{"id":6677,"date":"2014-01-29T12:24:57","date_gmt":"2014-01-29T15:24:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6677"},"modified":"2014-01-31T11:53:22","modified_gmt":"2014-01-31T14:53:22","slug":"dedos-de-prosa-iii-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-20\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jorge Mendes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_6678\" aria-describedby=\"caption-attachment-6678\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6678\" title=\"Vera Lluch\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/INTERNA3-300x247.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6678\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Vera Lluch<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>balada da vida ordin\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dent\u00e1rio e fica limpo e ass\u00e9ptico como os cad\u00e1veres da hora sublime. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea usa \u00f3culos escuros renascentista, um cora\u00e7\u00e3o de grife e l\u00ea livros que fazem voc\u00ea ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea sente piedade e compaix\u00e3o, entra em transe quando vai \u00e0s compras e \u00e9 dotado de poderes m\u00e1gicos tecnol\u00f3gicos. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea compra\/vende\/aluga\/negocia corpos, mentes, cargos p\u00fablicos, ignom\u00ednias. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea se exercita na arte da dissimula\u00e7\u00e3o, cita os cl\u00e1ssicos e vai virando alma penada. na vida ordin\u00e1ria os amigos que voc\u00ea nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, est\u00e3o todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea consome frutas qu\u00edmicas, amores desidratados, imagens de santos e m\u00e1rtires. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea n\u00e3o sente medo nem torpor, s\u00f3 psicose e rancores fr\u00edgidos. na vida ordin\u00e1ria tudo tem pre\u00e7o, peso e sabor e \u00e9 t\u00e3o artificial com corantes que d\u00e1 vontade de morder. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordin\u00e1ria existem d\u00edvidas, ap\u00f3lices, banco de dados e cat\u00e1logos que explicam. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea \u00e9 c\u00e9lula, parafuso, n\u00famero, uma coisa entre coisas. na vida ordin\u00e1ria todos os sonhos est\u00e3o em liquida\u00e7\u00e3o e voc\u00ea ainda pode pagar no cart\u00e3o daqui a 30 dias. na vida ordin\u00e1ria voc\u00ea gasta o seu sal\u00e1rio em culpas e acess\u00f3rios, constitui fam\u00edlia, constr\u00f3i muros, patrim\u00f4nios e agoniza m\u00edstico e feliz todas as horas do fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00e2nima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. fa\u00e7a adormecer os m\u00f3veis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um c\u00e1lculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pesco\u00e7o, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me fa\u00e7a respirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>manual da trapa\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">o truque \u00e9 ter medo at\u00e9 derreter os ossos. o truque \u00e9 virar est\u00e1tua de sal e correr com os c\u00e3es. o truque \u00e9 ser de gelo e n\u00e3o evaporar. depois \u00e9 o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a l\u00f3gica dos fals\u00e1rios. depois \u00e9 a solid\u00e3o comendo pelas bordas, os narcisos do para\u00edso digital escrevendo l\u00edricas sint\u00e9ticas. depois s\u00e3o s\u00f3 os ratos pedindo perd\u00e3o. o segredo ent\u00e3o \u00e9 ser ulisses na caverna com os ciclopes e n\u00e3o ser ningu\u00e9m. o segredo \u00e9 entrar no invis\u00edvel com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo \u00e9 viver no agora descart\u00e1vel, indolor, s\u00f3brio como os mortos. o segredo \u00e9 investir na pr\u00f3tese dent\u00e1ria, no artif\u00edcio l\u00fadico, no verniz da auto-promo\u00e7\u00e3o. depois \u00e9 o v\u00f4o raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois s\u00e3o os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a por\u00e7\u00e3o de fritas, o chopps. depois \u00e9 o tr\u00e1fico, a corrida de obst\u00e1culos e o grande espet\u00e1culo di\u00e1rio dos horrores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>hell para\u00edso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">agora assinamos leis que matam crian\u00e7as, tatuamos o nome do medo e da cobi\u00e7a em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estima\u00e7\u00e3o. cientistas pol\u00edticos, ag\u00eancias publicit\u00e1rias e poetas irasc\u00edveis negociam o c\u00e9u azul enquanto queimamos \u00edndios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de n\u00f3s sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os fals\u00e1rios e os corruptos se multiplicam nos corredores das reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, vampiros almo\u00e7am em fast-foods como pr\u00edncipes das trevas que s\u00e3o. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores min\u00fasculos e o h\u00e1lito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora \u00e9 o futuro em ru\u00ednas, a ilha dos tubar\u00f5es, o para\u00edso dos assassinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>esfinge<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">o que voc\u00ea fez? mexeu nos meus pap\u00e9is? vasculhou meu lixo? fez despacho pra ians\u00e3? o que voc\u00ea fez? coou meu caf\u00e9 na calcinha, colocou veneno de escorpi\u00e3o na minha bebida, deu um n\u00f3 nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que voc\u00ea fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que voc\u00ea fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de v\u00f4o? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que voc\u00ea fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a pol\u00edcia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que voc\u00ea fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que voc\u00ea fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que voc\u00ea fez?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><\/em><a href=\"http:\/\/www.dragoesdejorge.zip.net\"><strong><em>Jorge Mendes<\/em><\/strong><\/a><em> \u00e9 formado em hist\u00f3ria, &#8220;quase&#8221; p\u00f3s-graduado em teoria da comunica\u00e7\u00e3o pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por a\u00ed), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cacha\u00e7a, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ningu\u00e9m por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recortes lancinantes de vida nos minicontos de Jorge Mendes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6678,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1635,2534],"tags":[1661,1662,41,1665,1664,79,1660,1663,276],"class_list":["post-6677","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-87a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-anima","tag-balada-da-vida-ordinaria","tag-dedos-de-prosa","tag-esfinge","tag-hell-paraiso","tag-jorge-mendes","tag-lancinantes","tag-manual-da-trapaca","tag-minicontos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6677"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6680,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6677\/revisions\/6680"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}