{"id":7977,"date":"2014-06-30T10:06:05","date_gmt":"2014-06-30T13:06:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7977"},"modified":"2014-08-08T15:19:00","modified_gmt":"2014-08-08T18:19:00","slug":"dedos-de-prosa-i-27","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-27\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lima Trindade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_7979\" aria-describedby=\"caption-attachment-7979\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7979\" title=\"Luiz Navarro\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7979\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Luiz Navarro<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>C\u00e9u fatiado de azul<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Leda e o rel\u00f3gio acertavam o tempo. O vento mais \u00famido, amea\u00e7ando. E o c\u00e3o vira-lata n\u00e3o mais a seguia. Cansara de dizer <em>n\u00e3o <\/em>aos pedintes. E em seu cora\u00e7\u00e3o chovia. Quem disse Salvador um ver\u00e3o sem tr\u00e9guas? Salvador a levava \u00e0 loucura. Eram as melhores horas. Um homem com alma de cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entalhes: o ateli\u00ea n\u00e3o recebia um turista h\u00e1 s\u00e9culos. Na verdade, dos doze anos vividos ali, tirara muito, reconhecia. Hoje, a rua, escura e funda, exalava odores de morte. E a luz, que iluminava o sagu\u00e3o, mal servia para nortear os olhos de doninha do propriet\u00e1rio.<em> Real Antiqu\u00e1rio. <\/em>A letra <em>u<\/em>, pintada numa caligrafia caprichada, apagou-se por si pr\u00f3pria, cansada de se apresentar na placa comida de ferrugem. Apesar disso, Salvador continuava a empunhar o form\u00e3o, talhando uma nova c\u00f3pia de pe\u00e7a barroca. Os cabelos raros e brancos de velho espanhol. As m\u00e3os grossas e ainda fortes. Sua m\u00e3o era seu sexo: os dedos h\u00e1beis e macios, moldando a carne rebelde de Leda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retalhos: <em>Conheceram-se numa noite clara em que o c\u00e9u estava fatiado de azul e as estrelas nasceram ofuscadas. Leda &amp; Salvador. Tocava uma m\u00fasica sensual nas escadarias do Carmo. Salvador, b\u00eabado. Leda, chapada de maconha. Sorriram um pro outro: o gringo e a negrinha. Ele sem saber dan\u00e7ar a salsa. Ela j\u00e1 acostumada ao ritmo e \u00e0 voz de <\/em>Ger\u00f4nimo<em>, ao balan\u00e7o e \u00e0 mal\u00edcia de <\/em>Ger\u00f4nimo<em>, \u00e0 pena pintada de vermelho na ponta e na cabe\u00e7a de <\/em>Ger\u00f4nimo,<em> ao sorriso malemolente dos quadris de <\/em>Ger\u00f4nimo,<em> seu cantor preferido, preto \u2013 apesar de branco. <\/em>Eu sou neg\u00e3o&#8230; Eu sou neg\u00e3o&#8230; Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a Liberdade.<em> E assim Salvador se libertou, subindo os degraus at\u00e9 sua pequena Oxum, que girava j\u00e1 dentro de sua cabe\u00e7a desde tempos atemporais.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Guardava a lembran\u00e7a da av\u00f3, an\u00e9is de ouro e balangand\u00e3s. Escrava como Leda, pobre como a m\u00e3e de Leda, mulheres juntando o com\u00e9rcio do amor poss\u00edvel. No iorub\u00e1, l\u00edngua-mater, xingava o feitor de puto, viado, ladr\u00e3o. Em portugu\u00eas desfiava mentiras quentes como a cor do dend\u00ea. Ela ela e mais ela sabia sabiam que o amor e o sexo s\u00e3o as palavras. N\u00e3o quaisquer umas, por\u00e9m, <em>as <\/em>palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entalhes: As hastes dos \u00f3culos eram flex\u00edveis e envolviam as orelhas grandes. Uma das lentes quebrada. Bem no meio. Da\u00ed a imprecis\u00e3o. E lascou a beirada do l\u00e1bio com sua \u00e2nsia. Os dedos molhados. De