em agradecer aos C\u00e9us aquela d\u00e1diva, afinal, tinha um casamento bom, por vezes morno, por vezes entediante, mas, quase sempre, bom, correto? Na mesma hora se envergonhou: e se estivesse se entregando \u00e0 rotina med\u00edocre, se estivesse se conformando \u00e0 falta de coragem pra dar o salto no escuro que a vida h\u00e1 anos lhe pedia? Salto? Que salto? Abriria m\u00e3o de tudo, voltaria a apostar na velha ilus\u00e3o de um futuro ao lado da amada amiga? Ficou confuso, n\u00e3o sabia mais o que era percep\u00e7\u00e3o, o que era bobagem, ent\u00e3o, preferiu dormir sem ora\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua palestra foi tranquila, com as pessoas, ao final, retomando, comentando, pedindo novos esclarecimentos acerca da analogia que ele fizera entre a justi\u00e7a humana e a justi\u00e7a espiritual. Algu\u00e9m levantou d\u00favidas sobre uma passagem b\u00edblica e ele, pacientemente, explicou, recomendando a leitura do seu segundo livro, lan\u00e7ado h\u00e1 quase dez anos, cujo foco era justamente a an\u00e1lise da repeti\u00e7\u00e3o de alguns carmas em decorr\u00eancia da ignor\u00e2ncia humana sobre a lei de atra\u00e7\u00e3o e repulsa. No <em>coffee-break<\/em>, recebeu parab\u00e9ns pelas palavras <em>iluminadoras<\/em> e autografou alguns livros, sentindo-se, enfim, \u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de retornar, comprou uma <em>lingerie<\/em> pra esposa, auxiliado pela vendedora que lhe assegurou ser o modelo escolhido <em>sensual\u00edssimo<\/em>, <em>superconfort\u00e1vel<\/em> e <em>sem erro<\/em>. No avi\u00e3o, por\u00e9m, sentiu-se mal ao contar sete dias de aus\u00eancia total da amiga amada e prometeu investigar. De que maneira? N\u00e3o sabia, mas havia de encontrar um jeito. Em casa, no entanto a esposa recebeu a <em>lingerie<\/em> e em resposta fez valer as promessas trocadas por telefone. Sugou-lhe, gulosa, toda e qualquer energia, deitada, em p\u00e9, sentada, de costas, a esposa estava imbat\u00edvel, s\u00f3 pararam quando o cansa\u00e7o dominou os dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No banho, ouviu o telefone chamar e a voz da mulher responder exatamente aquilo: que ele estava no banho. Temeroso de perder uma liga\u00e7\u00e3o da amiga sumida, gritou que tinha acabado, podia atender, e quase caiu na passagem do boxe, descuidado, a derrubar frascos de xampu e sabonetes. Mas quando chegou, enfim, \u00e0 sala, a esposa j\u00e1 havia desligado. Quem era?, quis saber. Um homem, vai ligar daqui a dez minutos, ela disse, parecendo n\u00e3o notar o jeito nervoso dele. \u00c9 interurbano, tornou a esposa, displicente, \u00e9 a segunda vez que te procuram. De repente, riu e comentou que a pessoa do outro lado falou uma coisa estranha, deveria ser, obviamente, um trote. O qu\u00ea?, ele perguntou, o cora\u00e7\u00e3o aos pulos, podia ser o tal marido ciumento, pensou, valha-me Deus! Disse que era delegado do Tocantins, esclareceu a esposa, imagina, um delegado te ligando de Palmas, voltou a sorrir num jeito de descren\u00e7a. As pessoas n\u00e3o t\u00eam mais o que inventar pra tirar o sossego alheio, acrescentou a mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um delegado de Palmas! Ele sentou-se na cama, de toalha enrolada na cintura. O ch\u00e3o amea\u00e7ava ruir, logo as criaturas do Mal acenariam, satisfeitas com a mis\u00e9ria dele. Palmas era justamente a cidade pra onde a melhor amiga se mudou, ap\u00f3s se casar com um professor. Ficou a olhar o aparelho sem fio, largado pela esposa em cima da c\u00f4moda. Os fatos desfilaram qual p\u00e1ginas de um longo arquivo: casara-se com a melhor amiga, n\u00e3o deram certo, romperam, firmaram um pacto de amizade di\u00e1ria e eterna; ele conheceu a atual esposa, enquanto a amiga conheceu o tal professor. N\u00e3o o amava, ela frisou, mas se davam bem, o que justificava tempos depois largar tudo pra acompanh\u00e1-lo ao Tocantins, quando o sujeito foi aprovado num concurso federal. N\u00e3o p\u00f4de se despedir pessoalmente dela, os ci\u00fames do marido, ela justificou, esse sentimento t\u00e3o mesquinho. Ele, mais uma vez, disse n\u00e3o