{"id":6965,"date":"2014-03-04T10:05:07","date_gmt":"2014-03-04T13:05:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6965"},"modified":"2018-11-23T10:19:01","modified_gmt":"2018-11-23T13:19:01","slug":"dedos-de-prosa-ii-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-20\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15491\" aria-describedby=\"caption-attachment-15491\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15491 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15491\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ozias Filho<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nelson e as flores<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixe-me ao menos as flores que te emprestaram o perfume, pois agora, espalhadas pelo caminho, s\u00e3o como um sorriso teu que n\u00e3o me deixa passar com a minha dor, de modo a impedir que v\u00e1s assim, magoada, bateando a porta e derrubando em mim a culpa que n\u00e3o \u00e9 par de um ato t\u00e3o leviano, quando te disseste, abra\u00e7ado ao viol\u00e3o, que iria partir sem saber se voltaria, que n\u00e3o me quiseste mal, pois era carnaval, e tu riste, um tanto distra\u00edda cantarolaste meu samba, mas verdade \u00e9 que, entre as estrofes, exaltavas a aurora de uma m\u00e1goa que n\u00e3o souberas esconder dos dias foli\u00f5es, e quando voltei (veja, \u00e9 claro que eu voltaria!) a encontrei pelos cantos, com os olhos rasos d\u2019\u00e1gua, para me inundar com amargura e injusti\u00e7a, dizendo que a partir de hoje eu era espinho em teu amor, que nosso jardim, ontem vi\u00e7oso, secou, e eu, ainda confuso e embriagado, tentei afrouxar teu desprezo, alegando que espinho n\u00e3o machuca a flor, mas isto s\u00f3 serviu para aumentar tua raiva, chamando-me de c\u00ednico, rei vadio, que sempre guardaste teus sorrisos para mim, teu zelo, e o que eu te reservaste?, a revela\u00e7\u00e3o, logo no primeiro carnaval, que foi um erro ter juntado minha alma \u00e0 tua, que \u00e9s sol que n\u00e3o pode viver perto da lua, a\u00ed conseguiste me inflamar, pois o carnaval amo antes de ti, ent\u00e3o repliquei que poderia sorrir para quem quiseste, e mesmo dizer que n\u00e3o me queria, mas n\u00e3o precisava me humilhar, pois nos olhos da mulher, teus olhos, eu sei quando ela quer abandonar o lar, e tu se calaste e, do caminho at\u00e9 porta, ouvi somente teus passos, o vaso com as nossas flores se despeda\u00e7ar pelo ch\u00e3o e meu \u00faltimo rompante, um tolo ultimato que pregava que se me disseste adeus, n\u00e3o pensaste mais em mim, que eu ficaria com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei que a f\u00e9 n\u00e3o consegue confortar o vazio do amor, mas tenho f\u00e9 que tu voltes, pois as flores, embora agredidas, ainda conservam o lastro do teu perfume como a certeza de que n\u00e3o foste por completo. Sinto, no meu peito, que, mais alguns minutos, a porta vai abrir uma fresta dos teus olhos e tu vais entrar, catando os cacos e as p\u00e9talas, e assumir que tudo n\u00e3o passou de um mal entendido, que o sol h\u00e1 de brilhar mais uma vez a clara luz que chegar\u00e1 aos nossos cora\u00e7\u00f5es, queimando, do mal, a semente e tornando o nosso amor eterno, sempre, novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentado na beira da cama que \u00e9 nossa e n\u00e3o minha, n\u00e3o posso aceitar que tudo se acabe neste dia de cinzas, marcado por sentimentos e costumes opostos ao que \u00e9 a nossa vida, e sim o espelho do que fui antes de te descobrir, quando o sol me era raro e a luz negra do destino cruel iluminava meu teatro sem cor, onde eu desempenhava o papel de palha\u00e7o, um louco de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes dias sempre s\u00f3, eu vivia procurando algu\u00e9m que sofria como eu tamb\u00e9m, mas n\u00e3o