{"id":6390,"date":"2013-12-31T10:11:15","date_gmt":"2013-12-31T13:11:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6390"},"modified":"2013-12-31T15:57:43","modified_gmt":"2013-12-31T18:57:43","slug":"dedos-de-prosa-iii-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-19\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_6476\" aria-describedby=\"caption-attachment-6476\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/D.A.-2-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6476\" title=\"Bruno Kepper\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/D.A.-2-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/D.A.-2-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/D.A.-2-2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6476\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Bruno Kepper<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trancelim<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pedro Costa Reis<\/em><strong>\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Can\u00e7\u00f5es. As can\u00e7\u00f5es de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da m\u00e3e. Real ou n\u00e3o. \u00c0s vezes era s\u00f3 trancelim. Quando n\u00e3o, era melhor, com as can\u00e7\u00f5es, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atr\u00e1s da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confiss\u00f5es. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ou\u00e7o. E guardo essa lembran\u00e7a dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha m\u00e3e \u00e0 janela. Desta vez eu saio, pra n\u00e3o ouvir mais.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cestes xales e colchas eternos que fa\u00e7o. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente tr\u00eas nesse fim de mundo pra onde Aur\u00eanio me arrastou, puxou e fincou com mais for\u00e7a do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atr\u00e1s de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, n\u00e3o serve nem pra modelo das meias que fa\u00e7o pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luarina entoa discretamente uma das can\u00e7\u00f5es antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com for\u00e7a pra n\u00e3o chorar, pois era sexta, e Noite j\u00e1 estava pronto pra levar Aur\u00eanio. O canto sai rouco e for\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Meu pai sai sem falar com ningu\u00e9m. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Rel\u00f3gio invis\u00edvel de ponteiros iguais com os quais me\u00e7o o tempo lento. M\u00e3e tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resigna\u00e7\u00e3o, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da n\u00e9voa. S\u00f3 lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas t\u00e1buas e via dif\u00edcil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a m\u00e3e de olhar s\u00e9rio e queixo forte, como o do pai. Ser\u00e1 que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e n\u00e3o era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos p\u00e9s levando os sacos verdes fedidos, pesados.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ot\u00e1vio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite n\u00e9voa afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por um momento esque\u00e7o dos sons dos ponteiros da m\u00e3e atr\u00e1s de mim. Esque\u00e7o da sua presen\u00e7a, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de can\u00e7\u00f5es. D\u00e1 saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atr\u00e1s, \u00e9 doido \u00e9? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, at\u00e9 com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora tamb\u00e9m, mas sem sorriso ou gritaria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aur\u00eanio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a can\u00e7\u00e3o que Luarina discretamente entoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no s\u00e1bado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O sil\u00eancio \u00e9 dono deles por aqui, mas hoje n\u00e3o. Vou-me em Lobisomem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sai da casa por detr\u00e1s, pega a sela, a chibata e a r\u00e9dea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Ot\u00e1vio por detr\u00e1s da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDevia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar tamb\u00e9m. S\u00f3 pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia \u00e9 n\u00e3o era que foi procurar no quarto do menino. S\u00f3 quero que volte. Essa m\u00fasica sempre, sempre\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tricota com mais for\u00e7a, estalando forte as agulhas, uma na outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agora n\u00e3o quero saber o porqu\u00ea de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. N\u00e3o ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a no\u00e7\u00e3o e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, s\u00f3 dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na n\u00e9voa corrente. Um vazio, e os balc\u00f5es n\u00e3o estavam l\u00e1, na rua que senti nos p\u00e9s ser a dos dias, antigos. Puxei com for\u00e7a Lobisomem e avancei. Segui a m\u00fasica alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma l\u00e2mpada fort\u00edssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balc\u00e3o \u00famido \u00e0 frente, onde as pessoas se penduravam esticando as m\u00e3os e gritando um n\u00e3o-sei-o-que-de-mel-lim\u00e3o-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para tr\u00e1s e n\u00e3o vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha m\u00e3e sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as mem\u00f3rias de crian\u00e7a. Acordei sem lembran\u00e7as, ca\u00eddo na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. \u201cFoge, foge, pirralho!\u201d, um mendigo gritava. Corri trope\u00e7ando em po\u00e7as, com o trancelim vermelho no bolso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma das janelas, enquanto n\u00e3o entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala at\u00e9 olhar para tr\u00e1s antes de entrar no quarto. Olhou para tr\u00e1s e foi deitar-se.<em> Estava, ouviu? Mas ele n\u00e3o est\u00e1 dan\u00e7ando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele n\u00e3o volta mais. <\/em>Cadeira de frente \u00e0 janela e o xale meio acabado com as agulhas no ch\u00e3o. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos len\u00e7\u00f3is. N\u00e3o dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da m\u00e3e. Tirou a m\u00e3o da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabe\u00e7a e o riso demente, desaparecendo \u00e0 medida que calava o riso, desaparecendo de cabe\u00e7a at\u00e9 embaixo como se subisse a cabe\u00e7a primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Pedro Costa Reis<\/strong>, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, \u00e0 capital, iniciou sua produ\u00e7\u00e3o com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lan\u00e7ou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cron\u00f3pios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cron\u00f3pios e lan\u00e7ada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fant\u00e1stica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A narrativa fant\u00e1stica de Pedro Costa Reis<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1587,2534],"tags":[81,41,278,1037,1630],"class_list":["post-6390","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-86a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-literatura-fantastica","tag-pedro-costa-reis","tag-trancelim"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6390"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6390\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6466,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6390\/revisions\/6466"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}