{"id":6892,"date":"2014-03-03T12:19:20","date_gmt":"2014-03-03T15:19:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6892"},"modified":"2018-11-23T11:03:41","modified_gmt":"2018-11-23T14:03:41","slug":"dedos-de-prosa-i-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-23\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Isabela Penov<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15515\" aria-describedby=\"caption-attachment-15515\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15515 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15515\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ozias Filho<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As Imposs\u00edveis Aventuras de Meu Amor num Outro Lado do Mundo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num outro lado do mundo, a mo\u00e7a de pele encardida de suor e fuma\u00e7a tentava explicar. Voc\u00ea n\u00e3o percebe, Meu Amor, que eu n\u00e3o posso? Que nem sei como voc\u00ea saiu de mim? Porque n\u00e3o havia mesmo espa\u00e7o para mais um naquelas cal\u00e7adas, apesar de elas parecerem t\u00e3o longas e largas. Mas Meu Amor soltou um grunhido estranho, seus olhos imensos se arregalaram e ele regurgitou sobre ela uma baba espessa e escura como o asfalto. Era o lixo que n\u00e3o lhe ca\u00edra bem no est\u00f4mago. A mo\u00e7a \u2013 eu gostaria de poder dizer seu nome, mas nem ela mesmo se lembrava. Podemos batiz\u00e1-la de Mo\u00e7a, assim mai\u00fascula. Mo\u00e7a fechou-se para dentro de si por um momento, para criar \u00f3dio. Tirou Meu Amor de perto, suspendendo-o com as duas m\u00e3os no ar, como se pudesse contamin\u00e1-la com aquele chorume que lhe escorria dos olhos e dos labiozinhos abertos. Em torno deles encontrou uma grande po\u00e7a de \u00e1gua suja \u2013 pela manh\u00e3 muito havia chovido sobre ela e Meu Amor. Foi ent\u00e3o que ela fechou bem os olhos e imergiu a cabe\u00e7a de Meu Amor na \u00e1gua at\u00e9 que ele perdesse o ar. Umas bolhinhas saltaram na superf\u00edcie, ele parou finalmente de sacudir os bracinhos e tornou-se uma massa amorfa escorrendo com a \u00e1gua. Pronto. Agora ela podia ir trabalhar outra vez, o que fazia sempre entre o sono e a fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eis que num dos baldes em que ela encharcava seu pano \u00famido e sujo, num dos baldes daquele preparo de \u00e1gua turva com o que pudesse matar todos os germes e vidas que pudessem insistir em proliferar-se sobre o ch\u00e3o alheio, naquela \u00e1gua algo debateu-se. Meu Amor! Ela espalmou as m\u00e3os para cima, arregalou-se toda, coagulada. De s\u00fabito enfiou os bra\u00e7os ali e com pressa retirou-o, l\u00e1bios roxos de frio, apertou Meu Amor contra o peito para que se aquecesse, e balan\u00e7ou de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, desajeitadamente e t\u00e3o r\u00e1pido que Meu Amor teve vertigens. Acocorou-se agarrada a ele. Meu Amor, aqui eu n\u00e3o posso, assim voc\u00ea atrapalha meu ganha-p\u00e3o. Al\u00e9m do mais, Meu Amor, aqui n\u00e3o h\u00e1 lixo suficiente para alimentar a n\u00f3s dois, e entre voc\u00ea e eu, Meu Amor, Meu Amor eu preciso escolher a mim ou a ningu\u00e9m. O pequenino reclamava de fome e o est\u00f4mago dela tamb\u00e9m, um pouco mais habituado. Meu Amor estava minguado, ainda mais franzino do que antes, e seu aspecto asqueroso percebia-se mais assim, com os ossos saltados. No fim das contas, Meu Amor que sa\u00edsse de mim s\u00f3 podia ser amor minguado, torto, aleijado e sujo. Ela via-se nele, aquele ser mudo e sem dentes, faminto e malquisto, espelho de uma vida toda de intervalos e faltas. Meu Amor, voc\u00ea podia ser invis\u00edvel como eu, quando voc\u00ea vai aprender? invis\u00edvel como eu a vida lhe faria menos mal, passaria distante, indiferente, reclamaria do seu cheiro f\u00e9tido e seguiria adiante para acontecer nos bra\u00e7os de quem pode e de quem