conseguia achar ningu\u00e9m, at\u00e9 que, naquela roda de samba, fingindo-me alegre, tocava meu viol\u00e3o, quando te vi, entre as cabrochas e as passistas, sozinha em um canto, desenhando em uma folha de papel de p\u00e3o. Passei toda a noite acumulando coragem para falar contigo e, quando finalmente me aproximei, tu me recebeste com censura, pensando que o convite era de dan\u00e7a, mas o convite era de sil\u00eancio, e descemos at\u00e9 a praia onde sentamos na areia e deixamos que nossas tristezas se conhecessem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante horas, foram s\u00f3 as nossas respira\u00e7\u00f5es mi\u00fadas se perdendo na estrondosa respira\u00e7\u00e3o do mar, ent\u00e3o tu me perguntaste se eu carregava tanta dor no peito, por que o samba? E eu respondi que sempre soube esconder a minha m\u00e1goa, sem que me vissem com os olhos rasos d\u2019\u00e1gua, fingindo-me alegre pro meu pranto ningu\u00e9m ver e achando feliz os contentes, aqueles que sabiam sofrer. Nem a m\u00e1goa pode calar meu viol\u00e3o, eu disse, e tu me beijaste e, a partir deste instante, gra\u00e7as a Deus, minha vida mudou, quem me viu quem me v\u00ea, a tristeza acabou, pois contigo aprendi a sorrir. Escondeste o pranto de quem sofreu tanto e organizaste uma festa em mim, que comemoramos enla\u00e7ados, quietos, para n\u00e3o descompassar o batuque que ainda hipnotizava o morro. Na manh\u00e3 seguinte, trouxe-te o desjejum e um buqu\u00ea verde de rosas, que pediste para p\u00f4r em um vaso, como um pedido para que ficasses para sempre com o meu amor. E tu sorriste, ajeitara-te com sonol\u00eancia e, cobrindo a nudez com o len\u00e7ol, disseste:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor \u00e9 como a flor, Nelson. Ele nasce e morre quando n\u00e3o se espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem braga, aproximei-me de teu ouvido e confessei:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode haver outra mulher t\u00e3o carinhosa, mas para mim \u00e9 apenas tu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dias que se passaram, constru\u00edmos um amor t\u00e3o duradouro quanto as flores que nunca perderam o vi\u00e7o. Agora ca\u00eddas, penso o qu\u00e3o ingrata foste por n\u00e3o considerar ao menos o que elas representam. Se bem que, avaliando a frieza das tuas primeiras palavras, assalta-me uma suspeita de que tu usaste o carnaval como pretexto para se livrar de um amor que, para ti, nunca de fato existiu. Pesando o rigor dos teus protestos sobre um ato t\u00e3o banal, sinto aflorar em mim o medo de que isto seja verdade e, inesperadamente, percebo uma l\u00e1grima descer pelo o meu rosto, anunciando o brotar do meu desgosto. Pois sempre fui bom para ti e, por ti, sem que soubeste, quase passei fome, apenas para honrar teu nome: o nome que te dei. Temo que, o princ\u00edpio de flores, tenha me feito t\u00e3o cego de amor que n\u00e3o percebi que eu era demais entre seus amores, e acabei trope\u00e7ando nos erros de uma mulher sem alma, que, no meu peito, abria uma ferida a sangrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se assim for, sei que s\u00f3 a f\u00e9 \u00e9 que me trar\u00e1 consola\u00e7\u00e3o para tanta humilha\u00e7\u00e3o que viverei a suportar. Olho para o rel\u00f3gio: s\u00e3o duas da manh\u00e3. Contrariado espero por ti. Aguardando amanhecer o dia e findar minha alegria, imagino qual ser\u00e1 o teu paradeiro, que at\u00e9 agora n\u00e3o voltou. J\u00e1 mesmo nem sei se voltar\u00e1s ou se me abandonaste de vez? A minha esperan\u00e7a est\u00e1 morrendo, e a saudade, no meu peito crescendo, \u00e9 o meu cora\u00e7\u00e3o que me diz que sem ti eu n\u00e3o serei feliz. Nada me resta, al\u00e9m da tristeza. Mas espere um pouco: n\u00e3o fui eu que te quiseste mal, foste tu que quiseste