{"id":8279,"date":"2014-08-06T16:13:56","date_gmt":"2014-08-06T19:13:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8279"},"modified":"2018-11-29T16:56:06","modified_gmt":"2018-11-29T19:56:06","slug":"dedos-de-prosa-ii-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-26\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Na escurid\u00e3o nos movemos lentamente<\/strong><\/p>\n<p><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_15627\" aria-describedby=\"caption-attachment-15627\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15627 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-2.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-2.jpg 349w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/interna-2-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15627\" class=\"wp-caption-text\">Pintura Neuza Ladeira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lembran\u00e7a sempre come\u00e7a comigo correndo.<br \/>\nEstou no quintal do s\u00edtio dos meus av\u00f3s, os pais do meu pai, em Petr\u00f3polis, correndo em c\u00edrculo atr\u00e1s de galinhas.<br \/>\nZuzuque, uma pequinesa de pelagem amendoada, corre atr\u00e1s de mim. Era um domingo e meus pais tinham subido a serra cedo para discutir com o meu av\u00f4 sobre a intend\u00eancia da loja de sapatos que haviam tomado \u00e0s r\u00e9deas fazia alguns meses.<br \/>\nOs adultos est\u00e3o no interior do casar\u00e3o, exceto minha av\u00f3 que tricoteia numa cadeira de balan\u00e7o no alpendre, contudo de onde est\u00e1 n\u00e3o consegue me ver.<br \/>\nAs galinhas cacarejam alto, em tropel, enquanto fogem de mim. Pr\u00f3ximo a um abacateiro, na lateral do casar\u00e3o, o bando se separa. Muitas se refugiam no galinheiro, que fica nos fundos do quintal, onde o terreno cuidado se transforma em mata fechada. Outras seguem em dire\u00e7\u00e3o ao casebre que meu av\u00f4 transformou em oficina. Eu persigo essas.<br \/>\nZuzuque vem no meu encal\u00e7o, com suas patas curtas e focinho achatado, tentando morder a bainha da minha cal\u00e7a. Quando passamos por um jacarand\u00e1 florido, que sombreia e suja o telhado do casebre, percebo que ela parou de me seguir.<br \/>\nOlho para tr\u00e1s, o tempo das galinhas desaparecerem, e a vejo erguida, com as patas dianteiras apoiadas no caule da \u00e1rvore. Ao me aproximar, ela come\u00e7a a latir.<br \/>\nS\u00f3 depois de um tempo que noto a gorda lagarta verde que escala o tronco.<br \/>\nCom todo o esfor\u00e7o que lhe \u00e9 poss\u00edvel, flexiona o corpo mole e peludo numa maratona incessante em torno da \u00e1rvore. Zuzuque tenta derrub\u00e1-la, mas a larva j\u00e1 est\u00e1 numa altura que n\u00e3o d\u00e1 o salto. Me aproximo e a examino bem de perto.<br \/>\nImagino o quanto j\u00e1 percorreu e o quanto ainda vai percorrer para alcan\u00e7ar um galho e completar seu primeiro ciclo de vida. Depois o casulo, o per\u00edodo de pupa e, finalmente, o renascimento metamorfoseada em borboleta. Tenho vontade de esmag\u00e1-la.<br \/>\nExploro o per\u00edmetro da sombra da copa e acho uma pedra redonda, maior que a minha m\u00e3o. Miro e bato com toda a for\u00e7a contra o tronco. A pedrada \u00e9 violenta o bastante para cortar a lagarta ao meio e respingar o conte\u00fado viscoso no meu bra\u00e7o. Zuzuque ataca com as garras as partes que caem na grama, ainda animadas.<br \/>\nNeste instante, ou\u00e7o minha m\u00e3e chamar o meu nome e corro para a frente do casar\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 uma edifica\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de estilo r\u00fastico, erguida pelos imigrantes alem\u00e3es muito antes da constru\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas.