{"id":6365,"date":"2013-12-30T18:11:09","date_gmt":"2013-12-30T21:11:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6365"},"modified":"2018-11-27T09:18:33","modified_gmt":"2018-11-27T12:18:33","slug":"dedos-de-prosa-i-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-21\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15538\" aria-describedby=\"caption-attachment-15538\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Bruno-Kepper.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15538 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Bruno-Kepper.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Bruno-Kepper.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Bruno-Kepper-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15538\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Bruno Kepper<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0O\u00a0 sonho<\/strong><\/p>\n<p><em>Anderson Fonseca<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Quem ser\u00e1s, esta noite, do outro lado<\/em><br \/>\n<em>Da parede do sonho indecifrado?<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Jorge Luis Borges<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha por costume, um ilustre cientista, Dr. Andrea Svevo, visitar-me \u00e0s tardes de domingo para conversar assuntos que a n\u00f3s dois suscitavam interesse.\u00a0 Habitualmente \u00e0s 14h quando chegava, sentava-se \u2013 na poltrona que fica \u00e0 direita da estante de livros \u2013 co\u00e7ava o bigode, acendia o cigarro, e depois de lan\u00e7ar o fumo no ar, dava inicio ao di\u00e1logo que se alongava at\u00e9 o fim da tarde. O h\u00e1bito de sua visita \u2013 exata e ass\u00eddua \u2013 tornou-se para mim um rito&#8230; At\u00e9 o dia em que se atrasou. No come\u00e7o da noite ele apareceu como uma ave de mau agouro, assim, repentinamente; entrou arrebatado, tirando os sapatos \u00e0s pressas, procurando com o olhar o assento. Estava agitado; a fala tr\u00eamula e com espasmos. Entre balbucios repetia que tinha algo a me contar. Sugeri \u2013 indicando a poltrona \u2013 que se sentasse, Svevo se sentou, acomodou os ombros largos, ajeitou o bigode, acendeu o cigarro para n\u00e3o faltar com o costume e come\u00e7ou a dizer:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Dr. Jo\u00e3o Zveiter, o senhor, como sabe, n\u00e3o sou um homem que se impressione por qualquer ideia, ainda que minhas cogita\u00e7\u00f5es em torno do misticismo lhe pare\u00e7am surrealistas, imagino que n\u00e3o pense a respeito de mim como um insano. Acredito de boa f\u00e9, que apenas respeita minhas opini\u00f5es. Estou certo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim \u2013 concordei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O senhor deve se lembrar de quando comparei o espelho ao sonho e disse-lhe da possibilidade m\u00e1gica do sonho se comportar como espelho. Certa vez, voc\u00ea mesmo disse, repetindo as palavras de um poeta, que o espelho e o sonho s\u00e3o um mesmo e \u00fanico ser nos olhos do homem. Baseado no que me disse, retruquei lhe dizendo o quanto acredito que o sonho possa nos revelar o futuro e voc\u00ea concordara comigo. Mas lembro-me de voc\u00ea ter dito, citando Jung, que tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que o sonho nos revele o futuro daquele mesmo sonho, ou nos mostre outro sonho que ainda h\u00e1 de aparecer. Em suas palavras, era poss\u00edvel um sonho antever outro sonho dentro de si mesmo.\u00a0 \u2013 Svevo dizia fitando-me os olhos com a convic\u00e7\u00e3o de um luterano. \u2013 Pois bem, meu amigo, hoje tive a sensa\u00e7\u00e3o de tais ideias. Hoje sei o que a certa hora da noite hei de ver, quando meus olhos estiverem cerrados. O que vou lhe contar, deve ser dito de uma forma que n\u00e3o possa esquecer, direi a voc\u00ea o que ainda n\u00e3o me aconteceu, e sei como ser\u00e1 sem antes ter sonhado. Certamente, Dr. Zveiter, voc\u00ea ir\u00e1 me perguntar como posso saber o que n\u00e3o me aconteceu, se nem sequer mergulhei no vasto sonho para que este me revele o futuro. Sinceramente, n\u00e3o sei como explicar, somente lhe