{"id":7484,"date":"2014-05-01T10:47:48","date_gmt":"2014-05-01T13:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7484"},"modified":"2014-05-03T17:01:03","modified_gmt":"2014-05-03T20:01:03","slug":"dedos-de-prosa-iii-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-22\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Nelson Alexandre<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_7485\" aria-describedby=\"caption-attachment-7485\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7485\" title=\"Nathalia Bertazi\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7485\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Nathalia Bertazi<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Paci\u00eancia ou das efem\u00e9rides aos desejos n\u00e3o realizados<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leva-se tempo. Para tudo. Sim, mas nem sempre estamos pacientes para compreender isso. Para apurar isso como um ourives diante de uma pe\u00e7a rara. Paci\u00eancia \u00e9 um adjetivo que supostamente todos diagnosticam como um elemento raro, por\u00e9m de suma import\u00e2ncia para nossas miudezas cotidianas. Paci\u00eancia \u00e9 algo que, como eu havia dito antes, requer a habilidade cir\u00fargica do m\u00e9dico comprometido com seu paciente mais terminal. Nas efem\u00e9rides, ou mais popularmente no nosso memorial do dia a dia, a paci\u00eancia, inquestionavelmente, vai se imiscuindo no lampejo de um raio cortando uma nuvem roxa e carregada de chuva e trov\u00f5es explodindo os t\u00edmpanos mais desavisados. Mas raivas \u00e0 parte, tudo deve ser deitado, repousado nos bra\u00e7os elegantes dessa senhora de idade inquestion\u00e1vel que resolvi chamar de paci\u00eancia. Eu mesmo nunca a dominei, e, desesperadamente, de alguns meses para c\u00e1, muito me reivindica essa bela senhora que jamais me responde quando grito. Quando espero uma advert\u00eancia por ser t\u00e3o insistente em testar sua incomensur\u00e1vel leveza com o meu rev\u00e9s de seu sil\u00eancio pl\u00e1cido. \u00c0s vezes, imagino que a paci\u00eancia \u00e9 como Arvo P\u00e4rt&#8230; Como um lago escondido em algum lugar do Canad\u00e1 ingl\u00eas, e por que n\u00e3o do franc\u00eas? Em sua leitura profunda, nas \u00e1guas mais in\u00f3spitas, est\u00e1 l\u00e1 a dama agarrada em algum galho olhando at\u00e9 quando seus pulm\u00f5es aguentam. At\u00e9 quando seus olhos poder\u00e3o ficar arregalados como um baiacu pronto para explodir como uma granada viva e cheia de escamas letais ao entrarem em contato com a pele, os m\u00fasculos e membros alheios. Eu nunca saberia morrer com a paci\u00eancia do peixe pescado e mantido vivo no sambur\u00e1 para depois ser abatido, destrinchado e saboreado com algum vinho branco de nome com som inaud\u00edvel em portugu\u00eas. Quando vou ao supermercado, meu carrinho \u00e9 constantemente carregado de impaci\u00eancia: Miojo ao inv\u00e9s de uma boa pasta italiana, molho enlatado ao inv\u00e9s de uns bons e vermelhos tomates bem maduros, uma garrafa de qualquer refrigerante ao inv\u00e9s de laranjas amarelas e radiantes como os raios do sol visto do fundo do lago congelado&#8230; A senhora paci\u00eancia que me perdoe, mas como sou testado para me enquadrar em seu comportamento de c\u00e9u infinito e iluminado visto do telhado de algum pr\u00e9dio abandonado. Em meu carrinho tamb\u00e9m entram os sacos de batatas prontas para serem fritas e n\u00e3o as que precisam ser descascadas enquanto servimos mais uma ta\u00e7a de vinho para algu\u00e9m que ainda n\u00e3o chegou, que provavelmente deve estar em um \u00f4nibus cheio, ou quem sabe retornando para casa de t\u00e1xi lendo algum livro ou achando engra\u00e7ado algum \u201cdejavi\u201d com o personagem do filme de 1976 de Martin Scorsese. O mundo \u00e9 um moinho&#8230; Mas minha convers\u00e3o ao estado de esp\u00edrito dessa senhora desenha-se em p\u00e3o feito na hora, quente, com manteiga derretendo em seu interior c\u00e1ustico, vulc\u00e2nico e at\u00e9 mesmo er\u00f3tico. Sempre fui er\u00f3tico e n\u00e3o pornogr\u00e1fico. N\u00e3o sou um desqualificado, nem maldoso, nem vingativo, mas um sem teto do acalanto dessa senhora que me v\u00ea como um autista\/anarquista que gosta de fazer compras \u00e0s ter\u00e7as-feiras