{"id":7997,"date":"2014-06-30T10:32:56","date_gmt":"2014-06-30T13:32:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=7997"},"modified":"2014-08-08T15:19:33","modified_gmt":"2014-08-08T18:19:33","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-26\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tantas eras j\u00e1 atravessadas e o caminho das palavras continua a se \u00a0guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjun\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado confere vigor a todo e qualquer escrito. Com rela\u00e7\u00e3o ao outro, novas investidas s\u00e3o pensadas como estrat\u00e9gia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que editoras n\u00e3o funcionam sem que tenham em suas m\u00e3os algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos poss\u00edveis se os sujeitos que os representam n\u00e3o trazem a marca da qualidade em suas express\u00f5es. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publica\u00e7\u00f5es de obras. Nesse \u00ednterim, um \u00e2nimo renovado irrompe. Na contram\u00e3o dos ditames puramente mercadol\u00f3gicos, os quais segregam muitas obras a espa\u00e7os confinados ou as enquadram num c\u00edrculo duvidoso de prefer\u00eancias, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflex\u00f5es sobre o tema. \u00a0Atrav\u00e9s do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercializa\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o diferenciadas, tais empresas intentam n\u00e3o somente um lugar ao sol, mas tamb\u00e9m servirem como espa\u00e7os de democratiza\u00e7\u00e3o de express\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial \u00e9 o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista <strong>Gustavo Felic\u00edssimo<\/strong>. H\u00e1 pouco mais de vinte anos, Gustavo, que \u00e9 natural de Mar\u00edlia, escolheu as paragens baianas como seu novo espa\u00e7o no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recupera\u00e7\u00e3o de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulga\u00e7\u00e3o de outras tantas vozes. Sem d\u00favida alguma, sua viv\u00eancia de poeta e de apaixonado pela literatura \u00e9 que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, est\u00e3o os livros Outros Sil\u00eancios (2011), Procura &amp; Outros Poemas (2012), Blues Para Mar\u00edlia (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua fei\u00e7\u00e3o de editor e prestes a lan\u00e7ar seu mais novo rebento po\u00e9tico, Gustavo nos recebe para um di\u00e1logo cujo tema maior n\u00e3o poderia ser outro: a marca indel\u00e9vel da literatura.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_8083\" aria-describedby=\"caption-attachment-8083\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-I5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8083\" title=\"Gustavo Felic\u00edssimo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-I5.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-I5.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-I5-300x170.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8083\" class=\"wp-caption-text\">Gustavo Felic\u00edssimo \/ Foto: Fausto Roim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Num determinado ponto de sua trajet\u00f3ria com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir da\u00ed, sua fei\u00e7\u00e3o de editor, j\u00e1 acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfa\u00e7\u00e3o que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente h\u00e1 anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilh\u00e9us, atrav\u00e9s do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo est\u00e1 em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para al\u00e9m das fronteiras sulbaianas, mas a gratid\u00e3o \u00e9 e sempre ser\u00e1 imensur\u00e1vel.<strong>\u00a0<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como est\u00e1 sendo o processo de expans\u00e3o da editora? H\u00e1 uma clara inten\u00e7\u00e3o de abrir espa\u00e7os para autores de outros recantos do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>H\u00e1 uma assertiva atribu\u00edda a\u00a0Tolst\u00f3i,\u00a0que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, come\u00e7a por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, al\u00e9m de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, ap\u00f3s tr\u00eas anos de exist\u00eancia e j\u00e1 tendo consolidado uma posi\u00e7\u00e3o de relevo na cultura sulbaiana, come\u00e7amos a pensar na ocupa\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o estrat\u00e9gico na Bahia. Para tanto, criei a &#8220;S\u00e9rie Horizontes&#8221;, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada &#8220;Gera\u00e7\u00e3o Anos 2000&#8221;, como o Jo\u00e3o Filho, Henrique Wagner, Silv\u00e9rio Duque, N\u00edvia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma