{"id":7517,"date":"2014-05-01T11:43:10","date_gmt":"2014-05-01T14:43:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7517"},"modified":"2014-05-03T17:01:32","modified_gmt":"2014-05-03T20:01:32","slug":"aperitivo-da-palavra-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-18\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sem coragem de continuar nem for\u00e7a de terminar<\/strong><\/p>\n<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;But now that I&#8217;m older,<\/em><br \/>\n<em>my heart&#8217;s colder,<\/em><br \/>\n<em>and I can see that it&#8217;s a lie.&#8217;<\/em><br \/>\n<em>Arcade Fire, Wake up<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7550\" title=\"N\u00e3o Muito\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA6.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA6.jpg 347w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/INTERNA6-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Mas digam-me: se n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, como pode algu\u00e9m contar essa hist\u00f3ria? Mas isto n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria, amigos. N\u00e3o existe hist\u00f3ria onde nada acontece. E uma coisa que n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria talvez n\u00e3o precise de algu\u00e9m para cont\u00e1-la. Talvez ela se conte sozinha. Mas contar o que, se n\u00e3o h\u00e1 o que contar? Ent\u00e3o est\u00e1 certo: se n\u00e3o h\u00e1 o que contar, n\u00e3o se conta. Ou ent\u00e3o se conta o que n\u00e3o h\u00e1 para se contar\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O excerto acima, tirado de \u2018Conto (n\u00e3o conto)\u2019, de S\u00e9rgio Sant\u2019Anna, \u00e9 possivelmente o mais preciso retrato liter\u00e1rio de um recorte temporal. Escrita nos anos 80, a obra suscita a sombra de descren\u00e7a que pairava sobre a \u00e9poca, amargada pelo baixo astral decorrente da frouxid\u00e3o dos ideais nascidos no processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O sentimento inexced\u00edvel de que n\u00e3o se andava para frente, de que nada realmente acontecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sant\u2019Anna transporta esse travo para a fic\u00e7\u00e3o, instigando um questionamento sobre a tessitura da pr\u00f3pria narrativa, onde cobra do leitor a participa\u00e7\u00e3o no fazer ficcional, ao tensionar uma linha fina entre realidade e inven\u00e7\u00e3o. Anulado de \u00e2nimo, esse leitor n\u00e3o se incomodaria com uma narrativa desfalcada de seu elemento principal. Uma hist\u00f3ria que, \u00e0 medida que tenta avan\u00e7ar, diminui, que est\u00e1 aferrada a um momento difuso, eleito ponto de origem, sem que isso determine um desfecho. Mas poderia um enredo se desdobrar sem que o protagonista (narrador) tivesse motiva\u00e7\u00e3o para que isso ocorresse?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu romance de estreia, \u2018N\u00e3o muito\u2019 (7 Letras\/2013), o jornalista Bol\u00edvar Torres espreita a pergunta, deslindando suas imedia\u00e7\u00f5es para oferecer ao leitor um espectro de resposta, uma insinua\u00e7\u00e3o de certeza que d\u00e1 a medida de qu\u00e3o ardiloso pode ser esse processo. Sua mat\u00e9ria \u00e9 o desalento, uma rede de personagens-fantasmas que subsistem num tipo de limbo, uma exist\u00eancia exangue, uma letargia que caracteriza um estado de tempo. N\u00e3o se trata de um romance de gera\u00e7\u00e3o, contudo, e sim, ainda que de maneira obl\u00edqua, um de forma\u00e7\u00e3o. Um clima de melancolia e receio que intratavelmente perpassa d\u00e9cadas, uma esp\u00e9cie de ang\u00fastia geral que \u00e9 pr\u00f3pria da transi\u00e7\u00e3o da juventude para a vida adulta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse intervalo est\u00e1 Dalton, universit\u00e1rio que mora com os pais, cujo relacionamento \u00e9 fundamentado numa ina\u00e7\u00e3o quase sobrenatural. O pai \u00e9 uma figura inexpressiva constantemente banhada pela luz fria da tev\u00ea, a m\u00e3e passa os dias confinada no quarto, flanando numa frequ\u00eancia de devaneios e sedativos. Os di\u00e1logos s\u00e3o lac\u00f4nicos e dispersos, como que sem for\u00e7a para empreender compreens\u00e3o. A mesma apatia rege o universo do protagonista, acessado por seres descart\u00e1veis em suas desnatura\u00e7\u00f5es afetivas, onde o passo seguinte tem a impossibilidade de um trauma insond\u00e1vel. Ao saber que o pai de um amigo cometeu suic\u00eddio, decide ir ao vel\u00f3rio, no entanto passa horas circulando com o carro at\u00e9 chegar ao local, de onde sai sem cumprir o intento. Dalton