{"id":8263,"date":"2014-08-06T15:05:04","date_gmt":"2014-08-06T18:05:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8263"},"modified":"2018-11-29T17:24:56","modified_gmt":"2018-11-29T20:24:56","slug":"dedos-de-prosa-iii-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-25\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Claudio Parreira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15646\" aria-describedby=\"caption-attachment-15646\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15646 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-5.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-5.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-5-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15646\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Neuza Ladeira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>HOMEM NA GARRAFA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci todo tipo de homem no mundo: homem certo, homem torto, homem que come o pr\u00f3prio p\u00e9; homens de cabe\u00e7a quadrada, de olhos l\u00edquidos, homens sem cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todos esses a\u00ed, o que representa mais perigo \u00e9 o homem virtuoso: n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil v\u00ea-lo sacar o dedo indicador como se fosse um rev\u00f3lver e apont\u00e1-lo diretamente para o seu nariz, condenando o seu comportamento ou os seus prazeres como se ele, e somente ele, tivesse sido escolhido por Deus em pessoa para purificar de todos os pecados essa abjeta esp\u00e9cie humana \u2014 da qual fazemos parte mesmo a contragosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhe\u00e7o ainda os homens doentes e os tristes, embora ache que s\u00e3o ambos a mesma coisa, um servindo apenas de extens\u00e3o do outro. De toda a esp\u00e9cie, no entanto, gosto mesmo \u00e9 dos homens que constroem vento, dos que respiram p\u00e1ssaros e ainda daqueles, mais raros, que desenham unic\u00f3rnios nas nuvens com pinc\u00e9is de luz. S\u00e3o os poetas, costumam dizer, e acho que esse nome \u00e9 mesmo bem adequado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Homem na garrafa, por\u00e9m, desse tipo eu nunca tinha visto. J\u00e1 vi muitos casos de garrafa no homem, que \u00e9 quando o sujeito bebe quase que com a mesma urg\u00eancia com que respira. S\u00e3o muitos, e \u00e9 f\u00e1cil encontr\u00e1-los principalmente nas sextas-feiras \u00e0 noite, quando o fim do trabalho assinala o t\u00e3o esperado come\u00e7o da vida. Mas homem na garrafa&#8230; Bem, a primeira vez que eu vi um assim foi em plena avenida, durante o dia. Estava l\u00e1 sorridente e tranquilo, os olhos bem abertos, a pele toda amarrotada. E um tufo de cabelo avermelhado escapando pela abertura do gargalo. Como sou um sujeito civilizado, vi mas fiz que n\u00e3o, passei como se fosse algo normal, desviei os olhos para os carneiros encaixotados, que hoje s\u00e3o tantos e t\u00e3o comuns por causa da explos\u00e3o da natalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em casa, contei o neg\u00f3cio todo \u00e0 minha mulher. Ela me olhou bem nos olhos, fez a sua famosa cara de filosofia e disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Grande coisa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As semanas seguintes, confesso, foram da mais pura agonia. Passei a ver homens em garrafas por todo canto \u2014 e eles n\u00e3o eram fruto da minha imagina\u00e7\u00e3o: eram todos de carne e osso, pele e vidro, solidez e transpar\u00eancia. Os meus amigos passaram a fazer piada das minhas preocupa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu, s\u00f3 falta voc\u00ea dizer agora que viu um bode fumando cachimbo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vi dois \u2014 falei. \u2014 Mas isso n\u00e3o vem ao caso. O que me intriga s\u00e3o os homens em garrafas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso me deu a medida da mentalidade social a que estamos submetidos: as pessoas acreditam em tudo, g\u00f3rgonas passeiam nas ruas sem serem incomodadas, ninfas trepam sob os carros estacionados, Shakespeare e Dostoievski tomam Coca-Cola enquanto discutem o futuro da Internet. Tudo isso \u00e9 tolerado e tido como comum, e eu acho bom que seja assim. Mas quando o assunto \u00e9 homem na garrafa, tudo muda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a cabe\u00e7a cheia de pensamentos, um sabor de trag\u00e9dia em minha boca, resolvi finalmente tomar uma atitude. Abandonei o escrit\u00f3rio, ignorei o elevador e desci pela escada mesmo. Ganhei a rua feito um alucinado, atropelei tr\u00eas ou quatro ornitorrincos e fui at\u00e9 a esquina. Ele estava l\u00e1, o primeiro, ainda sorridente e tranquilo, o maldito tufo de cabelo vermelho balan\u00e7ando ao vento. Falei ent\u00e3o com autoridade, a voz grave e sombria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como \u00e9 que voc\u00ea entrou a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem descolou os olhos do vidro, abriu ainda mais o sorriso e respondeu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o entrei aqui. Foi esta garrafa que me envolveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou o tipo de homem que precisa saber as coisas. De nada adianta um milagre se eu n\u00e3o puder explic\u00e1-lo. Por essas e outras \u00e9 que fui pra casa feliz, aliviado enfim, os p\u00e9s chutando tartarugas como quem assobia uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A CAIXA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caixa \u00e9 pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fa\u00e7o assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: &#8220;O que ser\u00e1 que tem dentro da caixa?