gera\u00e7\u00e3o vem dando bons frutos, atraindo p\u00fablico satisfat\u00f3rio para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do pr\u00f3prio meio liter\u00e1rio, o que comprova o acerto das nossas escolhas. At\u00e9 o final de 2014, somente nesta s\u00e9rie, teremos 10 obras publicadas. Criei tamb\u00e9m a &#8220;S\u00e9rie Mondronguinho&#8221;, exclusivamente para a publica\u00e7\u00e3o de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois \u00e9 uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estrat\u00e9gicas. J\u00e1\u00a0em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma refer\u00eancia nacional para o Haikai, essa forma po\u00e9tica t\u00e3o importante, mas ao mesmo tempo t\u00e3o marginalizada, publicando, inclusive, autores de relev\u00e2ncia. Para isso tenho em desenvolvimento a edi\u00e7\u00e3o das cinco primeiras obras que dever\u00e3o ser lan\u00e7adas at\u00e9 outubro deste ano. Enfim,\u00a0a expans\u00e3o est\u00e1 acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avan\u00e7amos no cumprimento das metas planejadas, outras metas v\u00e3o se impondo naturalmente.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na sua avalia\u00e7\u00e3o, quais caracter\u00edsticas marcam a nova face da literatura baiana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>A face \u00e9 sempre a mesma. Em \u201cOropa\u201d, Fran\u00e7a e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura \u00e9 multifacetada. N\u00e3o h\u00e1 caracter\u00edsticas que a possam definir. O que existem s\u00e3o os bons e os maus escritores. Os primeiros s\u00e3o capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher\u00a0os espa\u00e7os vazios na estante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Cada vez mais, as editoras independentes v\u00eam ganhando espa\u00e7o no Brasil. Uma das alternativas de atua\u00e7\u00e3o delas est\u00e1 no uso de tiragens reduzidas como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia e tamb\u00e9m de rea\u00e7\u00e3o ao mercado editorial vigente. De que modo voc\u00ea percebe esse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>Cada dia mais me parece que ser independente \u00e9, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como &#8220;independente&#8221; \u00e9 o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os p\u00e9s no ch\u00e3o para n\u00e3o quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acess\u00edvel e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemit\u00e9rios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condi\u00e7\u00e3o de ignorar a m\u00eddia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na m\u00e3o. Parece-me que o caminho dessa &#8220;rea\u00e7\u00e3o&#8221; passa por a\u00ed.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Desde 1993, voc\u00ea elegeu a Bahia como morada. E seu livro &#8220;Blues para Mar\u00edlia&#8221; \u00e9 algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor at\u00e9 aqui. \u00a0Como voc\u00ea vislumbra esse seu ex\u00edlio \u00edntimo de poeta?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211;<\/strong> Minha liga\u00e7\u00e3o com a Bahia \u00e9 algo muito especial,\u00a0transcendental, diria. E Mar\u00edlia \u00e9 a base da minha g\u00eanese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha m\u00e3e. Quando retornaram, ela estava gr\u00e1vida. Da\u00ed por diante, sempre que ele se lan\u00e7ava no mundo dizia: &#8220;Mulher, cuida bem do nosso baianinho&#8221;. E na volta, inevitavelmente, perguntava: &#8220;E a\u00ed, mulher, como est\u00e1 o nosso baianinho?&#8221;. Da\u00ed que para mim n\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui n\u00e3o ter sa\u00eddo mais. A par disso,\u00a0posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu r\u00e9gua e compasso, que aqui, gra\u00e7as a todas as influ\u00eancias, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida n\u00e3o poderia mais acontecer. E o que me \u00e9 mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. \u00c9 \u00e0 margem do que sou que sei exatamente o que n\u00e3o fui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre <em>Blues para Mar\u00edlia<\/em>,\u00a0penso que essa pung\u00eancia atribu\u00edda \u00e0 obra\u00a0se deve pela inser\u00e7\u00e3o de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dram\u00e1ticas reminisc\u00eancias. