{"id":7465,"date":"2014-04-30T15:25:17","date_gmt":"2014-04-30T18:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7465"},"modified":"2014-06-05T17:10:02","modified_gmt":"2014-06-05T20:10:02","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-25\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No hiato que perpassa sil\u00eancio e cria\u00e7\u00e3o, um vasto acervo de percursos da mem\u00f3ria vivente constr\u00f3i seu \u00edntimo habitat. O est\u00e1gio silente \u00e9 o preceptor de \u00edmpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gesta\u00e7\u00e3o de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada mir\u00edade de abstra\u00e7\u00f5es de toda ordem. O que dizer tamb\u00e9m da perspic\u00e1cia necess\u00e1ria a quem deve reproduzir com agudeza de esp\u00edrito instant\u00e2nea aquilo que a exist\u00eancia lhe oferta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percep\u00e7\u00f5es, letras e imagens parece ser miss\u00e3o das mais intricadas. Tudo ganha especial dimens\u00e3o quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa converg\u00eancia que se faz t\u00e3o marcante, o escritor e fot\u00f3grafo <a href=\"http:\/\/oziaspoeta.wix.com\/ozias-filho-photo \"><strong>Ozias Filho<\/strong><\/a> empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cen\u00e1rios. Para Ozias, dedicar-se \u00e0 literatura e \u00e0 fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar po\u00e9tico sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atua\u00e7\u00e3o, o criador se depara com a idealiza\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria Pas\u00e1rgada, lugar em que a perspectiva do humano \u00e9 elevada a um grau m\u00e1ximo de aprecia\u00e7\u00e3o. Trata-se de um territ\u00f3rio onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreens\u00e3o ampla a respeito de certos fen\u00f4menos do mundo em que habitamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num per\u00edodo complicado da trajet\u00f3ria pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recome\u00e7o. Dentre outras obras, publicou <em>Poemas do Dil\u00favio <\/em>(poemas &#8211; Ed. Alma Azul), <em>P\u00e1ginas Despidas <\/em>(poemas \u2013 Ed. Pas\u00e1rgada), <em>O rel\u00f3gio avariado de Deus <\/em>(poemas \u2013 Ed. Pas\u00e1rgada) e <em>Ar de Arestas <\/em>(poemas e fotografia \u2013 Ed. Pas\u00e1rgada), este \u00faltimo em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edi\u00e7\u00f5es Pas\u00e1rgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edi\u00e7\u00f5es de Autor. No di\u00e1logo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajet\u00f3ria foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sens\u00edveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo po\u00e9tico irrefre\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_7562\" aria-describedby=\"caption-attachment-7562\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7562\" title=\"Ozias Filho\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7562\" class=\"wp-caption-text\">Ozias Filho \/ Foto: Leonor Rego<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 em seu trabalho com a fotografia uma sensa\u00e7\u00e3o de desterritorializa\u00e7\u00e3o muito forte. Ali, a no\u00e7\u00e3o de pertencimento aparece com uma consider\u00e1vel amplitude e sinaliza espa\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras vis\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO &#8211;<\/strong> De fato, o meu trabalho n\u00e3o tem fronteiras vis\u00edveis, mas existe a quest\u00e3o do territ\u00f3rio, por mais indefinido que seja ele, pois eu fa\u00e7o parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, n\u00e3o um observador que precise definir o territ\u00f3rio daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, o seu n\u00e3o-lugar po\u00e9tico, talvez a sua Pas\u00e1rgada onde ele pode tudo, onde ele \u00c9. