{"id":6702,"date":"2014-01-29T15:11:53","date_gmt":"2014-01-29T18:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6702"},"modified":"2014-01-31T10:47:42","modified_gmt":"2014-01-31T13:47:42","slug":"aperitivo-da-palavra-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-16\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor enquanto privacidade<\/strong><\/p>\n<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/1625700_1415546338689284_959493138_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6704\" title=\"Capa\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/1625700_1415546338689284_959493138_n.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/1625700_1415546338689284_959493138_n.jpg 280w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/1625700_1415546338689284_959493138_n-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Superado o queixume sobre a dissemina\u00e7\u00e3o irrefre\u00e1vel da tecnologia port\u00e1til, o escritor norte-americano Jonathan Franzen chega ao ba\u00fa onde guarda as velhas cartas de amor compartilhadas por seus pais, no ter\u00e7o final do ensaio \u2018S\u00f3 liguei para dizer que te amo\u2019, abrigado na colet\u00e2nea \u2018Como ficar sozinho\u2019 (Companhia das Letras, 2012). Para ele, os registros dos voc\u00e1bulos sedimentares para a edifica\u00e7\u00e3o do amor de que foi resultado servem para confrontar o uso indiscriminado do \u2018eu te amo\u2019 ao t\u00e9rmino de uma chamada telef\u00f4nica, um tipo de c\u00f3digo vulgar do s\u00e9culo XXI para dar fim a uma conversa. Franzen questiona a qualidade do sentimento. Se h\u00e1, em sua manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica e suplementar, a mesma textura conservada naqueles pap\u00e9is enviados com a carga de quem, debru\u00e7ado sobre as margens, perdeu-se em horas a fio, exilado num universo bidimensional, para condensar em poucos par\u00e1grafos a imensid\u00e3o dos desejos, das ang\u00fastias, da vontade incessante de estar junto. O amor a s\u00e9rio, conclui-se findada a leitura, carece de pertencimento. Ocorre num grau sobrelevado de intimidade necess\u00e1rio para projetar no outro a mesma voltagem que pulsa em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu magn\u00edfico romance de estreia, a escritora e artista pl\u00e1stica ga\u00facha Helena Terra trata da complexa gesta\u00e7\u00e3o do amor enquanto privacidade. Narrado em primeira pessoa, \u2018A condi\u00e7\u00e3o indestrut\u00edvel de ter sido\u2019 (Dublinense, 2013) traz a lume a amostra de um movimento nato da era hipertecnol\u00f3gica: os flertes firmados no mundo virtual que, justamente por prescindir de pessoalidade, acabam por minguar sem culpados e feridos. A protagonista, de quem n\u00e3o se sabe o nome, entretanto, vai al\u00e9m. Depois de criar um blogue com conte\u00fado munido por postagens coletivas, ela se atrai por um participante em especial, Mauro, um sujeito que se apresenta bem letrado e cativante, propondo um di\u00e1logo privado, uma troca rotineira de e-mails suscitada \u00e0 base de elogios correntes e versos de Baudelaire. A narradora de pronto se envolve e, \u00e0 medida que o interlocutor virtual vai trazendo \u00e0 tona aspectos da sua vida real, um estreitamento de afeto se consolida, bombeando, intera\u00e7\u00f5es ap\u00f3s confiss\u00f5es, combust\u00edvel necess\u00e1rio para rutilar um sentimento incapaz de ser expresso apenas com a ortografia computadorizada. A maneira de lidar com essa emo\u00e7\u00e3o sem freio \u00e9 o ponto de partida da trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helena Terra prop\u00f5e acompanhar o erguimento de uma constru\u00e7\u00e3o que, a qualquer instante, inevitavelmente se demolir\u00e1. Por certo, desdobramentos malconformados para relacionamentos n\u00e3o s\u00e3o nenhuma novidade na literatura contempor\u00e2nea. Basta escolher um livro do Ian McEwan, a seu gosto. O diferencial (e o brilho) fica por conta da vis\u00e3o sobre o tema. Nesse caso, a tessitura da rela\u00e7\u00e3o compete efetivamente ao relato de apenas um dos envolvidos, fornecendo um ponto de vista, sen\u00e3o suspeito, ao menos desfalcado. O outro, enxergado sob um anteparo, se desenvolve a partir das qualidades e dos defeitos que se convencionam a ele, portanto uma proje\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios desejos e afli\u00e7\u00f5es daquele que narra, o produto idealizado de um processo ps\u00edquico. Ao situar o despertar dessa paix\u00e3o no plano virtual, a autora potencializa o mergulho \u00e0s cegas na experi\u00eancia de amar. As veracidades das palavras e da pr\u00f3pria afei\u00e7\u00e3o, a armadilha do anonimato, perdem