{"id":8052,"date":"2014-07-01T09:54:12","date_gmt":"2014-07-01T12:54:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8052"},"modified":"2014-07-05T15:18:49","modified_gmt":"2014-07-05T18:18:49","slug":"janela-poetica-iii-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iii-28\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica III"},"content":{"rendered":"<p><em>Carla Diacov<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8054\" aria-describedby=\"caption-attachment-8054\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/INTERNA-I1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8054\" title=\"Luiz Navarro\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/INTERNA-I1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/INTERNA-I1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/INTERNA-I1-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8054\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Luiz Navarro<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>desarranjos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>para Marcelo Novaes e para Ana Ehre.<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1.<br \/>\nembeba-te dum canto do quarto<br \/>\nem l\u00e1<br \/>\nlouco de tua sombra<br \/>\nlistas<br \/>\nobjetos para a tua despedida<br \/>\num lim\u00e3o partido<br \/>\npara que n\u00e3o lhe seque a boca<br \/>\numa chinela s\u00f3<br \/>\npara que um dos teus p\u00e9s fique \u00e0 procura<br \/>\num rumo de poeira traseira<br \/>\npara que possas subir<br \/>\nseguir \u00e0 esquerda<br \/>\nent\u00e3o \u00e0 direita<br \/>\npara que possas passar a orbitar outras horas que n\u00e3o esta<br \/>\ns\u00f3 agora que agora \u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nportanto<br \/>\ns\u00f3 ent\u00e3o<br \/>\nfeche os olhos e a boca<br \/>\nrespire mais uns segundo<br \/>\ne mais um e mais um<br \/>\ninspire como que vomitando tudo o que te enfiaram goela abaixo como defini\u00e7\u00e3o de coisa<br \/>\nque<br \/>\nagora<br \/>\nagora que \u00e9 ent\u00e3o<br \/>\ntu sabes bem<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nah, Marcelo! as coisas que finalmente n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2.<br \/>\ncorte<br \/>\nou fure<br \/>\num pedacinho do teu dedo<br \/>\n\u00f3<br \/>\no teu dedo<br \/>\na pequen\u00edssima dor<br \/>\nem ondas<br \/>\nem pequen\u00edssimas ondas<br \/>\n\u00f3<br \/>\ncorte ou fure ou<br \/>\ndestampe a ponta do teu dedo<br \/>\ncom ele<br \/>\no dedo sangrento<br \/>\ntoque o contorno do teu rosto refletido no puxador da gaveta<br \/>\nsabes bem que nesta gaveta<br \/>\nest\u00e3o<br \/>\nas cartas que n\u00e3o mandaste<br \/>\n\u00f3<br \/>\nas cartas<br \/>\ndentro destas<br \/>\nos cheiros de tudo o que &#8230;<br \/>\n\u00e9 de lembrar?<br \/>\n\u00e9 de saber desses cheiros, n\u00e3o?<br \/>\nn\u00e3o!<br \/>\nn\u00e3o tome as cartas nas m\u00e3os<br \/>\nsequer abra a gaveta<br \/>\npoder\u00edamos com a crueldade neste segundo?<br \/>\nh\u00e1 uma luz no rabo dum inseto que se diz musical<br \/>\nh\u00e1 um verso repetindo a tua cabe\u00e7a<br \/>\nh\u00e1 um n\u00f3 desarranjado dos outros n\u00f3s na embarca\u00e7\u00e3o:<br \/>\nenterra-te neste.