ser problema, entendia, como n\u00e3o? Vieram os dois filhos dela, o desejo de que ele batizasse o mais velho, infelizmente, um desejo barrado, ela confessara no <em>Skype<\/em>: o marido era t\u00e3o possessivo, t\u00e3o incompreensivo, se desculpou. N\u00e3o faz mal, ele a tranquilizou, fazemos de conta que sou o padrinho reserva do garoto, prop\u00f4s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele havia espancado-a, concluiu nervoso, s\u00f3 podia ser. Ou, pior, matou-a! O corpo todo formigou frente \u00e0quela possibilidade, sua melhor amiga, n\u00e3o, sua alma g\u00eamea!, a verdadeira mulher de sua vida, eterna cara-metade. Deveria criar coragem e ir atr\u00e1s dela. Talvez dessem certo dessa vez, por que n\u00e3o? Estavam mais maduros, se conheciam melhor. Olhou a esposa real, silenciosa, de vestido curto, p\u00e9s descal\u00e7os, a desfazer a mala dele. Sentiu remorsos. Sim, n\u00e3o estava certo, mas, Deus, o que poderia fazer? O desgra\u00e7ado havia matado, matado a mulher de sua vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O telefone tocou de novo e ele foi atender, tr\u00eamulo. Quando ligara pra ela, dias antes, alta madrugada, o aparelho, com identificador de chamadas, gravou as dez tentativas do n\u00famero dele, da\u00ed a curiosidade do delegado pela insist\u00eancia das chamadas, tr\u00eas, quatro horas ap\u00f3s o crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crime! Ele se contorceu, confuso, contendo-se pra n\u00e3o se meter embaixo da cama, gritar pela m\u00e3e, pelo pai, pelo irm\u00e3o, como quando era crian\u00e7a e os rel\u00e2mpagos o assustavam. O miser\u00e1vel fizera algo ruim com ela, logo ela, sua amada imortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ela est\u00e1?, ele se viu perguntando, est\u00e1 viva? Ela sobreviveu? Viv\u00edssima, disse o delegado, melhor do que eu, mas&#8230; voc\u00ea \u00e9 quem? Parente da v\u00edtima? Amigo, ele disse, somos grandes amigos, conhe\u00e7o-a h\u00e1 mais de vinte anos. Interessante, disse o delegado, e se viram recentemente? Infelizmente, n\u00e3o vejo minha amiga desde que se casou com aquele cidad\u00e3o e se mudou pra a\u00ed. Ah!, fez o delegado, mas ontem quando liguei sua esposa disse que o senhor estava viajando, n\u00e3o? Ele se irritou: sim, meu amigo, eu estava no Rio de Janeiro, num congresso, tenho bilhete, comprovante de hospedagem e pilhas de testemunhas. O senhor est\u00e1 insinuando o qu\u00ea?, questionou, nervos em frangalhos. N\u00e3o insinuo nada, meu senhor, respondeu o delegado, calmamente, apenas apuro fatos, como j\u00e1 disse, encontrei dez liga\u00e7\u00f5es do seu n\u00famero no identificador de chamadas, ent\u00e3o&#8230; T\u00e1 certo, t\u00e1 certo, ele interrompeu, sem paci\u00eancia, pode me dizer o que aconteceu, afinal, com ela? Como assim?, estranhou o delegado. Ele respirou fundo: o que o desgra\u00e7ado do marido fez a ela? Espancou-a? Manteve-a em c\u00e1rcere privado? Tentou mat\u00e1-la? O outro deu uma risadinha do outro lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o suficiente pra ele pensar estar sendo v\u00edtima de algum trote, pior: talvez estivesse a falar com o pr\u00f3prio marido dela! Sim, quem poderia garantir que era um delegado? Pode-se falar qualquer coisa ao telefone. O miser\u00e1vel, n\u00e3o satisfeito em machuc\u00e1-la, mant\u00ea-la em c\u00e1rcere privado, tentar tirar-lhe a vida, o sujeito abjeto agora ligava a fim de atorment\u00e1-lo com seu ci\u00fame rid\u00edculo. Do que voc\u00ea est\u00e1 rindo?, rosnou, qual \u00e9 a gra\u00e7a? A esposa, espantada com o teor da conversa e o estado nervoso dele, veio perguntar o que estava havendo. Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a negativamente, pediu-lhe pra aguardar um momento, estava tentando entender a natureza de um problema ser\u00edssimo. A mulher arqueou as sobrancelhas, todavia, discreta como sempre, se resignou, deu com os ombros e saiu do quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, confirmou a voz do outro lado, \u00e9 bem capaz de ser esse um problema de natureza ser\u00edssima, talvez at\u00e9 enganosa, quem sabe?, fez num tom amb\u00edguo. Ele ignorou tal coment\u00e1rio, sequer sabia se era mesmo um delegado ou o maldito marido dela, se fazendo de esperto. Voltou a ser taxativo: o que voc\u00ea fez a ela, imbecil? Eu?, estranhou a voz do interlocutor. Sim, voc\u00ea, n\u00e3o pense que me engana com esse papo de delegado, acha que sou idiota? Delegado vai muito perder tempo conferindo identificador de chamadas, me poupe, delegado quer saber \u00e9 de sangue, do calibre das balas, de testemunhas, de raz\u00f5es concretas. O que voc\u00ea fez com minha amiga, seu doente?, rosnou outra vez. Meu senhor, se acalme, respondeu o outro, me parece que o senhor ou \u00e9 maluco ou est\u00e1 confundindo as coisas, n\u00e3o fiz nada a sua amiga, ela est\u00e1 presa, na penitenci\u00e1ria feminina, aguardando a investiga\u00e7\u00e3o. O qu\u00ea\u00ea\u00ea?, ele desentendeu, do que voc\u00ea est\u00e1 falando? Ela est\u00e1 presa? N\u00e3o acredito que voc\u00ea a prendeu! Que tipo de insanidade passa por sua cabe\u00e7a pra mandar prender a m\u00e3e dos seus filhos?, gritou. O interlocutor, desacostumado a ser interrogado, perdeu a paci\u00eancia tamb\u00e9m: abaixe a voz, antes que eu mande te prender por desacato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desacato? Essa era boa, um delegado no Tocantins iria prend\u00ea-lo em Minas Gerais por desacato ao telefone! Ele riu, estava uma pilha de nervos, mas riu: ah!, claro, o senhor pode mandar a ordem de pris\u00e3o por <em>e-mail<\/em>, inclusive, \u00e9 mais r\u00e1pido, tripudiou, provavelmente est\u00e1 com a senha dela e j\u00e1 leu todas as mensagens que trocamos, imaginando, com sua mente doentia, que eu e ela t\u00ednhamos um caso mal resolvido. N\u00e3o \u00e9 assim que pessoas mesquinhas e pequenas como voc\u00ea raciocinam? Espere a\u00ed, interferiu o interlocutor, mais calmo: por qual raz\u00e3o o senhor odeia tanto a v\u00edtima e defende a r\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele sentiu a cabe\u00e7a rodar. V\u00edtima?, qual v\u00edtima? O marido, explicou o delegado, o marido foi assassinado com vinte e uma facadas, pela esposa, enquanto dormia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo ficando vagaroso e definitivamente incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um barulho de \u00e1gua invadiu os sentidos. Procurou a esposa com os olhos, mas ela, obviamente, tomava banho naquele instante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ei, o senhor ainda est\u00e1 a\u00ed?, perguntou o delegado. Vinte e uma facadas?, ele repetiu, sem perceber que repetia. Exato, confirmou o interlocutor, o marido foi morto a facadas, enquanto as crian\u00e7as foram envenenadas. As crian\u00e7as?, ele gritou, estupefato, ela envenenou as crian\u00e7as? N\u00e3o era poss\u00edvel, n\u00e3o podia acreditar. Quando deu por si, j\u00e1 havia desligado o telefone, a cabe\u00e7a rodando, as pernas recusando-se a obedecer. Que loucura era aquela, meu Deus?, ficou a se perguntar, em qual pesadelo ca\u00edra de olhos abertos? Num impulso, tirou o telefone da tomada, caso o delegado voltasse a ligar. Por qu\u00ea? N\u00e3o sabia, n\u00e3o sabia por qu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jogou o nome dela no <em>Google<\/em>. Completo. Entre aspas. Veio uma nota de dois dias atr\u00e1s, num jornal do Tocantins: dona de casa que matou marido a facadas teve pedido de <em>habeas corpus<\/em> negado. A dor no peito aumentava. Na p\u00e1gina de uma r\u00e1dio paulista, havia mais detalhes, de uma semana: Professor de Hist\u00f3ria \u00e9 morto a facadas pela pr\u00f3pria esposa enquanto dormia. Segundo a per\u00edcia, a v\u00edtima ainda tentou se defender, mas a gravidade dos ferimentos, desferidos ainda quando o professor estava dormindo, n\u00e3o lhe deu qualquer chance. Os vizinhos ouviram gritos estranhos e chamaram a pol\u00edcia. O crime foi motivado pelo ci\u00fame doentio da esposa que, antes, envenenou os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua melhor amiga? Sua alma g\u00eamea? N\u00e3o podia ser. Olhava as not\u00edcias como se fossem escritas por marcianos. Olhava a foto dela algemada, cabelos presos, express\u00e3o distante, presa em flagrante pela pol\u00edcia. N\u00e3o conseguia entender. Deve ser um trote, uma brincadeira de mau gosto. A eterna confidente. A cara-metade. A mulher mais culta e mais inteligente do planeta. Foram casados por dois anos. Correspondiam-se h\u00e1 quinze. Sempre a considerou uma pessoa digna, sens\u00edvel, do Bem. Como poderia? Envenenar os pr\u00f3prios filhos? De jeito algum, n\u00e3o era cr\u00edvel. Pois se ela era a mulher idolatrada, a mulher amada, por quem pensara tantas vezes largar tudo e pedir, de joelhos, uma nova chance?