{"id":6370,"date":"2013-12-30T18:28:09","date_gmt":"2013-12-30T21:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6370"},"modified":"2014-01-31T10:45:18","modified_gmt":"2014-01-31T13:45:18","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-21\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se espera de um artista em toda a sua potencialidade? Que cumpra o ritual de seus \u00edmpetos de autenticidade, sem fazer concess\u00f5es de toda ordem, ou que se alimente de seu tempo com voracidade? Certamente, s\u00e3o duas quest\u00f5es a tamb\u00e9m rondar as mentes tanto de quem cria quanto de quem consome arte. No caso espec\u00edfico da fotografia, tais eixos de reflex\u00e3o desempenham um papel de destaque, tendo em vista as m\u00faltiplas formas de se mostrar o mundo que nos abriga e repele. Em todo caso, estamos pr\u00f3ximos de uma perspectiva mais diferenciada de observa\u00e7\u00f5es quando tomamos por norte os imperativos da lucidez. E falar nesta \u00faltima personagem significa muito mais uma forma de perceber densamente o que somos do que qualquer outra coisa. Nesse vi\u00e9s, ler a n\u00f3s mesmos resulta num percurso por um labirinto atrav\u00e9s do qual talvez jamais consigamos encontrar a sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de todo um exerc\u00edcio cr\u00edtico do olhar, nos deparamos com a obra de <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/silviocrisostomofotografo\/ \"><strong>Silvio Cris\u00f3stomo<\/strong><\/a>. Sob a pele desse fot\u00f3grafo, pulsa viva a tez de um homem que ao olhar os espa\u00e7os circundantes, vislumbra o que est\u00e1 al\u00e9m do \u00f3bvio. Detentor de uma agu\u00e7ada vis\u00e3o sobre a exist\u00eancia, Silvio toma o caos urbano como um elemento impulsionador de seu trabalho, repensando n\u00e3o apenas o ponto de vista espacial, mas principalmente a forma como os homens, quase todos integrantes dum mesmo pacote de irracionalidade, devoram a si pr\u00f3prios. \u00c9 assim que, por exemplo, suas imagens devotam especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo, lugar que, aos olhos desse inquieto artista, \u00e9 um estado de coisas sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alagoano de nascimento, Silvio confessa ser um algu\u00e9m que busca um efeito po\u00e9tico para seu trabalho. O resultado disso \u00e9 patente, pois o modo como pessoas e lugares s\u00e3o captados e trazidos \u00e0 luz redimensiona sentidos e posiciona o artista como um leg\u00edtimo porta-voz de seu tempo. Nessa entrevista, o fot\u00f3grafo nos conta aspectos marcantes de sua trajet\u00f3ria, ressaltando concep\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias que o movem dentro de um territ\u00f3rio imag\u00e9tico fortemente pontuado por uma, digamos assim, condu\u00e7\u00e3o engajada dos registros. Leia-se engajamento aqui com um sentido especial, qual seja o de um envolvimento consciente e ativo da condi\u00e7\u00e3o de se estar num mundo deveras complexo e que a todo o momento nos cobre com o manto da provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_6372\" aria-describedby=\"caption-attachment-6372\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-I1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6372\" title=\"Foto: Clo Lainscek\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-I1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-I1.