n\u00e3o consegue ter atitude, h\u00e1 uma \u00e2ncora dentro de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, o presente se amua numa zona cinzenta fronteiri\u00e7a a um futuro inalcan\u00e7\u00e1vel e a um passado ainda em execu\u00e7\u00e3o. Conforma-se com o agora, o agora perene e est\u00e9ril. Sem gana, sem dire\u00e7\u00e3o. Longe da sua cama, da imagem da \u201ctomada que sempre lhe acalma\u201d, Dalton vagueia pelos corredores da faculdade, por festas, bebe, faz sexo, firma encontros com jovens que compartilham o mesmo despertencimento pela vida. Entre os quais, Daniel, o filho do suicida, que oculta seus medos sob uma conduta inconsequente, e Cec\u00edlia, colega de sala com quem protagoniza a melhor passagem do romance, onde se estabelece conex\u00e3o com uma ocorr\u00eancia pregressa que fornece a Dalton uma sensa\u00e7\u00e3o que para ele tem o significado de felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomar esse momento espec\u00edfico \u00e9 o \u00fanico ref\u00fagio em meio ao vazio de tudo, o espasmo que consegue lhe destravar do cotidiano embotado, onde haver\u00e1 sempre \u201cuma coisa a ser feita, mas sem saber o qu\u00ea\u201d. H\u00e1 tintas beckettianas nessa desola\u00e7\u00e3o, da mesma forma que evoca o \u2018Baterbly\u2019, de Melville, o escritur\u00e1rio \u2018sem coragem de terminar nem for\u00e7a de continuar\u2019. O fim para Dalton, todavia, \u00e9 algo inacess\u00edvel, pois demanda romper as amarras que enxerga como prote\u00e7\u00e3o. Incapaz de defrontar a outra margem, ele segue \u00e0 deriva sem coragem de continuar nem for\u00e7a de terminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bol\u00edvar Torres demonstra incr\u00edvel habilidade ao se fechar numa ideia narrativa e bem utiliz\u00e1-la para estruturar um mundo assombrado e exteriorizar as afli\u00e7\u00f5es de seus personagens. Sua prosa \u00e9 econ\u00f4mica, por\u00e9m rica e densa, emulando o ritmo moroso, por vezes hesitante, que embala os atores de sua hist\u00f3ria. Por tr\u00e1s dessa realidade, no entanto, h\u00e1 nuances e sobreposi\u00e7\u00f5es de camadas que apontam para interpreta\u00e7\u00f5es subjetivas. Prova disso, \u00e9 a personagem Ana Lauren, que se desenha um antigo interesse amoroso de Dalton, mas que pode tamb\u00e9m ser entendida como a voz da consci\u00eancia dele. \u00c9 dela que vem a frase mais impactante do livro, digna de preceder o oportuno t\u00edtulo e sua simbologia: \u2018Voc\u00ea sabe o que voc\u00ea vai fazer amanh\u00e3?\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas p\u00e1ginas do romance, h\u00e1 um jogo de cartas, e a isso se resume a vida de todos ali, um jogo. Por\u00e9m um jogo sem vencedores ou perdedores, um jogo que segue aberto por falta de motiva\u00e7\u00e3o. Esse, afinal, \u00e9 o sinal maior do talento de Bol\u00edvar Torres: fazer o leitor entender que a hist\u00f3ria est\u00e1 em curso, ainda que o protagonista prefira ficar ausente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>S\u00e9rgio Tavares<\/strong> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tamb\u00e9m foi premiado no Concurso Liter\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Escola do Servi\u00e7o P\u00fablico (Fesp\/RJ) e tem textos publicados nas revistas \u201cCult\u201d, \u201cArte e Letra: Est\u00f3rias M\u201d, e no jornal \u201cC\u00e2ndido\u201d, entre outros. O livro de contos \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012) \u00e9 sua obra mais recente.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Tavares fala sobre \u201cN\u00e3o Muito\u201d, primeiro romance de Bol\u00edvar Torres<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7522,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1837,2533],"tags":[11,1869,1871,1868,189,496,1870,1023],"class_list":["post-7517","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-90a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-bolivar-torres","tag-editora-7-letras","tag-nao-muito","tag-resenha","tag-romance","tag-sem-coragem-de-continuar-nem-forca-de-terminar","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7517","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7517"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7517\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7635,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7517\/revisions\/7635"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7517"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7517"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7517"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}