{"id":8302,"date":"2014-08-06T17:10:53","date_gmt":"2014-08-06T20:10:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8302"},"modified":"2018-11-29T16:42:19","modified_gmt":"2018-11-29T19:42:19","slug":"aperitivopalavra-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-3\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jorge Elias Neto: breve panorama <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Marcos Pasche<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15615\" aria-describedby=\"caption-attachment-15615\" style=\"width: 357px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/JEN.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15615 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/JEN.jpg\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/JEN.jpg 357w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/JEN-238x300.jpg 238w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15615\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>A ideia de Brasil moderno<\/em> (1992), o soci\u00f3logo Octavio Ianni (1926-2004) diagnosticou com rara acuidade um dilema central do Pa\u00eds: o todo \u00e9 desarticulado de suas partes. Passadas duas d\u00e9cadas, a observa\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo paulista permanece atual, tornando-se at\u00e9 mais expressiva, pois h\u00e1 pouco o Brasil alcan\u00e7ou o patamar de sexta economia do mundo e agora assiste \u00e0 pior seca das \u00faltimas seis d\u00e9cadas que mumifica a regi\u00e3o Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentemente do que se possa imaginar a partir do exemplo, a desarticula\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m das vetustas ant\u00edteses de riqueza e mis\u00e9ria, centro e periferia, sul e norte. Mesmo no Brasil metropolitano h\u00e1 dist\u00e2ncias simb\u00f3licas inimagin\u00e1veis para a contiguidade geogr\u00e1fica. Essas considera\u00e7\u00f5es me ocorrem ao pensar no Esp\u00edrito Santo, uma das quatro unidades da regi\u00e3o mais rica do Brasil (a Sudeste), que parece pagar pelo pecado onom\u00e1stico de integrar um Estado laico. Para se ter ideia de sua disson\u00e2ncia em meio \u00e0 regi\u00e3o, basta verificar que o Esp\u00edrito Santo \u00e9 desprovido de universidade estadual, e que foi o \u00fanico dos \u201csudestinos\u201d a n\u00e3o receber jogos da Copa do Mundo. Pelo v\u00ednculo com Minas, Rio e S\u00e3o Paulo, o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 no Centro, sem, com isso, possuir centralidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O efeito disso para a cena liter\u00e1ria \u00e9 bem conhecido: uma nuvem encobre escritores de real interesse, os quais precisam fazer malabarismos di\u00e1rios para ter vez mesmo em sua regi\u00e3o, quase sempre condenados ao apressado carimbo de provincianos. S\u00f3 que autores como o ficcionista Reinaldo dos Santos Neves, o poeta Waldo Motta e o ensa\u00edsta (tamb\u00e9m poeta) Wilberth Salgueiro (nascido no Rio e radicado em Vit\u00f3ria h\u00e1 mais de vinte anos), dentre outros, demonstram que a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria local em nada deve ao que de mais representativo se publica no Pa\u00eds, e isso se aplica igualmente ao poeta Jorge Elias Neto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capixaba, m\u00e9dico cardiologista e membro da Academia Esp\u00edrito-Santense de Letras, Jorge Elias \u00e9 autor de tr\u00eas livros: <em>Verdes versos<\/em> (2007), <em>Rascunhos do absurdo<\/em> (2010) e <em>Os ossos da baleia<\/em> (2013). Conjuntando varia\u00e7\u00e3o formal e tem\u00e1tica, o poeta vem desenvolvendo um trabalho que requer aten\u00e7\u00e3o, seja por