{"id":6606,"date":"2014-01-28T15:15:05","date_gmt":"2014-01-28T18:15:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6606"},"modified":"2014-03-05T14:50:30","modified_gmt":"2014-03-05T17:50:30","slug":"dedos-de-prosa-i-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-22\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0Mariel Reis<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_6778\" aria-describedby=\"caption-attachment-6778\" style=\"width: 351px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6778\" title=\"Vera Lluch\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA9.jpg\" alt=\"\" width=\"351\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA9.jpg 351w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA9-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 351px) 100vw, 351px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6778\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Vera Lluch<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Peixe<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O custo era alto. Alto porque contrat\u00e1vamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. B\u00eabadas, elas come\u00e7avam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas el\u00e9trica, dan\u00e7avam com ele, colavam os ouvidos \u00e0 sua boca para escutarem a sua voz fraca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu bebia u\u00edsque nacional. U\u00edsque falsificado. Ele, l\u00e1, na pista de dan\u00e7a, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico dele deu-lhe mais tr\u00eas meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Tr\u00eas meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou b\u00eabada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. S\u00f3 queria ela. Eu bebia litros de u\u00edsque, trabalhava pelo computador, sa\u00eda pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou a me pedir coisas imposs\u00edveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou n\u00e3o. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele n\u00e3o sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prostituta\u2013esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele n\u00e3o poderia levar uma vida normal? Por qu\u00ea? Os m\u00e9dicos n\u00e3o se mostravam satisfeitos. Suspendi os rem\u00e9dios. Quer dizer, ele suspendeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mor\u00e1vamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As garrafas de u\u00edsque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esfor\u00e7o da cadeira, a prostituta-esposa molhava os p\u00e9s delicadamente n\u2019\u00e1gua. Escorregou at\u00e9 o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afundou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reapareceu, mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta banc\u00e1ria. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Mariel Reis<\/strong> \u00e9 escritor, publicar\u00e1 em 2014 o livro de narrativas\u00a0 \u201cBordel de Bolso\u201d pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: \u201cLinha de Recuo\u201d (contos), \u201cJohn Fante Trabalha no Esquim\u00f3\u201d (contos), \u201cVida Cachorra\u201d (contos), \u201cCosmorama\u201d (poesia), \u201cCidade Tomada\u201d (cr\u00f4nicas pol\u00edticas), \u201cA Arte de Afinar o Sil\u00eancio\u201d (contos) e \u201cA F\u00e1brica\u201d (narrativas &#8211; in\u00e9dito).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor Mariel Reis e seus densos percursos narrativos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6608,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1635,2534,16],"tags":[1638,81,41,1564,1636,1637],"class_list":["post-6606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-87a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-a-arte-de-afinar-o-silencio","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-mariel-reis","tag-o-peixe","tag-vida-cachorra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6606"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7069,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6606\/revisions\/7069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}