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Releu as mensagens dos \u00faltimos tr\u00eas anos, buscando sentidos ocultos, pistas, insinua\u00e7\u00f5es. As queixas do ci\u00fame absurdo do marido, as incont\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es em que ele fizera esc\u00e2ndalo, ela confessava, obrigando-a a passar por constrangimentos \u00e0s vezes em p\u00fablico, \u00e0s vezes na frente das crian\u00e7as. Chocou-se com a frase <em>Medeia me fascina<\/em> escrita por ela, um ano antes, numa das sequ\u00eancias em que discutiram arqu\u00e9tipos, mitos. Outra frase, antes despercebida, parecia antecipar tudo: <em>tr\u00eas vezes sete<\/em>, ela comentava, <em>e se encerra um verdadeiro ciclo<\/em>. Tr\u00eas vezes sete, ele repetiu, sentindo-se um tolo completo, s\u00e3o exatamente vinte e uma facadas. <em>O tempo fechou aqui em casa<\/em>, afirmou na \u00faltima mensagem, <em>preciso resolver<\/em>. Meu Deus, e pensar que foram casados por&#8230; dois anos! De repente, essa informa\u00e7\u00e3o doeu como se lhe abrissem a cabe\u00e7a ao meio com um ma\u00e7arico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Correu ao quarto e acordou a esposa, num abra\u00e7o-sufoco, um abra\u00e7o de ossos querendo atravessar os ossos do outro, enquanto a consci\u00eancia, enfim, se libertava. Que foi, homem?, ela perguntava, sonolenta, aconteceu algo? Sim, ele disse, aconteceu que voc\u00ea \u00e9 a mulher da minha vida, declarou em voz alta. Uai, ela exclamou, que bonito isso, amor!, virando-se melhor a fim de corresponder ao abra\u00e7o do marido. Ele, ent\u00e3o, prometeu a si mesmo agradecer aquela d\u00e1diva. De joelhos, pensou. A d\u00e1diva real, n\u00e3o o del\u00edrio dela, mas sua concretude, ali, entre seus bra\u00e7os, morna, e, sobretudo, acolhedora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>\u00c1llex Leilla <\/strong>(Alessandra Leila Borges Gomes)<strong> <\/strong>nasceu em Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou seu primeiro livro, \u201cUrbanos\u201d (contos), resultado do pr\u00eamio para autores in\u00e9ditos da BRASKEM e Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, em 1997. Em 1999, publicou \u201cObscuros\u201d (contos, Editora Oiti); Em 2010, lan\u00e7ou o romance \u201cPrimavera nos ossos\u201d, premiado pelo Programa Petrobr\u00e1s Cultural e editado pela Casar\u00e3o do Verbo. Doutora em Estudos Liter\u00e1rios pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), \u00e9 professora de Literatura Portuguesa e de T\u00f3picos da Narrativa, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Em 2013, lan\u00e7ou o livro de contos Chuva Secreta (Editora Casar\u00e3o do Verbo)<\/em><em><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Del\u00edrios da paix\u00e3o no conto de \u00c1llex Leilla<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6127,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1540,2534,16],"tags":[1549,1552,81,41,1551,1550],"class_list":["post-6102","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-85a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-allex-leilla","tag-chuva-secreta","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-luis-de-camoes","tag-senhora-minha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6102"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6550,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102\/revisions\/6550"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6127"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}