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua pot\u00eancia verbal, pode dar conta. \u00a0Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consci\u00eancia liter\u00e1ria e o respeito pela tradi\u00e7\u00e3o. Somente assim \u00e9 poss\u00edvel manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lan\u00e7ado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me for\u00e7ou a providenciar uma segunda edi\u00e7\u00e3o ainda mais caprichada, dispon\u00edvel para aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Criar \u00e9 notadamente uma confiss\u00e3o de pertencimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>Em todos os sentidos. E mais: \u00e9 uma quest\u00e3o de identidade. Afinal, nossa escrita \u00e9 o reflexo do que somos. Mas criar \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de defesa, uma forma do\u00a0<em>ego<\/em>\u00a0repelir a ang\u00fastia e a ansiedade, sublimando-os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8084\" aria-describedby=\"caption-attachment-8084\" style=\"width: 287px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8084\" title=\"Gustavo Felic\u00edssimo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II5.jpg\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II5.jpg 287w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/INTERNA-II5-175x300.jpg 175w\" sizes=\"auto, (max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8084\" class=\"wp-caption-text\">Gustavo Felic\u00edssimo \/ Foto: Fausto Roim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A mem\u00f3ria afetiva pode ser tamb\u00e9m um terreno melindroso para o poeta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita \u00e9 um reflexo do que somos, logo a \u201cmem\u00f3ria afetiva\u201d \u00e9 parte da identidade do autor. \u00c9 ela que repudia os contr\u00e1rios gerando tens\u00e3o. Essa oposi\u00e7\u00e3o gera a necessidade de se diluir a tens\u00e3o, proporcionando a for\u00e7a motriz da cria\u00e7\u00e3o. O Anthony Storr, em \u201cA din\u00e2mica da cria\u00e7\u00e3o\u201d, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em \u201cProcura e outros poemas\u201d, voc\u00ea experimenta o gosto de uma maturidade liter\u00e1ria. E h\u00e1 ali tamb\u00e9m uma, digamos assim, alus\u00e3o ao uso respons\u00e1vel do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflex\u00f5es lhe parecem mais relevantes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>Embora transite por diversos g\u00eaneros liter\u00e1rios, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo aten\u00e7\u00e3o por conta dos projetos e publica\u00e7\u00f5es nessa \u00e1rea. Quanto a meus livros, o que posso dizer \u00e9 que sempre tive a consci\u00eancia de que um comp\u00eandio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma esp\u00e9cie de fio condutor, afinal, um livro do g\u00eanero n\u00e3o deve ser um ajuntamento aleat\u00f3rio de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Da\u00ed eu ter levado, em m\u00e9dia, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou n\u00e3o, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta est\u00e9tica, muito embora n\u00e3o tenha muita esperan\u00e7a quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influ\u00eancia lhes prestasse,\u00a0em verdade, um desservi\u00e7o na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e at\u00e9 mesmo vulgarismo. \u00c9 como disse o Elliot: n\u00e3o existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No conjunto de sua obra, h\u00e1 uma busca consciente por uma unidade formal? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>O termo \u201cformal\u201d da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto \u00e9 necess\u00e1rio considerar que todo poema \u00e9 uma unidade formal se levarmos em conta que n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado como tal se n\u00e3o conseguir amalgamar em seu bojo elementos como \u201cimagem\u201d, \u201cmelodia\u201d e \u201cideia\u201d. O problema \u00e9 que termos como \u201cforma\u201d, \u201cm\u00e9trica\u201d e \u201cversifica\u00e7\u00e3o\u201d se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. S\u00f3 que n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum bom poeta que n\u00e3o domine esses elementos fundamentais, at\u00e9 para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ild\u00e1sio Tavares, esse \u00e9 um processo dial\u00e9tico e o esvaziamento de um conduz \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do outro. \u00c0 parte essas considera\u00e7\u00f5es, o importante \u00e9 que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se fa\u00e7a poesia. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar aqui um prov\u00e9rbio latino que diz\u00a0<em>fit orator, nascitur poeta<\/em>.