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: &#8220;N\u00e3o \u00e9 fant\u00e1stico? Nunca vi coisa t\u00e3o genial dentro de uma caixinha!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com medo de serem consideradas insens\u00edveis a t\u00e3o refinada manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, as pessoas todas concordam. Algumas at\u00e9 acrescentam: &#8220;\u00c9 mesmo! O conte\u00fado da caixa \u00e9 impressionante!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Impressionante s\u00e3o as pessoas, eu diria. Mas isso n\u00e3o vem ao caso agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CARNEIROS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre gostei de carneiros. Minha inf\u00e2ncia foi repleta deles: carneiros brancos, pretos, verdes; carneiros altos, sorridentes, inquietos, carneiros quadrados. \u00c0 mesa tamb\u00e9m estiveram muitos carneiros, que mam\u00e3e preparava com um exagero de vinho e pimenta e hortel\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, no entanto, n\u00e3o vejo mais carneiros por a\u00ed. Uma tristeza. As pessoas, ali\u00e1s, nem sabem o que \u00e9 isso. Algumas consideram j\u00e1 ter visto algo parecido na TV; outras, em fotos amareladas. As crian\u00e7as que eu conhe\u00e7o acham que os carneiros s\u00e3o apenas seres imagin\u00e1rios criados pela internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por causa disso que resolvi fotografar carneiros. Traz\u00ea-los de volta \u00e0 luz, resgat\u00e1-los do esquecimento. Provar ao mundo que eles ainda existem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho 7 c\u00e2meras que registram tudo o que passa na rua, 24 horas por dia, todos os dias. Meu esfor\u00e7o, no entanto, tem resultado in\u00fatil: acumulo j\u00e1 h\u00e1 meses fotos e mais fotos de caminh\u00f5es, dinossauros, tigres de bengala e fusquinhas, hidras, minotauros, senhores de chap\u00e9u coco, medusas, anjos e dem\u00f4nios, a putaquiuspariu. Carneiros, nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O CHOU N\u00c3O PODE PARAR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele derrama l\u00e1grimas pela boca quando faz sol. Sorri estrelas \u00e0s vezes, sempre dependendo da instabilidade natural do seu humor. Mesmo o seu sil\u00eancio \u00e9 ruidoso: \u00e9 um espet\u00e1culo, sabe-se assim, e assim se considera e se exibe. O chou n\u00e3o pode parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o mundo anda repleto de t\u00e9dio. As mulheres-barbadas, homens-elefante e crocodilos trapezistas n\u00e3o lhe d\u00e3o a menor aten\u00e7\u00e3o. Perderam completamente o respeito; perderam a capacidade de sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00e1gicos extraem palavras mortas de suas cartolas ro\u00eddas pela tristeza. Os coelhos brancos de fome e raiva conspiram contra a precariedade maquiada da lona velha e podre. Um dia a casa cai, torcem eles, certos de que estar\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia e a salvo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o est\u00e1, n\u00e3o se sente a salvo. Cada dia, matar um le\u00e3o, dois, que lhe brotam dos bolsos como capim. Dos bolsos tamb\u00e9m retira pedrinhas azuis e lembran\u00e7as p\u00e1lidas. De um tempo em que fora outro, outra coisa. Algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora \u00e9 a tarde vazia que cresce nas pedras da rua, indiferen\u00e7a. O pulsar morno do cora\u00e7\u00e3o que soletra aus\u00eancias. Est\u00edmulo mesmo s\u00f3 o do conhaque, que pinga nos olhos para ver o dia em chamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O p\u00fablico, distinto p\u00fablico, ergue apenas as paredes da d\u00favida, da descren\u00e7a: esse a\u00ed n\u00e3o \u00e9, desconfio do chou. Onde \u00e9 que j\u00e1 se viu, espet\u00e1culo \u00e9 o pr\u00f3ximo milh\u00e3o a ganhar, a grandiosidade do ef\u00eamero cintilante dia ap\u00f3s dia ap\u00f3s. A droga a qual n\u00f3s o p\u00fablico estamos submetidos desde sempre, como cordeiros sob o machado de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabendo-se assim ele segue, cheio de nadas e de incertezas. Sob o sol \u00e9 o homem-espet\u00e1culo, que teima em desafiar uma plat\u00e9ia de cegos. Um mundo tr\u00eamulo e arrogante, que por tr\u00e1s da m\u00e1scara exibe apenas um circo perplexo de si mesmo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Claudio Parreira<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Ag\u00eancia Carta Maior, entre outras publica\u00e7\u00f5es. Teve contos inclu\u00eddos em diversas colet\u00e2neas e foi o ganhador do 1\u00ba Concurso de Contos da Revista piau\u00ed, em mar\u00e7o de 2007 e, no ano seguinte, integrante do folhetim despropositado A Velha Debaixo da Cama, da mesma revista. \u00c9 autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O vi\u00e9s fant\u00e1stico das narrativas de Claudio Parreira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15646,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2047,2534],"tags":[2091,2090,2087,419,41,2088,2086,2089],"class_list":["post-8263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-93a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-caixa","tag-carneiros","tag-claudio-parreira","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-homem-na-garrafa","tag-narrativas","tag-o-chou-nao-pode-parar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8263"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15648,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8263\/revisions\/15648"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15646"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}