chuvosas e melanc\u00f3licas. \u00c9 do meu feitio considerar as partes antes do todo, pois de finitude sou um ginasiano que ainda ama platonicamente aquela mo\u00e7a meiga que agora \u00e9 uma mulher que tamb\u00e9m empurra carrinhos de compras e sempre fica indecisa na hora de acertar as contas, se ainda falta alguma coisa para completar o grande buraco negro das despensas da alma, mas de uma alma sadia e que preserva ainda algum resqu\u00edcio de boa vontade em descascar as batatas e cozinh\u00e1-las para fazer um pur\u00ea com molho de amor&#8230; Pois essa cozinha est\u00e1 completamente desprovida dos temperos do amor e da paci\u00eancia. Como o mundo que Cartola, se estivesse vivo, ainda haveria de chorar com seu viol\u00e3o em notas aquosas e cheias de cebolinha e cheiro verde. Odeio truco, e jamais tive paci\u00eancia para aprender, observar e muito menos jogar esse jogo oriundo de butecos mal ajambrados e cheios de sujeitos que passam longe do v\u00edcio que Dostoievski dedicou num livro inteiro e que, \u00f3bvio, nada tem a ver com o joguinho brazuca que tanta gente gosta para subir em mesas ou cadeiras e alavancar a voz aos mais detonantes decib\u00e9is que sua pobre alma pode suportar. \u00c0s vezes, e muitas vezes, j\u00e1 sonhei que era o conde Vlade para decretar o empalamento em pra\u00e7a p\u00fablica aos amantes dessa inhaca chamada truco&#8230; Desejo&#8230; Mas&#8230; Enfim, prefiro lembrar sim das continuidades existentes do meu amor plat\u00f4nico por essa senhora que me resigna apenas a ler e ver minhas mensagens mandadas de setores nobres do sentimento humano, mesmo que por certos momentos diluvianos eu perca a f\u00e9 e a esperan\u00e7a de um dia t\u00ea-la em meus bra\u00e7os e dizer, sem empolamentos parnasianos, que quero descascar as batatas e servi-la de mais uma ta\u00e7a daquele vinho inaud\u00edvel se pronunciado em portugu\u00eas. Quero te levar ao cinema numa quarta-feira tamb\u00e9m chuvosa, \u00e0 tarde, clandestinamente, como amantes que fogem do trampo e d\u00e3o uma esticadinha ao motel, mas acho motel broxante, prefiro uma casa isolada numa ch\u00e1cara com riacho e com cachoeira no fundo. Dois rios caudalosos, o da cachoeira e do meu bom mocismo induzido pelos seus carinhos de menina abandonada \u00e0 pr\u00f3pria sorte na selva de pedra. Eu tamb\u00e9m quero lembrar que de tudo um pouco nessa vida precisa do aux\u00edlio dessa senhora que acalanta estressados e estressadas para um caminho mais brando, suavizado pelo amor, e, claro, por uma boa comidinha feita na hora, pois amor de barriga vazia \u00e9 sin\u00f4nimo de picaretagem em aula de mantras em Nova D\u00e9lhi. Incurs\u00f5es em partes para chegar-se ao todo, sen\u00e3o a vida idealizada e maravilhosa, que tanto mora em efem\u00e9rides e desejos, vira: \u201cfuck you!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Nelson Alexandre<\/em><\/strong><em> nasceu em Maring\u00e1 \u2013 Paran\u00e1. \u00c9 autor de \u201cParidos e Rejeitados\u201d (Contos, 2012) e \u201cPoemas para quem n\u00e3o me quer\u201d (Poesia, 2013), ambos publicados pela editora Multifoco \u2013 RJ. Em 2005, recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa no prestigiado Concurso de Contos Newton Sampaio, onde viu seu trabalho ser publicado pela primeira vez em uma colet\u00e2nea. Teve textos publicados tamb\u00e9m pelas revistas: Literacia, Outras Palavras, Flores do Mal e Diversos Afins. \u00c9 graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maring\u00e1. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuances da paci\u00eancia no conto de Nelson Alexandre<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7485,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1837,2534],"tags":[81,41,1859,824,821,1858,1860,1861],"class_list":["post-7484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-90a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-editora-multifoco","tag-maringa","tag-nelson-alexandre","tag-paciencia","tag-paridos-e-rejeitados","tag-poemas-para-quem-nao-me-quer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7484"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7631,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7484\/revisions\/7631"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}