{"id":7778,"date":"2014-06-03T11:35:57","date_gmt":"2014-06-03T14:35:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7778"},"modified":"2014-06-05T17:07:09","modified_gmt":"2014-06-05T20:07:09","slug":"aperitivopalavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mem\u00f3ria e rasura: a \u201cPedagogia do Suprimido\u201d de Zeh Gustavo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Leonardo D\u2019Avila<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7818\" title=\"CAPA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA7.jpg\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA7.jpg 305w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA7-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um poeta n\u00e3o se forma sozinho. Ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 pedagogia ou maneira de ensino que d\u00ea conta dessa tarefa. N\u00e3o apenas por uma quest\u00e3o de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia n\u00e3o surge das conclus\u00f5es, por\u00e9m das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha po\u00e9tica precisa de algum tipo de fetiche para que algu\u00e9m se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta n\u00e3o conta mais com alguma aura de hero\u00edsmo ou prest\u00edgio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o <em>vates<\/em> contempor\u00e2neo. A cena do escritor perante a m\u00e1quina de escrever para ver o que simplesmente \u201csai de dentro dela\u201d \u00e9 cl\u00e1ssica, mesmo ao se saber que a m\u00e1quina em si seja vazia de conte\u00fado. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-or\u00e1culo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta \u201cbic\u201d. Sim, a poesia \u00e9 queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o afinado com seu instrumento de trabalho, isto \u00e9, toda a sua parafern\u00e1lia, que j\u00e1 era fr\u00e1gil. A \u201cPedagogia do Suprimido\u201d, livro mais recente de Zeh Gustavo, p\u00f5e o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado \u201cA Perspectiva do Quase\u201d, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudi\u00e7\u00e3o, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a pot\u00eancia vazia que tece o fazer po\u00e9tico, em \u201cA pedagogia do Suprimido\u201d, editado pela Verve no final de 2013, o foco n\u00e3o \u00e9 mais esse. Pelo contr\u00e1rio, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta at\u00e9 serem violentados com as palavras, a exemplo da prolifera\u00e7\u00e3o viral de neologismos, e da impress\u00e3o for\u00e7ada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como j\u00e1 se anuncia no t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A supress\u00e3o que nomeia o livro n\u00e3o cabe na dial\u00e9tica entre oprimido-opressor (com uma alus\u00e3o clara a Paulo Freire), pois n\u00e3o persiste a esperan\u00e7a de sujeito emancipado, formado, l\u00facido ou qualquer coisa do g\u00eanero para sustentar utopias como a emancipa\u00e7\u00e3o ou a desaliena\u00e7\u00e3o. Os prefixos s\u00e3o extremamente significativos para entender essa mudan\u00e7a de sujeito oprimido para suprimido. Na (<em>ob<\/em>)press\u00e3o ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)press\u00e3o, n\u00e3o existem dois sujeitos de mesmo n\u00edvel num confronto. H\u00e1 apenas o resto da tentativa de forma\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel, um vest\u00edgio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opress\u00e3o, na supress\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo confronto, sen\u00e3o uma mir\u00edade de pisadas t\u00e3o vertiginosa que j\u00e1 torna imposs\u00edvel a separa\u00e7\u00e3o daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o t\u00e9dio ou a descren\u00e7a chegaram em palavras e em coisas, \u201cneste giro sem sina \/ sem sal nem vi\u00e7o\u201d, n\u00e3o h\u00e1 mais um privilegiado: principalmente a fun\u00e7\u00e3o \u201cpoeta\u201d, afinal, o artif\u00edcio j\u00e1 se emancipou. A face daquele que escreve est\u00e1 na perda dos dispositivos (de m\u00e1quinas de escrever a princ\u00edpios po\u00e9ticos) e n\u00e3o mais apenas na do sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONTO FUNESTO<\/strong><\/p>\n<p>Perdi um som quando ele tava a se encostar<br \/>\nNa ponta da minha l\u00edngua<br \/>\nPerdi depois a l\u00edngua.<\/p>\n<p>Perdi uma palavra quando ela pendia j\u00e1 do traseiro<br \/>\nPara a ponta de minha caneta.<br \/>\nPerdi depois a caneta.<\/p>\n<p>Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.<br \/>\n(Eu que achara t\u00e3o-cedo as inutilidades!)<br \/>\nDespejei as minhas cinzas<br \/>\nQue n\u00e3o havia vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Achei minha face.\u00a0 (p. 47)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pr\u00e9-governado por dispositivos s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 maior do que o de um mundo no qual j\u00e1 nem mesmo haja a intera\u00e7\u00e3o com os dispositivos. A perda da l\u00edngua, da caneta e da urna funer\u00e1ria para depositar as cinzas chegam a dar um tom nost\u00e1lgico do momento em que as coisas tinham fun\u00e7\u00e3o, seja a palavra para escrever ou o caix\u00e3o para sepultar. Contudo, o poeta n\u00e3o quer uma volta \u00e0 funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez at\u00e9 n\u00e3o tenham nunca deixado de operar, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel interagir com elas. Por isso, neste seu \u00faltimo livro j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o n\u00e3o-escrever, como acontecia em \u201cA Perspectiva do Quase\u201d, j\u00e1 que os instrumentos, se n\u00e3o se perderam, est\u00e3o completamente desafinados. E n\u00e3o