suor. Mesmo assim avan\u00e7ou. Podia-se ouvir um espasmo ou suspiro no ar. O vento revirando as folhas do cat\u00e1logo sujo sobre a mesa. Salvador acariciou o peito quase reto, quase liso da escultura, n\u00e3o fossem os dois biquinhos. Ele cuspiu um cuspe grosso na ferramenta \u2013 outrora t\u00e3o luzidia. E com a outra m\u00e3o desferiu o golpe entre as pernas do anjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retalhos: <em>Carregara a menina no colo como um noivo leva a noiva em suas n\u00fapcias. Entretantos entretantos, ela o escolheu como homem, assim como Zeus escolhia suas v\u00edtimas. Talvez a beleza da jovem o embalasse para uma armadilha. Dois marginais sairiam de algum canto escondido e o roubariam e o assassinariam, deixando seu desejo enterrado num v\u00e3o, tornando Salvador nota e n\u00famero de um jornal esquecido e em ru\u00ednas. O susto veio. Leda Leda Leda. Dezessete aninhos e j\u00e1 passara para antropologia na universidade. Como podia? Mais susto. Ela conhecia arte. Mesmo no lixo que era a loja. A influ\u00eancia europ\u00e9ia, s\u00e9culos de <\/em>oro y plata<em>, porcelanas chinesas e azulejos azuis, casti\u00e7ais, ornamentos em pe\u00e7as cotidianas. Danada. Susto maior. A raiva de Leda. Raiva dos homens e seus preconceitos na pele. Raiva t\u00e3o grande quanto a delicadeza. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Cada n\u00f3 de suas tran\u00e7as contava uma est\u00f3ria de espolia\u00e7\u00e3o. Queriam-na mais tr\u00e1gica, menos feliz. N\u00e3o permitia. A beleza de sua alegria guerreira era estampada na fronte. Arrastou Salvador pelos bra\u00e7os, apresentou-lhe o Il\u00ea. Nada de Chicletes com Banana, Babados Novos, Harmonias do Samba ou quem quer que representasse a estupidez de uma alegria embalada por uma mar\u00e9 sem ventos. Por isso, odiava os circuitos de carnaval e o automatismo dos corpos nas dan\u00e7as sincronizadas. N\u00e3o era o vento que a insuflava. Sim, as tempestades. Fechou as m\u00e3os com mais for\u00e7a e sentiu as j\u00f3ias machucando as palmas. Jogou tudo dentro da mochila: an\u00e9is, brincos e pulseiras. Aproximava-se da casa de John, um velho sobrado caindo aos peda\u00e7os na Mouraria. A poucos passos, ouviu o cachorro latir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entalhes: O telefone tocou. Era Leda no celular. Salvador ouviu tudo em sil\u00eancio, apenas murmurando o consentimento. N\u00e3o restavam mais alternativas. Precisavam sair da cidade, abandonar o pa\u00eds. Quando montou o ateli\u00ea, havia outros artistas. Verger costumava visit\u00e1-lo. Salvador falava v\u00e1rios idiomas. Filho de brasileira com italiano, nasceu na Espanha. Durante a inf\u00e2ncia, morou em Portugal. Os pais n\u00e3o sentavam lugar. Mudaram-se para a It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e, por fim, fixaram-se na \u00c1frica do Sul. Com dezoitos anos completos, a mando do pai, foi buscar trabalho na Fran\u00e7a. L\u00e1, aprendeu a pintar e a esculpir, enquanto vendia p\u00e3es em cestos nas ruas de Paris. Numa noite de bo\u00eamia, recebeu convite de Truffaut para fazer figura\u00e7\u00e3o num filme. Assim, come\u00e7ou carreira no cinema. N\u00e3o se saiu de todo mal. Logo, outros cineastas o convidaram. Godard, Jean Vignon, Louis Malle e at\u00e9 Fellini, que visitava os est\u00fadios de produ\u00e7\u00e3o de <em>La Rivi\u00e8re de Cassis.