<br \/>\nonde o sangue fez gar\u00e7as no teu rosto<br \/>\ndever\u00e1 nascer um espa\u00e7o para as mem\u00f3rias do novo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3.<br \/>\nbeatifico um broche que tenho<br \/>\num par de botas ao estilo cowboy<br \/>\nh\u00e1 dia de n\u00e3o me saber<br \/>\ncaso eu n\u00e3o use o broche<br \/>\nse j\u00e1 estou longe de casa<br \/>\nsinto que estou muito mais<br \/>\nlonge<br \/>\ns\u00f3<br \/>\ndesembestada<br \/>\ngrito COMO PUDE?<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>COMO LARGAR MEU OR\u00c1CULO SEM MIM?<br \/>\nagora sabes que tamb\u00e9m o tenho como or\u00e1culo<br \/>\ne ainda logo<br \/>\ne dizer<br \/>\nAINDA LONGE<br \/>\nainda<br \/>\nAINDA LONGE E SEM MEU OR\u00c1CULO DA SORTE<br \/>\nsorte<br \/>\nben\u00e7\u00e3o<br \/>\nprote\u00e7\u00e3o<br \/>\nescudo<br \/>\ndado<br \/>\nagora tenho de entrar num elevador<br \/>\nentro de costas<br \/>\ncomo manda o bom e velho costume que acabo de inventar<br \/>\nno caso da aus\u00eancia do broche<br \/>\na entran\u00e7a em elevadores<br \/>\nsomente pelas costas<\/p>\n<p>ando desejando viajar<br \/>\nat\u00e9 onde n\u00e3o possa mais a\u00a0 excurs\u00e3o do toque<br \/>\nda\u00ed que penso em n\u00e3o levar o broche comigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4.<br \/>\nparei de contar estrelas<br \/>\nno dia em que parei de contar aos outros<br \/>\nque contava estrelas<br \/>\nque j\u00e1 havia um cat\u00e1logo iniciando-se<br \/>\nque em minha metodologia<br \/>\ngostava de fazer uso de medalhas como<br \/>\nirmandade<br \/>\nloucura<br \/>\nxarope, quilograma e medalha<br \/>\nparei de contar as estrelas<br \/>\nn\u00e3o paro de contar mentiras<br \/>\n(ossos das imagens que ainda)<br \/>\nsou imprudente demais, Ana.<br \/>\ne atravesso a nado o mar da miopia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5.<br \/>\nj\u00e1 podes fazer tuas pr\u00f3prias meias!<\/p>\n<p>o homem sentado diante do abajur azulado<br \/>\nsente tanto o frio lhe agarrando pelos p\u00e9s<br \/>\ne nada faz<br \/>\nal\u00e9m de sentir<br \/>\nolha a fia\u00e7\u00e3o do telefone<br \/>\no caminho no rodap\u00e9<br \/>\nfor\u00e7a a mem\u00f3ria<br \/>\na cor antiga<br \/>\no tempo em que a tia Sandra ensinou<br \/>\nCEBOLA? OU C\u00ca PICA MIUDINHO<br \/>\nOU NEM PICA!<br \/>\nque frio<br \/>\no restolho da quentura escapando pelos p\u00e9s<br \/>\ne nada faz<br \/>\nolha pela janela central<br \/>\na vizinha a desenrolar um imenso cartaz<\/p>\n<p>j\u00e1 podes fazer tuas pr\u00f3prias meias!<\/p>\n<p>e nada faz<br \/>\nal\u00e9m de sentir:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6.<br \/>\nh\u00e1 o alcance<br \/>\nh\u00e1 uma coisa ou um vag\u00e3o onde se chegar<br \/>\nh\u00e1 a tua e a minha vontade<br \/>\nh\u00e1<br \/>\nnalgum lugarejo que n\u00e3o este e nem aquele<br \/>\na aproxima\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>se eu fosse de cascas<br \/>\niria pelada<br \/>\npara sentir no sumo<br \/>\nno suco do que sou<br \/>\na agonia<\/p>\n<p>se eu fosse de cera<br \/>\neu n\u00e3o iria<\/p>\n<p>se eu fosse voc\u00ea<br \/>\neu pediria<br \/>\nCOMA-ME E LEVA-ME CONTIGO<br \/>\nPELO TEU LADO DE DENTRO<br \/>\nEM L\u00c1<br \/>\nVOMITA-ME<\/p>\n<p>se voc\u00ea fosse eu<br \/>\nvoc\u00ea perguntaria<br \/>\nL\u00c1 ONDE?