aquilo que o associa a significativas linhas de for\u00e7a da contemporaneidade, seja pelo que o coloca em certo afastamento, quando as linhas da mesma contemporaneidade revelam fraqueza e desinteresse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em <em>Verdes versos<\/em>, o volume de estreia que agrupa quatro livros (<em>Versos verdes<\/em>, <em>Viajante lunar<\/em>, <em>Vegetariano<\/em> e <em>Queren\u00e7a<\/em>), esse movimento de perten\u00e7a e refra\u00e7\u00e3o se torna vis\u00edvel quando, por exemplo, alguns poemas fazem refer\u00eancia \u00e0 <em>verdade<\/em>, essa palavra-conceito tornada t\u00e3o espinhosa com a emerg\u00eancia do pensamento moderno. Tomado pelo car\u00e1ter <em>problematizador<\/em> pr\u00f3prio do discurso po\u00e9tico, o poema \u201cDesejo\u201d n\u00e3o d\u00e1 \u00e0 ideia de verdade qualquer chancela de firmeza, o que corrobora um princ\u00edpio intelectual contempor\u00e2neo: \u201cGrito enlouquecido as minhas tr\u00f4pegas verdades,\/ para que se fa\u00e7a cruel o teu destino.\/\/ Imagino e sorrio como o falso profeta,\/ para te ensandecer com verdades distorcidas\u201d. Entretanto, noutros momentos n\u00e3o haver\u00e1 titubeio para afirma\u00e7\u00f5es convictas, como se nota em \u201cPau a pique\u201d: \u201cNa alucina\u00e7\u00e3o de minhas necessidades,\/ encontra-se a verdade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E qual ser\u00e1 a verdade do poeta? Ele n\u00e3o o declara abertamente, o que induz \u00e0 procura de pistas. Arrisco-me a dizer que a verdade de Jorge Elias Neto \u00e9 a poesia, o que em tese \u00e9 algo \u00f3bvio demais ao se falar de um poeta. Mas o que destaco na ideia da poesia como verdade \u00e9 que, diferentemente do que se banalizou na p\u00f3s-modernidade, a poesia <em>de<\/em> e <em>para<\/em> Jorge Elias Neto n\u00e3o se afigura um amontoado de palavras in\u00f3cuas e in\u00fateis, e por isso os poemas carregam o verdor consciente do que pode e deve significar o verbo para o mundo. Assim, o poeta aposta no sonho alvissareiro de estrato familiar e art\u00edstico em \u201cV\u00f3 Bela\u201d \u2013<\/p>\n<p>Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.<br \/>\nRecitando os versos de seus her\u00f3is sertanejos,<br \/>\nembalaste o sono do pequeno \u00e1vido,<br \/>\ne plantaste o sonho que agora luto<br \/>\npara n\u00e3o se esvair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013, e, mesmo que desapegado de \u00edcones tradicionais, reitera sua cren\u00e7a no afeto: \u201cC\u00e9rebro ateu,\/ em minhas m\u00e3os j\u00e1\/ n\u00e3o cabe uma cruz.\/ Mas em meu cora\u00e7\u00e3o\/ insisto em manter uma rosa\u201d (\u201cOra\u00e7\u00e3o de um urbanoide\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um olhar unilateral e incauto poderia apontar nos destaques exemplos de pieguice, derivados \u201cnaturalmente\u201d de um poeta provinciano. Mas os olhares unilaterais e incautos n\u00e3o enxergam nos outros sen\u00e3o aquilo que caracteriza sua estreiteza de vis\u00e3o. Dito isso, verifica-se em <em>Rascunhos do absurdo<\/em> a confirma\u00e7\u00e3o da t\u00f4nica dual da obra em an\u00e1lise, obra essa constru\u00edda pelo olhar cr\u00edtico que n\u00e3o prescinde da candura, pelo tom fagueiro avizinhado \u00e0 abordagem do que fere e destr\u00f3i. Assim, se \u201cR\u00e9gua quebrada\u201d traduz uma arte po\u00e9tica singela e crente \u2013 \u201cInsisto na ingenuidade da metamorfose\/ (s\u00f3 sei transformar sapato em borboleta)\u201d \u2013, \u201cC\u00e9u de bombas\u201d evoca a realidade terrivelmente atual da Faixa de Gaza: \u201cEm cada crian\u00e7a morta, sacrificada,\/ um objetivo insano.