{"id":7220,"date":"2014-03-29T19:02:31","date_gmt":"2014-03-29T22:02:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7220"},"modified":"2018-11-27T10:52:26","modified_gmt":"2018-11-27T13:52:26","slug":"dedos-de-prosa-iii-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-21\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Tere Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_7222\" aria-describedby=\"caption-attachment-7222\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA15.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7222\" title=\"Leonardo Mathias\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA15.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA15.jpg 349w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/INTERNA15-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7222\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Leonardo Mathias<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tempo de L\u00edrios<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nem era primavera. Ajustou as meias e os cord\u00f5es dos sapatos. O tom flamingo se espelhava em cada part\u00edcula da paisagem. Dialogando com as abstra\u00e7\u00f5es, o instinto persistente da consci\u00eancia desprovido de qualquer disfarce. As formas brancas, curvas, de centros amarelos e perfumes inolvid\u00e1veis permaneciam num emudecido encontro com tudo. A intolerante pergunta era s\u00f3 mais um p\u00e1ssaro entre outros dez mil p\u00e1ssaros pousados em suas vestes. Por que tudo \u00e9 encontro? A partir dali n\u00e3o haveria brisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconheceu de imediato o desassossego entrela\u00e7ado das \u00e1rvores. Chegara, finalmente. E era como se tamb\u00e9m tivesse chegado o ardor pulsante do que n\u00e3o se extinguiria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe do regresso, quem pode dizer sobre o que parte e acorda da sombra, da saga vulgar dos impulsos, das subst\u00e2ncias e rupturas floridas da ilus\u00e3o que, a cada irromper do amanh\u00e3, desprezam algo de si mesmas?\u00a0 Desabrochar \u00e9 um v\u00edcio necess\u00e1rio. Do esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haveria de se perder tantas vezes quantas fossem sublimadas as suas for\u00e7as. Tinha a impress\u00e3o de levar consigo mais do que lhe era poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Soprando de um lugar ignorado um retalho igualmente irreconhec\u00edvel debru\u00e7ava-se sobre a nudez da claridade \u2013 a segrega\u00e7\u00e3o de tudo quanto era conhecido e t\u00eanue. \u201cTalvez n\u00e3o fosse eu\u201d disse sobriamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo parecia se materializar, a despeito das folhas ca\u00eddas e dos anseios impacientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No jardim, no instante lento e perplexo do luar, nem o pai, nem o irm\u00e3o, nem os filhos. S\u00f3 uma cr\u00e9dula brancura. A que, irredutivelmente, colhia na sinuosidade do pr\u00f3prio rosto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Me ninas dos olhos <\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u201cA nitidez \u00e9 uma conveniente distribui\u00e7\u00e3o de luz e sombra.\u201d<\/em><br \/>\nGoethe<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolveu conversar com as pupilas. N\u00e3o havia como isentar-se dos reflexos \u2013 apropriar-se \u00e9 perder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltou para a rua. Sentiu, secretamente, uma indiz\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio ao perceber a possibilidade de atravessar grande parte do percurso sem permitir atormentar-se\u00a0com sentimentos comuns. Multid\u00f5es de vis\u00f5es perdidas. Afinal, quem assumiria sem o risco do erro, a licen\u00e7a para aferir com exatid\u00e3o, ou total isen\u00e7\u00e3o, o conden\u00e1vel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Investigou com toda a suavidade poss\u00edvel, detendo-se nos semblantes, tentando n\u00e3o infringi-los, como se adentrasse em sulcos intermin\u00e1veis \u2013 usava materiais conhecidos e desconhecidos para percorr\u00ea-los, acreditando ter desenvolvido, ainda que rudimentarmente, um m\u00e9todo eficaz de observa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se curvaria diante de nada im\u00f3vel, opaco. Altares da alma \u2013 assim chamava os olhares \u2013 como afugentar aquelas persegui\u00e7\u00f5es vivazes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De algumas pupilas retirou dist\u00e2ncias, sorrisos pl\u00e1sticos, todas as fundi\u00e7\u00f5es do arco-\u00edris.