{"id":8233,"date":"2014-08-05T13:31:39","date_gmt":"2014-08-05T16:31:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8233"},"modified":"2018-11-29T17:09:25","modified_gmt":"2018-11-29T20:09:25","slug":"dedos-de-prosa-i-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-28\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Marcelo Novaes<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_15638\" aria-describedby=\"caption-attachment-15638\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/INTERNA-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15638 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/INTERNA-1.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/INTERNA-1.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/INTERNA-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15638\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Neuza Ladeira<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O nome da coisa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinte e cinco anos compactados numa mesa. Nos cabides, ternos amassados. Dor pr\u00e9-cordial. O suor, em frente ao espelho, tudo emba\u00e7a. [At\u00e9 o ambiente]. Nubla a vis\u00e3o: humano olhando elefante. [Ou elefante olhando o humano]. Temperatura alta. Pouco espa\u00e7o existencial. Cloreto de s\u00f3dio e pot\u00e1ssio pingam no ch\u00e3o. O chinelo tem pouca ader\u00eancia. Vertigem \u00e9 o nome da coisa. S\u00e3o mil e seiscentos quil\u00f4metros de volta, at\u00e9 a casa paterna. S\u00e3o vinte e cinco anos de fresta. [Ou falta, at\u00e9 as Bodas]. Suor abunda [&amp; sobra]. Rubor na face. [Encharcada a testa]. Cora\u00e7\u00e3o em disparada. Antecipa\u00e7\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gar\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deixe a imagina\u00e7\u00e3o tolher-te, porque \u00e9 t\u00e3o triste [ela] e petulante. Olhe a gar\u00e7a de antes. N\u00e3o h\u00e1 engano. Nada se lhe iguala: sonho desabado em pedra grande, dist\u00e2ncia medida em mar de areia. Nada. Da fera, sequer vest\u00edgio insinuado no quadrante, aroma de flor ou fruto trazidos pelo Vento Norte. N\u00e3o h\u00e1 lit\u00edgio. N\u00e3o deixe que a imagina\u00e7\u00e3o elabore o mal, chore saudades em cacos de espelho, mem\u00f3ria, pano pu\u00eddo. L\u00e1grima residual. N\u00e3o h\u00e1 res\u00edduo. Desvista a vossa filha [de t\u00e3o agudas s\u00edlabas] de dentro dos t\u00edmpanos. N\u00e3o deixe a imagina\u00e7\u00e3o tolher-te: o sol \u00e9 l\u00edmpido demais. Desses de rasgar os olhos. D\u00f3i, mas seca o limo. N\u00e3o acolha a escolha que te tolhe: esse ch\u00e3o \u00famido por sob os pingos que n\u00e3o cessam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><strong>***<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aos C\u00e3es do Futuro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, Dylan. Eu n\u00e3o me arrastarei feito c\u00e3o, atr\u00e1s de palavras surradas. Nasci erectus, com voca\u00e7\u00e3o pra ser vertical, sem prurido ou comich\u00e3o pelas coisas rasas. Sem render meu f\u00edgado a qualquer v\u00edcio ou m\u00e1 \u00e1gua. N\u00e3o me arrastarei feito c\u00e3o atr\u00e1s dessa pilha de ossos; fadado a ser vertical, nada menos. Sem medo do longe ou do agora, tantas e tais l\u00edquidas dimens\u00f5es: insuspeitas ou supostas. N\u00e3o me curvarei, Dylan, para a tua Elegia Inacabada, precioso e caro engano [como a \u00faltima transmiss\u00e3o de r\u00e1dio, antes da queda do aeroplano]. Mantenho o meu focinho suspenso e teso em prumo aut\u00f4nomo, bem preso ao pr\u00f3prio faro. E te lego [\u00e9 heran\u00e7a, n\u00e3o brinquedo] a caixa-preta deste cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro [e que isso n\u00e3o te doa \u00e0s t\u00eamporas, pelo esfor\u00e7o de desmontar e remontar sozinho tamanho e gigante quebra-cabe\u00e7as], com um \u00fanico pedido: que se lhe exponha [aos outros c\u00e3es] s\u00f3 na pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em forma de pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><strong>***<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Black Dahlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou falar de meu pai, de forma eleg\u00edaca, l\u00edrica e sinistra. Milim\u00e9trica. Aos nove anos, ele era um prod\u00edgio na m\u00fasica e ao piano. Tinha um QI alguns pontos acima do QI de Einstein. N\u00e3o brinco: relato. Meu pai era assim. Mas a genialidade paga um pre\u00e7o. Tendo chegado \u00e0 Universidade, aos quatorze, meu pai n\u00e3o estava preparado pra ser o menor e o mais fraco. Procurou ref\u00fagio nos becos e no \u00e1lcool. Meu pai passou a gostar de sexo violento, para aliviar seu peso e seu fracasso. Fot\u00f3grafo e escritor ignorado, mais tarde foi ser m\u00e9dico. Cl\u00ednico. Cuidou das doen\u00e7as ven\u00e9reas dos ricos. Ouviu seus segredos. Soube dos mais rudes instintos. Perversos. Aumentou seu pr\u00f3prio repert\u00f3rio. Participou de orgias com escritores, atores, atrizes, pintores, meretrizes, dos quais se fez amigo. Elizabeth Short era uma dessas atrizes e putas-de-luxo. Havia muitas, como ainda h\u00e1. Meu pai conheceu Henry Miller, Man Ray: um pintor-fot\u00f3grafo maluco, que lhe mostrou n\u00e3o haver dist\u00e2ncia entre a vida e o sonho. A pouca \u00e9tica que meu pai podia ter, perdeu. Jogou-a no lixo, apoiado em tolo silogismo. Meu pai era mau. Minha irm\u00e3 Tamar j\u00e1 o acusara de abuso, aos quatorze, mas meu pai tinha a quem pagar. Meu pai se safava. Quando encontraram Elizabeth Short, ao meio dissecada, eu sabia das sete mil horas de experi\u00eancia de meu pai em cirurgia. Vi a semelhan\u00e7a com os quadros de Man Ray, suas fotografias: mulheres desmembradas, e o Minotauro imposto sobreposto insinuado amalgamado ao corpo de mulher, com os bra\u00e7os rendidos, em chifres transfigurados. Meu pai fez sua obra de arte, exibindo o corpo daquela que comeu um dia. Na mesma fria postura. Imorredoura. E eu s\u00f3 o descobri h\u00e1 alguns anos, depois de morto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/esteeodardo.blogspot.com.br\/\"><strong>Sou<\/strong><\/a> psic\u00f3logo por forma\u00e7\u00e3o. J\u00e1 trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de S\u00e3o Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consult\u00f3rio particular. Sei das artes um tanto, do mundo c\u00e3o sei tamb\u00e9m um bocado. Escrevi alguma coisa que est\u00e1 espalhada na web [Cors\u00e1rio, Cron\u00f3pios, Mallarmargens, Casa dos Poetas \u2013Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateli\u00ea Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discord\u00e2ncia com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], s\u00f3 escrevo na net, agora. Assumo a escrita como of\u00edcio sem fins lucrativos.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os caminhos diversos da prosa de Marcelo Novaes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2047,2534,16],"tags":[2069,2070,2071,41,2068,2066,2067],"class_list":["post-8233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-93a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-aos-caes-do-futuro","tag-black-dahlia","tag-dardo","tag-dedos-de-prosa","tag-garca","tag-marcelo-novaes","tag-o-nome-da-coisa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8233"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15639,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8233\/revisions\/15639"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}