<br \/>\nA fachada de madeira envelhecida se sustenta sobre pilares de caibro que demarcam toda a extens\u00e3o do alpendre elevado, circundado por bala\u00fastres pintados de verde-musgo que emprestam cor aos patamares da escada e aos beirais que selam o telhado de cer\u00e2mica vermelha, de onde emerge a ponta da chamin\u00e9 branca.<br \/>\nEm ambas as laterais, h\u00e1 janel\u00f5es de moldura escura, e uma porta estreita nos fundos. \u00c1rvores de v\u00e1rias esp\u00e9cies loteiam a propriedade, escoltada por picos e silhuetas ralas de montanhas. Quando chego \u00e0 frente do casar\u00e3o, meus pais e meus av\u00f3s est\u00e3o pr\u00f3ximos ao Chevette marrom, estacionado a poucos metros da sebe podada \u00e0 meia altura.<br \/>\nMinha m\u00e3e ampara o impacto do meu corpo com um abra\u00e7o providencial, j\u00e1 me envolvendo numa manta de malha, embora seja ver\u00e3o. Carregando uma cesta com sobras do almo\u00e7o e do lanche (assado de porco, salada de batatas, strudel, gugelhupf), meu pai manda que eu me despe\u00e7a dos meus av\u00f3s. Entretanto, eles insistem que passemos a noite, temerosos pelas nuvens carregadas que avan\u00e7am sobre os montes.<br \/>\nMeu pai recusa o convite, alegando que tem de abrir a loja mais cedo que o habitual, que ainda tem de terminar o balan\u00e7o da semana, e entramos no carro.<br \/>\nPelo vidro do porta-malas, eu vejo minguar a imagem de dois velhos preocupados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns quil\u00f4metros depois, no meio da descida da serra, fomos pegos pela tempestade.<br \/>\nDe uma hora para a outra, as nuvens inquietantes, que amea\u00e7am o fim de tarde com rugidos ao largo, transformaram tudo ao redor num sorvedouro.<br \/>\nRajadas furiosas de vento acertavam o carro por todos os lados, munidas com chuva grossa, folhas e galhas que explodiam contra a lataria.<br \/>\nEm velocidade baix\u00edssima, meu pai fixava as m\u00e3os no volante tentando controlar a dire\u00e7\u00e3o, com os far\u00f3is altos acionados contra o v\u00e9u cinzento. Minha m\u00e3e, cat\u00f3lica, de cabe\u00e7a baixa pedia prote\u00e7\u00e3o para uma medalha de Santa Rita de C\u00e1ssia.<br \/>\nCirculava uma eletricidade ruim dentro da cabine.<br \/>\nUm medo irradiado pelo mutismo e as respira\u00e7\u00f5es nervosas, uma esp\u00e9cie de asfixia.<br \/>\nCom o rosto colado no vidro emba\u00e7ado, eu n\u00e3o conseguia enxergar nada adiante.<br \/>\nN\u00e3o era poss\u00edvel distinguir os limites da estreita estrada sem acostamento, as raias das curvas sinuosas. Os \u00fanicos indicadores de que n\u00e3o est\u00e1vamos avan\u00e7ando rumo ao precip\u00edcio eram os rel\u00e2mpagos regulares que se refletiam na pista alagada.<br \/>\nDe repente um galho grosso acertou em cheio o cap\u00f4 e correu sobre o teto, no curso quebrando um dos bra\u00e7os do limpador de para-brisa.<br \/>\nTomado de assalto, meu pai freou bruscamente, afrouxando o controle do volante que guinou para a direita. Sem resist\u00eancia, o carro come\u00e7ou a adernar.<br \/>\nMeu pai lutava para estabilizar as rodas de volta ao eixo, mas era preciso uma for\u00e7a sobre-humana, que naturalmente ele n\u00e3o tinha, de modo algum.<br \/>\nO carro girava, a dire\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o detinha comando.<br \/>\nEnt\u00e3o, com o peito apoiado no volante e o rosto pressionado de sangue, meu pai come\u00e7ou a gritar para que abr\u00edssemos os vidros das janelas.<br \/>\nTodos, rapidamente.<br \/>\nAterrorizado, agarrei a manivela ao meu lado e comecei a rod\u00e1-la com toda energia contida num menino. N\u00e3o tive chance de reduzir a metade da altura.<br \/>\nO jorro que invadiu a pequena fresta atingiu o centro do meu rosto, me derrubando do banco de tr\u00e1s com agressividade. Com os vidros abertos, o exterior inundado teve permiss\u00e3o de nos atacar com sua voragem, sua extravag\u00e2ncia.<br \/>\nEm segundos, a cabine estava encharcada, n\u00f3s est\u00e1vamos encharcados.