{"id":7514,"date":"2014-05-01T11:41:05","date_gmt":"2014-05-01T14:41:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7514"},"modified":"2014-05-03T23:40:57","modified_gmt":"2014-05-04T02:40:57","slug":"dropssetimaarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dropssetimaarte\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ninfoman\u00edaca (<em>Nymphomaniac<\/em>). Dinamarca. 2013.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Ninfoman\u00edaca-MENOR.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7554\" title=\"Ninfoman\u00edaca\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Ninfoman\u00edaca-MENOR.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Ninfoman\u00edaca-MENOR.jpg 341w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Ninfoman\u00edaca-MENOR-204x300.jpg 204w\" sizes=\"auto, (max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ninfoman\u00edaca, Volumes I e II<\/em>, encerra a quarta grande trilogia de Lars von Trier, cineasta dinamarqu\u00eas, assim denominada \u201cTrilogia da Depress\u00e3o\u201d. Os outros dois filmes dessa trilogia s\u00e3o <em>O Anticristo<\/em> e <em>Melancolia<\/em>. Todos os filmes t\u00eam em comum a presen\u00e7a de Charlotte Gainsbourg como protagonista. Em <em>Melancolia<\/em>, ela divide com a atriz Kirsten Dunst o papel principal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com exce\u00e7\u00e3o da primeira trilogia, \u201cEuropa\u201d, todos os filmes das demais trilogias s\u00e3o protagonizados por mulheres. Na \u201cTrilogia do Cora\u00e7\u00e3o de Ouro\u201d (filmes <em>Ondas do Destino<\/em>, <em>Os Idiotas<\/em> e <em>Dan\u00e7ando no escuro<\/em>), as protagonistas s\u00e3o mulheres que mant\u00eam a integridade, a bondade e a firmeza no decorrer de uma experi\u00eancia sacrificial. Na trilogia \u201cEstados Unidos, Terra das Oportunidades\u201d, em <em>Dogville<\/em> e <em>Mandeville<\/em> (a trilogia permanece inacabada, pois o terceiro filme, <em>Wasington<\/em>, n\u00e3o foi filmado), uma mesma personagem, chamada Grace, v\u00ea seu idealismo e voluntarismo so\u00e7obrar diante da vileza explorat\u00f3ria e hip\u00f3crita do mundanismo americano. Nos filmes da \u201cTrilogia da Depress\u00e3o\u201d, vemos mulheres vivendo experi\u00eancias absolutamente extremas em situa\u00e7\u00e3o de loucura, apatia ou indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer que von Trier, nessas tr\u00eas \u00faltimas trilogias,\u00a0 apresenta, \u00a0com os instrumentos da melhor arte cinematogr\u00e1fica, uma reflex\u00e3o extrema sobre a condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da mulher no mundo ocidental. Se esta \u00e9 uma reflex\u00e3o propriamente feminista ou se \u00e9 compat\u00edvel com um feminismo militante, \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto. Mas, com certeza, a est\u00e9tica de von Trier nos coloca diante de uma politiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o de g\u00eanero no s\u00e9culo XXI das mais relevantes no cen\u00e1rio atual, quando se observa o progressivo recrudescimento de um conservadorismo mis\u00f3gino e fascista, seja no mundo ocidental como no oriental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 algo em comum em todos esses \u00faltimos oito filmes &#8211; e que funciona como uma tese impl\u00edcita em toda sua obra &#8211; \u00e9 a ideia de que somente a mulher \u2013 ou a personagem feminina \u2013 \u00e9 capaz de n\u00e3o recuar diante das mais extremas prova\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia, por mais dolorosas, sacrificantes ou mesmo supliciantes que elas se apresentem. Por sua vez, os personagens masculinos s\u00e3o marcados por uma covardia hip\u00f3crita ou mesmo pat\u00e9tica, incapazes de assumir as consequ\u00eancias finais dos seus atos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos notaram, por exemplo, na trilogia americana, a afinidade com o teatro de Brecht. Mas ela se d\u00e1 n\u00e3o apenas na ado\u00e7\u00e3o do dispositivo antimim\u00e9tico das marca\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio ou do uso aleg\u00f3rico da f\u00e1bula, mas na cren\u00e7a de que s\u00f3 a mulher \u00e9 capaz de suportar do in\u00edcio ao fim, em seu pr\u00f3prio corpo, as determina\u00e7\u00f5es de sua exist\u00eancia e o destino de seu desejo. No teatro brechtiano, num mundo marcado pelas guerras e pelas m\u00e1fias, promovidas por homens