{"id":6881,"date":"2014-02-26T16:53:20","date_gmt":"2014-02-26T19:53:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6881"},"modified":"2018-11-23T11:19:27","modified_gmt":"2018-11-23T14:19:27","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-88","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-88\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira coisa que nos vem \u00e0 cabe\u00e7a quando pensamos em matura\u00e7\u00e3o \u00e9 todo um conjunto de mecanismos e processos que d\u00e3o suporte ao ato cont\u00ednuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que for\u00e7osamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolu\u00e7\u00e3o. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renova\u00e7\u00e3o completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. \u00c9 de se desconfiar, ent\u00e3o, que a transforma\u00e7\u00e3o substancial do ser humano surge \u00e0 custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da a\u00e7\u00e3o.\u00a0 No que se refere \u00e0 literatura, alguns percursos pr\u00f3prios se apresentam. Um deles est\u00e1 na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de proje\u00e7\u00e3o para o mundo. \u00c9 o caso de gente como a escritora<a href=\"http:\/\/umsite.tumblr.com\/ \"> <strong>Ana Peluso<\/strong><\/a>, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua express\u00e3o liter\u00e1ria um voraz instrumento de lucidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Companheira insepar\u00e1vel do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta \u00e0 prova. Desde os sentidos mais elementares at\u00e9 os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indaga\u00e7\u00f5es, chacoalham as fronteiras do \u00f3bvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas. \u00a0Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideol\u00f3gicos vol\u00e1teis, essa paulistana se v\u00ea agora diante de seu primeiro rebento po\u00e9tico, o livro \u201c70 Poemas\u201d, publicado atrav\u00e9s da Editora Patu\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida em 1966, Ana Peluso, al\u00e9m de escritora, agrega em sua trajet\u00f3ria os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: <em>deZamores<\/em>,\u00a0pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas liter\u00e1rias virtuais do SESC SP, sob orienta\u00e7\u00e3o do escritor Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan; <em>\u00c9 que os Hussardos chegam hoje<\/em>,\u00a0tamb\u00e9m pela Editora Patu\u00e1, 2014; e de\u00a0<em>Hiperconex\u00f5es\u00a0: Realidades Expandidas<\/em>, primeira antologia po\u00e9tica sobre o p\u00f3s-humano, com organiza\u00e7\u00e3o do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014.\u00a0 Tem textos publicados em diversas m\u00eddias impressas e eletr\u00f4nicas, como \u00e9 o caso do extinto jornal <em>O Pasquim<\/em>, revistas <em>Coyote<\/em>, <em>Germina<\/em>, <em>Musa Rara<\/em>, <em>Cron\u00f3pios<\/em> e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana \u00e9 uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es, agora retorna \u00e0 casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se n\u00e3o bastasse, desfila tamb\u00e9m algumas pungentes opini\u00f5es acerca do laborioso e nada facilmente exprim\u00edvel ato de escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9579\" aria-describedby=\"caption-attachment-9579\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-FINAL.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9579 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-FINAL.jpg\" alt=\"Ana Peluso\" width=\"500\" height=\"494\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-FINAL.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-FINAL-300x296.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9579\" class=\"wp-caption-text\">Ana Peluso \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua trajet\u00f3ria \u00e9 \u00edntima das palavras, sobretudo pelas fei\u00e7\u00f5es de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo. \u00a0Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Eu n\u00e3o chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incurs\u00e3o interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou at\u00e9 um cr\u00edtico. A minha travessia se travestiu de incurs\u00e3o porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja ego\u00edsta, mas n\u00e3o acredito na arte que n\u00e3o dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, \u00e9 vasto. Caso contr\u00e1rio, ele ainda n\u00e3o \u00e9 um artista de fato, mas algu\u00e9m que necessita da aten\u00e7\u00e3o dos demais, e talvez por isso se v\u00ea tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, \u00e9 natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame aten\u00e7\u00e3o, mas a\u00ed a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 mera consequ\u00eancia, e n\u00e3o o estopim para que a arte aconte\u00e7a, porque para mim \u00e9 necess\u00e1rio que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da cria\u00e7\u00e3o com outras fei\u00e7\u00f5es, melhor. Sempre digo que &#8220;a terceira margem de um livro \u00e9 o leitor&#8221;, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo di\u00e1logo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da cria\u00e7\u00e3o. Como se f\u00f4ssemos h\u00edbridos, \u00e9 necess\u00e1ria a contradi\u00e7\u00e3o interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consci\u00eancia a que n\u00e3o temos acesso reconhecido, mas que est\u00e1 l\u00e1, apta a esse di\u00e1logo. Eu acho que todo bom autor \u00e9 dial\u00e9tico por natureza.