<br \/>\nDestro\u00e7os do temporal espiralavam por toda a parte parecendo p\u00e1ssaros selvagens presos num espa\u00e7o apertado, lutando por liberdade.<br \/>\nMinha m\u00e3e berrava, horrorizada.<br \/>\nMeu pai berrava, pedindo calma, numa in\u00fatil tentativa de combater a impot\u00eancia.<br \/>\nEu berrava, deitado de costas no banco de tr\u00e1s. O pavor me fez mijar nas cal\u00e7as.<br \/>\nO ir\u00f4nico \u00e9 que justamente o vidro que eu n\u00e3o consegui descer acabou funcionando feito um leme, e a press\u00e3o do vento detido foi empurrando o carro de volta ao meio da pista.<br \/>\nCom o controle retomado, meu pai arriscou e aumentou a velocidade.<br \/>\nDeslizamos serra abaixo, patinando sem seguran\u00e7a a cada curva, na imin\u00eancia de batermos num poss\u00edvel deslizamento na estrada. O vale abaixo, inundado pela desclaridade da noite precoce, soprava agouros de garganta aberta.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que se entremostrou, por tr\u00e1s da parede de \u00e1gua, a silhueta luminosa do posto da pol\u00edcia rodovi\u00e1ria. Meu pai suspirou, minha m\u00e3e agradeceu \u00e0 santa.<br \/>\nA poucos metros, por\u00e9m, o carro bateu num bols\u00e3o d\u2019\u00e1gua, perdeu o controle e rodopiou.<br \/>\nUm \u00f4nibus que vinha atr\u00e1s n\u00e3o conseguiu desviar a tempo e atingiu o lado do carona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o impacto, eu fui arremessado contra o teto, abrindo um corte fundo na testa. Meu pai teve uma luxa\u00e7\u00e3o e algumas escoria\u00e7\u00f5es. Nada grave.<br \/>\nMinha m\u00e3e, por outro lado, ficou presa \u00e0s ferragens.<br \/>\nA nosso favor, havia uma unidade m\u00f3vel dos bombeiros estacionada na sa\u00edda da pra\u00e7a de vistoria e o atendimento foi praticamente imediato.<br \/>\nOutros ve\u00edculos de pronta-emerg\u00eancia chegaram minutos depois.<br \/>\nMe lembro de estar passando por uma sutura na carroceria aberta da ambul\u00e2ncia e divisar, contra a chuva manchada pelas luzes bicolores das sirenes de socorro, minha m\u00e3e sob um forte facho amarelado, sendo retirada do carro e transferida para uma maca logo coberta por uma prote\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, cingida por um grupo de param\u00e9dicos.<br \/>\nAl\u00e9m dos cortes e das concuss\u00f5es, o acidente causou fraturas em ambas as pernas, no bra\u00e7o esquerdo e na m\u00e3o direita, al\u00e9m de deslocamento da bacia.<br \/>\nMinha m\u00e3e passou por cirurgias emergenciais de algumas horas.<br \/>\nCom a reprodu\u00e7\u00e3o da not\u00edcia do acidente, parentes e funcion\u00e1rios da loja correram para o hospital e se prontificaram a doar sangue. A estadia na UTI durou uma semana, depois foram mais seis meses entre total imobilidade e in\u00edcio das atividades fisioter\u00e1picas.<br \/>\nAos domingos, eu e meu pai \u00edamos visit\u00e1-la.<br \/>\nE, apesar da saudade, do vazio que se renovava pela casa a cada conclus\u00e3o de dia, o que mais me feria era v\u00ea-la daquele jeito, presa \u00e0s maquinas, confinada naquele quarto esterilizado de m\u00f3veis diminutos e um televisor de baixa polegada em preto-e-branco, sabotando sua dor, sua ang\u00fastia, seu medo, para tentar mostrar interesse pela minha rotina med\u00edocre.<br \/>\nEla sempre pedia para eu levar as minhas li\u00e7\u00f5es escolares, livros de leitura e um saco de balas boneco, que devor\u00e1vamos \u00e0 surdina. Nos minutos finais da visita, pedia ao meu pai para ficar sozinha comigo. A\u00ed perguntava sobre a minha semana, se a dinda, que tinha ido morar conosco a fim de auxiliar meu pai a administrar a loja e a vida de um filho pela primeira vez ap\u00f3s oito anos, estava agindo correto comigo.<br \/>\nMinha m\u00e3e sempre chorava na despedida.