hip\u00f3critas, somente nas mulheres, aquelas capazes da coragem e do sacrif\u00edcio \u00faltimo, \u00e9 que reside a esperan\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas von Trier n\u00e3o tem diante de si, como Brecht, a f\u00e9 na imin\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria que aboliria, por exemplo, o sistema capitalista e, com ele, as divis\u00f5es de g\u00eanero correspondentes \u00e0s lutas de classe. Ele \u00e9, antes, testemunha de um mundo regido pelo cinismo do exerc\u00edcio brutal do poder e pela apatia da vontade pol\u00edtica popular. Ele pr\u00f3prio um deprimido f\u00f3bico, von Trier \u00e9 um cineasta de um mundo marcado por uma grande impot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o, impot\u00eancia da luta pol\u00edtica e da capacidade de imaginar alternativas, um mundo onde \u00e9 mais f\u00e1cil pensar a extin\u00e7\u00e3o de toda a humanidade do que na mudan\u00e7a de um regime econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas assim como a inviabilidade da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede a eclos\u00e3o de violentas rebeli\u00f5es populares que se espraiam pelas na\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos anos, tampouco o cinismo contempor\u00e2neo impede a viv\u00eancia de viscerais experi\u00eancias corporais e ps\u00edquicas que est\u00e3o presentes em seus \u00faltimos filmes, notadamente na \u201cTrilogia da Depress\u00e3o\u201d. Nesses \u00faltimos tr\u00eas filmes, as protagonistas femininas, verdadeiras hero\u00ednas ao avesso, enfrentam, num corpo-a-corpo sem possibilidade de contorno, perdas irrepar\u00e1veis: a perda de um filho em <em>O Anticristo<\/em>, a perda da vontade viver em <em>Melancolia<\/em> e a perda do prazer sexual em <em>Ninfoman\u00edaca<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para essas tr\u00eas perdas absolutas, n\u00e3o h\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o, s\u00f3 a vig\u00eancia de uma nega\u00e7\u00e3o radical. Pois a possibilidade de negociar a perda da vontade de viver com a falsa reden\u00e7\u00e3o de um matrim\u00f4nio, como se oferece \u00e0 personagem Justine no in\u00edcio de <em>Melancolia<\/em>, acaba por lev\u00e1-la ao estupor e \u00e0 imobilidade depressiva. Incapazes de simplesmente ignorar seu destino, essas personagens-hero\u00ednas se entregam \u00e0 loucura demon\u00edaca (\u201cEla\u201d em <em>O Anticristo<\/em>), \u00e0 louca beatitude da aceita\u00e7\u00e3o (Justine e Claire em <em>Melancolia<\/em>) ou \u00e0 indiferen\u00e7a radical (Joe em <em>Ninfoman\u00edaca<\/em>). Mas essas tr\u00eas posturas existenciais, para serem efetivas, s\u00f3 podem ser vividas plenamente numa absoluta entrega dos corpos e mentes das mulheres, sem justificativa nem esperan\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Totalmente diferentes s\u00e3o as atitudes \u201cviris\u201d dos personagens \u201cmasculinos\u201d nesses filmes, pois eles procuram a todo momento psicologizar, racionalizar ou \u201cpositivar\u201d o intoler\u00e1vel, como faz o personagem Seligman em <em>Ninfoman\u00edaca<\/em>, sempre \u00e0 procura de uma explica\u00e7\u00e3o otimista para uma experi\u00eancia de sexualidade m\u00f3rbida e infrene. Ou John, em <em>Melancolia<\/em>, incapaz de encontrar uma justificativa racional para o fim da esp\u00e9cie humana, s\u00f3 lhe resta covardemente suicidar-se anteriormente.\u00a0 Nos tr\u00eas casos, de forma semelhante, o que o protagonista masculino busca \u00e9 abafar a viol\u00eancia pr\u00f3pria do acontecimento da perda, extrair o grau de sua radicalidade, banaliz\u00e1-lo para retirar dele o cerne de perda da pr\u00f3pria perda, para integr\u00e1-la a uma rotina existencial qualquer, conformadora. O resultado dessa atitude covarde \u00e9 tais homens aparecerem aos olhos das mulheres como colaboradores de um mal maior, a vileza com que retiram da carnalidade sofrida da exist\u00eancia sua irredutibilidade, sua experi\u00eancia inassimil\u00e1vel e negativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dar a ver esse \u201cjogo\u201d entre uma perspectiva masculina \u201cpositiva\u201d e conformadora, e uma perspectiva feminina \u201cnegativa\u201d e inassimil\u00e1vel, Lars von Trier constr\u00f3i em <em>Ninfoman\u00edaca<\/em>, a exemplo de muitos de seus filmes anteriores, um dispositivo formal mim\u00e9tico antinaturalista, um procedimento est\u00e9tico