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-I1-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6372\" class=\"wp-caption-text\">S\u00edlvio Cris\u00f3stomo \/ Foto: Clo Lainscek<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 poss\u00edvel observar que voc\u00ea representa o real de uma forma diferenciada,\u00a0rompendo\u00a0qualquer no\u00e7\u00e3o superficial do olhar primeiro sobre coisas, pessoas e lugares. H\u00e1 um desafio muito grande quando a quest\u00e3o \u00e9 afastar as armadilhas do \u00f3bvio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211;<\/strong> Eu digo, educadamente, que n\u00e3o tento &#8220;representar o real&#8221;, e sim &#8220;apresentar o real&#8221;, visto que sou um artista contempor\u00e2neo e essa \u00e9 a forma mais correta de conceituar o meu trabalho. Eu apresento o real que acredito que exista no momento da captura da imagem. \u00c9 uma realidade \u00fanica, pois eu nunca consigo reproduzi-la novamente da mesma maneira devido ao sentimento que \u00e9 posto e exposto em muitos casos. A &#8220;no\u00e7\u00e3o superficial&#8230;&#8221;, a qual voc\u00ea se refere, \u00e9 o que realmente banaliza a fotografia, e n\u00e3o a facilidade de se fotografar hoje em dia devido \u00e0 tecnologia. Tenho a opini\u00e3o de que\u00a0o &#8220;olhar banal\u201d \u00e9 a morte da fotografia e da arte como um todo. Artista de verdade n\u00e3o se permite ao mais do mesmo, ele se arrisca no novo. Ele, o artista de verdade,\u00a0 desafia os outros a entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou um artista pl\u00e1stico que utiliza a fotografia como plataforma de trabalho, atualmente produzo v\u00eddeos tamb\u00e9m, e por isso, acredito, observo sempre o que est\u00e1 acontecendo de relevante na arte pelo mundo, mas nunca uso isso como alguma refer\u00eancia para o meu trabalho, ele \u00e9 plural: sem regras, sem pertencer a alguma escola art\u00edstica ou fotogr\u00e1fica. Eu absorvi e absorvo conte\u00fados vindos do cinema, das artes pl\u00e1sticas, do design, da arquitetura, da m\u00fasica e, por \u00faltimo, da fotografia em si. O meu espectro de interesses e de a\u00e7\u00e3o na arte \u00e9 amplo.\u00a0 Ao tentar ver sempre o novo no banal da vida, ao tentar apresentar uma realidade que s\u00f3 existe na minha cabe\u00e7a, eu posso errar como posso acertar no meu prop\u00f3sito de mostrar e comunicar com o meu trabalho, que n\u00e3o me deixa cair nas armadilhas da obviedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O excesso de informa\u00e7\u00f5es de toda ordem parece ter tomado conta da contemporaneidade, contribuindo bastante para a banaliza\u00e7\u00e3o a que voc\u00ea se referiu anteriormente. O grande preju\u00edzo aqui seria a padroniza\u00e7\u00e3o dos pontos de vista. Diante desse quadro, a busca por um sentido po\u00e9tico seria um atributo transformador nas m\u00e3os do artista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211;<\/strong> Realmente&#8230;<strong> <\/strong>Acredito que o excesso de informa\u00e7\u00e3o desinforma, voc\u00ea v\u00ea tudo e realmente n\u00e3o est\u00e1 vendo nada. O que percebo tamb\u00e9m \u00e9 uma car\u00eancia\u00a0 de originalidade\u00a0nos trabalhos art\u00edsticos fotogr\u00e1ficos, e, na minha opini\u00e3o, deveria ser o contr\u00e1rio, j\u00e1 que temos a capacidade de obter informa\u00e7\u00e3o do mundo inteiro. Ou seja, o excesso ou a facilidade de ter essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer dizer que o artista (ou o profissional da imagem) se beneficie com isso. Vejo que muitos ficam cada vez mais maneiristas, para n\u00e3o dizer copiadores, s\u00e3o inseguros artisticamente e\u00a0ficam ref\u00e9ns de &#8220;refer\u00eancias&#8221; pelo resto da vida. S\u00e3o poucos os que se arriscam e esses s\u00e3o os que realmente deixam sua marca num mundo cada vez mais dilu\u00eddo cognitivamente. O que hoje se chama &#8220;releitura&#8221; s\u00e3o c\u00f3pias muitas vezes mal feitas de grandes trabalhos originais.