a mim. Posso ser um rei vadio, um poeta sem lei, por\u00e9m nunca vivi em v\u00e3o, fiz tantos amigos, muitos irm\u00e3os. Sempre plantei o bem, e, por que n\u00e3o iria colher o que mere\u00e7o? A felicidade pode tardar, mas tem meu endere\u00e7o. E, quando chegar, trar\u00e1 o samba: o desfile das campe\u00e3s, o \u00faltimo suspiro de um repique, um cavaquinho ao longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levanto-me para fechar a porta, dizer-te adeus e esperar o pr\u00f3ximo bloco atravessar, mas logo percebo que tudo n\u00e3o passa de ilus\u00e3o. Pois, quando passo perto das flores, elas me dizem assim: vai, Nelson, que amanh\u00e3 enfeitaremos o seu fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota do Autor:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nelson Cavaquinho era mestre da poesia de botequim. Sempre nas rodas dos bo\u00eamios, pernoitando numa mesa acessada por uma soma de parceiros musicais, trazia a lume hist\u00f3rias de indiv\u00edduos \u00e0 sombra de desilus\u00f5es amorosos, \u00e9brios, sustentando sobre a vida uma tonelada de pessimismo e de melancolia. Dizem que s\u00e3o de sua autoria mais de 400 composi\u00e7\u00f5es, muitas das quais negociadas por uma ninharia ou usadas como vales para hospedagens em pens\u00f5es baratas. Nascido no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em outubro de 1911, era filho de um policial militar, rumo que tomou at\u00e9 ser sequestrado pela malandragem, pela comunidade da Mangueira, pelo samba. A princ\u00edpio, tocava cavaquinho, depois abra\u00e7ou o viol\u00e3o, que fazia soar com o uso de dois dedos. Tamb\u00e9m peculiar era a sua voz roufenha, que trazia naturalmente um senso lamuriento para suas letras desditosas. Gravou quatro discos pr\u00f3prios e foi regravado por artistas do quilate de Nara Le\u00e3o, Elizeth Cardoso e Elis Regina. Morreu em fevereiro de 1986 como Nelson Ant\u00f4nio da Silva. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esse conto-colagem \u00e9 um tributo (certamente n\u00e3o o melhor, mas um honesto) montado com trechos das composi\u00e7\u00f5es \u2018A flor e o espinho\u2019, \u2018Ju\u00edzo final\u2019, \u2018O bem e o mal\u2019, \u2018Mulher sem alma\u2019, \u2018Quando eu me chamar saudade\u2019, \u2018Luz negra\u2019, \u2018Pode sorrir\u2019, \u2018Rugas\u2019, \u2018Vou partir\u2019, \u2019Duas horas da manh\u00e3\u2019, \u2018Palha\u00e7o\u2019, \u2018Amor que morreu\u2019 e \u2018Ninho desfeito\u2019.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Viva Nelson Cavaquinho!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tamb\u00e9m foi premiado no Concurso Liter\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Escola do Servi\u00e7o P\u00fablico (Fesp\/RJ) e tem textos publicados nas revistas \u201cCult\u201d, \u201cArte e Letra: Est\u00f3rias M\u201d, e no jornal \u201cC\u00e2ndido\u201d, entre outros. O livro de contos \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012) \u00e9 sua obra mais recente.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor S\u00e9rgio Tavares homenageia Nelson Cavaquinho <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6990,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1714,2534],"tags":[81,41,1744,1745,1023],"class_list":["post-6965","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-88a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-nelson-cavaquinho","tag-nelson-e-as-flores","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6965","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6965"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6965\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15493,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6965\/revisions\/15493"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}