<br \/>\nE quando pressionava o meu rosto contra o dela, tatuado de cicatrizes frescas e hematomas, eu sentia o cheiro ferroso do sangue coberto pelo iodo dos curativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No domingo em que s\u00f3 se falava sobre o festival de m\u00fasica, meu pai nos surpreendeu e anunciou, ainda na entrada do quarto, que ela iria para casa conosco.<br \/>\nHouve um leve alvoro\u00e7o, prontamente censurado pela enfermeira de plant\u00e3o.<br \/>\nCom platina nas duas pernas e o bra\u00e7o imobilizado em gesso, minha m\u00e3e saiu empurrada sobre uma cadeira de rodas, que meu pai teve dificuldade de acomodar no porta-malas do carro novo, um Monza Hatch azul-marinho.<br \/>\nSeguimos direto para casa. O percurso foi marcado por um sil\u00eancio longo, a tens\u00e3o por estarmos revivendo a cena pela primeira vez ap\u00f3s o acidente.<br \/>\nFomos recepcionados pelos meus av\u00f3s, alguns tios e amigos que haviam preparado uma festa de boas-vindas, menos a dinda que tinha ido assistir ao show da Nina Hagen.<br \/>\nAo chegar, minha m\u00e3e pediu que a levasse para uma volta pela casa. Em seguida, fez um breve discurso emocionado, desculpou-se pela indisposi\u00e7\u00e3o e se recolheu num dos quartos de h\u00f3spedes que meu pai adaptou, no primeiro andar, para o seu tratamento.<br \/>\nDurante tr\u00eas meses, minha m\u00e3e continuou a se locomover unicamente sobre a cadeira de rodas. A enfermeira vinha todos os dias para lhe dar banho, trocar as camisolas, as roupas de cama, aplicar inje\u00e7\u00f5es, fazer os curativos e auxiliar com a fisioterapia.<br \/>\nNesses instantes, n\u00e3o me era permitido entrar no quarto. Em todo o restante do dia, exceto o per\u00edodo em que estava na escola, passava sentado ou encolhido sobre a beirada do colch\u00e3o, flanando com ela por lembran\u00e7as evocadas pelas altas doses de analg\u00e9sicos, enquanto me afagava a cabe\u00e7a com a m\u00e3o sadia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recupera\u00e7\u00e3o foi lenta e dolorosa. No inverno, as sequelas do acidente ficavam piores e, do meu quarto, no andar de cima, a ouvia gemer durante toda a madrugada.<br \/>\nMeu pai dormia num sof\u00e1 sem conforto, pr\u00f3ximo ao leito. Apesar disso, n\u00e3o abria m\u00e3o de fazermos o desjejum juntos, ignorando o expl\u00edcito inc\u00f4modo da minha m\u00e3e por estar suja, fedida, privada da capacidade de pentear os cabelos, corar o rosto, pintar os l\u00e1bios e as unhas, como gostava, de cores vibrantes.<br \/>\nMas n\u00e3o era por mal.<br \/>\nE ela sabia que n\u00e3o era por mal. Portanto nunca protestou.<br \/>\nE quando voltou a caminhar com o aux\u00edlio de muletas, era ela que n\u00e3o abria m\u00e3o de tomarmos o caf\u00e9 da manh\u00e3 na cozinha ao inv\u00e9s de, inadequados, ao redor da cama.<br \/>\nMinha m\u00e3e queria estar bem, recuperar-se e, em momento algum, mesmo com o corpo governado pelas m\u00e1quinas hospitalares, hesitou ou esbo\u00e7ou desist\u00eancia.<br \/>\nCom o m\u00e1ximo de independ\u00eancia que se pode adquirir com um par de muletas, obrigou meu pai a confi\u00e1-la toda a contabilidade e as resolu\u00e7\u00f5es administrativas da loja. Passava horas no escrit\u00f3rio, cuidando dos balan\u00e7os semanais, dos contatos com os bancos, da comiss\u00e3o dos funcion\u00e1rios e dos telefonemas para os fornecedores.<br \/>\nSentir-se respons\u00e1vel, \u00fatil, retomando de alguma forma as r\u00e9deas do neg\u00f3cio, foi recompondo o que estava fraturado e hibernado dentro dela.<br \/>\nLogo pediu para voltar a dormir no quarto de casal, onde meu pai a levava, escada acima sobre os bra\u00e7os todo o fim do dia, e a descia, da mesma forma, todas as manh\u00e3s.<br \/>\nEles tinham uma brincadeira que era s\u00f3 deles.<br \/>\nA visita da enfermeira passou a ser menos regular.