<\/p>\n<p>da\u00ed que h\u00e1 tamb\u00e9m a transpira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a transpira\u00e7\u00e3o dos objetos.<\/p>\n<p>e ent\u00e3o?<br \/>\nshould we?<br \/>\nh\u00e1 essa chance ainda. agora.<br \/>\nagora que \u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7.<br \/>\numa corda<br \/>\numa pequena corda<br \/>\ne levantar-se pela manh\u00e3<br \/>\npela noite<br \/>\ndeitar-se<br \/>\ne uma corda<br \/>\nde ter junto<br \/>\na dizer<br \/>\npoder dizer<br \/>\ncom a corda em punho<br \/>\ndizer de monstros<br \/>\ndesorganismos<br \/>\nalergias<br \/>\ne de cadeiras que n\u00e3o se encaixam ao mundo<\/p>\n<p>h\u00e1 um desenho<br \/>\n(iria pelada se eu fosse de cascas)<br \/>\nh\u00e1 um desenho<br \/>\nno fundo do fundo<br \/>\ndaquela mesma gaveta que n\u00e3o<br \/>\nnele<br \/>\nno desenho<br \/>\numa corda puxa uma baleia morta e a amarra na pontinha da tua barba puta.<br \/>\nent\u00e3o tua necess\u00e1ria cadeira<br \/>\ndesencaixada do mundo inteiro.<br \/>\ne eu te amo.<br \/>\ne nem te amo tanto, mas amo.<br \/>\ne tua barba \u00e9 puta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8.<br \/>\npois \u00e9.<br \/>\nh\u00e1 o alcance.<br \/>\nh\u00e1 uma coisa ou um vag\u00e3o onde se fazer.<br \/>\nest\u00e1 nos nov\u00edssimos cat\u00e1logos de ser<br \/>\ncoisa e deus.<br \/>\ncoisa de ningu\u00e9m.<br \/>\ncoisas devolvidas pelo mar.<br \/>\ngaguejante.<br \/>\ncrente.<br \/>\nengolidas e depois arrancadas de suas apropria\u00e7\u00f5es.<br \/>\nirremediavelmente.<br \/>\narruinadas de suas cores.<br \/>\npois \u00e9<br \/>\n\u00e9 jamais.<br \/>\nregurgitar.<br \/>\numa ora\u00e7\u00e3o<br \/>\num par de luvas de orar.<br \/>\ndeus!<br \/>\ncoisa!<br \/>\nque jamais seja tamb\u00e9m a viol\u00eancia inevit\u00e1vel e de afetuoso tra\u00e7o<br \/>\nnas coisas que.<br \/>\ncaneta<br \/>\ncaneca<br \/>\nca\u00e7arola e corrente.<br \/>\ncada pedido de cada coisa.<br \/>\nporque coisa pede, ora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>sou <strong><a href=\"http:\/\/nichosdamortaquasemenoria.blogspot.com.br\/\">Carla Diacov<\/a><\/strong>. de qualquer forma. n\u00e3o me importa tanto ser. e tamb\u00e9m vou e volto e babo durante. nasci em S\u00e3o Bernardo do Campo e moro em Itanha\u00e9m e brinquei na pra\u00e7a-dos-meninos em S.B.C.. morei em Londrina e ela em mim. fiz teatro e me desfiz. ent\u00e3o escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de p\u00e3o de f\u00f4rma com amendocrem. de qualquer forma, que \u00e9 como eu sou, mas volto. babando. agora dei de bulir com as pl\u00e1sticas tamb\u00e9m. e elas comigo. sei que vou. sei que volto. sei de mim, parada, medindo os dedos, os meus e os dos outros.<\/em><em><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagens peculiares habitam os versos de Carla Diacov 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