<\/em> Dividia seus dias entre a s\u00e9tima arte e as aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da \u00e9poca. Tornou-se marxista. Contudo, sentia-se um estranho em qualquer ch\u00e3o que pisasse. Gostava de aventuras. As mulheres o agradavam e n\u00e3o se recusava aos homens, conquanto fossem bonitos e tivessem alguma graciosidade. Participou das manifesta\u00e7\u00f5es de maio em Paris, viajou para a B\u00e9lgica, Alemanha e, quando se cansou, decidiu estudar pol\u00edtica na Inglaterra. Os anos foram passando e Salvador cada vez mais desterritorializado. Viu com terror a queda do Muro de Berlim, teve depress\u00e3o, isolou-se. At\u00e9 que um dia ca\u00edram em suas m\u00e3os novamente o cinzel e o martelo. Ele os recebeu, gratificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retalhos: <em>Tinha bebido e nem por um instante pensara numa raz\u00e3o \u00edntegra o suficiente para se satisfazer: que queria a menina? Andava pela sua caverna como se dela fosse, afastando pe\u00e7as, sorrindo e dan\u00e7ando entre as v\u00eanus e dianas. E tinha se apercebido \u2013 sim, nesta hora precisa \u2013, Salvador lembrou e se conscientizou de que era um velho. Leda beijou sua barba por fazer. Leda arrancou seus \u00f3culos da face. Leda abriu os bot\u00f5es da sua camisa. E Salvador, Salvador n\u00e3o sentiu nada. O pinto t\u00e3o murcho como ultimamente. Mas n\u00e3o era um completo vazio o que sentia. Dentro, l\u00e1 dentro, era um sentimento abrasador, pulsante e extremamente vivo. A quest\u00e3o era se para Leda bastava isto, olhar. Leda segurou o sexo de Salvador em sua m\u00e3o de menina. Sexo grande, macio e mole. Salvador tentou se recolher e fugir. Mas Leda o deteve, baixando a m\u00e3o at\u00e9 suas bolas e apertando com firmeza.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Uma empregada-zumbi abriu a porta e segurou o rottweiller pela coleira. A mulher era um cani\u00e7o, mas de um lado a vassoura e do outro a grande fera assassina. Leda escapou para o corredor e, de l\u00e1, direto para o jardim, nos fundos, de onde uma luz natural se projetava para o interior, e da porta se viam duas cadeiras de ferro, uma mesa de madeira, caixotes e mais caixotes amontoados e uma vista linda. John molhava as pontas dos bigodes loiros numa x\u00edcara de caf\u00e9, \u00f3culos escuros, bermuda e camisa florida aberta no peito. Um chav\u00e3o, pensou Leda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Hey<\/em>! Led\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Diz a\u00ed, John.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>Coffee<\/em>? Est\u00e1 uma d\u2019l\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quintal e a casa ficavam acima da rua posterior, a diferen\u00e7a de altura propiciando a vis\u00e3o das torres das igrejas do Pelourinho, os telhados vermelhos enegrecidos das casas, janelas de edif\u00edcios e muitas antenas por toda parte. Um forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O que vai ser desta vez? \u2013 falou o americano em bom portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nada de compra. Trouxe um neg\u00f3cio para voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Oh,<em> really<\/em>? E do que se trata?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 S\u00e3o j\u00f3ias. Coisa de primeira. \u2013 Ela p\u00f4s a m\u00e3o na mochila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouviu-se um grunhido. A cabe\u00e7a do c\u00e3o surgiu na janela da cozinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entalhes: Era preciso lixar a madeira, passar verniz e deixar secar. Depois, lixar novamente \u2013 com uma lixa mais leve \u2013 e pintar com tintas foscas, para dar a impress\u00e3o de antiguidade digna de uma obra de arte. Reconstituir o passado. Inglaterra. Um dia, chegou uma carta da \u00c1frica do Sul. Os pais completavam quarenta anos de casados. Junto, uma foto do casal. Estavam mais gordos do que imaginara. O pai nada escrevera, somente a m\u00e3e, sua doce e meiga m\u00e3e brasileira. Contava