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras n\u00e3o est\u00e3o definidas, est\u00e1 por todo o lado \u00e0 espera que lhe prestemos a aten\u00e7\u00e3o devida. Contudo, para que isto aconte\u00e7a, torna-se necess\u00e1rio que reaprendamos a ver. \u00a0Melhor: que seja h\u00e1bito daquele que observa desconstruir cen\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O termo Pas\u00e1rgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imag\u00e9tico ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcend\u00eancia necess\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO &#8211;<\/strong> N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 necess\u00e1rio este lugar. Pas\u00e1rgada, ou outro local m\u00edtico que queiramos eleger, \u00e9 vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imag\u00e9tico em Pas\u00e1rgada, atrav\u00e9s de todo o trabalho desenvolvido nos \u00faltimos anos, com o espa\u00e7o et\u00e9reo da minha Pas\u00e1rgada po\u00e9tica. Eu preciso deste espa\u00e7o de catarse, este lugar de transcend\u00eancia que tu sugeres e tenho a certeza que outros tamb\u00e9m necessitam do mesmo! N\u00e3o \u00e9 apenas um ref\u00fagio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas tamb\u00e9m uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A s\u00e9rie &#8220;Quasinv\u00edsivel&#8221; percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo voc\u00ea reflete sobre a constata\u00e7\u00e3o desses, digamos assim, lugares de aus\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO &#8211; <\/strong>Reflito pedindo armas emprestadas \u00e0 poesia, ao l\u00edrico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares s\u00e3o de &#8220;aus\u00eancia&#8221; do ser humano f\u00edsico, real, como o conhecemos. Contudo, esta aus\u00eancia \u00e9 metaf\u00f3rica, pois ele se encontra l\u00e1 representado. A minha reflex\u00e3o, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos&#8230; acordamos todos os dias, abrimos os olhos e&#8230;. est\u00e1 tudo \u00e0 nossa frente, t\u00e3o f\u00e1cil, t\u00e3o dispon\u00edvel, t\u00e3o sem esfor\u00e7o que \u00e9 abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas ser\u00e1 que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, \u00e9 vero, mas vemos com precis\u00e3o, conseguimos desconstruir este mundo do imag\u00e9tico f\u00e1cil? Ou de t\u00e3o habituados que estamos ao massacre das imagens di\u00e1rias, assumimos um papel de aut\u00f4matos, com a vis\u00e3o pregui\u00e7osa.\u00a0 Quem n\u00e3o exercita a sua vis\u00e3o consegue ver o seu semelhante, o outro, para al\u00e9m da superf\u00edcie? Consegue ver a si mesmo para al\u00e9m do espelho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No seu caso, essa quest\u00e3o da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra tamb\u00e9m um car\u00e1ter antropol\u00f3gico de observa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; \u00c9 apenas um olhar de poeta, com todas as d\u00favidas e contradi\u00e7\u00f5es que esta forma de ver traduz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em um determinado momento de sua trajet\u00f3ria, voc\u00ea deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transi\u00e7\u00e3o e de que forma ela influenciou suas perspectivas de cria\u00e7\u00e3o tanto fotogr\u00e1ficas como liter\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; Desde o in\u00edcio da adolesc\u00eancia, sempre tive um fasc\u00ednio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de rel\u00f3gios, o sonho ganha uma dimens\u00e3o mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como at\u00e9 ent\u00e3o o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, n\u00e3o tinha me dado conta que para chegar \u00e0quela imagem n\u00e3o bastava s\u00f3 ver o cen\u00e1rio que me cercava, mas tamb\u00e9m uma t\u00e9cnica \u00e0 altura, que me permitisse concretizar determinada vis\u00e3o. Da\u00ed, eu n\u00e3o ter a m\u00ednima ideia que n\u00e3o se podia tirar o rolo da m\u00e1quina com a tampa detr\u00e1s aberta. Conclus\u00e3o: de um rolo de 36 imagens s\u00f3 sobrou uma em condi\u00e7\u00f5es de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas tamb\u00e9m acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge \u00e9 o texto como uma outra paix\u00e3o. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com tr\u00eas outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Ap\u00f3s um per\u00edodo de indefini\u00e7\u00e3o profissional, sigo para Portugal (gra\u00e7as \u00e0 politica recessiva do Collor de Melo) \u00e0 procura do t\u00e3o desejado Eldorado. O Brasil, nesta \u00e9poca, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e atrav\u00e9s delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e at\u00e9 mesmo em folhetos publicit\u00e1rios. Em 2005, crio as Edi\u00e7\u00f5es Pas\u00e1rgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde tamb\u00e9m me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblem\u00e1ticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para al\u00e9m de outros pa\u00edses de express\u00e3o e l\u00edngua portuguesas). O pr\u00eamio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro <em>Ar de