tem, Meu Amor. Meu Amor, voc\u00ea n\u00e3o conhece nada da vida, voc\u00ea n\u00e3o sabe o quanto ela pisa forte sobre uma cabe\u00e7a fraca de sono e de fome, voc\u00ea n\u00e3o sabe o quanto ela foge de onde h\u00e1 dor, o quanto ela abandona e deixa \u00e0 m\u00edngua quem n\u00e3o nasce pra viver, mas pra ser vivido, pra ser vivido pelos outros. Meu Amor estava faminto, e Mo\u00e7a percebeu ainda que no sil\u00eancio, e irritou-se muito. Apertou-o bem, esmagando sua barriga vazia, sentou em cima dele e, na falta de panos limpos, foi com ele que limpou a latrina, esfregando-o violentamente contra o ch\u00e3o at\u00e9 que se gastasse e sumisse de vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, ela ouvia mais o barulho do sereno que o rugir distante dos carros. Encolhida com as m\u00e3os no ventre, tentou chorar. Um c\u00e3o gemia baixinho. Ela olhou em volta e viu o mundo todo naquela rua. Sentiu seu cheiro que n\u00e3o era de gente, nem de bicho, era de coisa vencida. N\u00e3o p\u00f4de ver os outros que, como ela, tamb\u00e9m tentavam fazer luzir os olhos nos far\u00f3is dos autom\u00f3veis. Suspirou, enterrando poeira nos pulm\u00f5es, fez um gesto sutil riscando a subst\u00e2ncia densa do ar da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi quando ouviu um respirozinho, subitamente, em curtos intervalos, o respiro de um ar que faltava. Ao seu lado contorcia-se Meu Amor. Ainda. Pequen\u00edssimo, mas estava ali e era ele mesmo. A Mo\u00e7a, sem poder pensar se ele tinha fome ou frio, botou-o numa pequena caixa sem poder observ\u00e1-lo por muito tempo. Meu Amor at\u00e9 do\u00eda nos olhos, t\u00e3o feio e mirrado estava. Deitou-se quieta sob o c\u00e9u sem estrelas, entre aquele serzinho rude e um c\u00e3o estranho alojado ali naquela pouca vida, cada vez mais pouca. Mil pessoas dormiam profundamente em suas casas. Esticando o dedo m\u00ednimo, experimentou oferec\u00ea-lo por um instante a Meu Amor. Num sil\u00eancio de tudo, ele agarrou-se em seu dedo com desespero a ponto de quase quebr\u00e1-lo, torceu-o, mordeu com for\u00e7a, e depois se acalmou segurando-o, e aquele dedo lhe parecia imenso em seu mundo de t\u00e3o pequena estatura e tanta necessidade. Suspirou num mil\u00e9simo de segundo. A Mo\u00e7a deixou-se estar, fechou os olhos, e acordou dia seguinte sem c\u00e3o nem Meu Amor, acordou e nem mo\u00e7a era mais, acordou reclamando de fome num estranho ventre outro, num lado outro e qualquer do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vig\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\" align=\"right\">Para Caio<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o posso fechar\u00a0os olhos. Est\u00e1s diante de mim e dormes, sem inoc\u00eancia. Dormes assim, em estado de segunda pessoa do singular: inspira\u00e7\u00e3o deslocada e atemporal. Diante de mim, como se estivesses desde o in\u00edcio dos tempos e indefinidamente fosses continuar, sem sobressalto, sem culpa \u2013 sem envelhecer. Repousas diante de mim cristalizando um estado t\u00e3o cotidiano, a gra\u00e7a silenciosa e simples de deixar ser. Teu sono me diz: este momento. E eu levanto minha m\u00e3o insone e cansada e passo lenta e repetidamente sobre a tua cabe\u00e7a, enquanto n\u00e3o me notas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Toca-se de leve algu\u00e9m que dorme e de algum modo se sabe, um pouco sem perceber, que a pessoa vai receber aquela car\u00edcia mais profundamente, e t\u00e3o profundamente que seria imposs\u00edvel se estivesse desperta. Como se durante o sono as m\u00e3os pudessem penetrar a epiderme e tocar a subst\u00e2ncia intoc\u00e1vel que circula, impercept\u00edvel, viva, sob a pele: \u00e2nima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gesto sem m\u00e9ritos: o outro jamais se lembrar\u00e1. Na ilha distante e perdida do sono, apenas tremular\u00e1 seu efeito ef\u00eamero, leves reverbera\u00e7\u00f5es. Carinho an\u00f4nimo e sem mem\u00f3ria, apenas a pulsante cintil\u00e2ncia que acenar\u00e1 a mil anos-luz de dist\u00e2ncia no tempo e no espa\u00e7o \u2013 como as estrelas, que\u00a0brilham sem estar ali. N\u00e3o est\u00e3o ali. Insuspeitadamente caminha-se enquanto constela\u00e7\u00f5es criam seus mudos espet\u00e1culos. Distantes \u2013 ausentes. E, no entanto, como existem! Brilham.