aten\u00e7\u00e3o diante da ansiedade do pr\u00f3ximo contato, do piscar do novo e-mail na caixa de entrada, uma esp\u00e9cie de depend\u00eancia que ocorre de um sentimento transtornado j\u00e1 sem nome, uma condi\u00e7\u00e3o intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado \u00e9 a quebra de todas as regras, a perda das r\u00e9deas do pr\u00f3prio dom\u00ednio. Em dado momento, a narradora condiciona que n\u00e3o trocariam imagens, n\u00e3o obstante a promessa ser\u00e1 desfeita por ela mesma numa decis\u00e3o extrema. Mauro conta ser casado, com dois filhos. Fato moralmente question\u00e1vel diante do rumo do envolvimento, mas ela frivolamente n\u00e3o leva em conta. O mundo inventado para ambos, que se deslinda \u00e0 redoma que a protege em frente ao monitor, \u00e9 sustentado por uma sobrecarga sensorial, ou melhor, unicamente pela idolatria. Tanto que, ao surgir uma pausa na comunica\u00e7\u00e3o, o efeito \u00e9 de abstin\u00eancia, uma avalanche de autoquestionamentos sobre o motivo do sumi\u00e7o que a arrasta para fora dos limites interiores, numa viagem tomada em revide para o mais longe poss\u00edvel daquilo tudo (um pa\u00eds insular espertamente escolhido pela autora, cujo acesso a internet \u00e9 caso de censura). Em territ\u00f3rio estrangeiro, a narradora interage com outro homem, por\u00e9m Mauro, o seu Mau, \u00e9 uma sombra constante, dado que, apesar da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica e da escolha de n\u00e3o ligar o computador, o mundo segue funcionando dentro de si, um mundo imantado pela car\u00eancia. N\u00e3o por menos, quando retorna, ela resolve agir de forma contundente, derrubando a barreira dos caracteres na tomada da tal decis\u00e3o extrema com o uso de fotografias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem precisar recorrer a centenas de p\u00e1ginas para dar profundidade e alcance ao enredo, Helena Terra demonstra habilidade e seguran\u00e7a ao ir fundo na an\u00e1lise da vulnerabilidade humana. O risco de dar voz a uma personagem definida por uma confus\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, aferrada numa busca indom\u00e1vel pela completude em outro corpo, \u00e9 anulado por uma prosa delicada e bem polida, que recorre a paralelos e met\u00e1foras sem derrapar na pieguice, encontrando, em cap\u00edtulos curtos, a din\u00e2mica perfeita para provocar no leitor o interesse pelo desdobramento at\u00e9 a \u00faltima p\u00e1gina. A escritora prop\u00f5e o amor como uma rea\u00e7\u00e3o incendi\u00e1ria dentro de uma c\u00e1psula que, ao entrar em contato com o exterior, n\u00e3o queima, sofre desnatura\u00e7\u00e3o ao alcan\u00e7ar intimidade. Se existe uma cumplicidade em seus atos, a narradora dessa hist\u00f3ria de (des)amor \u00e9 c\u00famplice exclusivamente de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado visitado por Franzen, sua m\u00e3e questiona o grau de afei\u00e7\u00e3o do seu futuro esposo, dado que este nunca tinha assinado uma carta com \u2018eu te amo\u2019; fato contestado pelo filho-escritor diante de outros gestos do pai que igualmente exprimiram amor de uma forma particular. Antes e depois do advento da internet, quando algu\u00e9m tenta conformar um outro a ser amado, paix\u00e3o e ilus\u00e3o se confundem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>S\u00e9rgio Tavares<\/strong> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tamb\u00e9m foi premiado no Concurso Liter\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Escola do Servi\u00e7o P\u00fablico (Fesp\/RJ) e tem textos publicados nas revistas \u201cCult\u201d, \u201cArte e Letra: Est\u00f3rias M\u201d, e no jornal \u201cC\u00e2ndido\u201d, entre outros. O livro de contos \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012) \u00e9 sua obra mais recente.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro romance de Helena Terra aos olhos de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6703,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1635,2533],"tags":[1675,11,1079,1677,1673,1676,1674,1026,189,496,1023],"class_list":["post-6702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-87a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-a-condicao-indestrutivel-de-ter-sido","tag-aperitivo-da-palavra","tag-cavala","tag-dublinense","tag-helena-terra","tag-jonathan-franzen","tag-o-amor-enquanto-privacidade","tag-queda-da-propria-altura","tag-resenha","tag-romance","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6702"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6829,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6702\/revisions\/6829"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}