<br \/>\nMe recordo de uma manh\u00e3, quando me preparava para ir \u00e0 escola, surpreender-me ao encontr\u00e1-la \u00e0 boca do fog\u00e3o, fazendo panquecas doces. Sob os primeiros raios de sol que se infiltrava pela fresta das cortinas de pl\u00e1stico, de repente, a redescobri linda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, inesperadamente, voltou a ficar doente.<br \/>\nUm mal-estar acompanhado de febre que foi se agravando severamente dia ap\u00f3s dia, ao ponto de voltar para o primeiro andar, depender da assist\u00eancia integral da enfermeira e de o meu pai chamar de volta a dinda para a casa.<br \/>\nEra como se mantivessem uma criatura naquele quarto que a aterrorizava constantemente.<br \/>\nGritos ecoavam dali, tamb\u00e9m do banheiro, gritos ecoavam de toda a casa.<br \/>\nNa manh\u00e3 do meu anivers\u00e1rio de nove anos, depois de ser amparada at\u00e9 uma cadeira arrumada em frente \u00e0 mesa da cozinha decorada com um bolo comprado em padaria, minha m\u00e3e teve um ataque e foi levada \u00e0s pressas para um hospital de emerg\u00eancia e n\u00e3o voltou para casa durante algumas semanas.<br \/>\nNo mesmo dia, eu fui mandado para a casa dos meus av\u00f3s em Petr\u00f3polis, onde fiquei tr\u00eas meses sem qualquer not\u00edcia concreta do estado de sa\u00fade dela.<br \/>\nQuando retornei, minha m\u00e3e estava em casa, por\u00e9m eu n\u00e3o podia v\u00ea-la ou saber sobre ela. Por mais que implorasse, era definitivamente proibido entrar no quarto.<br \/>\nUm ano e meio ap\u00f3s o acidente, meu pai me acordou, com olhos infiltrados de tristeza, e contou que minha m\u00e3e havia morrido no andar de baixo, no quarto adaptado para a cura.<br \/>\nE embora ele n\u00e3o tivesse dito naquele momento ou censurado minha suspeita de que tinha sido em decorr\u00eancia dos cortes, dos ossos quebrados, da criatura dor, a morte da minha m\u00e3e foi causada por algo muito pior, que somente me seria contado anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7o o caminho para casa a p\u00e9. Cinco quadras at\u00e9 a rua residencial, de paralelep\u00edpedos, onde desponta o sobrado de dois andares em que nasci, fui criado e vi minha m\u00e3e morrer.<br \/>\nContra o c\u00e9u de chumbo sem estrelas, a antiga constru\u00e7\u00e3o se assemelha a uma figura recortada em cartolina e rasurada com carv\u00e3o.<br \/>\nA escurid\u00e3o mina da estrutura, inundando a curta dist\u00e2ncia do port\u00e3o \u00e0 varanda, exceto pelo contorno luminoso de uma janela baixa interposta pela porta principal.<br \/>\n\u00c9 um modelo de assombramento. Algo, \u00e0 primeira impress\u00e3o, abandonado, oco, destitu\u00eddo de habita\u00e7\u00e3o, caso eu n\u00e3o morasse ali.<br \/>\nQuando minha m\u00e3e morreu, tudo que vicejava em sua \u00f3rbita foi tamb\u00e9m morrendo aos poucos: os animais, o jardim, os m\u00f3veis, a casa.<br \/>\nHoje apenas fantasmas transitam pelos c\u00f4modos frios e vazios, presos a um impulso que faz com que reprisem as mesmas inten\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEu sou um fantasma e estou preso \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinto falta das tardes de s\u00e1bado. Quando a loja de sapatos funcionava em meio expediente e minha m\u00e3e se preservava de acompanhar o meu pai.<br \/>\nO que trago na mem\u00f3ria de mais elementar nesses s\u00e1bados s\u00e3o os acordes. Os primeiros compassos infiltrando-se no sono, puxando-me daquela camada aconchegante com melodias aceleradas que surdiam do andar de baixo da casa.<br \/>\nEu era um menino de sete, oito anos, e ainda de pijamas, agarrado a um pequeno cobertor com a cabe\u00e7a do Topo Gigio, descia, sonolento, os degraus da escada, sendo envolvido pelo ritmo alegre que vinha do toca-discos na antessala.<br \/>\nO concerto sempre come\u00e7ava com Beatles, Elvis, depois vinha The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incr\u00edveis, a ordem em que tinham sido anteriormente guardados os elep\u00eas.