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dormes. Acaricio tua cabe\u00e7a cansada, nesta manh\u00e3 p\u00e1lida. Bordo assim constela\u00e7\u00f5es no fino v\u00e9u que cobre teu sono \u2013 quem sabe ilumine tuas futuras andan\u00e7as sem que me saibas. Assim, uma estrela: entrego meu gesto-luz sem nome nem mem\u00f3ria: encanta-te comigo. Encanta-te comigo, mas cuidado: n\u00e3o me percebas. Carrega-me \u2013 guarda-me \u2013 num quarto escondido de onde nem mesmo tu possuis a chave. Deixa-me pulsar ali eternamente, enfeitar teu crep\u00fasculo \u00edntimo sem que desconfies. Deixa-me ser-te leve nesta car\u00edcia, esta entre tantas, lume aceso que nem sequer existe mais. Deixa-me te habitar assim, sem ocupar teus espa\u00e7os. Deixa-me penetrar teu pantanoso e escuro deserto como luz \u2013 imaterial \u2013 para, sem querer, desvendar preciosidades que nadam no teu lodo amargo. Pequenas p\u00e9rolas perdidas nessa espessa subst\u00e2ncia toda feita de l\u00e1grimas, acumulada atrav\u00e9s dos dias. Quero ser essa pequena \u00a0lanterna que te permita v\u00ea-las \u2013 se quiseres. Deixa-me.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica comigo assim, luz. Car\u00edcia. N\u00e3o tenta reter-me entre as m\u00e3os, nem espera que eu seja feita para a contempla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me contemples: permite que eu ilumine, para que contemples tudo. Toma. Aceita este meu manso efeito \u2013 morno \u2013 minha condi\u00e7\u00e3o essencial e, por isso, inocente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixa que eu te seja sem ser. Seja-me, ent\u00e3o. Toma esta car\u00edcia r\u00e1pida \u2013 agora \u00e9 s\u00f3 tua esta car\u00edcia. N\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 tua. Quando finalmente despertares, pisca os olhos lentamente e me v\u00ea aqui, primeira\u00a0pessoa do singular, eu, dormindo diante de ti: este momento. Ser\u00e1s o mesmo e ser\u00e1s outro, porque acariciado no fundo de si mesmo. A\u00ed me olha despido de tudo e tenta ver-me nua, tamb\u00e9m. Quem sabe neste momento uma vaga impress\u00e3o emergir\u00e1 por um segundo, num rel\u00e2mpago pulsar\u00e1 minha tal car\u00edcia, insuspeitada, imemorial e simples, curto espasmo que te far\u00e1 compreender o que eu nunca soube dizer, o que n\u00e3o se pode dizer nunca. D\u00e1-me ent\u00e3o tua m\u00e3o amada e ampara meu sono, que preciso. Aceita-me. Esquece-me.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Isabela Penov<\/em><\/strong><em> vive em S\u00e3o Paulo, \u00e9 professora de artes, atriz e escritora. Mant\u00e9m o blog <a href=\" http:\/\/isabelapenov.blogspot.com.br\/\"><strong>Semeaduras<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tecido do amor na prosa de Isabela Penov<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15514,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1714,2534,16],"tags":[1717,41,1715,1716,1324],"class_list":["post-6892","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-88a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-as-impossiveis-aventuras-de-meu-amor-num-outro-lado-do-mundo","tag-dedos-de-prosa","tag-isabela-penov","tag-semeaduras","tag-vigilia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6892"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6892\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15517,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6892\/revisions\/15517"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}