que o distancia da maioria dos diretores contempor\u00e2neos, todos voltados a produzir uma hiperrealidade cinematogr\u00e1fica. Neste caso, von Trier se volta para o romance libertino do s\u00e9culo XVIII, onde jovens mulheres narram suas desventuras amorosas e sexuais a homens mais velhos. Dessa forma liter\u00e1ria sa\u00edram obras de autores como Sade e Choderlos de Laclos, escritores afins \u00e0 est\u00e9tica de von Trier e \u00e0 tem\u00e1tica sexual deste filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como uma nova Justine, personagem de Sade (e nome tamb\u00e9m da personagem de <em>Melancolia<\/em>), Joe narra a Seligman, o \u201cHomem-feliz\u201d, as vicissitudes de sua vida sexual, isto \u00e9, de sua \u201cninfomania\u201d. Joe n\u00e3o est\u00e1 em busca de uma incessante ou obsessiva experi\u00eancia de prazer, nem mesmo de conhecimento ou da experimenta\u00e7\u00e3o \u201cdos sentidos\u201d. O que a impulsiona a seus m\u00faltiplos encontros e pr\u00e1ticas sexuais n\u00e3o tem exatamente motivo ou fim, \u00e9, segundo suas palavras, uma esp\u00e9cie de \u201cmal\u201d, uma malignidade sem nome que serve a uma grande indiferen\u00e7a. Na multiplicidade \u201cenciclop\u00e9dica\u201d de personagens masculinos (e f\u00e1licos), Joe sintetiza tr\u00eas tipos de homens com quem trepa: os homens que\u00a0 procuram satisfaz\u00ea-la, os homens que a pegam \u00e0 for\u00e7a e um homem que supostamente ela ama. Por\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o a este, ela n\u00e3o tem mais do que absoluta indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_7555\" aria-describedby=\"caption-attachment-7555\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7555\" title=\"Charlotte Gainsbourg em cena de Ninfoman\u00edaca - Foto - divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-I-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7555\" class=\"wp-caption-text\">Charlotte Gainsbourg em cena de Ninfoman\u00edaca \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joe \u00e9 incapaz de ter orgasmos, mas esta incapacidade, esta \u201cperda\u201d \u00e9, na verdade, a aus\u00eancia de algo de que nunca se teve e que, portanto, n\u00e3o faz falta. \u00c9 no m\u00e1ximo a perda de uma mitologia de inf\u00e2ncia que, por\u00e9m, ela n\u00e3o deseja recuperar. Joe n\u00e3o se entrega ao sexo em busca de uma parcela qualquer de um gozo perdido ou imposs\u00edvel, tal a um complexo de castra\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtico: seu gozo est\u00e1 no pr\u00f3prio ato de se entregar a uma experi\u00eancia carnal e manter-se indiferente a ela, mesmo que esta implique nas dores mais supliciantes do masoquismo, mesmo que ela signifique a ren\u00fancia a sua condi\u00e7\u00e3o de m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Seligman, Joe advoga a irredutibilidade de sua experi\u00eancia: ela n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel nem a um princ\u00edpio utilitarista nem \u00e0 expia\u00e7\u00e3o de culpa, ou \u00e0 busca de eleva\u00e7\u00e3o espiritual. Nesse di\u00e1logo aparentemente pac\u00edfico com o personagem masculino, no entanto, n\u00e3o parece haver um consenso final. \u00a0Seligman procura a cada momento extrair de seu relato uma moral ou uma justifica\u00e7\u00e3o, algo como uma sublima\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia. Se Joe \u00e9 uma nova Justine, ele representa a esp\u00e9cie de um C\u00e2ndido voltairiano: a negatividade do relato de Joe \u00e9 \u201cpositivada\u201d num plano superior de s\u00edntese. Para ele, a malignidade de Joe em n\u00e3o buscar uma justifica\u00e7\u00e3o para seus atos torna-se uma involunt\u00e1ria a\u00e7\u00e3o benigna ao semear felicidade entre os homens. No final de tudo, Seligman mostra a Joe que afinal ela \u201cn\u00e3o passa\u201d de uma mulher: a infelicidade de sua experi\u00eancia \u00e9 o resultado dessa diferen\u00e7a de g\u00eanero, o estigma de sua condi\u00e7\u00e3o feminina. Ela s\u00f3 sofre a sina de todas as mulheres, reduzidas a objetos sexuais dos homens ou a uma aus\u00eancia de falo, uma castra\u00e7\u00e3o \u201contol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_7556\" aria-describedby=\"caption-attachment-7556\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7556\" title=\"Os personagens Joe e Seligman - Foto - divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA-II-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7556\" class=\"wp-caption-text\">Os