{"id":6988,"date":"2014-03-04T10:42:39","date_gmt":"2014-03-04T13:42:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=6988"},"modified":"2014-03-05T14:54:19","modified_gmt":"2014-03-05T17:54:19","slug":"dedos-de-prosa-ii-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-21\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Alberto Pucheu<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_6967\" aria-describedby=\"caption-attachment-6967\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/interna1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6967\" title=\"Ozias Filho\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/interna1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/interna1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/interna1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6967\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ozias Filho<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EM OUTRAS PALAVRAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">havia se passado oito ou dez anos desde a data em que diziam ele ter nascido, ainda que isso n\u00e3o fizesse, ent\u00e3o, qualquer sentido para ele, nem agora, quase quarenta anos depois. ele havia sentido diversas vezes o que s\u00f3 conseguia expressar pela palavra esquisito (e com nenhuma outra), mas, quando se lembra disso, lembra-se de ter dito a palavra \u00e0 sua m\u00e3e na garagem do pr\u00e9dio em que moravam, entre carros, azulejos, um v\u00e3o central, alum\u00ednios e l\u00e2mpadas fluorescentes. n\u00e3o era uma palavra m\u00e1gica, sua m\u00e3e n\u00e3o entendia o que ele se esfor\u00e7ava em dizer. era uma palavra insuficiente, equivocada, que n\u00e3o funcionava, que ele sabia n\u00e3o dar minimamente conta do que estava sentindo, da mesma maneira que nenhuma outra serviria a tal fim, inclusive as que vieram mais tarde, e ainda v\u00eam, carregadas de peso, como aus\u00eancia, nada, vazio, ang\u00fastia, morte&#8230; em algum lugar, ele intu\u00eda a verdade, e ainda hoje a confirma: nenhuma palavra pode expressar isso que, uma vez sentido, n\u00e3o deixou de retornar, imprevis\u00edvel e incansavelmente, encontrando-o at\u00e9 n\u00e3o mais o largar, at\u00e9 se tornar seu cotidiano, at\u00e9 se tornar um mais cotidiano que o habitualmente chamado cotidiano, isso para o que nunca houve um antes nem um depois, sendo por fora do que se costuma chamar de tempo, isso para o que ele n\u00e3o tem nem nunca teve nem jamais ter\u00e1 nenhum acesso, nenhuma l\u00edngua, nenhuma tradu\u00e7\u00e3o, nenhuma gram\u00e1tica. diante da impossibilidade que lhe comparecia, acatou que a \u00fanica sa\u00edda para ser fiel \u00e0 partilha do acontecimento era tra\u00ed-lo, tra\u00ed-lo amorosamente. a solu\u00e7\u00e3o encontrada foi falar por sobre isso, em torno disso, com isso sendo uma esp\u00e9cie de buraco negro para todo o dito, que sofria sua atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel. quem sabe um dia, ao menos, um quanto qualquer dessa for\u00e7a deixaria um vest\u00edgio, pequeno que fosse, no dito. ele permaneceu bem ali, no meio, entre uma experi\u00eancia para a qual n\u00e3o havia palavras e palavras desprovidas de toda e qualquer experi\u00eancia, entre n\u00e3o dizer nada e falar o que pudesse, como a mem\u00f3ria paradoxal desse esquecimento das palavras que, sabendo de cor, lhe concernia mais que todo o resto. talvez, o melhor que ele conseguisse fazer fosse um murm\u00fario indecifr\u00e1vel de todas as frases soando juntas, homogeneamente mon\u00f3tonas, ao fundo de cada palavra que n\u00e3o quisesse se sobrepor \u00e0s suas vizinhas. talvez seja isso que ele tenha passado a vida buscando, explico, n\u00e3o exatamente a palavra que dissesse enfim o imposs\u00edvel de ser dito, mas uma tranquilidade qualquer com o inacess\u00edvel, um poder estar \u00e0 vontade com a ignor\u00e2ncia do que, nele, sem deixar de ser o mais estranho, sempre foi e \u00e9 o mais \u00edntimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RASCUNHO EM QUARTO DE HOTEL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">as marcas de uma vida que se exila em palavras, que, desde o tempo presente, para ofert\u00e1-lo ao outro, o abandona, transformando-a \u2013 uma vida \u2013 numa sintaxe, num murm\u00fario, num resqu\u00edcio de paisagens mais ou menos esperadas de afetos e pensamentos cruzados, s\u00e3o nervos expostos, s\u00e3o cora\u00e7\u00f5es expostos, uns peda\u00e7os do cotidiano expostos, de tal maneira que haja ali (ou talvez por isso tudo seja mesmo melhor dizer logo aqui) a puls\u00e3o de uma vida di\u00e1ria, de uma alegria di\u00e1ria, de uma melancolia di\u00e1ria, a mensagem de um amigo denominado ou an\u00f4nimo, tanto faz, d\u00e1 no mesmo, a minha mensagem, a de um eu, denominado ou an\u00f4nimo, tanto faz, d\u00e1 no mesmo, para um amigo que me escreveu, uma trepada de um amor denominado ou an\u00f4nimo, tanto faz, d\u00e1 no mesmo, umas palavras er\u00f3ticas ou pol\u00edticas ou quaisquer que sejam que se mostram fora de sua proveni\u00eancia, a radicalidade de um esporte que n\u00e3o se sabe a que n\u00edvel foi de fato feito, se \u00e9 que foi feito, tudo, enfim, est\u00e1 ali, ou talvez por isso mesmo seja logo melhor dizer que tudo enfim est\u00e1 aqui, ou talvez que o ali e o aqui n\u00e3o precisam se encontrar, que \u00e9 melhor que n\u00e3o se encontrem, que \u00e9 melhor que se mantenham irreconciliados, que mantenham sua fresta, seu fosso, sua dist\u00e2ncia, para que nenhum dos dois queira se tornar uma condi\u00e7\u00e3o preponderante sobre a outra, para que seus res\u00edduos sobrevivam disparatados, para que inclusive voc\u00ea que me acompanha, para que voc\u00ea que est\u00e1 aqui comigo agora, possa estar tamb\u00e9m, a um s\u00f3 tempo, como eu posso dizer que estou, aqui e ali, ou em um intervalo qualquer entre o aqui e o ali, mesmo que eu nem saiba muito bem onde seja este aqui e esse ali,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Alberto Pucheu<\/em><\/strong><em> nasceu em 1966. Em 2007, reuniu seus livros de poemas em &#8220;A fronteira desguarnecida&#8221; (poesia reunida 1993-2007), pela Azougue Editorial. Em 2013, publicou &#8220;mais cotidiano que o cotidiano&#8221;, pela mesma editora. Tem publicado livros de ensaios, realizou a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Palavras&#8221;, na Oi Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual. Alguns de seus poemas participaram de videos de Danielle Fonseca e Gabriela Capper, todos no youtube.<\/em><em><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O estranho tra\u00e7ado da palavra na prosa de Alberto Pucheu<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6967,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1714,2534],"tags":[1734,41,1735,1736],"class_list":["post-6988","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-88a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-alberto-pucheu","tag-dedos-de-prosa","tag-em-outras-palavras","tag-rascunho-em-quarto-de-hotel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6988"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6988\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7099,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6988\/revisions\/7099"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}