garanto, com f\u00e9, que sei o que h\u00e1 de me acontecer no sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E como o senhor pode me garantir de ter antevisto o sonho sem antes sequer ter sonhado? Quer que eu aceite que sabe apenas porque voc\u00ea tem certeza do que diz, pela f\u00e9? Est\u00e1 por acaso debochando de mim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o! \u2013 exclamou Svevo como uma crian\u00e7a questionada pelo pai tentando convenc\u00ea-lo de que n\u00e3o mente. \u2013 Eu sei, \u00e9 isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ora, hei de aceitar o que me diz, como hei de ouvir o que h\u00e1 de me contar, mas n\u00e3o porque existe l\u00f3gica no que afirma, pois na verdade, sabemos ambos que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o no que est\u00e1 dizendo. Poderia intern\u00e1-lo num hosp\u00edcio, para que recupere, l\u00e1, sua sanidade. Mas acredito que ainda que eu fizesse isso, voc\u00ea continuaria a defender sua ideia. N\u00e3o tenho outra escolha sen\u00e3o ouvi-lo. Diga-me ent\u00e3o com suas palavras previamente escolhidas o que tem a contar. Diga-me o que viu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o o que vi Dr. Jo\u00e3o Zveiter, mas o que hei de ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Fale logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Esta noite sonharei um sonho inevit\u00e1vel. Sonharei que diante de mim, nesta sala, estar\u00e1 outro eu. Ele estar\u00e1 sentado onde estou. Saberei que ele \u00e9 eu porque o sonho me dir\u00e1 e n\u00e3o porque reconhecerei seu rosto (no sonho o rosto \u00e9 uma sombra). Ele estar\u00e1 diante de mim em sil\u00eancio aguardando que eu fale, e eu mostrarei a ele minha ang\u00fastia e meu desejo. Direi a ele que a alma que carrego comigo \u00e9 mal\u00e9fica e que dela quero me livrar. Ele ent\u00e3o compadecido estender\u00e1 sua m\u00e3o. Quando a toco sinto parte de minha alma ir para com ele e mal ela se vai j\u00e1 me sinto diferente. Ali, naquele instante, percebo que a outra parte agora a ele pertence. Ali, entendo que ele \u00e9 o limbo e que ela ficar\u00e1 com ele para sempre. Ao despertar j\u00e1 n\u00e3o sou eu quem desperta, mas outro, porque embora saiba que ainda sou, sou um eu com menos de mim. N\u00e3o posso lamentar. Aceito que \u00e9 real; eu estarei com o outro eu, e ele levar\u00e1 uma parte de mim consigo, ele \u00e9 meu limbo, e o que \u00e9 eu, ao estar com ele, n\u00e3o mais retornar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O senhor usa de uma linguagem po\u00e9tica para descrever o indescrit\u00edvel. Acredita que o uso desta linguagem convencer\u00e1 a mim de que o que diz \u00e9 verdade? N\u00e3o obstante creia que a poesia seja a l\u00edngua do infinito, n\u00e3o a considero suficiente para tornar l\u00f3gico o que \u00e9 irracional; \u00e9 poss\u00edvel tornar aceit\u00e1vel o fant\u00e1stico aos olhos de um s\u00e1bio<strong>, <\/strong>n\u00e3o significa, entretanto, que valha como verdade. E o que o convence de que a vis\u00e3o do futuro sonho seja real a ponto de perturb\u00e1-lo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Zveiter, j\u00e1 conversamos a respeito do sonho ser um espelho, se tal conceito for verdadeiro, nada impede que a alma se fixe no sonho como a imagem no espelho, e, se este espelho for o inconsciente, \u00e9 claro que a alma se fixar\u00e1 nele sem retornar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ainda assim, n\u00e3o disse o que o perturba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As horas se passavam sem nos aperceber e Svevo a cada minuto dizia com maior convic\u00e7\u00e3o o seu sonho e a cada minuto que a convic\u00e7\u00e3o evolu\u00eda para o indubit\u00e1vel, sua fei\u00e7\u00e3o transformava-se; a metamorfose de seu rosto me amedrontava, eu temia por algo pior. Pois embora o sonho fosse apenas devaneio de um fil\u00f3sofo, este mesmo sonho teve o poder de mudar a mente de um homem. N\u00e3o mais se olhava para Svevo e se podia afirmar ser ele. Diante de mim, outro surgia, mas quem?