\u00a0S\u00e3o terminologias que escondem a falta de conte\u00fado em muitos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre erros e acertos, busco sempre um sentido po\u00e9tico para o meu trabalho e muitas vezes me deparo com trabalhos parecidos com o meu, mas que foram concebidos h\u00e1 mais de 50, 60 anos, e isso me leva a entender o que a arte fez como ve\u00edculo transformador no inconsciente coletivo do mundo. Entender o que \u00e9 po\u00e9tica visual \u00e9 essencial para qualquer futuro artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Algo que se destaca em sua trajet\u00f3ria \u00e9 o olhar sobre os espa\u00e7os urbanos. E \u00e9 justamente aqui que retomamos aquela no\u00e7\u00e3o de resultado po\u00e9tico, capaz de suavizar o caos &#8220;civilizat\u00f3rio&#8221; que envolve as cidades. O que pensa a respeito disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>Eu penso que n\u00e3o suavizo o caos civilizat\u00f3rio, eu o aceito como \u00e9.\u00a0Tento entender os signos do caos urbano.\u00a0\u00c9 por isso que a minha po\u00e9tica visual tem um amplo espectro de temas, porque o caos foi disseminado no cotidiano num grau muito al\u00e9m do retorno.\u00a0 Eu aceito e trabalho isso.\u00a0Sem o Caos, o meu trabalho n\u00e3o existiria. O Caos \u00e9 a inquieta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, eu cresci numa cidade selvagem. A minha inoc\u00eancia foi arrancada em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo constr\u00f3i no mesmo ritmo que destr\u00f3i. \u00c9 uma cidade sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A s\u00e9rie &#8220;N\u00e3o existe amor em SP: S\u00e3o Paulo Descolorida&#8221; \u00e9 prova viva da sua rela\u00e7\u00e3o com a colossal metr\u00f3pole. E \u00e9 emblem\u00e1tico ouvir de voc\u00ea que a cidade dizimou-lhe a inoc\u00eancia. O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nessa perturbadora S\u00e3o Paulo?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO<\/strong> &#8211; Eu conhe\u00e7o bem S\u00e3o Paulo. Passei tr\u00eas anos andando por toda a cidade (de 2010 a 2012) e s\u00f3 assim pude entender a din\u00e2mica que movimenta a vida de toda aquela gente. S\u00e3o Paulo tem &#8220;ilhas de riqueza e prazeres&#8221; diminutas, num mar de pobreza cultural e social, e desorganiza\u00e7\u00e3o. O que S\u00e3o Paulo oferece de servi\u00e7os a qualquer hora, lhe falta em qualidade de vida. Talvez falte qualidade de vida, pois a grande popula\u00e7\u00e3o nem saiba o que a palavra &#8220;qualidade&#8221; e &#8220;vida&#8221; signifiquem realmente e por isso n\u00e3o tem interesse em melhorar nada. S\u00e3o Paulo \u00e9 uma ilus\u00e3o, ela n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/QLtg6dnvurI\" frameborder=\"0\" width=\"560\" height=\"315\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 um teor significativo na obra de um artista quando ele se debru\u00e7a sobre as quest\u00f5es de seu tempo. E voc\u00ea se enquadra bem nesse territ\u00f3rio qui\u00e7\u00e1 pantanoso. Nessa travessia, consegue vislumbrar algum sentimento de liberta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>Acredito que se o artista n\u00e3o \u00e9 contempor\u00e2neo, \u00e9 ultrapassado. Se ele n\u00e3o entende a din\u00e2mica do seu tempo, \u00e9 ultrapassado. Ultrapassado no sentido de datado, &#8220;j\u00e1 feito&#8221;, c\u00f3pia da c\u00f3pia, etc. Veja, estamos falando de um olhar que apresenta um mundo que \u00e9 uma leitura particular de quem o faz. Portanto, se o artista n\u00e3o consegue &#8220;ler o hoje&#8221;, com certeza ele parou em algum lugar l\u00e1 atr\u00e1s e talvez por isso deixe de ser criativo e vire maneirista em seu estilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil falar se liberta ou n\u00e3o. N\u00e3o sei dizer. Sei que a partir do momento em que voc\u00ea mergulha e se aprofunda na sua tem\u00e1tica, mais voc\u00ea sabe e mais voc\u00ea cria. O perigo \u00e9 ficar preso sempre na mesma tem\u00e1tica por n\u00e3o saber acompanhar o mundo ao redor.