<br \/>\nPor um tempo, eu ficava estacionado entre o patamar e p\u00f3rtico apenas sentindo a m\u00fasica energizar meu corpo adormecido, depois cruzava a sala at\u00e9 a cozinha onde sabia que estava minha m\u00e3e e seu sorriso radioso.<br \/>\nMinha m\u00e3e sempre usava vestido nos s\u00e1bados, tinha os l\u00e1bios pintados de vermelho e os cabelos encaracolados arranjados com um len\u00e7o, caprichosamente.<br \/>\nLogo que me via, abria os bra\u00e7os e gritava bom-dia como quem saudava a manh\u00e3 e sua claridade cintilante que invadia as janelas e as portas abertas, revelando as verdadeiras cores dos objetos de decora\u00e7\u00e3o, os metais e os espelhos.<br \/>\nA casa tinha som, cor e cheiro.<br \/>\nPois com a mesa do desjejum ainda posta, minha m\u00e3e picava o alho, os tomates e a cebola, crestando o fio de azeite para preparar o molho vermelho que cobriria o espaguete, recendo o ambiente com um aroma \u00fanico que, se eu fechar os olhos agora, posso sentir rastejando pelo meu rosto.<br \/>\nO barulho do atrito dos pneus do carro subindo o acesso \u00e0 garagem anunciava a chegada do meu pai, que sempre escondia no bolso um pirulito Zorro para mim.<br \/>\nEra o tempo dele se lavar, e logo est\u00e1vamos sentados \u00e0 mesa, comendo sem boas maneiras, contanto que eu n\u00e3o falasse com a boca cheia ou usasse as m\u00e3os para pegar a comida.<br \/>\nMeu pai se encarregava de lavar a lou\u00e7a e encher as canecas com vinho, enquanto minha m\u00e3e reabastecia o toca-discos e eu subia at\u00e9 o meu quarto para pegar o passatempo com o qual ir\u00edamos compartilhar a tarde.<br \/>\nSentados no ch\u00e3o da sala, em torno da mesa de centro, nos divert\u00edamos com Banco Imobili\u00e1rio, Jogo da Vida ou Ludo. Meu pai sempre tentava trapacear nos dados, mas minha m\u00e3e nos defendia, prontamente empurrando-o com o p\u00e9 descal\u00e7o e depois sorrindo com ele desmoronado sobre o tapete, como que atingido fatalmente.<br \/>\nEra comum, quando isso acontecia, pularmos sobre meu pai e nos engalfinh\u00e1vamos, disputando risadas e c\u00f3cegas, at\u00e9 ele reagir.<br \/>\nCom presun\u00e7\u00e3o de campe\u00e3, minha m\u00e3e se levantava sacudindo os bra\u00e7os e soprando os indicadores conforme canos de rev\u00f3lveres, em seguida sa\u00eda para escolher outro elep\u00ea, abastecer as canecas e me trazer uma tigela de creme gelado feito em casa.<br \/>\nAcho que, na verdade, ningu\u00e9m nunca ganhou naqueles jogos.<br \/>\nJ\u00e1 noite, minutos depois de ser acomodado na cama, eu me esgueirava dos len\u00e7\u00f3is e seguia, na ponta dos p\u00e9s, at\u00e9 o patamar da escada onde, escondido atr\u00e1s dos bala\u00fastres, ficava ouvindo a fric\u00e7\u00e3o dos p\u00e9s descal\u00e7os no assoalho da antessala, no andar de baixo.<br \/>\n\u00c0 meia-luz de um abajur de curta irradia\u00e7\u00e3o, meus pais dan\u00e7avam embalados pela suave melodia de uma orquestra de jazz, dois corpos exaustos e espremidos.<br \/>\nDe onde eu me escondia n\u00e3o conseguia v\u00ea-los, apenas a proje\u00e7\u00e3o de suas sombras alongadas, rodopiando pelo teto do c\u00f4modo adjacente feito insetos fascinados pela refulg\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora todos que completavam aquele quadro est\u00e3o mortos de uma forma ou de outra.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 cores ou melodias nos s\u00e1bados, ou em qualquer outro dia, somente o cheiro ran\u00e7oso do ar confinado, do desleixo para com a poeira que se condensa numa textura aveludada sobre os m\u00f3veis e os objetos sem uso, de outros tempos.<br \/>\nA casa foi tomada por sombras.<br \/>\nPlanos obscuros que revestem as paredes, as pinturas e os retratos enquadrados, espraiando-se das molduras tal um tipo de v\u00edrus incur\u00e1vel.