\u00a0 Eu n\u00e3o sabia, n\u00e3o sabia, at\u00e9 que ele disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tenho raz\u00f5es para crer que ap\u00f3s o sonho cometerei atos terr\u00edveis que me levar\u00e3o a um fim igualmente terr\u00edvel. A aus\u00eancia de minha alma, certamente me tornar\u00e1 em algu\u00e9m incapaz de distinguir o bem do mal. Eu me vi matando Madelaine e voc\u00ea, Zveiter. Eu matarei para santificar o mundo de um mal invis\u00edvel, e ainda que esta raz\u00e3o seja insana, e tamb\u00e9m indesculp\u00e1vel, \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o que me h\u00e1 de vir sem que eu a questione. Creio imensamente que ao fazer, o farei sem arrependimento. Apesar de agora considerar um ato terr\u00edvel o que farei, ap\u00f3s o sonho me parecer\u00e1 natural. Eu serei este outro que desperta. Portanto, esque\u00e7a o que voc\u00ea v\u00ea neste momento, apenas pense em quem hei de ser. Pense em mim, agora, como aquele que surge depois do despertar.\u00a0 Estou tomado por esta certeza, e isto, me conturba profundamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andrea Svevo estava transformado. Eu o olhava, mas sabia que j\u00e1 n\u00e3o era ele quem estava diante de mim, como se o sonho desde o seu futuro j\u00e1 influenciasse o presente, como se aquele outro eu, j\u00e1 existisse, ali, diante de mim. A hip\u00f3tese de que o sonho, que ainda nem se realizara, j\u00e1 o tinha tornado em outro, me seduziu a ponto de crer estar certo de que Svevo n\u00e3o era mais o amigo que conheci<strong>.<\/strong> Mas seria ele realmente capaz de assassinar sua esposa e amigo? Seria poss\u00edvel que ele abandonasse parte de sua alma num ser extracorp\u00f3reo, cuja exist\u00eancia era improv\u00e1vel, e, sobretudo, existindo no interior dele mesmo tornando-o inverific\u00e1vel cientificamente, e ainda sim, real somente para ele? Fantasia ou realidade me perguntava por que Svevo acreditava tanto neste sonho. Convenci-me de que Svevo n\u00e3o mais existia. Apiedei-me dele e a piedade levou-me a fazer o que era necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de Svevo dizer \u201cA&#8230;\u201d, com a agilidade de um jovem, saltei da cadeira encravando em sua garganta a caneta que estava em minha m\u00e3o. Enquanto a caneta deslizava pela carne indo cada vez mais fundo cortando a veia jugular, rasgando o tecido fibroso, a fenda aumentava seu raio de abertura deixando o c\u00e1lido sangue escorrer grosso com gotejos pesados sobre o ch\u00e3o; a sensa\u00e7\u00e3o de que era eu que ali morria, crescia em mim alucinadamente, inquietando-me por dentro, e embora lutasse para afast\u00e1-la, sabia ser imposs\u00edvel. Tal como a caneta penetrava a garganta de Svevo, a ideia imergia em meu esp\u00edrito, at\u00e9 &#8211; no mesmo instante em que a caneta afundou-se de vez na garganta &#8211; afundar-se de vez em mim. N\u00e3o havia d\u00favida, Svevo era meu outro eu e eu o havia assassinado. A cada gota de sangue que escorria crescia a certeza de que tudo era um sonho, e agora, ao despertar, quem levantaria era outro, enquanto eu passaria a eternidade no limbo. Como disse Svevo, aquele sonho&#8230; Era inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>(<strong>Anderson Fonseca<\/strong> \u00e9 autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Cear\u00e1)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os labirintos on\u00edricos da narrativa de Anderson Fonseca<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6366,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1587,2534,16],"tags":[251,81,41,277,1596,1597,1598],"class_list":["post-6365","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-86a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-anderson-fonseca","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-notas-de-pensamentos-incomuns","tag-o-sonho","tag-onirico","tag-sr-bergier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6365"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6365\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15540,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6365\/revisions\/15540"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}