{"id":7766,"date":"2014-06-03T11:28:02","date_gmt":"2014-06-03T14:28:02","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7766"},"modified":"2014-06-05T17:06:44","modified_gmt":"2014-06-05T20:06:44","slug":"dedos-de-prosa-iii-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-23\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Paulo Bono<\/em><strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_7832\" aria-describedby=\"caption-attachment-7832\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7832\" title=\"Marcantonio\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA9.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA9.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA9-300x228.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7832\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Marcantonio<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Jaca, os peitinhos e a galinha<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E a cacha\u00e7a? \u2013 Jaca disse.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 aqui \u2013 eu disse.<br \/>\n&#8211; Tranquilo, ent\u00e3o. Eu trouxe a galinha.<br \/>\n&#8211; Que galinha?<br \/>\n&#8211; Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cacha\u00e7a e uma galinha.<br \/>\n&#8211; Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.<br \/>\n&#8211; E o bode?<br \/>\n&#8211; Que bode, caralho?<br \/>\n&#8211; O bode que enterram em seu quintal?<br \/>\n&#8211; Ok. Cad\u00ea a galinha?<br \/>\n&#8211; Na mala.<br \/>\n&#8211; Na mala?<br \/>\n&#8211; Lavei o carro hoje.<br \/>\n&#8211; A porra vai morrer sufocada.<br \/>\n&#8211; Fique tranquilo. A galinha t\u00e1 na dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles menin\u00f5es idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como seguran\u00e7a de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha ag\u00eancia, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de cria\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, s\u00f3 na punheta. Ent\u00e3o eu estava por a\u00ed, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situa\u00e7\u00e3o. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, dar\u00edamos uma conferida no terreno. E se fosse necess\u00e1rio, pegar\u00edamos o animal. Parecia um lugar agrad\u00e1vel. S\u00f3 aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no port\u00e3o de entrada. Negro, alto, jovem. N\u00e3o sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Boa noite \u2013 disse Jaca \u2013 o Roque da Lua est\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O garoto n\u00e3o respondeu. S\u00f3 olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a n\u00e3o dar as boas vindas a Jaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Boa noite, amigo \u2013 Jaca insistiu \u2013 Eu marquei com Roque da Lua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Esse merda n\u00e3o vai falar nada \u2013 eu disse.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que \u00e9 doente?<br \/>\n&#8211; Quero que ele se foda.<br \/>\n&#8211; \u00d4 maluco! T\u00e1 me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!<br \/>\n&#8211; Vamos sair daqui, caralho!<br \/>\n&#8211; T\u00f4 quase metendo a porra nesse moleque.<br \/>\n&#8211; Cuidado, esses caras manjam de capoeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu n\u00e3o tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Jaquinha! \u2013 disse o mestre das bananas \u2013 chegou bem na hora.<br \/>\n&#8211; Seu Roque \u2013 disse Jaca \u2013 o garoto aqui n\u00e3o queria colaborar.<br \/>\n&#8211; Ah, esse \u00e9 Tico-Tico. Tico-Tico t\u00e1 de castigo. Pra aprender a se comportar.<br \/>\n&#8211; Esse \u00e9 Paulo \u2013 disse Jaca \u2013 o amigo que lhe falei.<br \/>\n&#8211; Ah, o que t\u00e1 desempregado e n\u00e3o consegue trepar.<br \/>\n&#8211; \u00c9, t\u00f4 no cu da cobra \u2013 eu disse.<br \/>\n&#8211; Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, voc\u00ea se comporte.<br \/>\n&#8211; Aguente firme, Tico-Tico \u2013 eu disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 dentro, havia esse p\u00e1tio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas \u00e1rvores. Havia tamb\u00e9m essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. \u201cCad\u00ea Roque da Lua?\u201d \u2013 Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Ent\u00e3o ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia algu\u00e9m pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. At\u00e9 que veio essa morena. Come\u00e7ou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dan\u00e7ava. Girava. Levantava a saia, ia at\u00e9 o ch\u00e3o, revelava as pernas e, por mil\u00e9simos de segundo, sua calcinha. N\u00e3o \u00e9 por nada n\u00e3o, mas eu j\u00e1 estava de pau duro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ser\u00e1 que ela toca berimbau? \u2013 perguntei a Jaca.<br \/>\n&#8211; Ham?<br \/>\n&#8211; T\u00e1 sentindo o qu\u00ea, porra?<br \/>\n&#8211; Calor da porra!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Come\u00e7ou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando est\u00e3o dando santo? Ali\u00e1s, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em p\u00e2nico. Tentava n\u00e3o pensar em sacanagem. Mas s\u00f3 conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balan\u00e7ando a cabe\u00e7a. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pesco\u00e7o e ZAP! Passou a faca no animal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Puta que pariu \u2013 eu disse a Jaca \u2013 esquece a galinha.<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Porra, voc\u00ea t\u00e1 suando pra caralho.<br \/>\n&#8211; \u00c9 o calor, porra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que n\u00e3o tinha mais tamanho. Dan\u00e7ando, se remexendo e dizendo coisas que eu n\u00e3o conseguia entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O que \u00e9 que esse porra t\u00e1 falando? \u2013 perguntei a Jaca.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei. Entendi, n\u00e3o sei o qu\u00ea Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim&#8230;<br \/>\n&#8211; Jaca, voc\u00ea t\u00e1 branco.<br \/>\n&#8211; Dor de cabe\u00e7a&#8230;<br \/>\n&#8211; Porra, ser\u00e1 que voc\u00ea t\u00e1 dando santo?<br \/>\n&#8211; Eu t\u00f4 tranquilo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o qu\u00ea? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e come\u00e7ou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em a\u00e7\u00e3o parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha dire\u00e7\u00e3o, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. S\u00f3 deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha \u201cPEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!\u201d. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para tr\u00e1s, dando um desses golpes de capoeira e raspando o p\u00e9 no queixo do meu amigo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos desped\u00edamos de Tico-Tico e entr\u00e1vamos no carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; FOI VOC\u00ca QUE DISSE! \u2013 Jaca berrava<br \/>\n&#8211; Vai tomar no cu, Jaca!<br \/>\n&#8211; FOI VOC\u00ca QUE DISSE!<br \/>\n&#8211; Como \u00e9 que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Voc\u00ea que me trouxe aqui, porra!<br \/>\n&#8211; E como \u00e9 que ele sabia desse neg\u00f3cio de peitchola?<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1, esses caras sabem tudo da nossa vida.<br \/>\n&#8211; Ele me pegou desprevenido.<br \/>\n&#8211; Mas voc\u00ea viu aqueles peitinhos?<br \/>\n&#8211; Jesus \u00e9 mais forte!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, o que resta contar \u00e9 que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Seguran\u00e7a. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Paulo Bono<\/em><\/strong><em> \u00e9 baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, \u00e9 p\u00f3s-graduado como roteirista, trabalha como redator publicit\u00e1rio e escreveu o blog de contos e cr\u00f4nicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lan\u00e7ou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa).\u00a0 <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O despojamento irreverente da prosa de Paulo Bono<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7832,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1908,2534],"tags":[81,41,1969,1968,1966,1970,1967,1971,1965],"class_list":["post-7766","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-91a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-editora-cousa","tag-espalitando","tag-irreverencia","tag-jaca","tag-lapinha","tag-os-peitinhos-e-a-galinha","tag-paulo-bono"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7766"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7895,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7766\/revisions\/7895"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7832"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}