<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A plasticidade de alguns de seus registros deixa marcas densas, sobretudo no que se refere ao olhar sobre pessoas. Como \u00e9 perceber o outro diante desse pacto silencioso de aproxima\u00e7\u00e3o<\/strong>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>O indiv\u00edduo que mora nas grandes cidades, ao meu ver, n\u00e3o manda na cidade. A cidade manda nele. O concreto, o carro, os impostos, normas mandam nele. \u00c9 uma grande ilus\u00e3o achar que existe uma real liberdade em parte alguma. N\u00f3s criamos uma m\u00e1quina de repeti\u00e7\u00e3o de fazeres mon\u00f3tonos incr\u00edveis e S\u00e3o Paulo \u00e9 a grande refer\u00eancia. Por isso, eu ainda n\u00e3o fiz realmente uma s\u00e9rie de retratos &#8220;cl\u00e1ssicos&#8221;, em pb&#8230; aquelas coisas.\u00a0Eu n\u00e3o encontrei\u00a0um tema\u00a0que\u00a0 me animasse, que fosse original e que n\u00e3o falasse da pobreza, desgra\u00e7as, pessoas ou mazelas de qualquer tipo. Esse tipo de trabalho j\u00e1 se esgotou e, mesmo assim, ainda \u00e9 exposto em galerias, publicados em revistas, etc. Por isso, talvez, quando retrato pessoas, na maioria das vezes elas est\u00e3o desfocadas, borradas, saturadas, nunca &#8220;limpas&#8221;. O mundo n\u00e3o \u00e9 assim, e duvido que exista uma vida assim&#8230; limpa. Transformar um retrato de uma pessoa\u00a0comum numa obra de arte n\u00e3o \u00e9 para qualquer um, mesmo porque quem define isso \u00e9 o mercado e n\u00e3o o autor, e nesse ponto a banalidade toma conta ao retratar a vida l\u00e1 fora.\u00a0H\u00e1 uma falta de talento gigantesca hoje em dia. As minhas fotos de pessoas, n\u00e3o considero que fa\u00e7am parte de nenhuma s\u00e9rie, eu diria que s\u00e3o experi\u00eancias est\u00e9ticas em busca de algo original na minha po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A sua experi\u00eancia com o jornalismo assinalou caminhos importantes para seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>Acentuou a cr\u00edtica, a percep\u00e7\u00e3o de que\u00a0a presumida verdade\u00a0pode ser\u00a0mostrada por v\u00e1rios pontos de vista e, ainda assim, n\u00e3o ser a verdade.\u00a0Estudei jornalismo para aprender a ler o meu mundo. Eu diria que ele est\u00e1 presente no prazer de andar na rua e entender como &#8220;ler&#8221; o entorno. Est\u00e1 na cr\u00edtica visual, dentro da po\u00e9tica que trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_6373\" aria-describedby=\"caption-attachment-6373\" style=\"width: 278px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6373\" title=\"Foto: Clo Lainscek\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"278\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-II.jpg 278w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/INTERNA-II-185x300.jpg 185w\" sizes=\"auto, (max-width: 278px) 100vw, 278px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6373\" class=\"wp-caption-text\">S\u00edlvio Cris\u00f3stomo \/ Foto: Clo Lainscek<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse car\u00e1ter po\u00e9tico n\u00e3o lhe afasta tamb\u00e9m de uma perspectiva documental. O resultado \u00e9 interessante porque sugere um vi\u00e9s antropol\u00f3gico de observa\u00e7\u00e3o. \u00a0Nesse contexto, a intui\u00e7\u00e3o fez a diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>Uma intui\u00e7\u00e3o baseada na necessidade de apresentar um mundo j\u00e1 insuportavelmente gasto, usado, desmerecido, me referindo a S\u00e3o Paulo, onde o trabalho foi constru\u00eddo.\u00a0Trabalho po\u00e9tico visual\u00a0constru\u00eddo sob um olhar destitu\u00eddo h\u00e1 muito tempo da ingenuidade que\u00a0muitos profissionais e iniciantes na fotografia tem ao (no caso deles) retratar uma cidade, e, por isso (mais uma vez), a repeti\u00e7\u00e3o da banalidade visual acontece.\u00a0No in\u00edcio, eu tamb\u00e9m era ing\u00eanuo visualmente: a linguagem, a po\u00e9tica, a cr\u00edtica, a leitura arquitet\u00f4nica e o conhecimento est\u00e9tico\u00a0n\u00e3o estavam interagindo.