que n\u00e3o se acostumara ao abandono, que chorava antes de rezar, \u00e0 noite, enquanto o marido roncava. E pedia cuidados ao anjo da guarda do filho. Salvador deslizou a ponta dos dedos sobre o papel e acreditou que talvez uma l\u00e1grima houvesse molhado e turvado as tintas da caneta. Perguntou-se que m\u00e3e era essa que ele n\u00e3o conhecia perfeitamente, t\u00e3o amorosa e sentimental ao mesmo tempo? Suas lembran\u00e7as n\u00e3o davam conta da fam\u00edlia. Acostumara-se \u00e0 solid\u00e3o e, tamb\u00e9m, \u00e0 independ\u00eancia. Forjara-se homem pelos pr\u00f3prios esfor\u00e7os. E sobrevivera. Na inf\u00e2ncia, a m\u00e3e era uma presen\u00e7a viva, enquanto o pai, bom comerciante, contentava-se em p\u00f4r a comida \u00e0 mesa, fazer as vontades da mulher e perguntar como ele andava nos estudos. Em todo o resto, era como se n\u00e3o existisse. J\u00e1 a mulher, de pele apessegada e olhos puxados, abra\u00e7ava Salvador sempre que ele chegava, tratava-o como um eterno menino. Da\u00ed, raciocinou ele mais tarde, o desprezo e a ferocidade com que o pai se apressou em despach\u00e1-lo para longe. Era pela m\u00e3e que escrevia postais ocasionalmente. E, pelo pai, a decis\u00e3o de nunca telefonar nem voltar para casa. Quando o velho morresse, quem sabe? Mas, dois anos depois, a m\u00e3e descobriu-se com um c\u00e2ncer \u2013 sua falta?, ele se perguntaria \u2013 e ent\u00e3o faleceu em poucos meses, evitando o reencontro. Salvador montou uma exposi\u00e7\u00e3o com seus trabalhos, recebeu cr\u00edticas extremamente desfavor\u00e1veis e se recusou a criar algo novo no futuro. Tornou-se um ex\u00edmio copiador. Um artista que sobrevivia gra\u00e7as ao desejo daqueles que n\u00e3o tinham dinheiro e desejavam mais que tudo um nome famoso na parede da sala, num canto da biblioteca ou no alpendre da fachada da nova casa. Numa tarde fria de mar\u00e7o, pegou seu agasalho, abriu o guarda-chuva e, na ag\u00eancia de viagens mais pr\u00f3xima, comprou uma passagem sem volta para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retalhos: <em>Sussurros, pequenos sinos, timbres, sim, avan\u00e7a o sinal, p\u00e1ra, segura e lan\u00e7a seu uivo de salva\u00e7\u00e3o e despertar, \u00f3leos oleosos pelos v\u00e3os escavados, caindo atr\u00e1s de voc\u00ea o trov\u00e3o, eu um raio apagado no tempo, estamos \u00e0s voltas e envoltos em odores, disfar\u00e7amos nossos n\u00e3os, entrela\u00e7ando os sentidos e fazendo, oh, estamos fazendo, mesmo?, t\u00e3o perto assim, a gl\u00f3ria e o altar, cantarei gregorianos cantos, chuvas m\u00f3veis\u00a0 em sua face, pergunto-me como e eu desejarei sempre, voc\u00ea, Leda Leda Leda, sem enganos, beija, meu cora\u00e7\u00e3o, beija meus dedos fatigados, beija-me com teus l\u00e1bios novamente, fechando e abrindo e dobrando a espinha, chorando em mim, mais uma vez chorando em mim&#8230; Eu, inteiro, encoberto por suas tran\u00e7as, encoberto por sua vol\u00fapia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Leda tirou os an\u00e9is e os balangand\u00e3s e John admirou-se da formosura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quanto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Cinco mil d\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o. \u00c9 muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela amea\u00e7ou guardar de volta na mochila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pago dois mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quatro. E mais duas trouxinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O americano sorriu maliciosamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Se quiser, te dou dois mil e \u2013 olhou para as pernas da menina \u2013 posso lhe