{"id":6928,"date":"2014-03-03T19:58:04","date_gmt":"2014-03-03T22:58:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6928"},"modified":"2018-11-23T10:46:08","modified_gmt":"2018-11-23T13:46:08","slug":"aperitivo-da-palavra-ii-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii-4\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>A cr\u00f4nica e a cr\u00f4nica de Jos\u00e9 Saramago<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Gustavo Felic\u00edssimo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15506\" aria-describedby=\"caption-attachment-15506\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/J-Saramago.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15506 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/J-Saramago.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/J-Saramago.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/J-Saramago-300x235.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15506\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Saramago \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre fiz da literatura uma esp\u00e9cie de sacerd\u00f3cio. Organizei encontros com escritores, editei jornais e revistas, publiquei uns tantos livros, colaborei para a publica\u00e7\u00e3o de outros tantos e fiz um percurso liter\u00e1rio priorizando a publica\u00e7\u00e3o de poemas, afinal, era perda de tempo um autor t\u00e3o pouco lido, e naquele momento t\u00e3o jovem, se precipitar a publicar contos e cr\u00f4nicas apenas porque era conhecido de meia d\u00fazia de leitores dessa nossa imensa Bahia de todas as dores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como durante algum tempo mantive-me publicando em jornais, revistas e no meio virtual, artigos sobre poesia, algumas leituras que fiz se deram um tanto por obriga\u00e7\u00e3o de of\u00edcio, outro tanto por conta de uma vontade insana de colocar \u00e0 prova as leituras te\u00f3ricas que detinha a fim de adequ\u00e1-las \u00e0 minha vis\u00e3o particular sobre o fazer po\u00e9tico, e por fim, sobre o poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora me sinta poeta em tempo integral, todos os dias, as leituras que sempre e mais animam meu cora\u00e7\u00e3o sucedem da cr\u00f4nica, essa forma liter\u00e1ria que nos impele \u00e0 reflex\u00e3o, em que o narrador est\u00e1 desnudo e desvelado, especulador e concludente, poeta e ficcionista. Um g\u00eanero liter\u00e1rio cujo conceito \u00e9 altamente vari\u00e1vel e que pode englobar tudo: p\u00e1ginas de mem\u00f3ria, lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia, flagrantes do cotidiano, coment\u00e1rios metaf\u00edsicos, pol\u00edticos, considera\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, filos\u00f3ficas, poemas em prosa, trechos de romance. Mas \u00e9 o tratamento com fei\u00e7\u00e3o ficcional que muitas vezes lhe \u00e9 dispensado, aproximando a cr\u00f4nica de verdadeiros contos, que lhe d\u00e1 a qualidade art\u00edstica digna de grandes mestres, como \u00e9 o caso de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino ou de um Saramago, a respeito de quem passamos a tecer alguns coment\u00e1rios a partir das pr\u00f3ximas linhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo admitir que n\u00e3o li ao todo mais que tr\u00eas ou quatro romances de Saramago, e que pouco ou quase nada soubesse de suas cr\u00f4nicas at\u00e9 ler algumas, dessa vez por of\u00edcio de estudante, graduando que sou em Letras. Delas o que me ficou foi a certeza que trazia comigo h\u00e1 tempos, que sua prosa \u00e9 um exemplo de apuro do instrumento liter\u00e1rio, para dizer o m\u00ednimo, dado que atualmente \u00e9 imposs\u00edvel qualquer an\u00e1lise da prosa em l\u00edngua portuguesa sem o conhecimento e o inevit\u00e1vel reconhecimento de sua obra, como atesta a imensa lista de estudiosos e cr\u00edticos que possuem consci\u00eancia do seu legado, \u00e0 qual n\u00e3o falta em doses certas, reflex\u00f5es existenciais, cr\u00edticas, ironia, humor, a mais \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com suas cren\u00e7as ideol\u00f3gicas e observa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0s fontes da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelas cr\u00f4nicas de Saramago abundam exemplos do seu compromisso com a sociedade e o desconforto sentido com a circunst\u00e2ncia do homem entre os homens, coisificado, como em \u201cO grupo\u201d, mas que procura dentro deste mesmo universo uma ressignifica\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios valores, da exist\u00eancia, assim como vemos tamb\u00e9m em \u201cO cego do harm\u00f3nio\u201d, texto que ainda apresenta em si, assim como em \u201cO inevit\u00e1vel poente\u201d, uma narrativa de envergadura on\u00edrica, em que se nota acentuada inclina\u00e7\u00e3o do escritor para os dom\u00ednios da po\u00e9tica.<\/p>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15507\" aria-describedby=\"caption-attachment-15507\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15507 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-II.