\u00a0Eu estava mais preocupado com os ditames da fotografia\u00a0e menos com o que realmente sabia e poderia fazer. Escolhi ser &#8220;Eu&#8221;. Quando se anda muito pelas ruas, e voc\u00ea faz isso\u00a0durante muito tempo, com o intuito de conhecer (e\u00a0encontrar) algo que sabe que existe, mas n\u00e3o sabe onde est\u00e1, voc\u00ea \u00e9 profundamente afetado pelo meio, reconhecendo seus signos e a repeti\u00e7\u00e3o\u00a0in\u00fatil e sem sentido na maneira de se viver\u00a0que a cidade imprime nas pessoas.\u00a0Somando isso com uma necessidade de cria\u00e7\u00e3o visual, de\u00a0 cria\u00e7\u00e3o de uma linha po\u00e9tica e de criticar o cotidiano\u00a0pela improv\u00e1vel beleza e total banalidade de certos elementos urbanos, eu mergulhei nesse objetivo, e, a partir dele,\u00a0 fui me entendendo como pessoa cada vez mais. \u00a0S\u00e3o Paulo s\u00f3 passa a ser uma cidade boa para se viver se voc\u00ea conseguir andar de olhos fechados. Nesse sentido \u00e9 antropol\u00f3gico, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sobretudo nesse ambiente chamado p\u00f3s-modernidade, diria que a transgress\u00e3o \u00e9 o instrumento mais precioso de um artista?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>N\u00e3o diria &#8220;transgress\u00e3o&#8221;, pois\u00a0o artista\u00a0n\u00e3o est\u00e1 fazendo de errado,\u00a0e sim o que ele acredita que seja o correto no e para o\u00a0trabalho dele. Eu concordo com uma frase dita por uma grande amiga:\u00a0<em>hoje a melhor coisa \u00e9 ser marginal. Se quiser realmente ser artista, tem que ser marginal. Marginal<\/em>\u00a0no sentido de n\u00e3o seguir regra alguma, de n\u00e3o fazer o que todos fazem, de n\u00e3o se preocupar com um grupo, com uma escola art\u00edstica. O mundo est\u00e1 t\u00e3o dilu\u00eddo, t\u00e3o fragmentado, que ser autoral, experimental e independente, sem abrir concess\u00f5es, \u00e9\u00a0uma\u00a0<em>transgress\u00e3o<\/em>\u00a0inaceit\u00e1vel\u00a0nos c\u00edrculos do mercado da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em meio aos caminhos marcados pela inquietude, quem \u00e9 hoje Silvio Cris\u00f3stomo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SILVIO CRIS\u00d3STOMO &#8211; <\/strong>Enquanto pessoa, estou em constante muta\u00e7\u00e3o e se eu me definisse, seria contradit\u00f3rio. Como artista, sou um produtor de po\u00e9ticas que busca temas universais inquietantes, muitas vezes numa linguagem acess\u00edvel para o grande p\u00fablico, sem, no entanto, corroborar com os ditames estabelecidos na comunica\u00e7\u00e3o em geral. Se a arte est\u00e1 no mundo, ela \u00e9 de todos para todos. E se a vida n\u00e3o basta, como disse Ferreira Gullar, a arte \u00e9 essencial para dar sentido a esse mecanismo ef\u00eamero. Crio na medida em que certos assuntos ficam insuport\u00e1veis para mim. A cria\u00e7\u00e3o surge dessas emo\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o suporto criar &#8220;sem autoria ou t\u00edtulo&#8221;,\u00a0tenho a\u00a0pretens\u00e3o de corromper&#8230; \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/G_B3kp1d6uc\" frameborder=\"0\" width=\"420\" height=\"315\"><\/iframe><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista, o fot\u00f3grafo Silvio Cris\u00f3stomo fala sobre sua inquietante trajet\u00f3ria <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6371,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1587,16,2539],"tags":[63,66,1599,532,951,8,946,945],"class_list":["post-6370","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-86a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fotografia","tag-inquietacao","tag-lucidez","tag-nao-existe-amor-em-sp","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sao-paulo","tag-silvio-crisostomo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6370"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6370\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6803,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6370\/revisions\/6803"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6371"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}