personagens Joe e Seligman \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ao final do filme, perguntamos: ter\u00e1 sido Joe realmente infeliz? Supor que as vicissitudes de sua narrativa correspondem apenas \u00e0 inferioridade social de sua condi\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o seria retirar dela todo o livre-arb\u00edtrio, sua pr\u00f3pria subjetividade que liga seu destino a seu desejo? Assim, h\u00e1 algo de completamente incomensur\u00e1vel e fatalmente tr\u00e1gico entre a narrativa de Joe e a \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d de Seligman que n\u00e3o admite uma resolu\u00e7\u00e3o apaziguadora, um meio-termo, um m\u00ednimo denominador comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, seria pequeno ver Seligman, por outro lado, apenas como porta-voz de um machismo enrustido, o representante da condi\u00e7\u00e3o masculina dominante. Masculino e feminino s\u00e3o como polos antagonistas de um jogo, mas cuja rela\u00e7\u00e3o \u201chorizontal\u201d \u00e9 cruzada por outras rela\u00e7\u00f5es transversais, como \u201cvirgem\u201d e \u201cninfo\u201d, ou como \u201cprazer\u201d e \u201cgozo\u201d.\u00a0 \u00a0Seligman \u00e9 \u201cvirgem\u201d, n\u00e3o no sentido de que n\u00e3o teve experi\u00eancia sexual, mas porque ao recusar todo envolvimento f\u00edsico e afetivo com os outros, castrou-se n\u00e3o apenas existencialmente, mas tamb\u00e9m de todo entendimento do que \u00e9 uma experi\u00eancia carnal, e tende a ler toda rela\u00e7\u00e3o corporal extrema dentro do bin\u00f4mio prazer e dor, escapando-lhe assim toda a dimens\u00e3o de gozo que existe, por exemplo, em deixar-se a\u00e7oitar violentamente numa rela\u00e7\u00e3o S&amp;M.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 em defesa da irredutibilidade de sua experi\u00eancia, da impossibilidade de encontrar uma justificativa que n\u00e3o seja o gozo do seu pr\u00f3prio transcurso que Joe, numa das cenas mais importantes do filme, na roda terap\u00eautica que lhe \u00e9 imposta entre mulheres \u201csex-addict\u201d, violentamente interrompe a sess\u00e3o para se afirmar enquanto \u201cninfoman\u00edaca\u201d e n\u00e3o como uma \u201cviciada em sexo\u201d em busca de \u201ctratamento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste aspecto que <em>Ninfoman\u00edaca<\/em> parece muitas vezes ser uma resposta c\u00e9tica e radical (e europeia) a outro filme que trata do mesmo assunto com sinais trocados: o filme <em>Shame<\/em>, do diretor americano Steve McQueen. Neste, um homem na faixa de 30 anos tamb\u00e9m sofre de \u201cadic\u00e7\u00e3o sexual\u201d. O puritanismo deste filme parece evidente: a compuls\u00e3o sexual de seu protagonista masculino precisa passar por uma trajet\u00f3ria de \u201cvergonha\u201d para poder \u201csociabilizar-se\u201d afetivamente.\u00a0 J\u00e1 Joe, como o personagem hom\u00f4nimo da can\u00e7\u00e3o de Jimmy Hendrix que encerra o filme (na voz de Charlotte Gainsbourg), s\u00f3 pode correr com a arma de suas pr\u00f3prias escolhas, sem nenhum arrependimento para voltar sua vista, sem nenhuma vergonha a carregar, apenas a prova da verdade de sua vida, a sua pr\u00f3pria e intransfer\u00edvel prova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/Rjsdg0mnrXk\" frameborder=\"0\" width=\"560\" height=\"315\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em> \u00e9 engenheiro e escritor, autor de \u201cCapoeiragem\u201d (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Guilherme Preger analisa  o filme &#8220;Ninfoman\u00edaca&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7515,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1837,2535],"tags":[1875,1873,115,1876,1209,13,1204,1213,1872,1874],"class_list":["post-7514","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-90a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-adiccao-sexual","tag-charlotte-gainsbourg","tag-cinema","tag-compulsao","tag-dinamarca","tag-drops-da-setima-arte","tag-guilherme-preger","tag-lars-von-trier","tag-ninfomaniaca","tag-sexo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7514"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7514\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7553,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7514\/revisions\/7553"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}