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-II-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15507\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Saramago \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os textos selecionados, um em especial chama a aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u201cA palavra resistente\u201d, em que o autor sugere ao leitor a escolha de uma palavra qualquer a fim de diz\u00ea-la seguidas vezes at\u00e9 que <em>sentido e densidade<\/em> se esvaiam ao ponto de se transformarem<em> num articulado sonoro, que nada exprime<\/em>. \u00c9 evidente que a sugest\u00e3o de tal experi\u00eancia pouco ou nada importaria se o pr\u00f3prio autor n\u00e3o a tivesse vivenciado pessoalmente. E viveu. A palavra escolhida por Saramago foi \u201chorizonte\u201d, repetida insistentemente por ininterruptas cinquenta vezes para enfim descobrir que o prest\u00edgio que ela possui adv\u00e9m <em>do car\u00e1ter particular daquilo que exprime<\/em>. Ou seja, para Saramago o horizonte n\u00e3o simboliza apenas o espa\u00e7o que a vista abrange ou a linha que limita circularmente todas as partes da terra que se podem ver de um ponto determinado. Para ele, tal palavra possui dois sentidos: o pr\u00f3prio, que exprime a realidade contra a qual nada se pode fazer, posto nos ser imposs\u00edvel estar no horizonte, esse lugar que tanto mais se afasta quanto mais queremos nos aproximar. E h\u00e1 tamb\u00e9m o figurado, o que em verdade mais importa, pois \u00e9 o lugar no qual se aclaram as perspectivas do amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto tudo parece palp\u00e1vel, lava-se com o poder da palavra o rosto da realidade de pedra, afinal, existimos sobre o mesmo ch\u00e3o e sob o mesmo c\u00e9u, muito embora cada um de n\u00f3s traga consigo seu horizonte pessoal mais ou menos alargado, a depender do ponto de vista. Saramago nos guia para o ponto nevr\u00e1lgico do texto: a quest\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o pessoal. E assim, horizonte n\u00e3o \u00e9 mais um fen\u00f4meno dado apenas ao sentido da vis\u00e3o, mas \u00e0s perspectivas que a palavra revela em si e na conflu\u00eancia com tudo o que \u00e9 humano. Para uns significar\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o de um prop\u00f3sito, para outros, se revelar\u00e1 na satisfa\u00e7\u00e3o de se empreender qualquer tipo de esfor\u00e7o e n\u00e3o apenas no resultado final de sua consecu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhi tamb\u00e9m a minha palavra, e foi \u201csil\u00eancio\u201d, algo que uma alma irrequieta como a minha necessita em altas doses. Descobri muitos sil\u00eancios, o primeiro deles encontrei naquilo que fa\u00e7o agora. Escrever \u00e9 refletir e silenciar. Por sorte, o lugar onde escrevo \u00e9 o meu santu\u00e1rio, nada comparado \u00e0 turba que se faz l\u00e1 fora. A cidade e seus preg\u00f5es. E como escrever n\u00e3o se faz sem o ato de ler, o que requer penetrar <em>surdamente no reino das palavras<\/em>, como aconselha Drummond, um e outro verbo est\u00e3o intimamente relacionados ao substantivo sil\u00eancio. Mas existe outro sil\u00eancio, maior e mais duro, incrustado no \u00edntimo de cada um de n\u00f3s. Ele nos emudece aos gritos e se o conseguimos ouvir, l\u00e1 no fundo do nosso ser, estar\u00e1 dizendo de n\u00f3s o que pouco estamos acostumados e que a ningu\u00e9m necessitamos revelar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escuta-me, leitor, pois me revelo mudo. Disse isso em um poema. E se me coubesse fazer uma pergunta ao Sil\u00eancio, uma pergunta apenas, certamente seria a seguinte: O que anseia dizer? Ele responderia: de nada adiantam as palavras se n\u00e3o me conhece por dentro, se n\u00e3o consegue me ouvir. Eu sou a pedra de toque que a tudo transforma, arremataria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chega de divaga\u00e7\u00f5es existenciais. Melhor voltar ao Saramago e suas cr\u00f4nicas, pois nelas, assim como em tudo, e a tudo que faz, Saramago parece impor seu modo particular de enxergar vida e exist\u00eancia, sua atividade de escritor e o papel de intelectual, nunca se resignando, antes se indignando com todo tipo de iniquidade, certo de que um homem digno \u00e9 um vagabundo a menos no planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito mais poderia dizer sobre as cr\u00f4nicas do bardo lusitano, mas como se aproxima o hor\u00e1rio de estar na universidade e entregar o texto \u00e0 professora, pois como dizem os mais antigos: manda quem pode, atende quem tem ju\u00edzo, arrisco dizer, enfim, que, embora o g\u00eanero pare\u00e7a estar destinado a temas limitados no tempo, escritos para um leitor que compartilha desse tempo, a cr\u00f4nica, pelo seu valor intr\u00ednseco, ou seja, pelo seu hibridismo, encontra em Jos\u00e9 Saramago um dos cultores mais originais &#8211; quer pela gra\u00e7a, quer pela seriedade dos temas que aborda &#8211; e determinantes para a defini\u00e7\u00e3o da real dimens\u00e3o e <em>status<\/em> do g\u00eanero entre os g\u00eaneros liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Felic\u00edssimo<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e editor da Mondrongo Livros. Publicou \u201cDi\u00e1logos: panorama da nova poesia grapi\u00fana\u201d (Editus\/Via Litterarum, 2009) e \u201cBlues para Mar\u00edlia\u201d (Mondrongo, 2013). <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Felic\u00edssimo reflete sobre a cr\u00f4nica a partir de Jos\u00e9 Saramago<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15504,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1714,2533],"tags":[1725,11,1726,378,1727,914,750,751,1724],"class_list":["post-6928","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-88a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-a-cronica-e-a-cronica-de-jose-saramago","tag-aperitivo-da-palavra","tag-blues-para-marilia","tag-cronica","tag-dialogos","tag-ensaio","tag-gustavo-felicissimo","tag-jose-saramago","tag-mondrongo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6928"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6928\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15508,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6928\/revisions\/15508"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}