<br \/>\nUm organismo capaz de se multiplicar ante o abandono e a melancolia, deteriorando gradualmente cada espa\u00e7o com uma subst\u00e2ncia cinzenta, compacta.<br \/>\nAlguns c\u00f4modos, no primeiro andar, j\u00e1 est\u00e3o intranspon\u00edveis, a ponto de a porta sequer abrir. O primeiro andar est\u00e1 perdido, afinal.<br \/>\nNo segundo, meu quarto ainda resiste, salvo pelas vibra\u00e7\u00f5es que conservei dos objetos e a ternura que eles conservam de mim. Ali est\u00e3o refer\u00eancias de um tempo em que a casa respirava, vivia. N\u00e3o mais. A casa morreu conosco dentro ou n\u00e3o existe mais dentro de n\u00f3s.<br \/>\nUso a minha chave na porta principal e entro como, se ao cruzar a soleira, n\u00e3o me desse conta e tivesse novamente sa\u00eddo, rumo \u00e0 noite.<br \/>\n\u00c9 noite dentro da casa.<br \/>\nCaminho me valendo das silhuetas dos m\u00f3veis e da configura\u00e7\u00e3o familiar. Atravesso o living e avan\u00e7o pelo corredor estreito, tateando as paredes manchadas por contornos vazios de molduras, at\u00e9 estacionar \u00e0 beira da escada.<br \/>\nDali enxergo o facho artificial que foge da antessala, fatiando a escurid\u00e3o.<br \/>\nSigo e, \u00e0 medida que avan\u00e7o, o sil\u00eancio vai sendo quebrado por um rumor infrequente, mec\u00e2nico, de alguma forma associado \u00e0 intensidade da luz.<br \/>\n\u00c9 ele, eu sei.<br \/>\nEncosto no umbral e o vejo pelas costas, estirado no sof\u00e1 alheio ao televisor que reproduz sua programa\u00e7\u00e3o impessoal. Tem a cabe\u00e7a inclinada, coroada pela calv\u00edcie, dorme. Desde a morte da minha m\u00e3e, meu pai se exilou nesse estado dormente, frouxo.<br \/>\nN\u00e3o teve mais \u00e2nimo, emudeceu, passou a apostar nas coisas simples. Ocorre que as coisas simples s\u00e3o as mais terr\u00edveis, pois s\u00e3o elas que devoram o tempo. Meu pai \u00e9 o que restou. Se esqueceu de si e, por conseguinte, se esqueceu de mim, da casa, da loja. Falimos todos.<br \/>\n\u00c9 ir\u00f4nico como os homens tendem a construir casar\u00f5es, f\u00e1bricas, fortalezas, e todos acabam apertados numa mesma caixa de madeira lacrada.<br \/>\nO caix\u00e3o da minha m\u00e3e ficou tampado durante o vel\u00f3rio, e algumas pessoas tiveram receio de se aproximar dele. Eu n\u00e3o pude v\u00ea-la, dar um beijo de despedida.<br \/>\nA \u00faltima vez em que vi minha m\u00e3e, ela estava com o corpo sugado, coberto por manchas p\u00farpuras e quase sem cabelos, retorcendo-se de dor no ch\u00e3o da cozinha, no dia em que eu completava nove anos.<br \/>\nMeu pai dorme em frente \u00e0 luz fria do televisor. Sinto a frialdade da sua sombra que passa ao meu lado e se projeta na parede nua atr\u00e1s de mim.<br \/>\nFico ali por um tempo, depois me afasto.<br \/>\nNo movimento, me recordo do s\u00edtio, da sensa\u00e7\u00e3o inef\u00e1vel da correria. Penso em correr.<br \/>\nTodavia, na escurid\u00e3o, \u00e9 inevit\u00e1vel nos movermos lentamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>S\u00e9rgio Tavares <\/strong>\u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um denso v\u00e3o de lembran\u00e7as no conto de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15628,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2047,2534],"tags":[1079,81,41,2097,149,1026,1023],"class_list":["post-8279","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-93a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-cavala","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-na-escuridao-nos-movemos-lentamente","tag-prosa","tag-queda-da-propria-altura","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8279"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15629,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8279\/revisions\/15629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}