<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 prestes a lan\u00e7ar seu mais novo livro, \u201cDesordem\u201d. Com qual clamor estes versos surgem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>Mesmo n\u00e3o tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que \u201cDesordem\u201d foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento cr\u00edtico. Nele, atrav\u00e9s do uso da metalinguagem, est\u00e3o contidas diversas das minhas reflex\u00f5es sobre a po\u00e9tica e o fazer poesia, tamb\u00e9m h\u00e1 uma suma importante de reflex\u00f5es sobre a morte, resumidas em um cap\u00edtulo formado apenas por elegias, e, por fim, h\u00e1 um cap\u00edtulo intermedi\u00e1rio em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de fei\u00e7\u00f5es diversas, normalmente de caracter\u00edsticas obscuras e at\u00e9 mesmo pessimistas. \u00a0\u00a0<strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse universo de percep\u00e7\u00f5es que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felic\u00edssimo conhece Gustavo Felic\u00edssimo? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GUSTAVO FELIC\u00cdSSIMO &#8211; <\/strong>A \u00fanica maneira que tenho para responder \u00e0 pergunta \u00e9 com um antigo poema, intitulado\u00a0<em>Autorretrato<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sou como o invis\u00edvel c\u00e9u<br \/>\nque n\u00e3o vos inspira cuidados,<br \/>\npois retorno depois das n\u00e9voas<br \/>\nsobre os campos abandonados;<\/p>\n<p>sou finito e celebro o fogo<br \/>\ninfind\u00e1vel do grande jogo<\/p>\n<p>a nos enla\u00e7ar a garganta;<br \/>\ncreio no v\u00f3rtice da voz<br \/>\nsacrossanta que a tudo encanta:<\/p>\n<p>trago os haveres desse mundo;<br \/>\nsou terra, sou campo fecundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>&#8211; 3 POEMAS IN\u00c9DITOS* \u2013<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c0 POSTERIDADE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ocorreu-me de escrever<br \/>\num poema \u00e0 posteridade.<br \/>\nUm poema que assegure<br \/>\na perman\u00eancia do meu nome,<br \/>\nseja l\u00e1 o que isso signifique.<br \/>\nUm poema t\u00e3o claro e puro<br \/>\nquanto essa exclama\u00e7\u00e3o:<br \/>\nposteridade, v\u00e1 se foder!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOC\u00ca<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Para Cristiano Jutgla<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dane-se essa onda do politicamente correto,<br \/>\nessa mania de n\u00e3o poder desagradar nunca,<br \/>\nafinal, a exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais que um inc\u00eandio.<br \/>\nQue importa restarem cinzas depois das chamas?*<br \/>\nQue importa a bondade dos liquidados?<br \/>\nN\u00e3o procurar a verdade na imensid\u00e3o da verdade,<br \/>\nsen\u00e3o na for\u00e7a falsa de um imbecil diplomado<br \/>\n\u00e9 o mesmo que n\u00e3o se aplicar em traduzir<br \/>\no que a vida mesma est\u00e1 sempre a nos dizer.<br \/>\nN\u00e3o tecerei alv\u00edssaras a mais pura mediocridade.<br \/>\nN\u00e3o vencerei o tolo jogando o seu jogo.<br \/>\nEle surge como se fosse o novo,<br \/>\nmas \u00e9 o farol apagado no meio da imensid\u00e3o.<br \/>\nAssim ele marcha: num cortejo f\u00fanebre.<br \/>\nAssim se mant\u00e9m: com muletas que n\u00e3o o sustentam.<br \/>\nNenhuma filosofia o alimenta ou ampara.<br \/>\nEst\u00fapido, que na estupidez se espelha,<br \/>\neu nasci declarando guerra a voc\u00ea:<br \/>\neu nasci odiando a tua mediocridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* O verso \u00e9 de M\u00e1rio Quintana<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>UMA FAGULHA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa corda que vibra<br \/>\nno poema \u00e9 a vida<br \/>\npois se nela um sopro insiste<br \/>\nse um fio de esperan\u00e7a<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>ainda resiste<br \/>\n\u00e9 por que enquanto houver gente<br \/>\nhaver\u00e1 sempre o sonho<br \/>\numa fantasia qualquer<br \/>\nque far\u00e1 da poesia t\u00e3o somente<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>o sol na face<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>o sorriso da crian\u00e7a<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>o seio da amada<br \/>\n\u2013 e porque n\u00e3o \u2013<br \/>\num domingo de futebol<br \/>\ne a torcida na arquibancada.<br \/>\n\u00c9 que enquanto houver no homem<br \/>\na sede de afrontar a ang\u00fastia<br \/>\ne a fome<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>implac\u00e1vel<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>de viver<br \/>\nhaver\u00e1 por certo uma explos\u00e3o<br \/>\nalgo fazendo tinir<br \/>\no cristal que nos move<br \/>\ne n\u00e3o deixa morrer a ilus\u00e3o<br \/>\nde que a poesia<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>\u2013 para sempre \u2013<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>continuar\u00e1 a ser<br \/>\numa fagulha que inflama a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*<strong> <\/strong>Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num breve di\u00e1logo, o editor e poeta Gustavo Felic\u00edssimo exp\u00f5e alguns de seus percursos pela literatura  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