<br \/>\nAi das coisas que n\u00e3o se contradizem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em &#8220;70 Poemas&#8221;, h\u00e1 um vasto painel de olhares e percep\u00e7\u00f5es que n\u00e3o congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobreviv\u00eancia, vai ser obrigado a concordar que o mundo s\u00f3 \u00e9 estranho \u00e0 sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo \u00e9 t\u00e3o apavorante quanto administrar a desigual distribui\u00e7\u00e3o de renda. Para mais al\u00e9m, o mundo \u00e9 t\u00e3o estranho, que nascemos berrando, o que n\u00e3o foi exatamente o meu caso, mas n\u00e3o me pauto jamais pelas exce\u00e7\u00f5es, at\u00e9 porque o &#8220;nascimento de um natimorto&#8221; deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que n\u00e3o me lembro. Adoraria narrar uma\u00a0ressuscita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua poesia tem uma marca substancial, que \u00e9 uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E voc\u00ea consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideol\u00f3gicos. \u00a0Em que medida o caos interior \u00e9 um aliado de quem cria<\/strong>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>O que voc\u00ea chama de caos interior, e eu de infinito interior, \u00e9 mat\u00e9ria-prima. E tem uma ideologia l\u00e1 dentro, sim, s\u00f3 que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211;<\/strong> Se h\u00e1 engajamento, \u00e9 org\u00e2nico, n\u00e3o panflet\u00e1rio. N\u00e3o adianta levantar uma bandeira se quem a pega n\u00e3o distingue cores. Ent\u00e3o, a gente enterra a m\u00e3o e fertiliza uma raiz interna. \u00c9 como dizer ao cora\u00e7\u00e3o porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, \u00e9 um engajamento sutil, quase imposs\u00edvel de um ponto de vista pr\u00e1tico, racional. Mas \u00e9 uma poesia feita de perguntas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 interessante quando voc\u00ea diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situa\u00e7\u00e3o de autonomia compartilhada, atrav\u00e9s da qual cada um demarca seus territ\u00f3rios de viv\u00eancia dentro de uma determinada obra. Leitores s\u00e3o seres realmente livres?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre\/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a quest\u00e3o \u00e9 que para mim, como disse acima,\u00a0<em>o leitor \u00e9 sempre a terceira margem de um livro<\/em>, n\u00e3o adianta eu escrever poesia achando que o texto chegar\u00e1 aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegar\u00e1 como poesia. Eu n\u00e3o gosto do \u00f3bvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos \u00f3bvios, eu gosto de mist\u00e9rio, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar \u00e9 laborar diretamente com a novidade, \u00e9 rever, redizer. Quando escrevo uma frase que \u00e9 minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem j\u00e1 a algu\u00e9m, digo que \u00e9 do &#8220;dito-redito&#8221;. Tamb\u00e9m gosto de literatura de corpo honesto. \u00c9 muito tentador dizer o que j\u00e1 foi dito como se n\u00e3o se visse que j\u00e1 foi dito, ou se fingisse n\u00e3o ver, mas \u00e9 feio, \u00e9 pequeno. A n\u00e3o ser que o autor desconhe\u00e7a mesmo a autoria &#8211; essas coisas acontecem &#8211; trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor n\u00e3o pode carregar um peso desses. Ele j\u00e1 carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabe\u00e7a. A\u00ed \u00e9 peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_7927\" aria-describedby=\"caption-attachment-7927\" style=\"width: 233px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7927\" title=\"Ana Peluso\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-II.jpg 233w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/INTERNA-II-155x300.jpg 155w\" sizes=\"auto, (max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7927\" class=\"wp-caption-text\">Ana Peluso \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Hoje presenciamos a apari\u00e7\u00e3o cada vez mais frequente de autores desembocando suas express\u00f5es em diversos meios. No seu entender, h\u00e1 um novo espa\u00e7o de concep\u00e7\u00e3o criativa surgindo? Podemos falar em uma nova gera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a pr\u00f3pria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma gera\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 extremamente rico o momento. Cria-se converg\u00eancia para um ponto comum: o reconhecimento de que somos v\u00e1rios, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler \u00e0 total qualidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. N\u00e3o \u00e9 um exagero imaginar que tradi\u00e7\u00e3o e modernidade n\u00e3o podem se harmonizar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da pr\u00e1tica da vida, mas por outro lado entendo os puristas, h\u00e1 que se resguardar uma certa tradi\u00e7\u00e3o. Nem toda arte, nem toda literatura, ser\u00e1 exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo \u00e9 mar s\u00f3 porque \u00e9 \u00e1gua. Eu mesma n\u00e3o sei at\u00e9 hoje se o que escrevo \u00e9 poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o, mas h\u00e1 um trabalho com a palavra, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em criar um universo po\u00e9tico, ou seja, n\u00e3o se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), n\u00e3o coloca ningu\u00e9m