Arestas<\/em>, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela m\u00e3o da fotografia\/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo s\u00e3o frutos do caminho percorrido. N\u00e3o existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha cria\u00e7\u00e3o, mas sim este ser h\u00edbrido de duas p\u00e1trias e as respectivas influ\u00eancias. Contudo, para mim, a grande mudan\u00e7a no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 poesia, mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de sil\u00eancios nas minhas imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_7563\" aria-describedby=\"caption-attachment-7563\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7563 \" title=\"Ozias Filho\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/INTERNA-2-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7563\" class=\"wp-caption-text\">Ozias Filho \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em &#8220;O Rel\u00f3gio Avariado de Deus&#8221;, voc\u00ea se aproxima muito das quest\u00f5es sociais do Brasil, sobretudo no que se refere \u00e0 viol\u00eancia urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. H\u00e1 alguma esp\u00e9cie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; H\u00e1 um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que \u00e9 tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder p\u00fablico com as popula\u00e7\u00f5es. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, j\u00e1 que ao longo do seu percurso, sobretudo democr\u00e1tico, n\u00e3o cuidou dos aspectos b\u00e1sicos, tais como a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu &#8220;Rel\u00f3gio&#8221;, \u00e9 talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. N\u00e3o quero dizer que o que se passa no Rio n\u00e3o aconte\u00e7a em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias \u00e9 regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste rel\u00f3gio &#8211; constantemente avariado &#8211; h\u00e1 outros tipos de viol\u00eancia menos vis\u00edveis. Por exemplo, aquela viol\u00eancia de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia ap\u00f3s dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em se tratando de Brasil, podemos tamb\u00e9m falar numa mem\u00f3ria afetiva a permear seus versos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; Os meus versos est\u00e3o contaminados por variada mem\u00f3ria afetiva. Mas ela n\u00e3o se encontra apenas no Brasil (talvez no livro <em>O rel\u00f3gio avariado de Deus<\/em> estas mem\u00f3rias estejam mais \u00e0 flor da pele), mas tamb\u00e9m est\u00e3o por muitos cantos desta mem\u00f3ria coletiva de imigrante que ora tem p\u00e1tria, ora tem mais de uma p\u00e1tria e, tamb\u00e9m, por vezes, n\u00e3o tem p\u00e1tria nenhuma, ou seja, mem\u00f3ria afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pas\u00e1rgada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0A forma como voc\u00ea engendra a poesia \u00e9 algo que chama a aten\u00e7\u00e3o de quem se aprofunda em seus versos. No livro \u201cP\u00e1ginas Despidas\u201d, por exemplo, h\u00e1 um poema, intitulado\u00a0<em>verdade submersa<\/em>, cuja imagem maior deriva das m\u00faltiplas apreens\u00f5es do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstra\u00e7\u00e3o. No seu caso, a g\u00eanese da palavra vem orientada por um sentido total de liberta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; <em>S\u00f3 a palavra quebra o sil\u00eancio<\/em>, uma das ep\u00edgrafes deste livro,\u00a0traduz em parte esta minha rela\u00e7\u00e3o entre palavra e sil\u00eancio. Contudo, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de iguais, mas sim de depend\u00eancia, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, j\u00e1 que s\u00f3 consegue o estatuto de igualdade quando encontra no sil\u00eancio do outro, de quem l\u00ea, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus sil\u00eancios) o que a palavra n\u00e3o conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas m\u00e3os do escritor. H\u00e1 uma defasagem entre este enorme mar chamado sil\u00eancio (que n\u00e3o \u00e9 pac\u00edfico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta liberta\u00e7\u00e3o total n\u00e3o existe e &#8211; utilizando uma reflex\u00e3o do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA &#8211; \u00e9 como o horizonte; pois o conseguimos nome\u00e1-lo porque o vemos, sabemos que ele n\u00e3o existe para al\u00e9m da vis\u00e3o, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como poeta, voc\u00ea se considera um