\/\/ Despe\u00e7o-me do dia\/ sob <em>flashs<\/em> e bombas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nenhum momento a escrita de Jorge Elias Neto privilegia o formalismo, mas em <em>Os ossos da baleia<\/em> \u00e9 evidente a medita\u00e7\u00e3o constante acerca da estrutura dos poemas, pois todos, embora nem sempre concisos, s\u00e3o grafados em discurso enxuto (Cf. \u201cUma carteira e seus sentidos\u201d). O objetivo \u00e9 dizer apenas com \u201cO liso da casca\u201d, para \u201cdespertar do torpor&#8230;\/ A linguagem\u201d e, al\u00e9m, \u201cRevolver o leitor\/ no espa\u00e7o-tempo\u201d (\u201cPoema justo\u201d). Como estamos procurando destacar, em Jorge Elias a afirma\u00e7\u00e3o de algo n\u00e3o ocorre sem que tamb\u00e9m se afirme um \u201coutro algo\u201d, at\u00e9 mesmo contr\u00e1rio ao afirmado anteriormente. Assim, se a economia verbal \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o do discurso preciso, n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m a constata\u00e7\u00e3o de um impasse aflitivo para os poetas, isto \u00e9, o referente aos limites da linguagem e \u00e0 impossibilidade de dizer: \u201cTrago interrompidas\/ as melhores frases\u201d (\u201cXXIV\u201d, 2\u00aa parte).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como estamos tra\u00e7ando um breve panorama da poesia de Jorge Elias Neto, percorrendo a bibliografia que, at\u00e9 o momento, simboliza come\u00e7o, meio e fim, conv\u00e9m rematar com um dos mais interessantes textos do \u00faltimo livro, justamente aquele que o encerra: \u201cDispo-me dos p\u00e9s.\/ A liberdade essencial\/ se aproxima&#8230;\/ Finalmente,\/ me chamarei:\/ ningu\u00e9m\u201d (\u201cXIV\u201d, 3\u00aa parte). S\u00f3 que, dessa forma unit\u00e1ria, poder\u00edamos incorrer em inconveni\u00eancia, obstruindo o di\u00e1logo de cr\u00edtica e poesia. Portanto, o espa\u00e7o do fim faz-se o do come\u00e7o e o do recome\u00e7o, e \u00e9 por essa raz\u00e3o que retorno a <em>Verdes versos<\/em> \u2013 livro primeiro \u2013 e ao in\u00edcio desta interven\u00e7\u00e3o \u2013 com seus coment\u00e1rios sobre o Esp\u00edrito Santo \u2013 para evocar o alto canto de comunh\u00e3o entre o poeta e sua terra \u2013 canto que, menino, denuncia a disson\u00e2ncia no presente e, maduro, faz coro com a f\u00e9 no futuro:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ilha, tua ess\u00eancia \u00e9 verde;<br \/>\nteu maci\u00e7o \u00e9 verde;<br \/>\na maioria de teus s\u00e9culos foram verdes.<br \/>\nVerde \u00e9 a esperan\u00e7a de teu ressurgimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcos Pasche<\/em><\/strong><em> nasceu e vive no Rio de Janeiro. \u00c9 professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e cr\u00edtico liter\u00e1rio, autor de \u201cDe pedra e de carne\u201d (Confraria do Vento). \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Pasche e um olhar sobre a poesia de Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8303,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2047,2533],"tags":[11,914,2108,154,1276,2110,2109,17,536,535,1049],"class_list":["post-8302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-93a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-ensaio","tag-espirito-santo","tag-jorge-elias-neto","tag-marcos-pasche","tag-octavio-ianni","tag-os-ossos-da-baleia","tag-poesia","tag-rascunhos-do-absurdo","tag-verdes-versos","tag-vitoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8302"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8302\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15616,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8302\/revisions\/15616"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}