no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que h\u00e1 escritores de correntes tradicionais sem verve, h\u00e1 novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho liter\u00e1rio inquestion\u00e1vel. Perceber e reconhecer isso \u00e9 o que falta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 quem defenda uma \u201cfronteiriza\u00e7\u00e3o\u201d da literatura. Nesse \u00ednterim, bandeiras de g\u00eanero s\u00e3o erguidas, a exemplo de distin\u00e7\u00f5es criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirma\u00e7\u00e3o, essas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o seriam ilus\u00f5es de uma fr\u00e1gil tentativa de inclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>N\u00e3o acho que seja \u201cfr\u00e1gil tentativa de inclus\u00e3o\u201d, mas tentativa de inclus\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de g\u00eanero, cor, classe social, mas a\u00ed \u00e9 preciso ver se a luta \u00e9 pela inclus\u00e3o da literatura ou da classe. E isso \u00e9 ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a hist\u00f3ria, com o momento hist\u00f3rico, que \u00e9 de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses pol\u00edticos. Por mais pol\u00edtica que seja a sua postura, com a vida at\u00e9, a partir do momento em que a obra se torna um ve\u00edculo meramente pol\u00edtico que n\u00e3o seja de oposi\u00e7\u00e3o, deixa de ser carnaval e a marcha \u00e9 outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como ser de espanto que \u00e9, o que voc\u00ea n\u00e3o endossa na dita p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Se voc\u00ea fala da p\u00f3s-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, n\u00e3o de entretenimento. Se voc\u00ea se refere ao campo de a\u00e7\u00e3o do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que est\u00e1 realmente acontecendo. E n\u00e3o est\u00e1 acontecendo direita e\/ou esquerda, est\u00e1 acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravid\u00e3o devotada voluntariamente, v\u00edcio j\u00e1 na tecnologia, como a implanta\u00e7\u00e3o de chips no pulso de cidad\u00e3os norte-americanos para validar o Obamacare, at\u00e9 as mulheres mu\u00e7ulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do \u201cCintur\u00e3o da B\u00edblia\u201d, nos EUA, e seus maridos violentos, at\u00e9 o controle do que eu devo ou n\u00e3o assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu n\u00e3o endosso o controle. A liberdade j\u00e1 \u00e9 produto da utopia, ningu\u00e9m precisa lembrar disso a todo instante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos incorrig\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>Sim, para o bem e para o mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Saberia dizer o que a literatura espera de voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PELUSO &#8211; <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crian\u00e7as. Tamb\u00e9m gostaria de ter f\u00f4lego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condi\u00e7\u00f5es, s\u00f3 escreveria. O livro &#8217;70 Poemas&#8217; n\u00e3o cont\u00e9m nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil \u00e9 um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele \u00e9 obrigado a exercer outras fun\u00e7\u00f5es que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. \u00c9 uma via de m\u00e3o \u00fanica: ou se escreve verdadeiramente, e se come p\u00e3o com \u00e1gua, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acad\u00eamica em Letras: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 muito boa, mas n\u00e3o tem p\u00e9 de meia&#8221;. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela est\u00e1 coberta de raz\u00f5es. N\u00e3o d\u00e1 para parar um poema para dar sequ\u00eancia a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo esp\u00edrito. O capitalismo \u00e9 o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo n\u00e3o \u00e9 assim que funciona. A literatura, para mim, \u00e9 uma arte feita principalmente de burilamento e sil\u00eancio. Eu n\u00e3o teria cabe\u00e7a para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a pr\u00f3pria literatura j\u00e1 \u00e9 um trabalho, que exige muito da gente. S\u00f3 falta o mundo reconhecer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Capa-MENOR.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7931\" title=\"Capa\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Capa-MENOR.jpg\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* Para adquirir \u201c70 Poemas\u201d, clique <a href=\"http:\/\/70poemas.tumblr.com\/ \"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora Ana Peluso fala sobre o seu primeiro livro e alguns tra\u00e7os marcantes da sua viv\u00eancia com as palavras<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15521,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1714,16,2539],"tags":[1754,1297,424,63,137,1756,8,17,1755],"class_list":["post-6881","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-88a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-70-poemas","tag-ana-peluso","tag-editora-patua","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-paulistana","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia","tag-web-designer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6881"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15523,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6881\/revisions\/15523"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15521"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}