h\u00e1 nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O principal gesto que se destaca em \u201cA Pedagogia do Suprimido\u201d, diante dessa condi\u00e7\u00e3o da supress\u00e3o, est\u00e1 no fato de que quem perde a sua caneta \u201cbic\u201d, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande for\u00e7a da l\u00edrica de Zeh Gustavo est\u00e1 na rasura, procedimento indeterminado, por\u00e9m teimoso daquilo que descreve como \u201c\u00e2nimo-v\u00e2ndalo\u201d. Se s\u00e3o observados tra\u00e7os da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, j\u00e1 n\u00e3o causa a mesma libera\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o t\u00edpica do c\u00f4mico. Neologismos como \u201cteimoazia\u201d ou \u201cautoboicorte\u201d imiscu\u00eddos em varia\u00e7\u00f5es de tons menores, expressam-se na recorr\u00eancia do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiogr\u00e1fico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, \u201cdesmemorial\u00edstico\u201d, \u00e0 maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-g\u00eanero, o autor at\u00e9 consegue prender a aten\u00e7\u00e3o do leitor a ponto de faz\u00ea-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-po\u00e9tica de forma\u00e7\u00e3o. Isso se refor\u00e7a ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que h\u00e1 perante o leitor um s\u00e1bio contador de hist\u00f3rias. Por\u00e9m, o pr\u00f3prio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso pr\u00e9vio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superf\u00edcie mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que l\u00ea um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imagina\u00e7\u00e3o proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. \u00c9 o que discretamente se declara no poema \u201cNa gare, com Delirium Tremens\u201d: \u201cEu me exprimo em papel-tela \/ Qual prosa j\u00e1 sem contador nem \/ Personagem \/ S\u00f3 fatos tortos jorrados em borro tarde morta \/ Tetos em desabares sob picotes-edif\u00edcio do c\u00e9u \/ Texto surrupiado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fatos tortos e desafinados porque est\u00e3o borrados pela superposi\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas a surrupiar o texto a todo momento. \u00c9 bem not\u00e1vel a esse respeito que o t\u00edtulo convidativo do livro j\u00e1 na contracapa vem como \u201cPedagogia do <span style=\"text-decoration: line-through;\">Suprimido<\/span>\u201d, o que tamb\u00e9m acontece na subdivis\u00e3o interna, onde os cap\u00edtulos aparecem tachados. Essa rasura, tamb\u00e9m mostra seu inc\u00f4modo e sua for\u00e7a, desmontando um fluir l\u00edrico, nos in\u00fameros neologismos e paronom\u00e1sias, atrav\u00e9s dos quais o poeta \u00e9 pr\u00f3digo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superp\u00f5e, a escrita da rasura no \u201c\u00e2nimo-v\u00e2ndalo\u201d vem em conjuntos not\u00e1veis de experimenta\u00e7\u00e3o, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras <em>des<\/em>calamento, <em>des<\/em>recalcado, <em>des<\/em>supress\u00e3o, <em>des<\/em>vio, <em>des<\/em>afogo e <em>des<\/em>abrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve n\u00e3o se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstru\u00e7\u00e3o (diferen\u00e7a e adiamento), tendo em vista que faz dela um v\u00edrus, uma des-qualquer coisa. No vaiv\u00e9m de cair no poema e grif\u00e1-lo, para logo acordar do sonho, \u00e9 provocada uma imers\u00e3o em uma experi\u00eancia expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que \u00e9 logo marcada pelas repeti\u00e7\u00f5es dessas rasuras, em que os sentidos s\u00e3o concentrados at\u00e9 a estafa sem que se consiga fazer uma transubstancia\u00e7\u00e3o. Qualquer tentativa de hero\u00edsmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repeti\u00e7\u00f5es de um experimentalismo despretensioso, por\u00e9m de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de \u201calto exaust\u00e3o\u201d. \u00a0Paralelamente ao rumo da introspec\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas n\u00e3o formalista) da rasura, como de um v\u00e2ndalo que descobriu que todo objeto \u00e0 sua volta lhe pode lhe ser \u00fatil como proj\u00e9til quando abre m\u00e3o de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, \u00e9 capaz de concentrar toda a d\u00favida, a agressividade e a impuls\u00e3o dos que assumem que j\u00e1 perderam a caneta ou o papel, isto \u00e9, que h\u00e1 for\u00e7a, mesmo quando se p\u00f5e em d\u00favida a forma\u00e7\u00e3o, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos po\u00e9ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, <strong>Leonardo D\u2019Avila<\/strong> \u00e9 tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publica\u00e7\u00e3o do editorial Cultura e Barb\u00e1rie (no prelo).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo D\u2019Avila escreve sobre os novos versos de Zeh Gustavo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7816,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1908,2533],"tags":[11,1952,1953,1913,159,1954,1912],"class_list":["post-7778","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-91a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-leonardo-davila","tag-memoria-e-rasura","tag-pedagogia-do-suprimido","tag-poemas","tag-verve","tag-zeh-gustavo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7778"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7778\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7903,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7778\/revisions\/7903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7816"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}