transgressor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; Penso que ser poeta \u00e9 exercitar o ato da toler\u00e2ncia. Contudo, nos dias que correm, v\u00ea-se esta apenas na ret\u00f3rica&#8230; e talvez no passado ainda tenha sido pior neste cap\u00edtulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidad\u00e3o) \u00e9 uma transgress\u00e3o, ent\u00e3o sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgress\u00e3o reside na constru\u00e7\u00e3o da minha poesia, o que posso lhe dizer \u00e9 que n\u00e3o sei. N\u00e3o sei o que \u00e9 isso. Esta \u00e9 uma leitura que cabe aos leitores, aos cr\u00edticos, uma observa\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Muito se fala sobre a quest\u00e3o da leitura no Brasil, evocando-se a m\u00e1xima de que somos um pa\u00eds de escassos leitores. Em Portugal, voc\u00ea leva a cabo outra fei\u00e7\u00e3o sua, que \u00e9 a de editor. Qual reflex\u00e3o voc\u00ea faz do comportamento do leitor portugu\u00eas e o que, na sua percep\u00e7\u00e3o, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais \u00e9 uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes s\u00e3o lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ci\u00eancias Sociais, o espa\u00e7o nas livrarias \u00e9 cada dia menor. A minha esperan\u00e7a reside na Internet\/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, t\u00eam que matar um le\u00e3o por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e l\u00e1 permanecerem com a const\u00e2ncia suficiente para que tenham visibilidade perante o p\u00fablico.\u00a0 Acredito que a Internet, atrav\u00e9s das redes sociais, blogues, p\u00e1ginas de literatura e tudo isso conjugado por contamina\u00e7\u00e3o em escala, acabar\u00e1 por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu pr\u00f3prio p\u00fablico. Confio tamb\u00e9m nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edi\u00e7\u00f5es Pas\u00e1rgada (edi\u00e7\u00f5es numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e \u00fanicas edi\u00e7\u00f5es, mas com um pre\u00e7o agrad\u00e1vel aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consist\u00eancia, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcan\u00e7ando novos leitores, por um lado, e\u00a0fugindo ao circuito habitual\u00a0do com\u00e9rcio de livros.\u00a0Utilizar a virtualidade como suporte \u00e0 fun\u00e7\u00e3o editorial.\u00a0Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro f\u00edsico tem tamb\u00e9m os seus apelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que voc\u00ea encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; A resposta (se \u00e9 que existe de fato) \u00e9 o pr\u00f3prio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) n\u00e3o existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolu\u00e7\u00e3o de um &#8220;problema&#8221; hoje se desfaz na espuma do pr\u00f3ximo questionamento. \u00c9 sempre um recome\u00e7ar\u00a0<em>ad infinitum\u00a0<\/em>ou, para usar um pensamento atribu\u00eddo a S\u00f3crates, sobejamente conhecido,\u00a0<em>s\u00f3 sei que nada sei<\/em>\u00a0&#8230;. n\u00e3o obstante&#8230;\u00a0<em>\u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo<\/em><em>\u00a0<\/em>(\u00c1lvaro de Campos). O que sei, e posso afirm\u00e1-lo com propriedade, \u00e9 que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido\u00a0<em>lato sensu<\/em><em>,<\/em>\u00a0fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da exist\u00eancia do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OZIAS FILHO<\/strong> &#8211; O que espero de mim pr\u00f3prio \u00e9 nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista, o escritor e fot\u00f3grafo Ozias Filho fala sobre como a poesia move seus caminhos de criador <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7536,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1837,16,2539],"tags":[1890,1888,1887,63,66,1889,1765,8,17,385],"class_list":["post-7465","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-90a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-aldeiabook","tag-ar-de-arestas","tag-edicoes-pasargada","tag-entrevista","tag-fotografia","tag-o-relogio-avariado-de-deus","tag-ozias-filho","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia","tag-portugal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7465"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7917,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465\/revisions\/7917"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7536"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}