\u00a0 De outras, frases inteiras que mais pareciam um enorme lual de estampas confusas e c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era poss\u00edvel ver um imponder\u00e1vel manto de cores e interpretar o que nem imaginava compreender. De modo que lia os olhares difusamente e, retratados na sua incredulidade interior, tamb\u00e9m seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia outra apar\u00eancia que n\u00e3o fosse a que definitivamente se destacava da estranha profundidade de todas elas, pela simples raz\u00e3o de n\u00e3o haver raz\u00e3o para serem diferentes do que realmente eram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um par, pulsantemente castanho e singular, que conseguiu prend\u00ea-lo, talvez, por toda vida: o que vagava dizendo-lhe o que via sem nada revelar, e que o fez absorver-lhe a voz com selvagem interesse: \u201cSou a dos sentidos de cristal, a afortunada sofredora que tem \u00e0 sua frente o rol das futilidades repletas, a que nada promete, exceto que haver\u00e1 encanto enquanto durar o mist\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Clemente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sol sumia por entre as pedras entristecidas. As ondas, como enormes ma\u00e7os de nostalgia, esparramavam-se incansavelmente sobre a imensid\u00e3o difusa da praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma vez um desvairado pairando sobre a vastid\u00e3o. Atravessou a crueza da sombra e foi ter com os rochedos. Era poss\u00edvel que estivesse num lugar onde provasse toda a sorte de sensa\u00e7\u00f5es. Seu objetivo era o lado oposto. L\u00e1 encontrou ondas maiores e amea\u00e7adoras. Algu\u00e9m vendia ilus\u00f5es a cinco reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolveu retornar ao lugar de onde viera. Sentia-se vigiado. Sequer se lembrava dos seus. No brilho dos finos gr\u00e3os de areia, como redigidos por uma estrela de meio-dia, lia-se o motivo de cada ser que ali houvesse aportado. Seriam leg\u00edveis aos outros os passos que dava na mesma propor\u00e7\u00e3o que lhe eram n\u00edtidos os rastros dos outros?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desvairado, contorcido pelas bifurca\u00e7\u00f5es do pensamento, almejava estar diante de outro cen\u00e1rio. \u00a0Mal podia conter o torpor da sua terr\u00edvel ansiedade. \u201cDeves sentir cada dire\u00e7\u00e3o escolhida, seja como for\u201d. Aplaudiu ao sinal como quem se agarra ao intranspon\u00edvel. \u201cTer\u00e1s de sentir tamb\u00e9m esses ares rec\u00e9m plantados, e os infinitos. Queres? Quem sabe as areias movedi\u00e7as? N\u00e3o recomendo que te satisfa\u00e7as t\u00e3o rapidamente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atendeu sorrindo com a febril consci\u00eancia de um ponto sem ponto. Provara a todos e a si mesmo \u2013 a mente liberta o fazia sentir-se lucidamente fecundo, euf\u00f3rico. O primeiro nascimento, o segundo viver, o terceiro t\u00e9rmino. N\u00e3o lutou contra a can\u00e7\u00e3o espiralada no peito. Brincou com os seixos. Guardou alguns b\u00fazios. N\u00e3o se tornaria opaco outra vez. Era como se repartisse a pr\u00f3pria vida sobre um tabuleiro intermin\u00e1vel, o del\u00edrio cinza e sublime \u2013 sem perceber a loucura que o acompanharia at\u00e9 o c\u00e9u.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/m-eusoutros.blogspot.com.br\/ \"><strong><em>Tere Tavares<\/em><\/strong><\/a> <em>\u00e9 escritora e artista pl\u00e1stica. Autora de tr\u00eas livros publicados: \u201cFlor Ess\u00eancia\u201d (2004), \u201cMeus Outros\u201d (2007) e \u201cEntre as \u00c1guas\u201d (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atmosfera de descobertas na prosa de Tere Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15580,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1768,2534],"tags":[1800,41,1801,1799,1798,693],"class_list":["post-7220","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-89a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-clemente","tag-dedos-de-prosa","tag-m-eusoutros","tag-meninas-dos-olhos","tag-tempo-de-lirios","tag-tere-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7220"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15582,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7220\/revisions\/15582"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}