{"id":7702,"date":"2014-06-02T09:59:58","date_gmt":"2014-06-02T12:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7702"},"modified":"2014-07-05T15:21:52","modified_gmt":"2014-07-05T18:21:52","slug":"dedos-de-prosa-i-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-26\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Thays Berbe<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_7751\" aria-describedby=\"caption-attachment-7751\" style=\"width: 374px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7751\" title=\"Marcantonio\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" width=\"374\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA3.jpg 374w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA3-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7751\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Marcantonio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A senhoria <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta tristeza que vem, e senta nos caramingu\u00e1s da minha sala escura, se acomoda numa poltrona suja e furada, que j\u00e1 tem o formato de seu corpo. Uma visita inumana, inexata, me observa enquanto passo um cafezinho para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00ea vai derramar tudo, diz.\u00a0 \u2013P\u00f3, \u00e1gua e choror\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mania irritante de prever o futuro, penso. N\u00e3o digo nada. N\u00e3o levanto a voz. N\u00e3o pe\u00e7o para ela ir. Aceito sua companhia, como quem se rende a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Derrubei o p\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pede pra eu perder a timidez e pular as protocolares etiquetas de uma anfitri\u00e3, que disfar\u00e7a mal a falta de h\u00e1bito em receber pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me diz em tom maternal:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Esque\u00e7a o cafezinho, chora de uma vez crian\u00e7a. N\u00e3o me venha com ch\u00e1 de cadeira, estou bem acomodada. Transborda as tolices de agora, antes que eu comece a vasculhar suas gavetas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O que voc\u00ea ganha com isso? Protelei eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-Prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as chaves da casa penduradas em seu colar tilintavam ao menor movimento. Desconfio que minha senhoria\u00a0adormece e se banha com aquelas correntes em torno do pesco\u00e7o, que esverdeiam sua pele, que anunciam sua chegada e partida e que eu encaro de vi\u00e9s quando seus olhos n\u00e3o me fitam, querendo roub\u00e1-las. N\u00e3o, n\u00e3o tenho um bom plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ela me alugou o espa\u00e7o onde moro firmamos um contrato,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DAS CONDI\u00c7\u00d5ES DO IM\u00d3VEL CORPO:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1usula 43: A propriet\u00e1ria ter\u00e1 todas as chaves, com livre acesso. N\u00e3o precisando de aviso pr\u00e9vio por tempo indeterminado. Sendo essa cl\u00e1usula n\u00e3o respeitada, a locat\u00e1ria sofrer\u00e1 puni\u00e7\u00f5es,\u00a0previstas\u00a0na lei natural das coisas, estando sujeita a ordem de despejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por assim estarem justos e contratados, mandaram extrair o presente instrumento em tr\u00eas (03) vias, para um s\u00f3 efeito, assinando-as, sem testemunhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Est\u00f4mago <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisca,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pizza era de aliche, a maldita pizza era de aliche. A ma\u00e7aroca desmantelada no ch\u00e3o, que voc\u00ea provavelmente viu antes de perder a consci\u00eancia, era uma mistura de molho de tomate, queijo derretido e aquele peixe salobre que bloqueou suas vias respirat\u00f3rias aos 9 anos de idade, na pind\u00e9rica festa de casamento da tia Ilde. Papai insistiu pra voc\u00ea experimentar um pedacinho, sem saber que era al\u00e9rgica. Lembra? Quem poderia supor? Na colis\u00e3o, Voc\u00ea rolou sobre as folhas ressecadas no asfalto, quebrando uma pluralidade de v\u00e9rtebras. A pizza escapou da caixa de isopor que o Motoboy levava nas costas, derrapou na pista oito metros, saindo da caixa, destampada aos pulos, chegando quente e espatifada junto ao seu corpo.\u00a0 Nunca mais comi pizza, mana, nunca.\u00a0 Soube que voc\u00ea estava morta porque seu t\u00f3rax n\u00e3o mexia mais, seu olho ficou aberto e vazio.\u00a0 Gigantescas fichas da obviedade colidiram com o meu mundo. \u201cO t\u00f3rax nunca para de expandir e contrair, nem o piscar d\u00e1 sossego pro ver, de formas t\u00e3o sutis, que a vida at\u00e9 parece despretensiosa e evidente\u201d. At\u00e9 mesmo numa festa aparvalhada de casamento, com babados de pl\u00e1stico e confeitos cor-de-rosa, no sal\u00e3o do pr\u00e9dio da tia Ilde, podemos ser tra\u00eddos por nossa ingenuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ouvi o estrondo e a vozearia, sa\u00ed do caixa da padaria correndo, sem pagar pelos cigarros. Te procurei entre os curiosos. Havia um peso na cautela com que todos se moviam.