compensar com uma coisa melhor que <em>drugs <\/em>\u2013 apalpou o volume na virilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nem pensar. S\u00e3o quatro mil e s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Se quiser, dou tr\u00eas e deixo voc\u00ea cheirar algumas carreiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pra eu ter uma overdose? N\u00e3o, obrigada. Aceito os tr\u00eas. Em dinheiro. Deixo as j\u00f3ias aqui e saio imediatamente com a grana, sem mais conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <em>All right<\/em>! Estou d\u2019acordo. Mas isso n\u00e3o \u00e9 material roubado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 S\u00e3o heran\u00e7as de fam\u00edlia. Voc\u00ea ainda n\u00e3o precisa se preocupar com a concorr\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entalhes: Para que guardar os entulhos e fingir e se convencer e retornar a uma rotina solit\u00e1ria, colhendo os caquinhos do Velho Mundo, asfixiando-se com a invas\u00e3o, com a deprecia\u00e7\u00e3o da vida, os pr\u00e9dios, outrora casar\u00f5es repletos de vida, desabando sobre ele, Salvador, sem fio de esperan\u00e7a, a desapropria\u00e7\u00e3o, o governo, os turistas, a placa REAL ANTIQU\u00c1RIO uma mentira, uma ilus\u00e3o, os sonhos dos meninos seminus cheirando cola na esquina, olhando para ele, Salvador, sem ao menos expelir o medo que assegura a n\u00e3o-viol\u00eancia, evita a morte, o perigo desse outro in\u00f3spito, falando outros idiomas, as palavras pintadas com cores de amor e sexo. Palavras. Leda quer ir embora para o lar que ele deixou, viver uma outra guerra, estar no centro do poder, fazer c\u00f3cegas, ser uma b\u00e1rbara no Imp\u00e9rio, ou ainda na periferia do Grande Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atalhos: Entalhes: Leda pagou as passagens e despacharam as malas e se abra\u00e7aram longamente. Faltava mais de uma hora para o v\u00f4o partir. Salvador segurava uma pequena bagagem de m\u00e3o, Leda uma bolsa. Salvador. <em>Go home!<\/em>. Leda. <em>Eu amo Salvador. <\/em>Ele a presenteou com um perfume caro. Uma gota em cada lado do pesco\u00e7o. E disse <em>parab\u00e9ns, menina! Feliz anivers\u00e1rio!<\/em> Ela sorriu, beijando sua boca. Atravessaram o port\u00e3o de embarque juntos, pisando primeiramente com o p\u00e9 direito.\u00a0 No avi\u00e3o, Leda deixou que a paisagem se dissipasse entre as nuvens e finalmente olhou a janela e o c\u00e9u fatiado de azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"right\">(do livro <em>cora\u00e7\u00f5es blues e serpentinas<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Lima Trindade<\/em><\/strong><em> nasceu em 23 de dezembro de 1966 em Bras\u00edlia, DF. Vive em Salvador desde 2002. Publicou tr\u00eas livros de contos e uma novela. Participou de diversas antologias, entre elas \u201cTempo bom,\u201d (Iluminuras, 2010) e \u201cGera\u00e7\u00e3o Zero Zero: fric\u00e7\u00f5es em rede\u201d (L\u00edngua Geral, 2011).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trajetos intimistas no conto de Lima Trindade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1978,2534,16],"tags":[1979,81,41,1439,149,1980],"class_list":["post-7977","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-92a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-ceu-fatiado-de-azul","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-lima-trindade","tag-prosa","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7977"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7977\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8130,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7977\/revisions\/8130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}