\u00a0 Existe um momento, quando a morte se anuncia, em que perdemos a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e a vida \u00e9 suspensa em um campo gravitacional por dois segundos, em c\u00e2mera lenta. Quando cheguei perto, havia um peda\u00e7o seu, de dentro, bojudo e mole, derramado. Encarei sua v\u00edscera como se eu pudesse colar voc\u00ea, como se fosse um segredo teu mal ventilado. Desmaiei. O motoqueiro, voc\u00ea, a pizza e eu, sentindo nossas vidas vazarem pelo asfalto, enquanto em algum canto da cidade, um motorista de ambul\u00e2ncia sa\u00eda \u00e0s pressas do banheiro, fechando a braguilha da cal\u00e7a, pra atender o r\u00e1dio sobre a mesa do cafezinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabia, mana, que quando a gente morre todos descobrem nossos segredos?\u00a0 A maioria deles.\u00a0 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia at\u00e9 voc\u00ea ser atropelada num domingo pelo entregador da Pizzaria Tutti, enquanto seu sorvete de casquinha escorria muito. Depois disso as pessoas interrompem suas contas banc\u00e1rias, entram no seu quarto, fu\u00e7am suas coisas, dividem-nas em tr\u00eas partes; doa\u00e7\u00e3o, venda, e o que cabe numa caixa de lembran\u00e7as. Os objetos falam a maioria das coisas sobre voc\u00ea, mas a caixa de rem\u00e9dios, a sujeira embaixo da cama e o computador, falam mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do seu vel\u00f3rio, era dif\u00edcil pentear meus cabelos, cacheados como os seus. Era dif\u00edcil ouvir m\u00fasica, comer queijo, atravessar a rua, expandir o t\u00f3rax, piscar. Disseram que o sinal j\u00e1 estava fechado pra voc\u00ea, mana, e que o mo\u00e7o tinha pressa. A pressa devora tudo.\u00a0 As azeitonas que se espalharam na pista enquanto seu corpo arremessado perdia tufos de m\u00fasculos pelo caminho, eram verdes e gra\u00fadas, como seus olhos roli\u00e7os. Eu tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que uma simples azeitona poderia me asfixiar pra sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dia ruim, inventei de contar ao D\u00e1rio todas aquelas imagens do acidente, que me perseguiam. Contei os detalhes, mana.\u00a0 Daquela luz alaranjada nos pr\u00e9dios, quando a tarde se recolhe em tom de candeeiro, impingindo fachos luzentes pelas frestas das nuvens e tudo parece fazer parte de um instante inabal\u00e1vel.\u00a0 O farol de pedestres abriu, eu apertei o passo e entrei no Maraj\u00e1 P\u00e3es e Doces pra comprar cigarros e n\u00e3o te deixar esperando, para n\u00e3o nos atrasarmos pro show do Otto. Voc\u00ea se distraiu com algum livro de capa colorida da sess\u00e3o de R$ 1,00 daquele sebo mofado, e atravessou em seguida com seu vestido azul de algod\u00e3o. Contei como era a primeira tripa humana que eu vi. Contei qual era o sabor do sorvete. Contei tudo, porque o D\u00e1rio era o meu marido, e eu precisava de colo. Fui uma testemunha tresloucada dos acontecimentos, precisava enfraquecer o que me perturbava, eu precisava de ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se p\u00f4s a chorar, mana. Primeiro um ru\u00eddo impreciso ca\u00eda de sua boca e do seu nariz ao mesmo tempo, seus olhos apavorados foram desistindo de ficarem abertos e se afundaram no rosto a medida que espremia a cara com for\u00e7a. As bochechas subiram formando sulcos na pele da testa ao queixo. A l\u00edngua se projetou levemente e D\u00e1rio entregou- se aos solu\u00e7os, que evolu\u00edram para um violento choro, desesperado e alto. Elevou as m\u00e3os enormes e tremulas, e sem saber o que fazer com elas, grudou-as no rosto, abafando o inesper\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficou claro. Causaria menos dor a ele se eu tivesse pegado a faca de p\u00e3o da mesa e destacado seu jovem cora\u00e7\u00e3o. Ou, se eu tivesse arrumado as malas e sa\u00eddo de casa com os vinis do Duke Ellington.\u00a0 Ou quem sabe ainda, se fosse eu a estar distra\u00edda, com uma casquinha do Mc Donald\u00b4s, meio baunilha, meio chocolate, atravessando a rua Martins Fontes, e sofresse uma colis\u00e3o de alto impacto com uma pizza de aliche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fu\u00e7ar no seu computador depois dessa bandeira, foi a primeira coisa que eu fui fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostaria de saber se todas aquelas trepadas que voc\u00eas deram no hotel Delmar da Rep\u00fablica, eram para superarem essa minha mania de controlar tudo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando acompanhei mam\u00e3e naquele ritual pat\u00e9tico de atirar suas cinzas ao mar, um contravento soprou flocos seus no meu rosto. Me debati, me senti imunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu teria te matado. Mesmo te amando tanto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/thaysberbe.blogspot.com.br\/\"><strong><em>Thays Berbe<\/em><\/strong><\/a><em> gosta de florestas. Frutas secas. Texturas e cores. Viagens. Lama. Coisas antigas e coisas que viram outras coisas. Pl\u00e1stico bolha e bolhas de sab\u00e3o. Falar, cantar e ficar em sil\u00eancio. \u00c9 especialista em comunica\u00e7\u00e3o audiovisual pela faculdade Belas Artes e Anhembi Morumbi e desenvolve seu trabalho como roteirista e redatora.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois contos do universo criativo de Thays Berbe<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7703,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1908,2534,16],"tags":[1911,419,41,1910,1909],"class_list":["post-7702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-91a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-a-senhoria","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-estomago","tag-thays-berbe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7702"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8152,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7702\/revisions\/8152"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}